Ficções científicas também trabalham sobre realidades catastróficas, exploram o limite da sobrevivência humana, denuncia comportamentos desesperados frente ao medo e alerta sobre como o mundo pode ficar no futuro. Longe de prever a situação, o objetivo principal é trazer a discussão aos problemas vigentes através da especulação feita no romance. Octavia Butler não explicita a origem das crises nesta distopia; e caso o leitor fique em dúvida, basta olhar ao redor, na realidade e tempo presente.

A Parábola do Semeador é o primeiro volume da duologia Semente da Terra, narrado por meio da autobiografia de Lauren Oya Olamina, aspirante a trazer uma nova religião e esperança no meio do caos presente nos Estados Unidos do futuro. Escrito em 1993 e trazido ao Brasil apenas em 2018 pela editora Morro Branco, Octavia Butler demonstra como a ficção científica feita por mulheres não é brincadeira.

A Parábola do Semeador - capa

Um pouco mais de hipocrisia para manter a paz

Lauren é a irmã mais velha dos quatro meninos jovens, filha do líder do bairro e também ministro da religião batista local, embora a protagonista tenha outra ideia sobre Deus. Vive no aglomerado de Robledo com onze famílias, protegidas por muralhas como em qualquer outro bairro ainda de pé nos Estados Unidos, proteção ainda vulnerável a saqueadores e drogados sob a substância piro, que os deixam suscetíveis a provocar incêndios.

Acompanhamos a história contada no diário de Lauren entre os anos 2024 e 2027. Os três primeiros anos é sobre ela precaver pelo pior enquanto inspira reinterpretações de Deus e elabora uma nova religião: A Semente da Terra, cujo Deus possui outro nome e conceito. O último ano narrado trata da jornada rumo ao norte dos Estados Unidos com o que ela consegue preparar e tenta superar dificuldades como a hiperempatia — a condição dela em sentir a mesma dor da pessoa que ela testemunha, seja amiga ou inimiga. Deve seguir adiante com os companheiros a encontrar no caminho mesmo sem saber se são de confiança, tudo levada pela fé criada por ela mesma.

Essa é a regra. Saia em grupos e saia armado

Bairros murados, ameaças de invasores, incêndios, escassez de água e precarização do trabalho. Esses sãos alguns dos problemas enfrentados desde antes do nascimento de Lauren, a única realidade que ela conhece. Tal situação reflete na forma de narrar a história, o diário conta a vida dela sem dar informações claras ao leitor no começo porque ela desconhece a nossa realidade para fazer comparações. Mesmo assim é possível compreender devagar, as peças do enredo juntam aos poucos entre fatos ocorridos perto dela e das divagações. Se no começo demora a assimilar a situação enfrentada, pouco antes da metade do livro em diante demonstra os vários problemas enfrentados, onde as semelhanças à realidade presente nas moradias de classes desfavorecidas ficam nítidas, só que neste romance da Octavia sãos ainda mais comuns com a crise econômica, ambiental e social levada ao extremo.

Sem intervenção de alienígenas ou especulação de tecnologia avançada, A Parábola do Semeador é ficção científica voltada a precarização de recursos. Vemos a luta de Lauren com a invenção da religião Semente da Terra contra a desesperança da humanidade que precisa encarar o semelhante como ameaça fatal, único meio de precaver a própria sobrevivência.

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