Esta é a história sobre a protagonista que estando ausente, fica presente como nunca. Propulsora de tragédias, mas sem ela tudo muda. O medo aparece junto às oportunidades de quem cria novas regras ao manter o lucro do trabalho, procurar motivos de manter o serviço quando deixa de ser necessário. A crise escancara os desfalques já existentes, as brechas expostas são flancos, oportunidades de outros grupos atingirem o mesmo tipo de privilégio. Tudo isso porque a morte decidiu ficar ausente. As Intermitências da Morte é o realismo mágico escrito por José Saramago, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2005.

“No dia seguinte ninguém morreu”

Assim que acontece a virada do ano, ninguém mais morre. Mesmo os indivíduos em estado terminal, eles apenas permanecem em agonia. Fora os indivíduos, a sociedade de todo o país sofre as consequências da imortalidade populacional. O atendimento médico sobrecarrega dos internados apenas a acumular, ninguém falece para deixar os leitos vagos. Setores econômicos também sofrem as consequências, entre esses os serviços de funerária e seguros de vida. Religião também perde o sentido de existir sob a ausência da morte. Quase tudo temporário, claro, pois religião e setores econômicos têm os meios de adaptar, elaboram as novas condições possíveis de sustentar a si. Assim ocorre o “novo normal”.

“Ao lado de uns quantos que riem, sempre haverá outros que chorem”

A história já começa pelo acontecimento extraordinário e mostra as primeiras consequências notadas quando a morte deixa de acontecer, havendo outros problemas ainda a serem descobertos, mesmo os existentes desde sempre. Com o tempo surgem ideias a adaptar esta nova realidade, seguindo de discussões e outras consequências, outras brechas expostas da sociedade, essas por vezes sem prejuízo aos capazes de resolver, portanto permanecem presentes. Tudo porque a morte, esta identificada com m minúsculo mesmo, é personagem desta história, e do seu conflito mal resolvido, causa transtornos em todo o país. Sem comentar tanto sobre a apresentação desta personagem na trama, por acontecer em momento tardio no romance e, portanto, revelaria spoilers, quando acontece, dá a oportunidade de mudar tudo de novo, de assustar os demais personagens e surpreender os leitores.

Saramago também é conhecido pelo jeito peculiar de escrever, usando regras próprias ao compor o texto. Compila toda uma cena no mesmo parágrafo, o que pode entender as quebras de página como transição de capítulo. Por estar tudo no mesmo parágrafo, os diálogos também são transcritos de forma contínua, sem travessões, tudo é demarcado por vírgulas, e quando a próxima frase começa em letra maiúscula indica a nova fala de personagem. É fácil de assimilar este padrão, mesmo assim é preciso concentrar na leitura, senão fica perdido no texto de linha contínua e pelas conversas mescladas. São empecilhos temporários, basta acostumar e talvez voltar a ler frases anteriores caso se confunda, por outro lado esta forma de escrever traz vantagens além das aparentes dificuldades. Proporciona a leitura fluida, contínua por toda a cena, o diálogo fica dinâmico sem a transição entre a voz do narrador e a do personagem, por vezes elas mesclam no sentido proposto da frase, fornecendo essa nova perspectiva de escrita.

As Intermitências da Morte tem muito a falar da personagem morte em minúsculo e o impacto dela tanto na presença, quanto ausência. Toda a sociedade afetada é retratada feito unidade na narrativa de Saramago, cada parte desta retratada no pedaço correspondente do texto sem quebrar a linha em novo parágrafo enquanto tratar dela. O texto fisga a leitura, incentiva acompanhar a trama sem parar até descobrir o desfecho de tudo o que acontece.

“A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste”

Capa de As Intermitências da Morte Autor: José Saramago
Ano de Publicação: 2005
Editora: Companhia das Letras
Gênero: realismo mágico
Quantidade de Páginas: 208

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