Triste ver criaturas folclóricas do Brasil serem subestimadas em relação as já conhecidas de outros países. Nenhuma cultura tem mais valor que a outra, e é possível reconhecer todas sem deixar de lado essa tão próxima de nós. Assim como as características de povos antigos desconhecidos pela maioria dos brasileiros, o folclore também sofre preconceito.

Se está lendo este post, é porque o Curupira atrai seu interesse. Isso me permite enxergar aquela luz no fim do túnel, onde há quem valorize a cultura brasileira ou ao menos demonstra o mínimo de interesse. Por isso agradeço a visita, e fico feliz de tomar o breve momento para conferir a análise de hoje.

Curupira: A Árvore da Vida faz a releitura da origem deste mito. Publicado em 2018, conta a história do garoto de pele branca e cabelo ruivo, adotado pela tribo Arapuã com o nome de Curupira por ser pequeno.

Curupira: A Árvore da Vida - capa

Junior Salvador é formado em letras e direito. Publicou alguns livros de poesias e contos, sendo a história de Curupira o primeiro romance publicado pelo autor.

Homens e mulheres, vocês são os esteios de vossas casas

Órfão de pais biológicos desde cedo, Curupira é adotado pelos indígenas que o encontraram, crentes do garoto trazer sinais de esperança à tribo carente de proteção espiritual e de alimento. O garoto ruivo tem dificuldades de fazer as tarefas indígenas. Apesar de criado por eles na maior parte da vida, a constituição de seu corpo o atrapalha em realizar atividades comuns da tribo.

Tem amizade com Taiguara, futuro cacique da tribo que provoca Curupira a agir como eles, mas pelo bem do garoto ruivo. Os dois ultrapassam as fronteiras da tribo e tentam trazer caças cada vez mais raras. Curupira ajuda pouco nesta caçada, e escapa com ferimentos de com riscos fatais.

Taiguara quer salvar o amigo, escuta o pajé dizer que só a Árvore da Vida é capaz de curá-lo, e então vai atrás de sua seiva. Essa busca chamará a atenção de criaturas sombrias e as libertará, ameaçando a vida da tribo.

Tinha a língua tão ferina quanto os punhos

O livro traz a ambientação característica do povo indígena brasileiro e apresenta alguns costumes tribais. Simples de entender, o livro é interessante a quem tem pouco conhecimento sobre os índios e busca uma introdução acessível ao assunto. Demonstra a hierarquia da tribo, a cultura do pajé e o respeito à existência espiritual, bem como a afeição pela vida selvagem mesmo nas caçadas. Vale ressaltar que a história traz exemplos de uma tribo, outros povos indígenas podem ter características e até crenças diferentes das representadas neste livro.

Além do Curupira, o livro envolve outras criaturas nesta adaptação das lendas folclóricas. Aproveita as capacidades extraordinárias desses seres nas cenas de ação sem entregar resultados previsíveis.

Enquanto o enredo é bem desenvolvido, a escrita carece de refinamento. Há abusos de advérbios em todo o texto, muitos terminados em “mente” (ex: lentamente) que quebram ritmo da leitura por tornar esse tipo de palavra longa. Palavras repetidas três vezes na mesma linha também prejudica caso o leitor perceba esse vício. Além dos problemas de escrita, tem a menção de uma criatura com três metros de altura, e em outro capítulo cita o mesmo monstro tendo três vezes a altura de Taiguara, quase dobrando de tamanho com esse equívoco na descrição.

Curupira: A Árvore da Vida é uma história breve sobre o personagem conhecido no folclore nacional, embora nem sempre valorizado pelos brasileiros. Traz enredo interessante, porém a qualidade do texto deixa a desejar, e entregaria o resultado melhor caso aprimorasse a escrita.

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