Cyberpunk critica a obsessão do aprimoramento tecnológico em contraste com a degradação da qualidade social. As histórias em geral são futuristas, só que longe de preverem o futuro. Trazem realidades a partir da constatação dos problemas atuais e os extrapola na simulação de anos futuros.

Vivemos num país diverso, com problemas discrepantes e inspiradores em explorar especulações distópicas em ambiente cyberpunk. Esta chance foi aproveitada por alguns escritores e desenhistas, e eles demonstram o quão rico podemos ser no universo de tecnologia avançada e qualidade de vida péssima.

Periferia Cyberpunk reúne pequenas histórias em quadrinhos, todas voltadas a este nicho da ficção científica no contexto brasileiro. Publicado em 2018 pela editora Draco.

Periferia Cyberpunk - capa

Sou eu quem não consegue ver a beleza da vida?

Cada história tem o espaço democrático de vinte páginas para criticar a democracia, desigualdade social, jeitinho brasileiro e tudo o mais. Sem compartilhar do mesmo universo, os autores das HQs criam realidades independentes e aproveitam da vasta região e versatilidade do Brasil.

Nem sempre há maniqueísmo, como demonstra o título da primeira história, Só os Vilão tentam sobreviver nas ruas sujas marcadas pela tecnologia e as pichações persistentes. Conflitos entre opressores e oprimidos são marcados com personagens cinzas, possíveis de reconhecer estereótipos de alguém que convive conosco ou esbraveja repúdios nas redes sociais. Há ainda os culpados passivos em jornadas de redenção após serem forçados a causarem males à sociedade.

A vida é um tédio repetitivo

Periferia Cyberpunk oferece tapas na cara e representatividade nas diferentes realidades sociais, étnicas e éticas. Tem seu viés político bem ressaltado, mas os argumentos ilustrados são além de mimimi.

O único privilégio deste livro consiste em reconhecer a nossa identidade urbana sob as camadas tecnológicas do cyberpunk. Enxergue a sujeira responsável pelas desigualdades, a corrupção coagulada no sangue de corpos desmembrados e rostos deformados. Essas ilustrações têm apelo visual útil em lembrar a ficarmos chocados com o que vemos nas notícias pelas mídias, hoje tão comuns por assistirmos a história se repetir.

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