Errar é humano, persistir no erro também. Não há protagonismo na vida real, no sentido de pessoas mudarem seus modos para favorecer tal indivíduo, mas os atos podem transformar a vida de alguém pelas suas consequências impossíveis de controlar. 

O exercício da empatia é difícil a quem não demonstra interesse em aceitar opinião ou condição controversa. E com a falta dessa, a desgraça pode pregar peças de muitas maneiras. 

Desonra explora as adversidades da empatia e sob o contexto vigente (no ano de publicação) da África do Sul após o apartheid. 

Desonra - capa

Publicada em 1999 pelo J. M. Coetzee, escritor e professor de literatura. Digno de alguns prêmios literários, como o Booker Prize com a obra deste post e o próprio Nobel de Literatura. 

Uma cicatriz em volta da lembrança daquele dia 

David Lurie é professor de universidade e está insatisfeito com o seu trabalho. Sonha em fazer uma peça em homenagem ao poeta George Bordon Byron, mas sem este emprego não consegue pagar suas contas. 

Divorciou duas vezes e teve filha com a primeira esposa, suas interações sem compromisso com as demais mulheres aliviava suas frustrações, mas com o tempo causa grandes problemas. Incapaz de aceitar recusas pelas suas acompanhantes, é antipático à intimidade delas e insiste em seus desejos. 

O caso com uma de suas alunas gerou polêmica e o forçou a ele se despedir. Lurie visita a sua filha a princípio de forma breve, e Lucy adora a companhia de seu pai, embora ele sinta dificuldade com o ambiente rural onde ela decidiu viver. Mas uma tragédia em que Lucy foi vítima de estupro por assaltantes transformou a interação entre pai e filha, e as atitudes adversas de ambos coloca o relacionamento entre pai e filha em risco. 

Há lágrimas para tudo, e as coisas humanas tocam o coração 

As relações pessoais de Lurie são postas à prova com as consequências de seus atos. Não importa a intenção do professor/pai, as consequências muitas vezes são as piores sem serem forçadas na narrativa. 

Mesmo com algumas citações literárias com base na formação do protagonista, a linguagem do romance é fácil de compreender e apresenta as discussões sobre as consequências das tramas de forma verossímil, fácil de visualizar enquanto se lê. 

O abuso sexual se torna o pivô dos problemas de relacionamento com a filha Lucy. Lurie tenta ajudar, mas força o seu ponto de vista ao impor a solução, e assim gera outros problemas. 

Seu protagonismo serve para enxergar os outros personagens sob o seu ponto de vista, mas favorece em nada na sua história. Mesmo acompanhando na ótica de Lurie, podemos compreender a visão divergente dos outros personagens. 

Coetzee conseguiu de forma esplêndida retratar assuntos sensíveis com visões diferentes e tramar desfechos trágicos e realistas aos personagens. A história me convidou a analisar os argumentos contrários ao protagonista, um exercício que vejo em falta neste ano cheio de problemas. 

Comentários