Histórias têm a capacidade de demonstrar detalhes peculiares, estranhos aos personagens e até aos leitores. Tal nuance sempre tem motivo, como o de convencer que o diferente é aceitável, até necessário na ocasião especial onde supera o conflito de resolução improvável. Ovaciona a magia do ser diferente enquanto há quem o julga apenas na aparência. A garotinha nasce sem mãe e com o inverno sobre ela, rejeitada por causa da pele e sentimentos gelados, características que a deixam próxima do dragão diferente dos demais, o de gelo.

O Dragão de Gelo é uma história curta e infanto-juvenil sobre Adara, a garota amiga do dragão especial. Publicado em 1980 e trazido à LeYa em 2014, oferece outro exemplo da capacidade de George R. R. Martin em escrever fantasia medieval.

“O inverno a tocara, deixara nela sua marca e tomara a garota para si”

Adara é a filha mais nova de três irmãos. A mãe falece durante o parto, desde então toda a responsabilidade da família pesa sobre os ombros do pai. O nascimento da garota também é marcado pela presença do dragão de gelo, criatura temível por ser o presságio de inverno mais rígido e longo.

A garota é uma criança do inverno. De pele alva e olhos azuis, seu toque transmite frio em vez do calor. Verão significa tristeza a ela, por ver os irmão e outras crianças felizes enquanto ela vive reclusa por ser diferente. Adara recebe atenção do pai somente no inverno, quando ele chora por ela. Pelo menos também reencontra alguém bastante especial. Enquanto todos temem o dragão de gelo, ela o abraça, troca empatia e monta nele como ninguém jamais foi capaz de fazer.

“Ela nunca teve muita certeza se era o frio que trazia o dragão de gelo ou o dragão de gelo que trazia o frio”

Com aspectos de fábula, O Dragão de Gelo conta uma história sucinta. Parágrafos simples são rápidos em entregar as cenas ilustradas pelo Luis Royo, mas os textos também são capazes de pincelar as cores ficcionais, desenham o gelo predominante e depois traz outra cor em destaque, seja para embelezar o quadro da imaginação ou gerar tensão no tom adverso ao branco.

A distância de Adara entre as demais crianças e personagens trazem uma narrativa secundária por parte delas, pelo medo de encarar o diferente e os obstáculos causados por ele — como a falta de colheita no inverno prolongado. O narrador sempre acompanha a protagonista e com isso mostra a real situação a enfrentar, além de demonstrar o papel crucial de Adara e do amigo gelado.

O Dragão de Gelo destaca os feitos da garota especial de amizade ímpar com a criatura singular enquanto as pessoas comuns daquele mundo seguem suas vidas ignorantes ao que é diferente. De leitura rápida, entrega o enredo em poucos parágrafos e proporciona a resolução do conflito a partir da premissa simples como o olhar de uma criança.

“Os sorrisos de Ara eram de uma reserva secreta, e ela os gastava apenas no inverno”

O Dragão de Gelo - capa

 

Editora: LeYa
Edição: 2014
Autor: George R. R. Martin
Ilustrador: Luis Royo
Tradutor: Gabriel Oliva Brum
Páginas: 128
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