Tenha as melhores intenções, mas caso extravase, as consequências serão as piores. Obcecar-se no objetivo a ponto de abrir mão do resto ― relacionamento, reputação, humildade ― leva a confrontos de pessoas altruístas, inclusive também aos prejudicados pela obsessão, buscando justificativas a interromper suas atividades. Caso essas pessoas falhem em impedir, e portanto garantem mais liberdade na ambição desenfreada, testemunharão o ápice da busca desta pessoa já sem perspectiva há tempos.

Assim acontece a decadência d’O Alienista. Publicado em 1882 na coletânea Papéis Avulsos e com nova edição pela editora Antofágica em 2019, esta novela é outra história clássica de Machado de Assis, também homenageada com ilustrações de Cândido Portinari, presentes nesta edição.

“― A ciência é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo”

Simão Bacamarte é um homem da ciência. Vive na companhia da esposa D. Evarista enquanto põe o objetivo da vida em prática: estudar a psicologia. Assim ele inaugura a Casa Verde, instituição onde ele abrigará os cidadãos da vila de Itaguaí com sintomas de problemas mentais. Com o apoio dos vereadores e sob o respeito do padre local, Simão recolhe esses enfermos e procura curá-los enquanto estuda sobre as particularidades da loucura e formula teorias.

Ele vai além e recolhe mais pessoas, essas de comportamentos nada condenáveis à sociedade, quem contesta a decisão do alienista também é trazido à Casa Verde e submetido a tratamento. Assim inicia o confronto entre a sociedade e o estudo de Simão, também poderia dizer discussão entre as duas partes sobre o conceito de loucura e quais limites devem considerar ao tratá-la.

“Era uma via láctea de algarismos”

A narrativa começa focalizando no Simão Bacamarte e demonstra o interesse dele em contribuir com a ciência, desde a escolha da área a atuar até a implantação da Casa Verde. Os capítulos seguintes focam nos demais personagens, concentrando sempre na pessoa afetada pela insistência do alienista de seguir além com o propósito. Assim culmina em discussões de pessoas de conhecimento popular contra o sujeito imbuído de capacidade científica, e por apenas este ter tal visão, todas as outras pessoas carecem de argumentos contrários, tendo assim recorrer a manifestações reativas quando contrariadas pelos objetivos do cientista.

Machado de Assis manipula a questão sobre a loucura e impõe dúvidas sobre a sociedade desde o conceito às consequências. Como identificar alguém louco? Seria a pessoa com comportamento diferente da sociedade? Deveríamos aceitar a palavra de alguém só pelo nível de formação? Ao discordarmos deste suposto profissional, seríamos loucos? O autor aproveita das indagações e alfineta a sociedade com sarcasmos. Sem demarcar os antagonistas entre honestos e loucos, elabora uma confusão proposital nos personagens para desmascarar a ignorância dos personagens que permitem certa pessoa atuar sem escrúpulos. Toda decisão equivocada ou isenção de atitude é devolvida com consequências, ainda mais ao insistir ficar na mercê do poder concentrado, este cujo dono também enfrenta dilemas ao obtê-lo.

O Alienista é uma novela e portanto traz a narrativa concisa quanto ao objetivo. A histórias traz ótimos questionamentos sobre a sociedade e a classificação da loucura, demonstra as consequências quando o controle fica concentrado em uma só pessoa, e também adverte dos problemas quando a sabedoria científica fica limitada a esta pessoa e os demais carecem de conhecimento ao debater com esta, tendo de recorrer a medidas reacionárias ou apelo popular, prejudicando assim a sociedade e a evolução do conhecimento.

“A ciência não podia ser emendada por votação administrativa, menos ainda por movimento de rua”

O Alienista - capaAutor: Machado de Assis
Ilustrador: Cândido Portinari
Primeira publicação: 1882
Edição resenhada: 2019
Editora: Antofágica
Gênero: clássico brasileiro / novela / ficção
Quantidade de Páginas: 304

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