Nunca tivemos tantos recursos de comunicação iguais os de hoje, e isso acarreta numa ideia ingênua de tirarmos grandes benefícios desta situação. Na verdade até podemos elencar elogios a esses avanços, só é preciso destacar também os problemas. Todos podem ter voz, e isso nada garante de a voz mais ouvida for transmitida por ter conhecimento ou propostas de melhoria. É aquela provinda do desgaste, da injustiça ou ingratidão reconhecida por muita gente, e por isso é mais difundida. E se perdermos essa capacidade de ampliarmos nossa voz, ou pior, perder a própria comunicação verbal ou escrita? O desgaste, injustiça e ingratidão ainda prevalecerão, e ganharão força na violência.

Sons de Fala aborda este mundo onde a comunicação foi perdida. Publicado pela primeira vez em 1983 por Octavia E. Butler, a editora Morro Branco disponibiliza este conto de graça através do Projeto Cápsulas. Com tradução de Heci Regina Candiani, o conto narra a história de Rye e sua tentativa de sobrevivência neste mundo sem comunicação verbal.

“Observou-o gritar com uma raiva sem palavras”

Rye está no ônibus, a caminho onde ainda poderia encontrar algum parente vivo, quando a confusão acontece. Dois passageiros começam a brigar, deixam os demais apavorados, apesar de terem consciência de algo do tipo acontecer. O motorista força manobras, balança o ônibus e tenta desequilibrar os lutadores a ponto de os derrubarem e impedir a agressão, e ao conseguir, dois outros passageiros também brigam.

O motorista pausa a viagem depois dessas confusões, Rye mantém distância até tranquilizar a situação e poder continuar a viagem, quando observa outro carro se aproximar — os veículos são raros tanto quanto os combustíveis —, é de um sujeito com o uniforme do Departamento de Polícia de Los Angeles, instituição que deixou de existir. Ele tenta comunicar com Rye através dos gestos, custa compreender a situação entre os passageiros do ônibus, tudo por causa da doença capaz de inibir a capacidade de comunicação entre eles, alguns desaprenderam a ler e escrever e/ou perderam a capacidade de formar palavras ao falar.

“A despeito do uniforme, lei e ordem não eram nada — já não eram sequer palavras”

O tema deste conto vem aos poucos, dilui pelos primeiros parágrafos e permite o leitor digerir a situação extraordinária. Só depois confirma: as pessoas perderam a capacidade de comunicar. Oferece um tempo confortável a interpretar o problema apresentado e as consequências dele, como o motivo de deixar as pessoas mais violentas — com maior incidência em homens — e denunciar muitos comportamentos presentes mesmo trinta e cinco anos depois do conto ter sido escrito.

Octavia usa da prosa descritiva, incisiva quanto ao que acontece aos personagens ou sobre sentimentos e ideias deles. O narrador diz sobre as pessoas desta ficção e das situações desconhecidas pelos personagens, cita o nome dos lugares mesmo quando Rye é incapaz de ler, servindo de intermediário entre o leitor e a protagonista com esta dificuldade. A autora prova outra vez de como contar a história em vez de mostrá-la pode funcionar, quando bem executado; o leitor pode deixar de sentir empatia através dos gestos e intertextualidade comum à narrativa exibicionista, por outro lado o percebe quando as questões do enredo surgem na hora certa e conseguem gerar impacto ao personagem afetado.

Também é nítida a exploração de temas sociais. A diferença entre os gêneros das pessoas e os possíveis conflitos dessa, a violência eminente no encontro de pessoas desconhecidas, pois apesar de compartilharem da mesma miséria, reagem de formas diferentes, e ainda por cima a esperança com a devida precaução de poder seguir mesmo nessas dificuldades. Octavia usa o gênero da ficção científica ao apontar e denunciar os aspectos de nossa humanidade.

O Projeto Cápsula da Morro Branco fez bem em estrear pelo conto Sons de Fala. O motivo vai além de Octavia trazer ótimos retornos à editora através dos outros romances já publicados pela primeira vez no Brasil — como a duologia Semente da Terra. Este conto persiste as qualidades da autora mesmo nessa história breve, trazendo aquele desconforto impactante capaz de nos provocar e refletir os problemas resilientes que parecem nunca desaparecer.

“E nesse mundo em que a única linguagem comum provável era a corporal, estar armada quase sempre bastava”

Sons da Fala - capaAutora: Octavia E. Bulter
Tradutora: Heci Regina Candiani
Ano de Publicação Original: 1983
Edição: 2019
Editora: Morro Branco (Projeto Cápsulas)
Quantidade de Páginas: 35

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