A cultura de uma região exótica à nossa atrai olhares curiosos. Fatos e objetos trazem especulações distintas às sociedades, inspirações de reflexão ou até mesmo regras sociais. É a ficção de um povo virando realidade a partir das crenças.

A junção de palavras dá significados nos modos de expressar, e o trabalho poético nelas provoca sentimentos, tira o leitor do lugar comum e dá a oportunidade de olhar a mesma coisa na perspectiva singular aos relatos. É mais do que olhar a cultura japonesa com olhos estrangeiros, este livro traz o fluxo de interpretações aos leitores a partir da visão do autor.

Homens Imprudentemente Poéticos é o vislumbre do Japão aos olhos ocidentais com liberdade expressiva e poética. Publicado em 2016, conta a intimidade do artesão Itaro e a inimizade com o oleiro Saburo, vizinhos e moradores da vila próxima a floresta reconhecida pela frequência de suicidas no Japão.

Homens Imprudentemente Poéticos - capa

Valter Hugo Mãe é um dos escritores portugueses mais reconhecidos ainda vivos. Usa da prosa poética nos trabalhos literários e tem obras destacadas como O Remorso de Baltazar Serapião no Prêmio Literário José Saramago.

Os meninos, por impulso, erravam muito

Itaro confecciona leques artesanais e os comercializa para garantir a economia escassa da pequena família. Sustenta a irmã Matsu, deficiente visual que lhe gera despesas; e a criada Kame, mantida por tradição familiar. O artesão possui rixa com o vizinho Saburo, oleiro obcecado em cultivar seu jardim e com consciência perturbada por causa da esposa Fuyu.

Vivem próximos da floresta onde os suicidas vêm de todo o Japão e decidem encerrar ou não as suas vidas. Os moradores da vila acolhem quem pretende cometer suicídio e oferecem a oportunidade de refletir nesse desejo, a floresta em si também permite o espaço e tempo necessário antes de decidir sobre a vida. A cultura japonesa possui pensamentos distintos do ocidental quanto ao suicídio, nada justificativo à prática do mesmo, mas conhecer essas diferenças ajudam na forma de prevenir as mortes voluntárias.

Sofrimento nunca impediria alguém de ser feliz

É injusto me aprofundar no enredo deste romance, a experiência de leitura contará além das citações referentes a trama. As sucessões dos fatos são recheadas com o uso próprio da linguagem pelo autor que tece a impressão das características de outro povo. Diálogos livres de pontuações e outras transgressões gramaticais funcionam como composição sonora na história de sujeitos comuns de uma vila japonesa, e ainda cheios de nuances a conhecer.

Bato palmas pela abordagem do tema tão complicado como a floresta dos suicidas. Valter Hugo Mãe não cita o nome do local referenciado no romance, e repetirei esta atitude, pois a propagação sobre o local pode servir de motivação a quem pretende cometer suicídio. Eu ficava triste ao ver qualquer notícia relacionada à floresta, e este romance me surpreendeu por me fazer sentir esperança, o autor demonstra que mesmo naquele lugar há a oportunidade de a pessoa voltar atrás, de marcar o ponto e vírgula ao invés do final em sua história.

Homens Imprudentemente Poéticos conseguiu me tocar na história de personagens imperfeitos com escrita de qualidade oposta. Além de elogiar este livro, eu agradeço ao Valter Hugo Mãe por compartilhar esta história. Só lembre-se de me agradecer depois, leitor, quando ler este livro graças a minha indicação.

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