A vida acontece enquanto estamos preocupados com os nossos problemas e transformamos as adversidades em monstros nefastos. Boletos viram pesadelos, chefes exaltam o lado negro da força e a falta de dinheiro leva a alguns religiosos questionarem os planos de Deus.

Porém esses problemas desinteressam. Nós, os brasileiros, temos o costume de cumprimentar os colegas e trocarem frases sobre o dia, desabafamos sobre questões pessoais, e no fim tudo pouco importa. Eles, os estadunidenses, gostam da privacidade e restringem assuntos particulares no trabalho; reconhecem seu lugar na sociedade e organizam eventos libertadores onde vadiam o corpo do outro através de socos até alguém declarar por vencido e abraçar o adversário pela boa luta. No dia seguinte a vida continua normal, com o rosto desfigurado e pronto ao trabalho, sem questionamentos do chefe.

As duas primeiras regras do Clube da Luta são sobre ninguém falar sobre o Clube da Luta. Publicado em 1996, é um romance americano de sucesso internacional já adaptado aos cinemas, por isso acredito de algumas pessoas quebrarem essas regras…

Clube da Luta - capa

Chuck Palahniuk é reconhecido graças à publicação desta obra. Frequentador de oficina literária, ainda mantém a própria mesmo após obter sucesso, além de trabalhar no site Lit Reactor com artigos, cursos e oficinas online.

A arma em minha boca, fico pensando em quão limpa está

O protagonista é o narrador da própria história e não menciona seu nome, então o referenciarei como Você. Você é um cara com crises de insônia e apegado aos objetos adquiridos com o dinheiro do trabalho. Perde todos os pertences no incêndio do prédio onde mora e enlouquece. Pede ajuda ao amigo Tyler e começa a morar na casa dele.

Você apresenta os dois personagens mais próximos de todo o romance. A Marla Singer visita vários grupos de apoio de pessoas vítimas de câncer, apesar de apenas buscar consolo nesses grupos sem ter tais doenças, assim como Você faz. Você também conhece Tyler Durden entre as viagens de avião e admira as qualidades deste projetista de cinema e garçom de bufê.

Tyler está insatisfeito com seus empregos. Quer fazer algo a mais, sua ambição é chegar ao fundo do poço e pretende trazer Você consigo. Tyler então pede a Você: “Quero que me de um soco o mais forte que conseguir”*. Nesta mesma noite Tyler e Você criam as regras do Clube da Luta.

Enfiar penas no seu rabo não faz de você uma galinha

A narração de Você evita detalhar os fatos consecutivos e é feita através do fluxo de consciência. Além de ser recurso de escrita, essa abordagem narrativa se mescla ao enredo. As regras do Clube da Luta são lembradas a todo momento neste fluxo de consciência, repetem outras passagens enquanto a história prossegue, Chuck cria um coro de ideias espalhadas pela voz do narrador.

Jamais vi demonstrar a violência como este romance fez. Sem cenas de luta, os rostos desfigurados demonstram o resultado. Olhos roxos e dentes arrancados não são o bastante, poupo os detalhes na resenha para surpreender quem ler o livro. Mais do que banalização da violência, este livro a expõe de forma pornográfica, tanto na nudez dos fatos como no prazer de quem participa. Assusta testemunhar a adesão de pessoas a este grupo, intriga ao mostrar esta extrapolação como algo natural pelo romance, e impressiona acompanhar a ambição de Tyler.

Comprei o Clube da Luta às cegas, somente porque pessoas quebraram as regras ao falar de sua qualidade. E eu as violo também, reforço a indicação do livro por chocar a realidade em nossa cara nos exageros de fatos nada anormais e explícitos na sociedade.

* Texto copiado na íntegra do livro

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