Pessoas têm as vidas interferidas pelos outros e aprendem a conviver, senão a situação piora a todos, ainda mais para elas. Entram no novo mundo onde conhecem pouco quem as trouxe, piora quando o mesmo também pouco sabe do próprio objetivo ou de onde vive, nada além do mundo seguir adiante e algo os levar ao destino. 

Dá o nome a este algo de Ka, razão de coordenar as condições dele e das pessoas escolhidas pelo Ka-tet, segundo O Pistoleiro. O grupo segue nesta questão de fé, mesmo quando tudo parece ruir, a crença no Ka faz os protagonistas seguirem adiante. Talvez seja algo sobrenatural, quem sabe apenas crença. Felizmente eles pensam na primeira opção ― pelo menos neste volume ―, senão perderia muito da força e confiança extraordinárias; o Ka sumiria com o menor indício de descrença. 

As Terras Devastadas prossegue a história de Roland de Gilead com o grupo feito por ele no volume anterior de A Torre Negra. Publicado em 2005, é a terceira parte da grande saga fantástica escrita por Stephen King, o escritor mestre do suspense e terror. 

As Terras Devastadas - Capa

As lições mais lembradas são aprendidas por si mesmo  

A história avança alguns meses antes de ser contada. Susannah e Eddie vivem no mundo de Roland, treinam como Pistoleiros enquanto sofrem problemas individuais. Vozes atormentam Roland e memórias humilham Eddie enquanto enfrentam um ser antigo e buscam maneiras de prosseguir na jornada. 

Roland conta o pouco de seu conhecimento obtido em vida. O mistério se agrava aos colegas ― e ao leitor ― pelo distúrbio de Roland em conflito com duas versões de suas lembranças. Ao menos conseguem o sinal a seguir, um dos seis feixes de luz corridos de um extremo do mundo a outro. Devem seguir o feixe até onde cruza com os demais, e lá permanece A Torre Negra. Só que há As Terras Devastadas pelo caminho. 

Para cada coisa que sei, há cem que não sei  

Quanto mais leio esta saga do King, mais me convenço do quão é injusto classificar esta história como fantasia. O mundo distópico traz novas descobertas conforme eles avançam, artefatos científicos despertam ou persistem no mesmo universo mágico, a crença motiva Roland e reúne os demais protagonistas à sua causa, as cenas de ação causam horror sem perdão a quem seja a vítima, tudo envolto na aura de suspense. Por isso considero A Torre Negra uma obra fantástica

Os novos personagens se mantêm como a ponte entre o conhecimento do mundo comum ao leitor e das histórias e conflitos de Roland. Tensões se acirram com o medo da incompetência e de desconhecer as circunstâncias desta nova vida ou do companheiro velho, extraordinário a ponto de questionar quais as capacidades e limites do mesmo. 

As Terras Devastadas tem mais páginas que o livro anterior, com o quarto volume tendo muito mais. Essas centenas de folhas pesam na leitura e trazem à tona a crítica recorrente dos trabalhos literários do Stephen King. Precisa acontecer determinado evento na história, o leitor está ciente disto, apenas curioso em como acontecerá, mas ainda assim precisa superar parágrafos e até capítulos até alcançar o desfecho. Em A Escolha dos Três, temos tensão a todo momento devido as condições trágicas de Roland enquanto ele deve seguir a jornada, situação que manteve a tensão e o interesse na leitura. Neste terceiro livro falta esta sensação. Pelo menos traz informações novas, histórias paralelas úteis ao enredo, bem como grandes espaços para conhecer os personagens sob diferentes perspectivas e condições. Pena muitos desses trechos serem de pouco impacto, falham em sustentar a longa leitura rumo ao ápice da história. Então chega a surpresa: cadê o ápice?

Nunca é errado ter esperança  

A história de As Terra Devastadas não termina, as últimas palavras entregam apenas expectativas ao quarto volume, ou no meu caso, frustração. As notas do autor falham em consolar, dizem de ele estar ciente de não agradar a todos com justificativa fraca. Ficou como livro incompleto até quando leva em conta de ser a terceira parte da história. 

As proezas e deficiências na escrita de King se misturam em As Terras Devastadas. Acredito inexistir motivos que impeçam algum leitor a seguir adiante na Torre Negra, ainda mais se este já é ciente das características do escritor, e pelos mistérios a serem desvendados neste percurso longo onde acompanharemos Roland. 

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