A tecnologia traz consigo novos meios de entretenimento, inspira outras maneiras de as pessoas interagiram entre si. Isso acontece desde os avanços da internet, com avatares representando a pessoa nos perfis sociais. Começou por meio de textos, logo evoluiu a postagens mais elaboradas e com imagens, vídeos e transmissões ao vivo de palestras ou jogatinas, e na realidade proposta da vez transmite até o sonho da pessoa! Sem mais custos de produção ou efeitos especiais, os usuários apenas assistem as imagens criadas durante o sono de alguém. Curte, comenta e compartilha as melhores transmissões, e assim torna o sonho público, vira entretenimento, causa obsessão em ter mais seguidores, ser mais famoso, alcançar o topo do ranking; pouco importa as consequências, as amizades e saúde perdidas. Ainda bem que estou falando de ficção, não é verdade?

Adágio é uma HQ futurista onde existe essa rede social baseada no streaming de sonhos. Publicado em 2018 pela editora Avec sob o roteiro de Felipe Cagno, ilustrado por Sara Prado e Brão e colorido pela Natália Marques, a história extrapola os males já conhecidos pela interação cibernética na vida real nesta história onde transmitem os sonhos pela internet.

“Você sonha, a gente compartilha”

Kaya é amiga de Penelope, as duas estudam na mesma faculdade. Pen trabalha como estagiária na divulgação de patches — pacotes — de sonhos os quais os usuários podem baixar e vivenciar o ambiente produzido naquele sonho e então compartilhá-los na rede social Adágio. Kaya inveja a amiga por viver tais sonhos e com isso ter popularidade, enquanto ela nunca consegue ter sonhos lúcidos, apenas pesadelos.

Ao frequentar uma festa com os demais colegas, Kaya é apresentada ao pó-de-fada, droga que potencializa o sono ao manter o cérebro do usuário ativo. Ela experimenta e vivencia os pesadelos como nunca antes. Resultado: a transmissão deste sonho atrai grande público da internet e torna Kaya famosa da noite para o dia. Feliz com a conquista, tentará permanecer em destaque na rede Adágio, e com isso trará consequências.

“Contar o sonho não é a mesma coisa que mostrá-lo”

A HQ apresenta a situação dos relacionamentos de Kaya e as mudanças nesses conforme a popularidade de seus pesadelos. Vemos alguns aspectos futuristas à parte, como as roupas distintas dos jovens, bem como conceitos de carros e moradias próprias daquela realidade; tudo sendo pano de fundo ao contexto principal: a interação na rede social. Conflitos pessoais acontecem pela falta de privacidade, considera o contato bloqueado na rede social uma ofensa, enxerga o anonimato como fracasso e ficam cegos quanto as consequências de permanecer em destaque nas condições impostas, pois tudo é espontâneo.

A arte produzida em aquarela realça os traços futuristas e aproveita os sonhos e pesadelos dispostos na HQ para representar elementos próprios da fantasia e terror. As combinações diferentes de cores ilustram as diversas sensações da protagonista no decorrer da HQ. Falha um pouco no quesito terror, pois enquanto os quadros demonstram o medo no olhar da protagonista, provoca nenhum sentimento semelhante ao leitor, apenas passa a informação do transtorno de Kaya.

Adágio discute problemas atuais através da interação digital nesta realidade onde nem os sonhos escapam da privacidade. Esta novidade atrai os jovens obcecados por diversão e sensações inéditas, enquanto levam outros a fazer de tudo para proporcionar tal experiência aos seguidores e assim conquistar a fama quando há questões relevantes próximas a eles, no mundo real.

“Sonhos são tão íntimos, pessoais, reveladores. Você postaria o seu sonho online? Teria coragem?”

Adágio - capaRoteiro: Felipe Cagno
Desenho: Sara Prado e Bräo
Cores: Natália Marques
Editora: Avec
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 112

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