Nem sempre a fantasia é escapista. Criaturas mitológicas surgem através das abstrações realizadas sob aspectos reais. Além da concepção, a ficção exercita a reflexão e extrapola as abstrações nos mais diversos ambientes, desenvolvem novos argumentos ao ponto exposto pela autora, usa o místico para denunciar a realidade enquanto prepara o terreno propenso a elaborar novas contextualizações.

Lobo de Rua usa conceitos da licantropia sobre a realidade de um morador de rua na capital de São Paulo. Publicado em 2016 por Jana P. Bianchi pela editora Dame Blanche, a novela traz conceitos da história ainda em fase de elaboração pela autora: a Galeria Creta.

“Era o monstro quem estava no comando daquele corpo, e ele só queria comer”

Raul vive nas ruas de São Paulo, é apenas outro rapaz perdido, de mãe desconhecida e invisível à sociedade. Ele sofre a transformação sob a lua cheia, confuso quanto ao ocorrido. Atrai a atenção de Tito, imigrante italiano da mesma espécie de Raul. Adulto bastante experiente, Tito testemunhou outras pessoas no início da transformação antes de Raul, e decide ajudar o rapaz a compreender a maldição contraída e despertada a cada noite de lua cheia, a maldição do lobisomem.

“Perto da lua cheia, o cheiro é simplesmente enlouquecedor”

A novela apresenta as características da licantropia conceituadas pela autora ao longo da história. Todo capítulo começa com trechos do livro Novus Codex Versiopelius, resultado de pesquisa acadêmica pelo personagem Caetano Estrada. Tito explica os outros conceitos enquanto exerce o papel de mentor a Raul, tornando um dos capítulos iniciais densos por exagerar na dosagem das informações. Os capítulos posteriores equilibram os conceitos com a narrativa, põem certas características apresentadas à prova, situa o protagonista ao evento e demonstra as capacidades sobrenaturais dele, bem como as consequências de possuí-las. Somando as condições anteriores da maldição de Raul, as novidades sobrenaturais agravam a realidade vivida por ele.

O mentor encontra dilemas ao acompanhar as dificuldades de Raul, viu tantos carregarem a maldição de lobisomem, e de todos eles o protagonista desta novela sofre problemas únicos além da licantropia. Tito tem muita história, apesar de pouca dela ser trazida nesta novela, insuficiente para justificar a atitude feita no final da história. Este desfecho abrupto surpreende pois foi feito sem levantar muitos argumentos, precisaria elaborar mais situações a Raul, demonstrar outros exemplos da angústia do protagonista enquanto aproveitaria a trazer detalhes da vida de Tito; trazendo assim maior convencimento do ato trágico. Tal proposta é cruel, causaria mais sofrimento ao Raul e por isso até soaria sádica, só a faço porque ficaria condizente com a proposta da novela.

Lobo de Rua traz conceitos conhecidos de lobisomem e elabora outros aspectos relacionados à realidade retratada na novela. Apesar de introduzir ao universo ficcional dos trabalhos ainda por vir, trata de enredo fechado — com início, meio e fim — à história de Raul sob a tutela de Tito, com particularidades capazes de chocar mesmo os acostumados com histórias de lobisomem.

“Como explicar o absurdo da licantropia para alguém cuja vida já carecia de sentido?”

Lobo de Rua - capaAutora: Jana P. Bianchi
Editora: Dame Blanche
Ano de Publicação: 2016
Quantidade de Páginas: 122

Compre o livro

Comentários