A tecnologia evoluiu muito e ainda evoluirá, transformará o cotidiano de toda a sociedade enquanto poucos se preocupam com as consequências. Fazer previsões é refletir a situação atual e prevenir quanto aos problemas da sofisticação abrupta das ferramentas e sistemas de modo a preservar as nossas vidas. As camadas ignoradas da sociedade tomarão prejuízo, e elas tentarão sobreviver, nem que seja com ações nada amigáveis. Enquanto os favorecidos com os recursos de última linha abusam de toda a sociedade, os marginais sobrevivem alheios à autoridade e intrometidos com os donos dos melhores recursos.

Count Zero é o segundo volume da trilogia Sprawl, iniciada com o livro Neuromancer. Publicado em 1986 por William Gibson e relançado pela Aleph em 2017 com tradução de Carlos Angelo, o livro conta a história de três personagens com conflitos pessoais de certa forma relacionados à conspiração envolvida na mega cidade de Sprawl.

“Os extremamente ricos não eram mais nem de longe humanos”

O livro começa com Turner, um mercenário em descanso após a recuperação do último trabalho quando recebe a nova missão: garantir a fuga do Mitchell, envolvido na nova invenção tecnológica chamada de biochip. A Marly consegue um trabalho com Virek, o senhor bastante rico com a vitalidade perto do fim que a manda procurar pelo artista Wigan, com o princípio de aumentar o acervo das obras de arte; no fim nada é o que parece. E o Bobby Newmark pretende melhorar a vida saindo de seu lar nada agradável com o intuito de tornar cowboy — o equivalente a hacker nesta trilogia —, e para isso recorre ao grupo de pessoas com as próprias intenções, algumas delas sendo guiadas pelos loa da religião vodu, cujos espíritos existem no ciberespaço onde os cowboys acessam, chamado de matrix. Os três partem de lugares diferentes rumo ao mesmo destino, a grande cidade de Sprawl, cujo território abrange as áreas de Boston a Atlanta (incluindo Nova York e Washingtown) onde conclui a conspiração envolvendo o biochip.

“Não era ilegal ter dinheiro, só que ninguém nunca fazia nada de honesto com ele”

Neuromancer introduziu muitos conceitos do cyberpunk aproveitados em obras posteriores, a Matrix e Ghost In The Shell são grandes exemplos inspirados no trabalho de William Gibson. Já citei na resenha do primeiro volume sobre os termos particulares da história aparecem espontâneos no texto, exigindo mais capacidade de interpretação ou ler o glossário antes da história em si. Por ser o segundo volume, a menção desses termos não criam obstáculos nesta leitura por quem já superou os do primeiro. Ainda assim Gibson manteve muitos problemas de escrita neste segundo volume, e desanima constatar a falta de evolução no texto com uma obra posterior.

As cenas com muitos personagens ficam confusas por citar o autor da ação apenas como ele/ela, onde há mais de uma pessoa presente com o mesmo gênero, sem indicar outras definições do personagem. Outro problema é o texto começar a apresentar uma cena e já avançar a próxima, não no sentido de narrar os eventos rápidos demais, e sim incompletos; o leitor deve atentar nos poucos detalhes citados no livro para compreender o contexto do enredo e dos personagens, pois se perder alguns — algo fácil de acontecer — também ficará perdido em todo o livro.

“Nações tão incivilizadas que o conceito de nação ainda era levado a sério”

Ao apresentar o arco de três personagens distintos e inéditos da trilogia, o conflito da trama também demora a aparecer. Conta a aventura de cada, demonstra as particularidades da ambientação, estas interessantes por serem originais e inspiradoras de outras obras, e apenas após muitos capítulos a história interliga os conflitos do personagem com a trama central, pelo menos quando isso acontece muitos conceitos se encaixam e revelam respostas interessantes a mistérios deixados por pontas soltas nos três arcos — e pelos problemas já criticados quanto a escrita.

Vale destacar a representatividade com muitos pontos positivos. Algo já feito no Neuromancer, em Count Zero o autor expandiu a diversidade cultural com novas maneiras de mostrar culturas distintas, como entidades da religião africana sendo reais na matrix, os conceitos japoneses também presentes neste segundo volume e gangues punks; todos convivem com as ambições particulares de seu grupo e manifestam sua presença na história.

Count Zero é excelente como expansão do universo já criado em Neuromancer. Digo isso no sentido de ver mais do mundo cyberpunk, pois o resto proverá apenas obstáculos na compreensão da história, esta que desenrola da metade ao final do livro por persistir nos conflitos dos protagonistas em grande parte do enredo.

“Com as mesmas palavras, estamos falando outras coisas, e essas você não entende”

Count Zero - capaAutor: William Gibson
Publicação Original: 1986
Edição: 2017
Editora: Aleph
Tradutor: Carlos Angelo
Quantidade de Páginas: 312
Série: Trilogia Sprawl
Volume: 2

Confira o livro

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