Livros são mais do que páginas amarradas, cheias de palavras que formam frases dentro de um parágrafo. Trazem experiências singulares através das histórias, e algumas superam a ação do tempo. Novas gerações devoram o conteúdo e arrancam elogios. 

As gerações distintas nem sempre são de pessoas diferentes. Eu mesmo li o livro aos 17 anos, e reli sete anos depois como se fosse algo inédito, mesmo conhecendo a história. 

Dom Casmurro foi publicado em 1900, apesar de datado com o ano anterior. Bento Santiago narra a própria história enquanto escreve o seu livro. Conta da sua infância até as crises do seu relacionamento com Capitolina e os eventos posteriores que o levaram a ter o apelido como o nome do livro. 

Dom Casmurro - capa

 

Joaquim Maria Machado de Assis dispensa apresentações. É ainda um dos escritores brasileiros favoritos entre os leitores, com destaque por suas obras da Trilogia Realista, dentre elas Dom Casmurro. 

A vocação é muito, mas o poder de Deus é soberano 

Bento conta a sua história de quando era o jovem Bentinho, durante o império brasileiro. Apresenta logo de início a sua família e quase todos os personagens essenciais do romance. 

Foi prometido a virar padre desde o seu nascimento, devido aos juramentos de sua mãe pela dificuldade em engravidar. Bentinho não contestava tal promessa até se sentir atraído pela amiga de infância Capitolina, a Capitu. 

Deste conflito conhecemos mais dos personagens e das intimidades do protagonista, dentre essas há pensamentos capazes de espantar não só o próprio Bentinho, mas provavelmente o leitor. O longo conflito traz outro personagem chamado Escobar, esse amigo também não deseja prosseguir como seminarista, mas por outros motivos. 

A quantidade de capítulos ultrapassa o número de 150, e são bastante curtos. Cada um é feito para passar a mensagem desejada por Bento, às vezes traz divagações que fogem da história, mas demonstra a personalidade do protagonista envelhecido. Demonstra espontaneidade ao deixar capítulos adiantados ou contar a razão de dedicar parte do seu livro a certos parágrafos. 

Saudade é isso mesmo; passar e repassar das memórias antigas 

Machado de Assis explora os defeitos de Bento e desenvolve os problemas do romance com esses. O principal é o ciúme, o qual chega num ponto onde todas as suas conquistas são postas em risco. Vemos o problema sob a perspectiva de Bento, então há a possibilidade do ponto de vista está enviesado. O romance não oferece a resposta definitiva senão a do Casmurro. 

Ele se tormenta com esse pensamento, progride a ponto de pensar em finalizar a própria vida. Infelizmente nesta parte do romance descreve em detalhes o método por pouco executado. Como não fosse o bastante, Bento cita uma obra como um meio de incentivo, repete os passos desta antes de tentar acabar com tudo. É um trecho tenebroso da obra clássica, mas que não deve ser usado como exemplo nos novos trabalhos escritos. 

Dom Casmurro foi um reencontro ao lago de Heráclitos. Eu sou uma pessoa diferente daquela que leu este livro pela primeira vez. O texto pode ser o mesmo, mas as informações e sentimentos transferidos pela escrita de Assis foram renovadas e assimiladas de modo diferente, fazendo o segundo contato com a obra também singular.

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