Existe certo fascínio nas ficções voltadas aos aspectos da idade média. Modo de vida mais simples, natureza presente, orgulho de ser leal a uma causa contrastam com os perigos de morte, saneamento básico inexistente comparada a de hoje, e as oportunidades nulas de ascender na sociedade e permanecer na posição social onde nasceu. 

Cada grupo tem a própria ambição e crença. Cavaleiros lutam em busca de mérito, principalmente pela sobrevivência e a garantia do reino onde sua família possa perseverar. Já os guerreiros dinamarqueses lutam para conquistar o lugar junto aos deuses no salão de Valhalla após a morte, enquanto em vida querem conquistar as terras saxônicas por serem mais férteis, e assim garantir a qualidade de vida ao seu povo. 

O contraste destas populações distintas é retratada em O Cavaleiro da Morte. Publicado em 2005, é a continuação do romance O Último Reino. Este segundo volume da saga Crônicas Saxônicas obriga Uhtred a se decidir em qual lado da batalha combater. 

O Cavaleiro da Morte - Capa

Bernard Cornwell é autor de dezenas de romances sobre ficção histórica, em especial os relacionados à Inglaterra, e conhecido pelos romances inspirados em fatos históricos e pelas cenas de batalhas viscerais. 

Sejam bons cristãos! Machuquem um pagão!  

Uhtred venceu o temível Ubba, porém deu pouca importância de tomar o mérito no momento certo. Já Odda, o Jovem, aproveita e se diz o responsável pela derrota do dinamarquês e consegue se promover com o rei Alfredo. Após descobrir a ascensão de Odda, Uhtred exige o reconhecimento na maneira pouco usual aos saxões e nada cristã, e recebe apenas penitência e repúdio do rei como recompensa. 

O protagonista é herdeiro de um castelo inglês (após a morte do irmão primogênito) e viveu entre os dinamarqueses da infância a juventude. Por viver entre os dois povos, ele vê a oportunidade de escolher a quem se aliar, apesar de ponderar os riscos em cada lado. Conhece Svein durante o período de indecisão, líder das tropas irlandesas e galesas que pretende derrotar o restante da Inglaterra junto com o líder dinamarquês Guthrum. Vários fatores surgem nos acontecimentos conturbados enquanto Uhtred se decide na escolha entre a impossibilidade da vitória ou da sobrevivência. 

Os dinamarqueses faziam seu trovão de batalha e nós rezávamos  

Narrado em primeira pessoa, Uhtred conta a história de quando era mais jovem sem se incomodar de ressaltar as próprias qualidades e os defeitos na época. As palavras de Bernard refletem a partir do protagonista na preocupação de deixar a história acessível aos leitores atuais, além de reforçar esta facilidade de compreensão também na tradução brasileira, com notas sobre escolha de quais termos se empregam. Há ainda explicações repetitivas dos acontecimentos anteriores da saga, pequenos lembretes entre tantas informações de personagens ao leitor, isso porque ainda se trata do segundo volume da saga de dez livros publicados. 

Esqueça o charme da idade média exaltado em outras ficções. Bernard Cornwell reflete a realidade crua e nojenta do período medieval. Revela os podres da justiça, nobreza e religião sem pudor daquela época, muitos gerando conflitos políticos, desafios a superar por Uhtred enquanto mantém a posição instável. Tudo fica ainda pior com o reino saxão quase destruído, muitos nobres ingleses se aliam aos dinamarqueses e abandonam o rei Alfredo.

As crises políticas e de sobrevivência dão espaços aos conflitos brutais no romance, os melhores aspectos na escrita de Bernard. As descrições imergem o leitor para dentro da batalha, acompanhamos a perspectiva de Uhtred e vemos como se participássemos dela. Sem dispensar detalhes, retrata a crueza e crueldade das colisões das paredes de escudos e duelos consecutivos na batalha não só entre povos, mas entre os deuses (nórdicos e O cristão). 

Cometo a injustiça pela minha demora em ler os livros de Bernard Cornwell. Eu não gosto de ler livros do mesmo autor em sequência, nem mesmo os volumes da mesma saga, só que eu demoro demais entre um livro e outro deste autor. Surpreendo-me com a ótima qualidade da escrita sobre a história medieval e das batalhas viscerais muito bem retratadas em palavras.

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