Já realizei pesquisa sobre as características do lobisomem brasileiro e compartilhei neste blog. Enquanto foi divertido conhecer as diferenças do mito tão conhecido na versão internacional, desanimou ver tão pouca fonte bibliográfica sobre os nossos, nem mesmo em livros de ficção. Acredito ser mais pela falta de acessibilidade a esses trabalhos do que a inexistência deles, e com o tempo encontrarei novas referência interessantes, como a da obra analisada neste post.

Lobisomem Existe! é um livro-reportagem com entrevistas dos cidadãos de Joanópolis, muitos afirmando da existência do lobisomem. Publicado em 2001 com nova edição em 2013 sob publicação independente dos autores Paiva Junior e Silvana Godoy, o livro transcreve a conversa dos moradores sobre como conheceram as bestas presentes na cidade.

“Guardávamos um ceticismo que estava prestes a ser derrubado”

Joanópolis é reconhecida como a Capital do Lobisomem. No princípio os cidadãos locais repudiaram o reconhecimento, pois parecia perpetuar a imagem de caipiras ou moradores ultrapassados. Apenas alguns viram a oportunidade de promover a cidade através desta fama, e com o tempo conseguiram atrair interesses por meio deste folclore. O lobisomem passou a ficar amigo dos moradores, representado com aspectos inofensivos de modo a até crianças gostarem da criatura sem sentir medo. Os cidadãos mais antigos e moradores de bairros periféricos da cidade ainda guardam na memória as histórias de quando conheceram o lobisomem. A dupla de entrevistadores foram atrás destas pessoas e pediram a eles relatarem esses eventos com a intenção de transcrever e compartilhar essas experiências peculiares em livro.

“Era mês de agosto, mês do mistério, mês de cachorro-louco e mês do folclore, enfim, mês do lobisomem”

Este livro difere dos outros resenhados pelo blog, pois apesar de tratar sobre criaturas fantásticas, tem nada de ficção. A proposta é registrar os relatos dos cidadãos que conheceram lobisomens. A escrita dos capítulos não é de narrativa, pois descrevem as ações dos autores até encontrar a pessoa disposta a compartilhar sua história relacionada ao mito. A transcrição das falas emulam o jeito de cada entrevistado contar a história, por vezes carregado de sotaque e formas próprias de realizar a narrativa. Os autores também opinaram sobre cada pessoa entrevistada e desabafaram sobre os momentos cômicos tidos com ela.

Muitas características dos relatos batem com a pesquisa feita a partir das obras de Luís da Câmara Cascudo e as demais relacionadas as dele, por outro lado há certas diferenças nos licantropos de Joanópolis, situação comum de acontecer conforme a região. O mais interessante é ver a relação dos moradores com o lobisomem, longe de sentir medo ou ímpeto em feri-lo; o povo de lá reconhece haver um humano por trás daquela fera, e respeita o cumprimento de seu fadário. Continua a respeitar mesmo ao saber a identidade do lobisomem, até realizaram o casamento entre um deles com a mula-sem-cabeça!

A edição peca na diagramação, com determinadas imagens pequenas demais para visualizar e tamanhos da fonte alternados no mesmo parágrafo em determinadas partes. Nada a atrapalhar a leitura, apenas causa pequenos desconfortos ao conferir o conteúdo com informações valiosas ou mesmo divertidas.

Lobisomem Existe! é uma ótima forma de retratar a cultura local através da experiência com o ser folclórico. Adoraria ver mais iniciativas iguais a esta, dedicada a outras regiões e mitos distintos. Todo o país tem muito a ganhar conhecendo a personalidade da outra região de nosso território.

“O lobisomem é um mito universal, mas com características locais”

Lobisomem Existe! - capaAutores: Paiva Junior e Silvana Godoy
Editora: publicação independente
Ano da publicação original: 2001
Edição: 2013
Quantidade de páginas: 145

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