A ideologia pode ser essencial na vida das pessoas. Regras sistematizadas formam objetivos de vida, definem o caráter de alguém. Nenhuma é adequada a todos, e só descobrirá ao ter a oportunidade de conhecer ideologias até encontrar a ideal — ou criar a própria. Lamentável ver certos grupos ideológicos capazes de atrapalhar as crenças alheias, diminuí-las seja menosprezando ou destruindo. Falha com os princípios originais da própria crença afim de eliminar a outra.

A Parábola dos Talentos traz o conflito ideológico na continuação da história de Lauren Oya Olamina. Escrito em 1998 por Octavia E. Butler e trazido pela editora Morro Branco em 2019 com tradução de Carolina Caires Coelho, a nova eleição dos Estados Unidos pode colocar em risco tudo o que a protagonista conseguiu criar desde A Parábola do Semeador.

“Eram disputas idiotas — desperdícios de vida e riqueza”

Anos após os acontecimentos do livro anterior, Lauren tem o próprio espaço a pregar A Semente da Terra, crença organizada por ela a partir das verdades testemunhadas. A comunidade onde vive e coordena tem poucas pessoas, todas de confiança, nem todas seguidoras da religião dela, com direito de permanecer no local ao ajudar em algum trabalho. Garantem a segurança do local através da vigia constante e dos equipamentos adquiridos com o tempo, mesmo assim seu marido Bankole tem receios quanto à segurança de Lauren, ainda mais quando ela fica grávida. A nova eleição dos Estados Unidos tem como principal candidato Jarret, que pretende implantar a América Cristã pelo país e eliminar qualquer culto diferente do cristão.

Além da história contada de forma autobiográfica por Olamina, este livro tem pequenos trechos contados por outros personagens, em especial a filha de Lauren. Todo começo de capítulo começa pela filha, ela faz comentários sobre o que lê dos diários da mãe e expõe desde o começo a sua opinião, discorda de tudo afirmado pela Semente da Terra, uma seita aproveitadora da boa vontade alheia, segundo a garota.

“Morrer vítima da violência era ainda mais fácil do que é hoje. Viver, por outro lado, era quase impossível”

Após acompanhar as crises presentes na Parábola do Semeador, o começo deste livro traz esperança de quem vive próximo de Olamina conseguir vida mais digna. Independente de acreditar na Semente da Terra, Lauren acolhe e ensina todo interessado a exercer tarefas úteis. Há planos no futuro, vida amorosa com o marido, até a esperança de ter filho! E então tudo desmorona.

A narração é toda descritiva, sem citar ações correspondentes aos sentimentos e gestos dos personagens, tudo é contado com palavras objetivas. Demonstra como o modo de escrita show, don’t tell — mostre, não conte — não é o único meio válido de contar a história. A escrita de Octavia impacta o leitor mesmo usando verbos e definições descritivas, ela sabe como construir a estima do leitor e então destruí-la com os acontecimentos do romance. Passagens longas de diário e parágrafos grandes conseguem prender na leitura da história de Olamina e sua busca em expandir a Semente da Terra de modo a criar raízes entre as estrelas.

Os personagens são inúmeros, alguns mais presentes em certos pontos, mas mesmo quando muitos estão reunidos é fácil acompanhar quem diz, nem entedia o leitor por dar espaço desnecessário de interação, todos os presentes na cena são úteis. Pessoas contestam as ideias da Semente da Terra a todo o momento com Lauren ou nos trechos narrados por outra pessoa, e nem sempre são adversárias da protagonista, na verdade o contato próximo estimula o debate das ideias criadas nesses dois romances sem riscos, apenas com oportunidades de avaliar o valor da seita formada por Lauren, que resiste ao pior enquanto mantém a crença dela em si.

A Parábola dos Talentos encerra a autobiografia de Lauren Oya Olamina com alarmes quanto a consequências na crise ambiental e econômica nacional, bem como na capacidade humana ao agir contra a ideia diferente. Traz debates capazes de lembrar ao leitor que as ideias de Olamina devem ser debatidas, longe de aceitá-las no romance apenas pelo protagonismo da idealizadora da religião, a leitura propõe a reflexão pela divergência ao concluí-la.

“Uma das coisas mais valiosas que eles trocavam uns com os outros era conhecimento”

A Parábola dos Talentos - capaAutora: Octavia E. Butler
Ano de Publicação Original: 1998
Editora: Morro Branco
Tradutora: Carolina Caires Coelho
Quantidade de Páginas: 560
Série: Semente da Terra #2

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