O medo vem do desconhecido. Escapa da lógica, vislumbra algo distinto e teme ameaças infundadas. Autores aproveitaram esse conceito e despertaram sentimentos no leitor através das palavras, descrições sensíveis de coisas inacreditáveis a existir. Lovecraft foi um desses autores, tomou o desconhecido por ele como fonte das escritas do horror cósmico. Não compreendia imigrantes, nem religiões diferentes da cristã. Quanto aos negros, eles eram sinônimos de horror a Lovecraft, reflexo da visão equivocada do autor, em outras palavras: evidência do preconceito.

Victor LaValle denuncia o racismo de H.P. Lovecraft em A Balada do Black Tom. Publicada em 2016 e trazido ao Brasil pela editora Morro Branco em 2018 com tradução de Petê Rissatti e Giovana Bomentre, a história traz uma reinterpretação do conto Horror em Red Hook. Esta edição inclui tanto o trabalho de LaValle quanto o conto original.

“Ninguém jamais se vê como vilão, não é?”

Charles Thomas Tester é um rapaz negro. Vagueia pelas ruas com a mochila de violão, possui nenhum talento musical e precisa garantir sustento próprio e ao pai debilitado. Charles compreende a realidade onde vive e toma proveito dela, realiza serviços de idoneidade dúbia enquanto disfarça conforme a sociedade o vê, como negro. Robert Suydam enxerga algo distinto em Charles, o convida a trabalhar como músico na festa dele onde virá imigrantes de diversas origens. A oferta de pagamento é tentadora, e algo além do trabalho atrai Charles a Robert, como a capacidade arcana do anfitrião e o Rei Adormecido venerado por ele. Thomas Tester segue adiante com intenção de responder a todo sofrimento vivido.

A segunda parte do romance foca no ponto de vista de Malone, detetive policial a investigar o caso de Robert Suydam. Malone aborda Thomas no meio das atividades suspeitas e fica surpreso nas próximas aparições do rapaz negro durante o confronto contra as consequências dos atos feitos por Robert.

“Precisamos saber, mesmo que isso nos condene”

LaValle tem narrativa concisa. Descreve ações e conta como Charles sente nas situações enfrentadas pela sua condição, isso sem exagerar nos verbos de pensamento nem abusar de adjetivos, apenas entrega a história com ritmo dinâmico.

Focada em Charles, a primeira parte mistura a fantasia do horror cósmico à realidade vivida por pessoas semelhantes ao protagonista, cuja falta de oportunidades leva a seguir outras opções de vida, essas ainda com consequências graves. No decorrer da segunda parte revemos Charles Thomas transformado, no entanto ciente da vivência dele antes desta nova situação. A conclusão da história alinha a parte de Malone conforme o conto original enquanto aproveita em demonstrar mais da realidade vivida por pessoas como Thomas.

“É uma babel de som e sujeira”

O Horror em Red Hook conta a história de Malone, mostra o detetive atingido pelo horror e só depois contextualiza a aventura responsável por deixá-lo assim. De narrativa investigativa, explica a situação presente em Red Hook e apresenta o caso de Robert Suydam a ser desbravado por Malone.

A escrita de H.P. Lovecraft marca o horror em longas descrições e usos de adjetivos, sendo os negativos sempre presentes junto ao termo imigrante e negro. De leitura compreensível durante boa parte do conto, as descrições ficam confusas quando começam a contar o horror vivido por Malone, pois o ritmo do texto muda conforme distorce a realidade graças as ações de Robert Suydam. Pouco fica claro, e esta situação até fica de acordo com a proposta do horror cósmico, da humanidade enfrentar algo além da compreensão. Das poucas noções assertivas, está o medo de Lovecraft inspirado pelo preconceito contra os negros, usados nas descrições nesses momentos como algo maléfico, presentes ao lado de Robert, todos contra Malone, e sempre interligado com adjetivos pejorativos.

“Com todos os meus sentimentos conflitantes”

A Balada do Black Tom conta a história de Thomas, inexistente no conto original e cerne da discussão levantada pelo autor ao recontar uma história de Lovecraft. LaValle segue o desfecho de Malone conforme o original, mas aproveita a descrição rasa nas questões do horror e recria a cena fantástica. O pejorativo dá lugar a dificuldades enfrentadas por pessoas como Charles Thomas, essas ignoradas a ponto de especular realidades horrendas por causa de preconceito.

A Balada do Balck Tom - capaAutor: Vicor Lavalle
Ano da Publicação Original: 2016
Edição: 2018
Editora: Morro Branco
Tradutor: Petê Rissatti
Tradutora de Horror em Red Hook: Giovana Bomentre
Quantidade de Páginas: 190

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