Uma parte considerável da população mundial supre suas necessidades básicas sem precisar correr atrás do próprio alimento ou lutar por um abrigo. Mantém tudo através do dinheiro adquirido pelo trabalho, usa do mesmo recurso com o lazer e investimento pessoal para permanecer ou melhorar sua posição na sociedade. 

No futuro fictício, os humanos sequer precisam trabalhar. A tecnologia garante todas as necessidades fisiológicas, dispõe um mundo repleto e acessível a qualquer pessoa, que vive por milhares de anos com o tempo totalmente ocioso. Nada impede de aproveitar a vida como bem entender, exceto a motivação de viver. 

É o mundo fictício de O Dom da Lágrima. Publicado em 2018, o livro de ficção científica traz uma realidade utópica, porém com o problema recorrente de suicídios. 

O Dom da Lágrima - capa

Thomas Oden é um jovem escritor e estudante de ciências contábeis na USP. 

A miséria é a ausência do necessário para sobreviver  

Void é um sujeito em crise. Tem tudo a sua disposição no mundo a milhares de ano no futuro, embora nada o incentive a continuar sua vida. Nada lhe é novo ou desafiador, consegue o que quiser sem conquistar o mérito daquilo. Já viveu por muito tempo, agora decide encerrar sua existência.

O suicídio é comum neste futuro utópico, classificado como uma doença a qual a tecnologia é incapaz de curar. Sendo mais um a sofrer deste desejo, Void encontra Inanis, uma mulher que também pretende se matar. Os dois então se unem e tentam se salvar da morte tão desejada. 

Com descrições de ambiente breves e sem tramas secundárias, o livro é sucinto em seu objetivo, apesar de carregar várias partes de reflexão. O narrador cede seu espaço ao Void confessar seus sentimentos através do diário como se conversasse com alguém vivo há dezenas de milênios, uma forma indireta de interagir com o leitor. O autor usa deste recurso para apresentar o contexto do mundo inventado do livro e apresentar informações sem forçar um relatório do enredo. 

Ninguém tem medo de perder o que não possui 

Este livro fura a fila de resenhas pendentes devido ao Setembro Amarelo, mês conhecido pela conscientização e prevenção ao suicídio.

Sempre tenho receio de histórias com citações de suicídio pelo risco de alcançarem um efeito contrário à conscientização. Porém O Dom da Lágrima conseguiu abordar o tema demonstrando seus problemas sem minimizar quem o faz, nem citar como solução ou romantizar a ação. 

Só houve uma dúvida que me perturbou por não encontrar a resposta no livro: se o suicídio é tão comum no mundo futurístico, por que faltam medidas de controle? Vê-se comprimidos e armas de fogo à disposição dos personagens, sem detalhar como eles obtém ou se existe alguma restrição em sua aquisição. 

O Dom da Lágrima traz um protagonista complexo e um problema remetente ao mundo real e atual em contraste com o fictício. Fora a observação do parágrafo anterior, é um material capaz de estimular o debate e consciência dos problemas relacionados ao suicídio.

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