Quanto mais histórias brasileiras eu descubro, mais vejo o quanto os trabalhos feitos por brasileiros são injustiçados. É muito legal descobrir os mitos e culturas internacionais, aproximar-se de pessoas estrangeiras por meio dos laços feitos entre leitor e personagens e acompanhar dilemas éticos distintos dos nossos. Só que também temos as nossas histórias, conhecemos a linguagem e comportamento do nosso país e nos identificamos, talvez não ao todo pela vastidão da cultura brasileira, ainda assim reconhecemos o modo de falar, local, período histórico, ou lenda retratada. O conto de hoje traz a identificação de todos esses pontos.

Gabriel Tennyson adaptou as criaturas nacionais e de fora vivendo nas ruas de Rio de Janeiro em Deuses Caídos. Em 2014 ele era Gabriel Réquiem e publicou o conto O Senhor do Vento na antologia Contos do Dragão pela editora Draco, disponível também em compra avulsa.

“Tão intimamente ligado à natureza quanto um bebê ao cordão umbilical”

É fim do século XIX. Zezinho está na casa da avó com sua prima e passa o dia como o outro qualquer: enche a barriga das guloseimas feitas com carinho pela avó Benta e implica com a prima sobre problemas irrelevantes. Era proibido vasculhar os objetos antigos da avó, pois tinha artefatos tenebrosos de toda a família de Zezinho. Garoto teimoso como ele era, entrou no “quartinho proibido” e ali descobriu um cachimbo esquisito e um documento antigo: o diário do tio Sinésio Monteiro contando sobre o tempo quando serviu como capitão na guerra contra o Paraguai.

Deste ponto em diante o conto narra como aconteceu a aventura de Sinésio correspondente ao diário. O capitão liderava seu grupo contra o embate dos paraguaios, sempre alertas quanto a surpresas do inimigo. Só não conseguiram imaginar o encontro deles com os Senhores do Vento, criaturas sobrenaturais mais aterrorizantes do que qualquer inimigo estrangeiro. O conto termina voltando ao garoto depois de ler o relato do tio, e então resume a vida de Zezinho depois de conhecer tal história.

“— Num vali nem a pena matá um covarde que nem tu”

O conto respira a brasilidade desde a introdução feita na aventura de Zezinho. A birra entre ele e a irmã são recheadas de frases bem humoradas e características da nossa linguagem, bem como o comportamento da avó com os netos, tudo reconhecível aos leitores com infância simples ou que ouviram falar de como era na infância dos pais, pois apesar do conto retratar algo de mais de um século atrás, ainda retrata muitos aspectos comuns à família no Brasil. A história de Sinésio mantém a correspondência brasileira, toma o período histórico como o fundo da aparição da criatura clássica em nosso folclore. Também reforça a cultura através dos diálogos, representando a fala distinta de cada soldado do grupo de Sinésio conforme a origem deles, seja indígena ou com aparência alemã, todos a serviço da nação brasileira.

Sinésio fica a mercê do medo ao encontrar os Senhores do Vento. Os soldados estavam preparados e treinados no combate contra humanos com portes e recursos semelhantes, como poderiam imaginar as capacidades sobrenaturais daqueles seres? O terror toma conta quando a consequência é real na batalha extraordinária. Por outro lado faltou desenvolver a tensão na cena de Zezinho enquanto mexe nos objetos antigos da família, pois o suspense nesta parte foi trabalhado por dizer o quão medroso fica o garoto a cada evento estranho enquanto ele anda no lugar proibido. A cena ficaria melhor se demonstrasse o rosto ou os gestos desesperados de Zezinho frente ao medo citado.

O Senhor do Vento foi publicado antes de Gabriel Tennyson estrear como romancista na Suma de Letras. Já podemos conhecer uma das criaturas presente em Deuses Caídos neste conto e descobrir a competência do autor em entregar boas histórias e caracterizadas com elementos bem conhecidos no Brasil.

“Esperando que a careta tivesse a habilidade sobrenatural de extinguir o barulho”

O Senhor do Vento - capa

Ficha Técnica de O Senhor do Vento

Autor: Gabriel Réquiem (hoje Gabriel Tennyson)
Editora: Draco
Ano da Publicação: 2014
Número de Páginas: 22
Disponível também em: Antologia Contos do Dragão

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