O quanto sabe das culturas indígenas? Vivemos no mesmo território e ainda assim desconhecemos as características desses povos. Vemos até equívocos sobre suas mitologias. Por isso exemplos que homenageiam e apresentam informações corretas sobre os povos indígenas são bem-vindos, como é o caso deste livro.

Araruama: O Livro das Sementes é o primeiro volume da saga indígena onde sete tribos convivem sobre o corpo de Ibi. Publicado em 2017 graças ao sucesso na campanha de financiamento coletivo.

Araruama: O Livro das Sementes - capa

Ian Fraser é de etnia caucasiana, mas admirador dos povos cujos pés andam por nossas terras há mais tempo. Além deste livro, conseguiu arrecadar dinheiro e também publicou o segundo volume de Araruama por financiamento coletivo.

As palavras são as sementes das histórias, e as histórias são frutos do homem  

Sete tribos compartilham o espaço de Ibi, filha da deusa do tempo Monâ que é disputada por outros dois irmãos, o Aram da luz quente (sol) e Airequecê da luz fria (lua). Cansada da briga entre os filhos, Monâ concebe o filho em Ibi chamado Votu, o ar responsável por separar os irmãos e criar os ambientes de dia e noite. Entretanto a rixa entre Aram e Airequecê permanece através dos humanos, pois certas tribos correspondem a um dos filhos do sol, e outras aos da lua.

As pessoas de Ibi são concebidas com a ajuda da Majé, que possui irmãs de mesmo nome. Cada irmã realiza o ritual do parto na tribo correspondente. A Majé recebe visões compartilhadas da própria Monâ, dentre elas a presunção de quanto tempo o recém-nascido viverá, e então conta aos pais a quantidade de aman paba da criança.

O aman paba também determina a hierarquia da pessoa. Quanto maior o valor, maior a hierarquia na tribo. As castas intermediárias realizam trabalhos braçais, seja construção, colheita ou pesca. Já os que sequer chegam a vinte aman paba são chamados de capanema, condenados à vida breve e restritos a servir com funções simples até chegar a hora da morte, jamais considerados adultos e desprovidos de qualquer aprendizado.

Com tanta riqueza desta cultura singular aos nossos olhos, há ameaças de uma nova era. O futuro condenará muitas pessoas, além de reparar os erros que os costumes tradicionais causam. 

A única forma de se preparar para o amanhã é fazendo o hoje  

A escrita encanta logo nos primeiros capítulos. Ian Fraser aproveitou a abordagem da história de povos diferentes do nosso e adaptou a linguagem deles na escrita, tornando-a distinta como a cultura apresentada. Tem o vocabulário específico das tribos exposto ao longo do texto como alguns já citados na seção anterior, e ainda tem palavras em português contando os eventos no ponto de vista deles, demonstrando conceitos novos sobre algumas palavras, como os significados de ontem e amanhã.

Acompanhamos a vida de vários moradores das diversas tribos, todos protagonistas apenas de seus momentos. É possível conhecer mais deste território estrangeiro que é a cultura conterrânea através das aventuras de cada morador. Abordar a vida desses personagens toma tempo, e por isso demora a revelar qual o conflito capaz de tirar os habitantes de Ibi do lugar comum.

Isso torna a progressão do enredo indireta. Em vez de traçar a reta, desenha a trama na forma de espiral, onde leva tempo até dar a volta e avançar a história de todos os personagens. Pode parecer algo negativo, e para quem prefere narrativas objetivas é de fato, mas compensa pela apresentação dos comportamentos e pontos de vistas da cultura singular.

Araruama: O Livro das Sementes nos mostra as características ancestrais de povos com perspectivas diferentes da nossa. Ainda por cima entrega uma trama que embora devagar, incentiva a conhecer os personagens e da vida dessas tribos em geral. 

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