Mitologias carregam consigo a história e cultura de um povo. Nascido de associações de fatos misteriosos, de certa forma desconhecidos, a criatividade humana dá respostas empíricas, sobrepondo o que pensou ter visto nessa visão pouco assimilada. 

A ficção fornece a oportunidade de demonstrar uma maneira dos seres mitológicos serem reais e quais seriam as consequências desta existência. Ou quem sabe a “ficção” só revela o fato de tais seres vagarem pelas diversas estradas e vilas remotas, ocultos da sociedade para preservar a própria espécie. 

A Maldição do Lobisomem traz esta questão à tona com a criatura licantrópica. Publicado em 2016, é o primeiro volume de uma antologia chamada Crônicas da Lua Cheia, porém narra a história na linha temporal posterior de Ascensão do Alfa. 

A Maldição do Lobisomem - capa

Clecius Alexandre Duran aparece pela segunda vez no blog com uma de suas obras. Atua no serviço público como procurador e adota a sua paixão pela literatura como o segundo emprego. No momento desta publicação ele também trabalha como editor da nova versão do livro O Brakki, de André Regal. 

Com o frio e as trevas das noites iniciava-se, pela primeira vez, a transformação 

Alexandre morava em São Paulo até conseguir um emprego como procurador na cidade de Londrina-PR. Sujeito de poucos amigos e apaixonado por motocicletas, adora percorrer estradas em alta velocidade. Uma dessas viagens velozes causa um incidente, rasga seu colete e arranha sua pele. Sem distinguir o que lhe atacou devido a escuridão da noite e a rapidez da moto, Alexandre jamais imaginaria um ataque de licantropo, muito menos que isso concedeu a ele a Dádiva da Lua, ou A Maldição do Lobisomem. 

Solitário é o alter ego lupino de Alexandre. Tem sua existência concebida nas noites de lua cheia, com a transformação plena ao por do sol e forte influência sobre a consciência do humano no quarto dia do ciclo lunar, e nos demais em horários posteriores da noite. O lobisomem caça as suas presas durante seu curto tempo de aparição, tendo como preferência a carne humana. 

Assim como os lobos, lobisomens agem em conjunto sob ordens do alfa correspondente, mas Solitário nasce longe de alguma alcateia. O grupo do lobisomem Maioral encontra Solitário enquanto sua contraparte humana vagava pela cidade de São Paulo. Tenta manter o novo lupino submisso, com discussões recorrentes entre os dois. 

O licantropo do protagonista ainda sofre outra dificuldade: os seres que compartilham da mesma vida se desprezam. Alexandre adia a transformação de Solitário abusando do chá de acônito, e a falta de aceitação causa dor e sofrimento ao lobisomem em toda mutação. Ambos não estão contentes com a existência do outro, e desejam viver plenamente eliminando a sua contraparte. 

Paródia da TPM, uma versão licantrópica da fúria e mau humor latentes 

A crise entre os protagonistas remete ao clássico da literatura de terror chamado O Médico e O Monstro, inspiração declarada em uma das anotações presentes no livro. Sem um conflito direto, cada ser interrompe a vida do outro à sua maneira. 

Quando o capítulo narra o cotidiano dos lobisomens, humanos deixam de ser seres essenciais da trama, são reduzidos a presas como um animal de gado qualquer.  Sem pressa de contar a história, passa a sensação de como é viver com a maldição, detalha as necessidades, fraquezas e condições de vida em alcateia nem sempre favoráveis para Solitário. 

Duas linhas temporais se mesclam entre os capítulos, uma de 2004 a 2007 e outra no ano de 2015. A linha temporal do passado conta as origens de situações narradas no tempo mais recente. Essas transições poderiam elaborar melhor um leve suspense, mas houve resposta cedo demais em um caso próximo do final. 

Só falta o cara mandar agora escolher entre a pílula vermelha e azul 

Este primeiro trabalho literário de Clecius é uma demonstração de autoficção, pois muitas das características de Alexandre remete ao próprio autor, só exigindo mais trabalho em elaborar as chacinas licantrópicas, espero.

O gosto literário e cultura pop do autor também se reflete nas várias referência expostas no livro. Há algumas citações em que o leitor terá o entendimento prejudicado se desconhecer a obra.

A linguagem empregada pelo narrador é rebuscada demais, diante da realidade retratada do protagonista. Embora o cargo de Alexandre exija uma comunicação formal, a história se passa nos momentos mais coloquiais de sua vida, por isso encaixaria melhor com uma narração com palavras mais comuns. Pelo menos os termos mais elaborados são fáceis de compreender pelo contexto de toda a frase. 

A Maldição do Lobisomem é uma leitura divertida e muito visceral. O livro aborda muitos dos conceitos internacionais do licantropo e soube entrelaçar a trama com esses elementos. Espero que, assim como aconteceu comigo, as últimas páginas arranquem seu fôlego com as garras das palavras que formam o desfecho deste primeiro volume.

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