O conhecimento dos ancestrais se perpetuam por inúmeras gerações desde quando o ser humano soube deixar registros. Transcreveram sua abstração do mundo, e essas se transmitiram durante séculos, alguns por milênios! 

O ensinamento é sagrado. Por outro lado, os escritos revelam apenas o desejado pelos autores. Podem criar uma história “original” sobre a verdadeira, e levar os seus ensinamentos como se fossem de alguém com maior importância, atribui existência ao inexistente, distorce as afirmações de outros, e com isso traz um conceito simplificado, mas palpável, a uma enorme parcela da população. 

Essa é a discussão levantada por Saluh enquanto traz os acontecimentos reais desde a origem da humanidade. Publicado em 2015 pela Luna Editora, é o segundo volume sobre as histórias do brasileiro Fernando Eastman, arqueólogo que descobrirá a verdadeira história das religiões de Abraão em sua viagem ao Egito. 

Saluh - capa

Cesar Luis é o editor e proprietário da Luna Editora. Formado em direito, já trabalhou como músico e tocou pela Europa, mas agora se dedica à escrita e edição de romances. 

Somente grandes seres deixam grandes histórias! 

Fernando Eastman viaja ao Egito após seu pai avisar de um presente destinado a ele: um livro antigo na livraria conhecida por muitos poucos. Tal livro traz perigo ao seu portador, por conter informações que mesmo sendo poucos capazes de assimilar, desconstrói muitos dos ensinamentos perpetuados por anos na humanidade. O item é alvo de conspiradores motivados a pegá-lo antes de Fernando, sem remorso de eliminar vidas no caminho. 

Durante os ataques dos conspiradores, Eastman encontra outra brasileira de nome Laura e depois Saluh, o autor do livro. Este homem se compromete a ajudar o protagonista e transmite o conhecimento que possui, enquanto revela aos poucos os mistérios sobre si próprio. 

Trocar seus medos por dinheiro e leitura fácil é perda de tempo 

Saluh é um personagem peculiar. Dono de muita sabedoria a partir de sua experiência extraordinária a qual ele compartilha durante a história. Os capítulos se alternam entre o presente e o passado deste sábio, demonstrando a influência que teve a certa figura histórica e religiosa. 

Suas palavras de sabedoria são transmitidas de forma mista: simples, mas ainda conforme o modo de falar dos anciões. São falas extensas e bastante abrangentes, mas ainda eloquente com o ouvinte e o próprio leitor. Saluh é uma fonte rica de frases memoráveis capazes de trazer reflexão. Já Fernando e Laura falam de forma objetiva, limitados ao próprio conhecimento, e revelam descontrole quando contrariados.  

O contraste entre os personagens é interessante, e eu preferiria ver mais disso, pois muito da história se passa sob a perspectiva de Saluh, e assim torna a leitura mais densa. 

Saluh revela muito de seu conhecimento em pouco tempo passado com os dois jovens e nas poucas centenas de páginas da história. O tempo presente do livro é usado para introduzir a trama, mostrar o lado do seguidor da conspiração, e trazer o desfecho de Saluh e sobre o conteúdo do livro destinado a Fernando. 

Usai o pouco tempo que tens… antes que o tempo use a ti 

O extraordinário é apresentado como algo crível, mas com reações exacerbadas àqueles incapazes de aceitar. As conversas com o escritor convidam a refletir o quanto a linguagem pode ser manipulável por aquele quem escreve. A mensagem é importante e reflete na vida real, pois precisamos consultar a informação com fontes diferentes se não quisermos ser enganados.

[spoiler] 

O desfecho sobre o livro destinado a Fernando me decepcionou. Foi apresentado como algo bastante perigoso a quem possuísse devido ao seu conteúdo, para no fim revelar que toda a informação já está pública na internet. Saluh alega que poucos entenderiam o conteúdo e sequer o achariam interessante, então porque comprometer uma livraria remota do Egito a proteger um livro já acessível a qualquer um? 

Talvez eu deixei escapar alguma justificativa no livro, embora essa conclusão tenha se passado muito rápido em comparação às outras informações. 

[fim do spoiler] 

Saluh é um livro de reflexão antes de mistério. A contextualização no presente oferece a base para a discussão sobre os escritos sagrados considerados por grande parte da população mundial e que sofrem adaptações conforme a cultura e religião. 

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