Humanos são animais sencientes. Classificamo-nos ainda seres racionais, cujo raciocínio garantiu nossa sobrevivência acima dos demais animais, dentre eles os alheios do nosso convívio, distantes da tecnologia exclusiva da nossa espécie. E dominamos os animais submissos, com acomodações condizentes a sua utilidade, deixando-os proliferar e os engordando até o abate, ou adotamos outra espécie na busca de trocar mimos e ter mais estima. E se existisse uma espécie racional e superior a da humana? Nada impediria fazer o mesmo conosco.

Bloodchild* mostra a relação entre humanos e esta raça superior. Lançado em 1984 por Octavia E. Butler, este conto de ficção científica traz o terror da submissão em servir de hospedeiro a novos indivíduos alienígenas.

“Você não é dela. Você é apenas propriedade dela**”

Os Tlics dominam o mundo habitado por Gan, um dos humanos Terrans. Gan vive com a mãe e irmãos em ambiente controlado chamado Preserve, onde os Tlics cuidam das famílias humanas, alimentam e acariciam. Em troca, toda família deve ceder um filho ― de preferência masculino ― ao Tlic, conforme regulamenta o governo, para servir de hospedeiro aos ovos da raça superior. T’Gatoi é a Tlic responsável por cuidar da família de Gan, e ela mesma plantará ovos nele, o hospedeiro escolhido daquela família. Um vizinho está prestes a dar a luz às larvas da Tlic ausente no momento, e T’Gatoi realiza o parto em seu lugar, com a ajuda de Gan, que testemunha o nascimento da raça alienígena, de como acontecerá a ele em breve.

“É melhor permanecer assim e saber que ela me amou mesmo sob toda essa obrigação, orgulho e dor”

Contado na perspectiva do garoto, ele fala da rotina inerente a dele, trazendo pouco significado ao leitor a princípio, pois ainda aprenderá a situação do personagem conforme a história acontece. Esta forma de narrar é típica da autora, presente também em Parábola do Semeador, primeiro demonstrando a humanidade dos protagonistas, então deixa o elemento extraordinário da história mais visível aos poucos, e quando a realidade da história vem a tona, o leitor já está fisgado, pronto a acompanhar o protagonista até a resolução. Novas informações vêm sem pressa e terminam de amarrar as questões pendentes.

Outra característica de Octavia é chocar, sendo direta na situação descrita, confiante de a cena em si provocar receios quanto aos personagens e reflexões sobre nós mesmos. Neste conto a humanidade é submissa de outra espécie, usada como meio de proliferação, cuidada apenas por ser útil a raça superior, de forma semelhante de tratarmos os animais de gado, essencial na alimentação de muitos de nós. Tem ainda a questão dos homens serem a preferência dos alienígenas na procriação, algo inédito a este gênero sexual, e imposto por quem domina e governa esse mundo com leis nada favoráveis a seres de minoria.

Mesmo assim vai além da submissão à força. Os humanos são seres racionais, apesar de estarem numa camada inferior da outra espécie, e o conto aproveita essa característica ao demonstrar a relação com os Tlics. A espécie submissa ainda pode argumentar, pois são ouvidos pelos alienígenas interessados em buscar o consentimento. Ainda pode haver diálogo, e assim a autora mostra caminhos a melhorar de vida, mesmo sob as piores e extraordinárias situações.

Bloodchild exercita a humanidade mesmo sob dominação de seres superiores. Traz temas desconfortáveis na reflexão gerada durante a leitura de ritmo consistente tanto de escrita, quanto de construção do enredo neste conto.

“Eu sabia que o nascimento era doloroso e sangrento, não importa a maneira”

* Conto lido e analisado no idioma original (inglês)

** Citações traduzidas pelo resenhista

Bloodchild - capaAutora: Octavia E. Butler
Ano de Publicação Original: 1984
Edição: 2014
Publicado por: Headline Publishing Group
Gênero: ficção científica / conto
Quantidade de páginas: 31

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