A quantidade de grandes obras capazes de eternizar escritores consagrados em seu tempo e nas eternas gerações póstumas pode assustar o leitor contemporâneo. Por outro lado esta parcela de autores corresponde ao número ínfimo dentre os diversos nomes já existentes nas capas de livros, porém esquecidos com o tempo ou cuja qualidade falhou em predominar na atenção da nova geração. O livro em questão é exemplo de autor eternizado e ousado, pois traz a narrativa feita por um defunto, pois começa a história quando este já está morto.

Memórias Póstumas de Brás Cubas traz o realismo literário através das palavras sobrenaturais de um cadáver. Publicado pela primeira vez em 1880 e com nova edição em 2019 pela editora Antofágica, a obra persiste na recorrência correspondente na qualidade, além de homenageada em ilustrações de Cândido Portinari inclusas entre os capítulos.

“Não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor”

O livro começa com a indagação do narrador/protagonista sobre a maneira de contar a própria história, considerando de ele já estar morto. Assim revela ao leitor sobre a situação dele, do sujeito morto disposto a contar sua história de vida, ponderando começar pelo início ou já no fim. Após a decisão, descreve como foi o enterro presenciado por poucos amigos e mulheres em menor quantidade, essas coadjuvantes essenciais da narrativa ao longo dos mais de cem capítulos breves deste livro.

“Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos”

A obra é ímpar a ponto de o fato de ser romance ou não estar subjetivo ao leitor. O próprio Brás Cubas considera os dois tipos de leitores de opiniões opostas ao buscar satisfazer ambos com este trabalho. Aconselho encarar a leitura diferente a de romance, assim possibilita desfrutar das situações contadas pelo protagonista sem critério de continuidade senão o próprio tempo cronológico e sem esperar aquela evolução nos agravamentos de conflitos. Até surge empecilhos quanto ao desejo do personagem, com pontos de virada recorrentes ao romance, situações acontecidas mais a partir do meio da narrativa, e deste jeito frustra caso espere tal abordagem desde o começo conforme os livros comuns de ficção.

Machado de Assis foi além de conceber a ideia do narrador cadáver, pois aproveitou desta situação em toda a narrativa. Criou alguém disposto a falar sobre si com toda a consciência adquirida sobre a vida, capaz de narrar a história desde o nascimento e contar detalhes jamais percebidos quando era bebê ― ou pelo menos impossível de expor naquele momento da vida. Sempre deixa claro que é o Brás velho e morto contando sobre ele mais novo, a prosa em primeira pessoa ganha aspectos do narrador onisciente comum à terceira pessoa.

“Advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto”

Brás Cubas aproveita da ousadia e elabora capítulos singulares. Nada narrativos, quebram a expectativa do leitor e entregam passagens divertidas no meio da leitura ou mesmo grandes reflexões elaboradas em poucas palavras. Também puxa conversas com o leitor, sugerindo a reação dele com o texto lido ou prestes a ler no capítulo seguinte. São leitores concebidos na imaginação de Brás, presumindo de ter a própria obra lida por poucas pessoas, e a partir desta concepção se permite ter maior intimidade em fazer tal interação. A realidade é outra, pois foi lido por inúmeros leitores verdadeiros e de gerações posteriores, com diversas bagagens literárias e pensamentos improváveis de corresponder à sugestão do protagonista, mas dizem muito mais respeito ao próprio Brás Cubas; ou seja, mostra mais de si ao puxar conversa com os leitores.

Memórias Póstumas de Brás Cubas possui diversas qualidades capazes de tornar o livro difícil de soar maçante mesmo aos leitores acostumados com a leitura atual. Os termos e referências recorrentes da época são explicados nas notas de rodapé desta edição publicada na Antofágica, úteis na compreensão do texto conforme o período escrito e limitados a isso, deixando o leitor livre a assimilar os demais aspectos da obra.

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança estas MEMÓRIAS PÓSTUMAS”

Memórias Póstumas de Brás Cubas - capaAutor: Machado de Assis
Ilustrador: Cândido Portinari
Ano de Publicação Original: 1880 em fragmentos na Revista Brasileira, e reunido em livro em 1881
Editora: Antofágica
Edição: 2019
Gênero: clássico brasileiro / romance realista
Quantidade de Páginas: 480

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