Mundos de aspectos medievais podem viver das consequências geradas por grandes acontecimentos do passado. Reis caem, criaturas ou talentos são perdidos na derrota responsável por trazer nova era ao reino; difícil dizer se a mudança deixa as condições do povo piores ou melhores. Ainda assim os civis precisam perseverar, independente de quem vista a coroa. Todos comentarão das ações do Rei usurpador enquanto seguem as próprias vidas.

Sangue de Dragão é o primeiro volume da série Filhos do Fogo escrito por Denis Ibañez, publicado através da Luva Editora em 2018 depois de uma campanha de financiamento coletivo bem sucedida.

Sangue de Dragão - capa

Às vezes o mundo precisa do pior de nós

Acompanhamos três histórias intercaladas neste primeiro volume. A do bardo Karan que jamais imaginou sofrer tantas consequências por se deitar com uma mulher misteriosa como a Togany; o nórdico Bjorn lutando contra a devastação da vila dos nórdicos; e Thar, o garoto sem-teto que enxerga oportunidade ao ajudar Bakon, herdeiro da família mais importante das Terras de Sempre Chuva, mas fica perdido nas ruas de Remora.

Essas três aventuras ocorrem na região do reino Remora, cujo trono foi tomado à força por Eren do Clã Fogo Negro. Até então governada pelos descendentes com sangue de dragão, o reino persiste com o povo perseverando pelos meios possíveis. Além da cidade principal, o livro apresenta outras terras com históricos distintos de cada povo relacionado a Remora, como a vila Vanir do Norte, a morada dos nórdicos; a cidade murada de Haffic do Sul, no deserto; as Terras de Sempre Chuva, cujo nome explicita o clima local; Tormhandus, lar dos anões e a Floresta de Dedrain, dos elfos.

Homem com ódio em suas veias se torna imbatível

Conhecemos a história de Remora e locais próximos através dos personagens de origens humildes — bardo, fazendeiro e menino de rua —, cada um com histórias distintas e por vezes enfrentando consequências de eventos marcantes na terra correspondente. Narrado em primeira pessoa, cada capítulo é contado por um personagem diferente, inclusive os secundários. Tal variedade não acontece na escrita, contada da mesma forma entre os personagens, a pouca mudança reflete apenas no que o narrador presencia e sente.

Advérbios e adjetivos infestam os parágrafos e enfraquecem as descrições das cenas e ações. Frases do tipo “rasguei o pescoço sem esforço” aparecem em todo capítulo, tiram a oportunidade de desenvolver cenas com detalhes. O apelo no uso de conjunções alongam as sentenças e tiram todo o ritmo da história. Compromete mais ainda quando esses problemas acontecem também nos diálogos dos personagens, motivo de esses ficarem longos.

Falando em diálogo, as falas sucedem em parágrafos seguidos, por vezes sem citar o dono da fala ou adequar a cena para demonstrar quem diz; piora pelos personagens soarem iguais através da escrita — salvo o uso de uma expressão própria do personagem.

Magia, nudez, violência e um candelabro

O relacionamento entre Karan e Togany é desconfortável. Mostra a visão de um homem fascinado por uma mulher linda, repetindo esta situação sempre que aparecem no livro. Karan deixa de enfrentar as ameaças da trama, tudo é resolvido pela femme fatale enquanto ele só a admira. O arco deste personagem fica assim, levado pelas ações de Togany.

Falta de evolução do personagem não é pecado exclusivo de Karan. Apenas Bakon recebe a dádiva de progredir neste primeiro volume da série, aspecto claro e citado pelo autor através da narração de Thar. Os arcos dos demais consistem em progredir a trama pelos pontos de virada e revelações, esses interessantes, e ainda haverão os livros seguintes com mais oportunidade de crescimento dos personagens.

Sangue do Dragão até tem qualidades no enredo, já o desenvolvimento dos personagens e a escrita deixam a desejar. O primeiro volume apresenta o mundo original do autor, com promessas de entregar mais surpresas no restante da série, de características ofuscadas pelos problemas citados nesta resenha.

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