Pensar no atentado contra o Japão no final da segunda guerra mundial me entristece. Duas cidades devastadas por bombas atômicas. Difícil se esquecer de tal fato, mesmo eu nascendo cinquenta anos depois da tragédia, e deve permanecer na memória como advertência do que jamais repetir.

A tecnologia aprimorou todas as ferramentas nesses setenta anos seguintes, inclusive as bombas. Disparar uma dessas no tempo vigente causaria estragos muito maiores, atingiria além do país alvo. Pode prejudicar até quem dispara, pois danifica o ambiente de todo o planeta.

A Fortaleza: Mundo Sombrio trata desta realidade tão assustadora. Publicado em 2016, o livro conta a história de Camille, uma rebelde que mora no subterrâneo junto com os demais sobreviventes da humanidade no aglomerado conhecido como Fortaleza.

A Fortaleza - capa

Day Fernandes é psicóloga além de escritora. Publicou outros romances e contos dos mais diversos estilos, como terror, ficção científica e suspense.

Quando um poder cai, proporcionalmente outro se levanta

Camille é capitã do grupo de rebeldes intitulado como Fantasmas das Sombras. O bando realiza invasões e coletam mantimentos escassos e restritos à administração da Fortaleza, enfrenta as sentinelas subordinadas ao governo autoritário com recursos inferiores, como armas de fogo com munição de borracha e armas brancas — adagas, punhais e espadas.

Na missão de resgate de seus amigos, Camille encontra um homem desconhecido, vítima de tortura das sentinelas e com amnésia. As memórias desta pessoa retornam aos poucos e alinham com o conhecimento dos Fantasmas sobre os segredos da Fortaleza e a situação da humanidade.

Em certos momentos da vida, não há o que escolher

A trama consiste em revelar os segredos à protagonista e ao leitor conforme enfrentam os perigos da Fortaleza. Novos personagens aparecem na história, apresentando cada um no devido momento com flashbacks de quem já possui laços com Camille ou por fazer algo de relevante no enredo. Uma das transcrições do passado é contado em um capítulo inteiro sem necessidade, pois a própria Camille resume esse acontecimento em poucas linhas de sua fala no capítulo seguinte.

Pessoas são classificadas dentro da Fortaleza em três níveis: escolhidos, civis e não-identificados; mas a protagonista identifica ela e os colegas rebeldes como Fantasmas. Sentinelas são os adversários comuns do grupo de Camille, sendo subordinados ao governador antagonista. Também aparecem guerreiros mercenários, com poucos detalhes sobre quem são e quais suas motivações dentro do contexto deste livro.

Uma informação contida na sinopse revela spoiler em relação a Fortaleza nos capítulos próximos do fim. Quando eu li a passagem e visualizei o espanto dos personagens, deixei de ter a surpresa por já saber a informação.

Falando em saber, a escrita da autora abusa dos verbos sentir, parecer, ser e saber para explicar as diversas situações. Em vez de definir o cenário, os acontecimentos ficam vagos ao dizer que se parece com algo. Deixa de demonstrar comportamentos particulares dos personagens e apenas conta como tal pessoa se sente ou sabe de determinada passagem. E muita coisa se “foi” ou já “era” em parágrafos consecutivos. Este é o primeiro livro publicado pela autora, então acredito haver descrições mais assertivas em textos mais recentes.

Fora os deslizes das descrições, o mundo construído em A Fortaleza é interessante e impressiona com as revelações dos segredos, com elementos de ficção científica que oferecem esperança aos personagens desta distopia, onde o Mundo Sombrio de seu subtítulo a define.

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