Quem acredita em livros como o símbolo do pedantismo está muito enganado e desconhece a importância disponível no calhamaço de páginas cheias de parágrafos, inspirações e — às vezes — figuras. As dificuldades de assimilar o conteúdo variam conforme a complexidade da obra, exceto quando o leitor tem pouca prática de leitura e desiste nas primeiras palavras ou na segunda metáfora. Entre a dificuldade e a delícia de visualizar toda a história entregue de bandeja numa tela, muitos preferirão o entretenimento, acusarão a falta de tempo para se informar sem perceber quanto tempo perde com  textos e vídeos inúteis. Ninguém está tirando o livro das mãos de ninguém senão nós mesmos, procurando pelas alternativas baratas e confortáveis.

Caso seja só a repulsa mesmo, basta queimar os livros na temperatura Fahrenheit 451. Publicado em 1953 com edição de 2012 pela editora Globo, Ray Bradbury conta a história distópica em que livros são queimados pelo prazer em menosprezá-los, enquanto problemas maiores acontecem no mundo e nas vidas de cada cidadão.

“Que traidores os livros podem ser!”

Guy Montag trabalha como bombeiro, assim como o pai e avô. Todas as casas são imunes ao incêndio graças ao revestimento do plástico existente no romance, então os bombeiros deixaram de exercer esta função. As mangueiras não disparam água, mas sim querosene e fogo. O trabalho de Montag consiste em queimar livros, os objetos mais repugnantes a pessoas, difíceis de entender. Em suma: há nada de útil nos livros.

Montag é como os outros, adora o brilho das chamas sobre as folhas, é dedicado ao trabalho e economiza no salário até comprar a nova tela para a esposa e assim proporcionar mais opções de entretenimento a ela, que faz uso da leitura apenas no catálogo. A diferença de Montag quanto a outros bombeiros e pessoas é aquela coceira, a curiosidade em descobrir o motivo dos livros serem repudiados. É tão difícil compreender? Os livros são inúteis? Ele busca respostas, e encontrará problemas.

“As pessoas nesses livros nunca existiram”

A primeira mensagem de Fahrenheit 451 é clara: demonstra o repúdio dos livros pela sociedade. Por se passar no futuro, o livro apresenta algumas tecnologias inventadas pelo autor, como a do revestimento que impede o incêndio em casa. Sem precisar apagar fogo, Ray desconstrói o conceito de bombeiro e o transforma no cargo responsável por eliminar o objeto favorito dos leitores.  A justificativa é simplista demais, apenas adéqua uma profissão à intenção do autor.

Tirando a pequena crítica anterior, o livro só acerta em qualidades. A primeira mensagem desdobra em situações com consequências ou causas do primeiro conflito. Montag e os outros bombeiros não desempenham papel fundamental na eliminação dos livros, tal objetivo já foi cumprido e saber como isso aconteceu nessa realidade distópica é assustador, pois pode muito bem acontecer na vida real. Enquanto o enredo trazia exemplos dos empecilhos, eu os relacionava a comportamentos parecidos de meus parentes, amigos, colegas de trabalho, pessoas desconhecidas e políticos.

A crítica atravessa fronteiras e fala de assuntos além dos livros. As pessoas vivem isoladas, acomodadas por “saberem o suficiente” e garantidas de terem diversão, esta feita de pouco conteúdo, o suficiente ao entretenimento. Tudo isso deixa os personagens menos sensíveis, sem empatia e — mesmo negando — infelizes. A rotina cômoda os persiste assim, alheios a situações do mundo ou de quem mora na mesma rua.

A história é curta, duzentas páginas condensam o grande valor de crítica e importância gerada através dos livros e na interação social inspirada neles. Nós estamos vivendo em Fahrenheit 451, não com esses bombeiros nem com a tecnologia existente na ficção, mas por alertar dos problemas de hoje, sessenta anos após a escrita desta história. Caso seja pedir demais impor este livro como leitura obrigatória, a coloco como uma das mais importantes a qualquer cidadão. A distopia é fácil de compreender e oferece argumentos convincentes sobre o que devemos dar mais valor, senão perderemos outros benefícios sem notarmos a falta.

“A gente põe as crianças no “salão” e liga o interruptor. É como lavar roupa: é só enfiar as roupas sujas na máquina e fechar a tampa”

Fahreinheit 451 - capaAutor: Ray Bradbury
Ano da publicação original: 1953
Edição: 2012
Editora: Globo (Biblioteca Azul)
Tradução: Cid Knipel
Número de Páginas: 216

Compre o livro

Comentários