Publicação de livros de forma independente nunca foi tão fácil, quando comparado ao passado. Plataformas como a Amazon garante a possibilidade de lucrar com a sua ideia, ou conquistar um público ao disponibilizar a história sem custo no Wattpad.

Com essa facilidade o número de publicações cresceu. Aumentou o acervo disponível aos leitores, mas também aumentou em muito a competitividade na venda de livros nesse meio.

Porém há vinte anos a dificuldade se encontrava logo na publicação. Desencorajado por editoras com a afirmação de “livros de terror escrito por brasileiros não vendem”, esta obra surgiu a partir de impressão direta na gráfica e entrega de poucos exemplares pelas livrarias onde o autor batia de porta em porta. Uma atitude arriscada, considero até louca, mas deu certo tanto na venda deste primeiro livro quanto na carreira do autor.

Refiro ao livro Os Sete, vendido pela primeira vez em 2000. Conta a história de sete vampiros portugueses libertados no litoral de Rio Grande do Sul após quase 500 anos de aprisionamento.

Os Sete - capa

André Vianco é o autor ousado o suficiente a publicar sua história da forma que podia. Hoje soma dezessete publicações de livros, além de atuar como roteirista.

Não se mata o que já está morto

Dois amigos da cidade de Amarração tiram a sorte grande de encontrar uma caravela portuguesa antiga e exaltam o quanto poderiam lucrar com esta antiguidade. Tiago e César compartilham sua descoberta com a amiga Eliana, uma assistente de pesquisa na Universidade Soares de Porto. A equipe de história desta Universidade vai até a cidade de Amarração e confere a caravela.

Entre os tesouros do transporte marítimos recuperados há uma caixa de prata misteriosa. Sete nomes estão gravados nela e tem Sete cadáveres dentro. Os pesquisadores querem saber mais, retiram os corpos para fazer análise. Um dos Sete volta à vida, manifesta capacidades sobrenaturais e causa temor na equipe e nos amigos. Seria um bruxo? Alienígena? É um vampiro! E os outros seis também podem despertar…

O exército intercede, mas seu arsenal pouco é aproveitado pela falta de conhecimento sobre as capacidades do inimigo português.

Capacetes pareciam mais com sopeiras

O romance acompanha tanto a história dos humanos como a dos vampiros, destacando as impressões de um em relação ao outro. Enquanto o primeiro grupo anseia por destruir as criaturas antes vistas apenas em lendas, os vampiros entendem aos poucos o tempo e o lugar onde se encontram.

Não aborda apenas a diferença de espécies, mas também os outros aspectos dos vampiros. Os portugueses confinados por 500 anos veem tudo como novidade, desde as tecnologias desconhecidas até o sotaque dos brasileiros. O contexto histórico só é levado a sério por um dos vampiros, enquanto os demais descobrem com curiosidade de criança.

É que não estou acostumado a caçar *vampiro, porra!

Os Sete consegue alimentar um bom suspense na trama, sem pressa de revelar as características das criaturas; mas com exagero no começo. A introdução demora até apresentar que os seres revividos são vampiros, algo já estampado na capa desde a primeira edição. É possível demonstrar a aflição quanto ao desconhecimento dos humanos na história sem prolongar tanto no livro.

Personagens se desencontram por suas razões, mas as ameaças reais fazem o conflito voltar a Amarração com todos os envolvidos na trama. Nesse reencontro os humanos poderiam trocar informações sobre o que aprenderam de seus inimigos, mas nem tudo foi compartilhado, e não encontrei justificativa a não ser a adaptação do roteiro com o objetivo de manter certo personagem no próximo livro.

Ficou difícil manter a torcida para um dos lados das espécies, considerando a ótima construção dos personagens principais. As complexidades de cada um foram pivôs de acontecimentos dos próximos capítulos. Falhas e anseios pessoais se misturam às qualidades distintas que afetam o enredo, é difícil prever o desfecho das próximas cenas.

A publicação de estreia do Vianco demonstrou a capacidade dos escritores brasileiros em desenvolver suas histórias que podem sim ser admiradas pelos conterrâneos. Dezoito anos depois, essa sombra ainda teima em desanimar os escritores brasileiros, mas enfraquece frente aos próprios leitores com suas recomendações de histórias excelentes, independentes da origem da publicação.

 

* Palavra trocada para evitar spoiler

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