O texto literário contém narrativa desenhada com palavras combinadas através do estilo pretendido pelo autor. Livros considerados clássicos da literatura brasileira podem entregar histórias ímpares com a linguagem na mesma medida, transformando a língua portuguesa em arte, inovam na estrutura e desafiam o leitor a ter novas experiências sob o conforto da leitura. Acima de tudo, esta ficção ousa transgredir o limite de contar uma história, pois o autor conta também sobre a vida em si.

Ninho de Cobras é um romance experimental de Lêdo Ivo. Publicado pela primeira vez em 1973 e com nova edição pela editora Imprensa Oficial Graciliano Ramos no ano de 2015, o leitor contemporâneo é levado de volta a Maceió no tempo quando Getúlio Vargas era presidente, numa história iniciada pela aventura da raposa nas ruas da capital alagoana.

“Uma raposa em pleno coração da cidade! E ainda dizem que Maceió é um lugar civilizado”

Tudo começa pela raposa. Protagonista do primeiro capítulo, o animal passeia pelas ruas de Maceió enquanto o narrador oferece detalhes sobre onde ela passa, tomando liberdade de contar as histórias daquela parte da capital onde o animal põe as patas, e então retoma a aventura da raposa. Usa do discurso indireto livre ao trazer personalidade a este singular personagem, o de ser destemido, convicto da morte nunca a alcançar mesmo fora de seu habitat, o que, ao cruzar o caminho com dois sujeitos armados com pedaços de madeira, prova o equívoco do pobre animal. Nos dias — e capítulos — seguintes, a raposa vira a notícia mais comentada da capital alagoana, acompanhada a do suicídio de Alexandre Viana sob a suspeita de ser na verdade um assassinato encomendado pelo Sindicato da Morte.

“E as horas passaram, esponjosas, sugando o que, no tempo, era fluente como as palavras e a água”

A introdução do romance é única, feita a partir do personagem inumano: a raposa. Esta estratégia chama a atenção e antecipa a proposta da narrativa repetida inclusive nos demais personagens focados nos próximos capítulos, o de o narrador interromper a história do personagem e contar a história de Maceió. A capital do estado — por vezes até o próprio estado — atua como o personagem central deste romance a partir da intervenção do narrador, os contextos históricos se misturam à narrativa e entregam algo único durante a leitura.

Tal proposta exige maior atenção ao leitor. A mudança de foco é feita sem aviso prévio, um parágrafo conta sobre certo personagem em determinado ambiente, e em seguida este ambiente ganha história narrada pelo autor. Nem quando foca na pessoa facilita, pelas escolhas ao identificar o personagem, citando a característica dele em vez de lhe atribuir nome. Um coadjuvante em determinado capítulo pode ter o trecho protagonizado por ele em outro momento, contando a partir das informações já fornecidas, que a princípio eram secundárias.

Ninho de Cobras é um daqueles livros em que torna o enredo secundário em prol de oferecer a experiência singular de leitura, misturando contexto e narrativa, personagem e ambiente.

“Onde ele estava não havia Deus — era a jaula fedorenta dos homens”

Ninho de Cobras - capaAutor: Lêdo Ivo
Ano de Publicação Original: 1973
Editora: Imprensa Oficial Graciliano Ramos
Edição: 2015
Quantidade de Páginas: 270

Compre o livro

Comentários