Vivemos em momentos de polarizações. Qualquer menção contrária às crenças de algumas pessoas é repugnada sob o desejo de eliminar da história. Conceitos distorcidos se alinham as ideias radicais e simplificam a visão entre dois lados, o da pessoa e o da oposição, o inimigo a ser combatido. Por isso começo o post com este aviso: caso seja sensível a conteúdo adverso a sua rotina, recomendo evitar a leitura deste livro. 

Do mais, escritores possuem rotinas distintas de trabalho e muitos mantém a vida econômica com emprego fixo enquanto a escrita é uma atividade secundária. Há outras formas de viver aproveitadas pelos literatus, estas nem sempre de bons exemplos. 

Detetives Selvagens conta sobre os trabalhos de poetas americanos de língua espanhola, em especial Ulisses Lima e Arturo Belano. Publicado em 1998, possui três partes que narram a vida desses dois protagonistas de forma indireta. 

Detetives Selvagens - capa

Roberto Bolaño nasceu no Chile, mas viveu exilado do país natal, na maior parte da vida no México, por um tempo na Europa, e só voltou ao Chile uma vez por questões políticas, quando permaneceu pouco tempo preso com a vitória da oposição. É um dos escritores chilenos mais reconhecidos, inclusive premiado com o prêmio Rómulo Galegos com o próprio Detetives Selvagens. 

Método perfeito para que ninguém ficasse amigo de ninguém  

A primeira parte do livro consiste no diário de Juan García Madero, aspirante a poeta negligenciado sob pressão familiar. Frequenta uma oficina literária de qualidade duvidosa até conhecer Lima e Belano e o seu movimento visceral-realista, quando também se integra ao grupo. 

A segunda parte abrange o período de vinte anos — de 1976 a 1996 — em que reúne relatos narrados pelos mais diversos personagens, todos com alguma relação aos dois poetas. Por fim retoma o diário de García no momento exato de onde parou a primeira parte, na virada do ano para 1976, quando ele e os protagonistas procuram a poetisa precursora do visceral-realismo enquanto fogem de um certo perigo. 

A literatura não é inocente  

Entre citações de sexo, drogas, política e conflitos locais, o livro perdura com citações constantes de obras literárias e do trabalho feito pelos vários personagens envolvidos. De discussões sobre conceitos estruturais de poemas a análise de filme baseado no livro de Stephen King, como exemplos. Vê-se o reflexo do acervo literário do autor com essas menções entre as pessoas criadas em Detetives Selvagens. 

O domínio das situações políticas e a discussão aberta de vários assuntos polêmicos na obra é de se impressionar. Descrições explícitas conforme quem as conta podem provocar o leitor. Longe de trazer heróis nas seiscentas páginas do livro, difícil sentir simpatia por personagens problemáticos e de péssimos exemplos, porém ainda com histórias para contar. 

Detetives Selvagens aborda a intimidade dos poetas hispano-americanos a níveis muito particulares, sem pudor a ponto de trazer histórias fora do comum sobre os protagonistas. Narrativa longe de ser objetiva, convida o leito a serem os detetives a juntar as peças espalhadas nos relatos e conhecer Ulises Lima e Arturo Belano. 

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