O grupo está formado e retoma a aventura interrompida no volume anterior, encara a disputa inusitada com risco de perder a vida, também chega a hora de O Pistoleiro contar a própria história, deixar os amigos o conhecerem melhor e tirar o peso de si. Assim determina o ka, que alinha tudo no final das oitocentas páginas sem expor a “Mão” do autor.

Mago e Vidro é o quarto volume da saga A Torre Negra, publicado em 1997. Stephen King retoma a história de Roland de Gilead no sentido de contar acontecimentos bem antes da perseguição ao Homem de Preto, sobre o passado romântico na adolescência.

Mago e Vidro - capa

Você não pode ir contra a sua natureza, Roland

Sem entrar em detalhes por conta de spoilers da saga, Mago e Vidro começa no exato momento em que Terras Devastadas “terminou”, só que esta primeira parte ainda deveria pertencer ao livro anterior, cujo final foi interrompido. Já as outras três partes de Mago e Vidro contam o novo episódio da saga, onde Roland conta acontecimentos imprescindíveis do passado, esses interligados com o presente na conclusão.

Roland revela a história de quando tinha catorze anos, pouco tempo depois dos flashbacks narrados no primeiro volume, quando ele vai a Mejis acompanhado dos amigos Cuthbert e Alain numa missão simples, com a intenção de ficarem longe das ameças em Gilead. Roland conhece Susan nesta nova cidade, sujeita a prestar serviços de concubina ao prefeito Hart Thorin e garantir um herdeiro a ele. O problema começa quando o jovem Pistoleiro se apaixona pela garota com sentimento correspondido. Embriagado pelo amor, perde o foco frente a segredos de Mejis que tiram a visão ingênua de povoado pacato, pois há uma conspiração feita por pessoas  a quem ele e os amigos queriam evitar.

Adoro sua sutileza quando estamos em situações difíceis

Os personagens já reconhecidos e carismáticos que acompanham Roland no presente ficam de lado e escutam a mesma história transcrita no livro. King desafia a si em desenvolver pessoas apenas citadas por Roland nos volumes anteriores, apresentar as demais envolvidas na cidade de Mejis e entregar a história pendente deste livro — as 800 páginas não são à toa. Cenas dão espaços a pontos de vistas dos personagens secundários, úteis a revelar novas situações daquele lugar. A trama envolve mais características do Mundo Médio, desde os costumes locais, discussões sobre o mundo seguir adiante, os aspectos do Povo Antigo e as conspirações de pessoas no caminho de Roland por toda a saga. Todos esses elementos tornam a leitura mais complexa comparada aos livros anteriores.

Quem conhece os trabalhos do King conhece a dedicação dele por acontecimentos de camadas distintas, as quais umas avançam o enredo principal, outras desenvolvem os personagens e demonstram a riqueza de seus detalhes, e as que mesmo sendo dispensáveis na trama central, são importantes naquele momento da trama. O autor consegue equilibrar essas nuances e deixar os acontecimentos chaves sutis, aqueles necessários para continuar a história, mas nada tão óbvio como eram em Terras Devastadas.

O fato mais horrível era que corações partidos saram

Mago e Vidro provoca o leitor a uma leitura densa só de ver o calhamaço de sua composição. As oitocentas páginas entregam uma história satisfatória, embora eu acredite de as primeiras cem ficarem melhor em Terras Devastadas mesmo. Passado e presente alinham acontecimentos essenciais na jornada à Torre Negra, tudo graças ao ka feito o vento a soprar em todas as direções.

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