As aparências enganam, formam constatações com base na ficção, esta apresentada como a realidade. Nossa sobrevivência não é feita de forma natural, e sim de adaptação ao sistema construído sobre leis e interações sociais, as regras de ambos os conceitos contém brechas, uma ou outra pessoa é capaz de quebrá-las e sobreviver deste modo. 

Viver em função das ficções criadas por si lhe dá a vantagem de ser imprevisível sem os outros notarem, e tem como consequência a formulação constante da estória reproduzida como história, adequando contra as falhas e põem em risco o jogo feito consigo e a vida. 

O Talentoso Ripley é o articulador de histórias da realidade. Publicado em 1955, conta a aventura do protagonista que se passa por alguém conhecido de Richard Greenleaf, porém faz o próprio jogo enquanto disfarça suas intenções. 

O Talentoso Ripley - capa

Patricia Highsmith é escritora renomada de suspense policial. Ganhou prêmios importantes como o Edgar Allan Poe e teve algumas obras adaptadas ao cinema, sendo O Talentoso Ripley duas vezes. 

Nada do que ele levava a sério acabava dando certo  

Tom Ripley mantinha a rotina de visitar bares noturnos de Nova York enquanto é seguido por um senhor. Temendo ser policial, evita contato direto, até ele o alcançar e se apresentar como Herbert Greenleaf, o pai do amigo dele. Ripley diz se lembrar do filho Richard Greenleaf, o Dickie, embora oculte de não serem amigos tão próximos. Então o pai pede ao Tom para tentar persuadi-lo a voltar da Itália, desabafa sobre o descaso do filho com as oportunidades da vida morando de forma reclusa. O Sr Greenleaf propõe pagar pela passagem e pelo serviço de convencer Dickie. 

Ripley aceita a proposta, contente por deixar a rotina de falsificar cobranças do imposto de renda de pessoas desconhecidas, vai até a Itália e encontra Dickie no vilarejo remoto chamado Mongibello. Aprende os costumes e idioma do lugar enquanto tenta conversar com o Richard, cada vez mais incomodado pela presença do Tom. Incapaz de convencê-lo a voltar aos Estados Unidos, Ripley recebe uma carta do pai de Dickie o dispensando dessa tarefa, mas ele insiste em viver na Itália com uma nova situação que comprometerá toda a narrativa em diante. 

É como numa peça de Shakespeare ou algo assim!  

Impressionei-me com o modo de pensar de Ripley e as suas atitudes ao manter seus planos. Ele se atenta a detalhes e faz movimentos sem os demais personagens perceberem, engana até os experientes contra fraudes — ou nem tanto. O Ripley é o primeiro a supor as próprias falhas, premedita as possibilidades capazes de comprometê-lo, muitas de um pessimismo provocante; convence o leitor a virar as páginas seguintes e ver o que acontecerá quando ou se as previsões do protagonista acontecerem. O protagonista nos antecipa com a ficção dele e então o decorrer dos capítulos traz a verdadeira narrativa. 

Há falhas de tradução na edição lida por mim. Colocaram a palavra alto na tradução de high quando se referia a bebidas, ou seja, nas passagens em que os personagens estavam bêbados, a descrição confundia dizendo o quanto estavam “altos”. Também vi problemas na conjugação do verbo querer, onde colocaram no pretérito do indicativo (queria) em vez do subjuntivo (queira). Esses dois exemplos repetem em todo o livro. 

Fora os erros de texto, reafirmo a capacidade de construir esta ótima narrativa sob a perspectiva de Ripley, sempre em confronto com os acontecimentos presentes. Além de talentoso, eu citaria títulos desagradáveis ao protagonista, apesar de ainda parabenizá-lo pelas estratégias audaciosas e as precauções quanto as consequências causadas por ele mesmo. 

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