Vivemos com fácil acesso à tecnologia e obtemos informações espontâneas. Tudo é tão fácil de se conectar a ponto de idosos também conseguirem usufruir dos benefícios da tecnologia da informação, embora com breve dificuldade ou resistência no começo. 

Ainda precisamos tomar cuidado com as aplicações tecnológicas, não cedermos ao controle daquilo que seriam nossas ferramentas e lutar pelo direito cada vez mais inclusivo da tecnologia para beneficiar além de grupos distintos. A realidade será nada confortável à população em geral se ignorarmos essas precauções. Falo isso em relação à 2018, mas em 1984 já existia este cenário na ficção. 

Neuromancer é um dos primeiros livros a se destacar no cyberpunk, sub-gênero literário da ficção científica. Publicado em 1984, conta a história da sociedade transformada conforme os impactos da tecnologia especulada pelo autor, a qual algumas existem na realidade e são até mais acessíveis em relação ao livro. 

Neuromancer - capa

William Gibson foi um dos autores mais conhecidos dentre os precursores do subgênero cyberpunk. Destacou-se por levar a ficção científica com elementos de ação às camadas mais tradicionais da literatura graças ao próprio Neuromancer, livro vencedor de prêmios literários de ficção científica, como Nebula, Hugo e Philip K. Dick. 

O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar  

Case é um cowboy, alguém capaz de invadir e danificar sistemas tal como os hackers maliciosos fazem no mundo real. A rede virtual desta realidade se chama matrix, cuja interface possui o próprio espaço de interação física da pessoa que se conecta através do sistema neural pelo dispositivo chamado deck, semelhante ao computador. 

Depois de aplicar um golpe nos seus chefes, Case é contaminado com a micotoxina capaz de impedir a conexão com a matrix. Recorre a clínicas clandestinas em busca da cura, e os tratamentos alternativos apenas pioram sua saúde. 

Consegue se conectar de novo depois de aceitar uma missão de Armitage, sujeito desconhecido a quem Case tenta conhecer enquanto faz trabalhos junto com a nova colega Molly, a mercenária de costumes orientais e com olhos modificados pela biotecnologia. 

O que me incomoda é que nada me incomoda  

Neuromancer elabora o mundo onde os países ocidentais absorvem a cultura oriental, além de outras modificações geradas pelos anos e principalmente pela tecnologia avançada. Dispositivos facilitam a comunicação e interação com outras pessoas ao mesmo tempo em que a sociedade se divide entre os membros das corporações e pessoas marginais, diferença clara ao definir pessoas com emprego assalariado como alguém distinto chamado sarariman. 

Outros termos surgem no livro, desde palavras japonesas, conceitos de informática ou os criados na história. Essas expressões distintas aparecem logo no começo do livro, por isso reforço o conselho da edição publicada pela Editora Aleph de conferir o glossário antes de começar a leitura. 

A história já acontece sem apresentar o universo criado ao leitor, como a fase conhecida da jornada do herói em que o protagonista seria de um lugar semelhante ao nosso e parte ao mundo extraordinário, vislumbrando as novidades pelos olhos do personagem. Longe de ser etapa obrigatória, ainda mais quando inexiste o lugar comum na história, porém o autor ignora a apresentação conceitual e exige mais do leitor para assimilar a realidade do livro. 

Nunca gostei de fazer uma coisa simples quando podia complicar pra caralho  

Toda a narrativa foca na perspectiva de Case, mesmo quando conta a história no ponto de vista da Molly, só que ainda a partir do cowboy, pois ele consegue se conectar a ela e ver, ouvir e sentir enquanto estiver interligado. Usa a tecnologia da história como recurso interessante da própria narrativa. 

Pena algumas escolhas acertadas na escrita disputar deslizes nas descrições. Além das palavras específicas à trama, conta-se pouco da grande variedade de tecnologia e conceitos existentes, com trechos breves exigirem releituras até compreender a situação. Descrições simplistas como contar o que o personagem sabe ou sente, bem como o abuso do verbo ser demonstram pouco aproveitamento da linguagem. E nas cenas com vários personagens, a descrição confunde sobre quem faz a ação, limitando-se muitas vezes a citar alguém na terceira pessoa (ele/ela) em vez de citar características particulares ao autor da ação. 

Com esse mundo fantástico feito há mais de trinta anos onde reconhecemos a atualidade com a tecnologia de comunicação, informação e inteligência artificial, apesar das distinções da visão particular do autor e de alguém vivendo na década de 1980, Neuromancer é o primeiro romance do autor com novidades ousadas que estabeleceram vários conceitos cyberpunk. Só lamento por trazer esta experiência desconfortável na leitura e do exagero de informações distribuídas no livro de tamanho razoável. 

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