Humanos aprenderam a viver sob significados. Cada respiro reflete as conquistas e fracassos da vida, os planos do dia seguinte convictos de existir, apenas continuamos a traçar esta reta. Formamos laços afetivos e estendemos nossas utilidades às nossas companheiras ou companheiros, na verdade adotamos uma palavra diferente, usamos ninguém, apenas dividimos momentos. E se de repente perdemos tudo isso? Esquecermos de todos os outros significados por termos a emergência de um, e portanto dedicar apenas a ele e de determinada maneira? Perdemos as parceiras para o estado autoritário por serem férteis, obrigadas a cumprir uma utilidade: procriar, pois esta é a salvação, e o estado a fundamenta através da religião. O Conto da Aia é a distopia dessa realidade, publicado pela primeira vez em 1985 por Margaret Atwood, com edição em 2017 pela Rocco sob a tradução de Ana Deiró.

“O que você não souber não lhe trará sofrimento”

Offred tinha uma filha com o ex-marido Luke, e mantém esta memória em segredo consigo enquanto atua no papel de Aia. Ela é propriedade do governo sob o dever de procriar a partir da semente do Comandante destinado a ela, independente da Esposa estar descontente por essa imposição, na verdade a procriação proporciona prazer nenhum. Uma Aia cobre todo o corpo de macacão largo e touca com abas laterais a esconder nuca e os detalhes do rosto. Deve viver conforme o estado ordena, e há Olhos por toda a parte a denunciar quem transgredir.

“[…] mesmo que sejam falsas notícias, devem significar alguma coisa”

A personagem narra a própria história por meio do fluxo de consciência, cada frase reflete a insegurança dela no ambiente onde vive e das pessoas próximas, todas desconfiáveis. Limitada a sua função, Offred perde o direito de se informar, é proibida de ler e por isso os poucos lugares livres de transitar possuem figuras no lugar de texto. As raras oportunidades de comunicação são nebuladas pela suspeita de o outro testar Offred e dedurar caso ela dê a entender alguma violação ao estado, tal pressão influencia no jeito de narrar, por mais que ela conte a própria história, por vezes passa a desacreditar de si, então pede licença e retoma a cena.

Desconcertante é a palavra-chave do romance. A vida limitada da mulher privilegiada de ainda conceber vida desconcerta todas as outras, intriga ciúmes e julgamentos irreais, afasta-as de si quando dizem promover a união. Na emergência de procriar, o estado torna o sexo uma obrigação, tira todo o estímulo natural e impõe a única maneira de efetuar, resume a uma tarefa doméstica. A narrativa mostra o desconforto consequente na vida de Offred, o fluxo de consciência é válvula de escape a ela mesma, a falar da vida normal antes dessa crise e assim reforçar o propósito de preservar a vida, de ainda poder saber o que aconteceu à família.

A partir dela, também vemos a situação do homem naquela sociedade. Privilegiado em vários aspectos a ponto de nem precisar comparar, e mesmo eles foram afetados, têm os próprios desconfortos. O Comandante deve procriar, afinal o estado define todos os homens como férteis, portanto eles tentam fecundar mesmo enquanto nunca conseguem.

“Eu gostaria que esta história fosse diferente”

O Conto da Aia mostra a vida da mulher ameaçada a todo momento quanto a cumprir o seu papel. As imposições específicas nesta ambientação fictícia remetem a reflexões de situações reais de o homem ser isento de culpa na relação seja qual for os argumentos, mostra de as próprias mulheres denunciarem as outras devido a imposição da sociedade fundamentalista, ou de representar uma mulher bem informada como o perigo do estado. É o tipo de leitura necessária, difícil de entreter, de engolir, pois denuncia situações desconcertantes de nossa sociedade.

“Isso é o que somos agora”

Capa de O Conto da AiaAutora: Margaret Atwood
Tradutora: Ana Deiró
Ano de Publicação Original: 1985
Edição: 2017
Editora: Rocco
Gênero: distopia
Quantidade de Páginas: 368

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