A religião deve ser respeitada. Transmite ensinamentos ancestrais dos quais muitos valem até os dias de hoje. Independente das questões sobre a veracidade de suas histórias, essas são extraordinárias por trazerem os aspectos da cultura daquele povo que prevalece com o passar das gerações.

Mas a religião infelizmente possui sua prática adversa, essa executada por quem se diz fiel, mas suas ações não condizem com o dito. O que se deve fazer contra esse tipo de pessoa?

É um dos tópicos principais de Deuses Caídos, fantasia urbana com elementos de horror ocorrida no Rio de Janeiro.

Deuses Caídos - capa

Publicado em 2018, é o livro de estreia do Gabriel Tennyson, que escreve quando deixa de assistir séries ou jogar RPG. Acredita na popularização na literatura fantástica a ponto de alcançar a de Zeca Pagodinho.

Terror é o combustível da fé que alimenta os deuses

Judas Cipriano é um padre exorcista, membro da Sociedade de São Tomé responsável por realizar expurgação, mantendo o segredo sobre seus dons e da existência de criaturas feéricas da humanidade. É aprendiz de Tomás de Torquemada, o mesmo inquisidor espanhol do século XV.

Torquemada atribui uma nova missão a Cipriano: o de investigar a morte sobrenatural de um pastor corrupto transmitido no YouTube. Também ordena trabalhar junto com a policial Júlia e avaliar o seu dom com tecnologia.

A aventura mescla investigação policial com horror, a fantasia de criaturas ancestrais com o conhecimento e tecnologias atuais, a religião católica com a sua distorção por parte dos personagens.

Havia coisa que um homem só podia fazer quando não se encarava no espelho

Um dos melhores aspectos de se ler uma ficção fantástica ambientada no Brasil é testemunhar a verossimilhança do país onde vivo misturada ao universo criado pelo escritor. Tennyson empregou muito bem o regionalismo carioca nessa história e trouxe ideias originais ao adaptar conceitos de algumas criaturas existentes em outros países a uma residente no Rio de Janeiro.

A profanação dos personagens é exposta de forma explícita e grotesca. Descrições breves e simples contam os comportamentos mais bizarros das criaturas repugnantes cuja disputa de feiura é acirrada.

Mistérios são distribuídos ao longo da trama. Além das próprias questões do caso investigado por Judas e Júlia, os parágrafos levantam perguntas sobre esses dois personagens ao leitor, mas  já conhecidas por Cipriano. A resposta dessas perguntas chega no decorrer da história, bem mastigado ao leitor. Um capítulo específico sobre o antagonista traz as respostas descarregadas de uma vez e no ritmo fora do comum com o resto da história, pois apenas transmite informações quando as outras são mostradas na medida certa.

Repleto de cenas perturbadoras sem pecar na redundância, Deuses Caídos choca com o horror exposto em cada capítulo. As trezentas páginas prenderão o seu fôlego numa leitura bastante fluída e darão orgulho de oferecer a oportunidade de conferir um exemplo de literatura nacional de qualidade.

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