Começo saudando aos escritores valentes, dispostos a encarar o NaNoWriMo, desafio de escrever um romance no mês de novembro. Parabéns! Independente de terem concluído o romance ou não, já foi ótimo participar. O desafio permite repensar a rotina de escrita e avaliar o quanto esta atividade é importante ao escritor. De meta ousada, cobra além da realidade disposta à maioria, nem sempre por desleixo, comodidade ou falta de vontade; todo indivíduo tem responsabilidades que precisam priorizar ao garantir a renda particular ou até da família, algo garantido pela carreira literária apenas a mínima parcela de escritores consagrados.

Eu terminei a nova tentativa de romance. Com total de 40 mil palavras, cheguei próximo à meta de 50 mil do NaNo, e mesmo assim encerrei a jornada antes do mês acabar. Eu planejei o romance nos meses anteriores e já o considerava a história curta desde o começo, inclusive previ esta quantidade de palavras. Minha justificativa foi pelo elemento sobrenatural demorar a aparecer na história, e se esta fosse maior ainda, poderia desanimar os leitores a encarar longas páginas até ver o elemento central do gênero. Afinal não sou nenhum Stephen King nem qualquer outro autor que tenha feito algo do tipo depois de comprovar qualidade na escrita mesmo prolixa. Quando for retomar este romance, avaliarei a necessidade de incluir novas cenas após a aparição sobrenatural.

E falando em retomar, o objetivo deste texto é este mesmo: o que fazer depois de terminar o romance iniciado no NaNoWriMo? Listo as etapas as quais pretendo cumprir, talvez alguma seja interessante a você, colega participante do NaNo ou colega escritor, sobre como lidar com o livro depois de concluído o rascunho do manuscrito. Longe de te impor a imitar os meus passos, a intenção é incentivar a ter ideias, maneiras de lapidar a partir do que ver aqui. Também esteja a vontade a compartilhar na seção de comentários caso pretenda fazer algo diferente.

Qual trilho seguir? - NaNoWrimo

Há mais de um caminho depois do NaNo

Após NaNoWriMo: Edição, Leitura, Revisão, Revisão e Revisão

Sim, o processo seguirá próximo desta ordem. Digo próximo pois a primeira revisão e leitura podem acontecer no mesmo período, enquanto as demais etapas acontecem entre intervalos de tempo. Trabalhar no romance de forma constante poderia desgastar o autor e até viciá-lo no texto, deixando passar erros crassos na hora de submeter a futuros avaliadores, por vezes sobrar até mesmo aos leitores, dependendo do preparo antes da publicação.

Apesar disso, já estou realizando a primeira etapa, a edição. Na verdade são edições específicas, pois determinadas partes do texto foram escritas sem ater aos detalhes de cenário. Demarco os pedaços a averiguar com citações entre colchetes — [desta forma]. Já vi autores destacando de outras formas, como colocando uma palavra particular quando precisa editar e colocar mais detalhes depois, seja “melancia” ou “elefante” no meio do texto, por exemplo. Prefiro do meu jeito, não por eu ter receio de colocar de fato um elefante no meio da ambientação agreste do meu romance e acabar confundindo na hora de editar, o faço por ter a liberdade de esclarecer ao eu do futuro o que preciso arrumar em determinada parte do texto. Na verdade eu coloquei colchetes inclusive neste texto, esses vistos e editados antes de agendar a publicação da versão final no blog.

Elefante ou colchete - NaNoWriMo

Elefante ou colchete: escolha sua caçada

Foi inevitável plantar colchetes no romance. Por mais pesquisas prévias feitas, sempre tem algo na hora da escrita mais específico, exige mais estudo. Ainda mais neste caso por eu escrever este romance de contexto histórico, diferente no quesito tecnologia, costume, vestimenta, político e outros capazes de interferir no romance. Considero desnecessário guardar o texto na gaveta neste momento por eu cuidar apenas de pedaços pontuais da história, na verdade aparando as pontas deixadas na escrita contínua para de fato terminá-la, depois deixo intocado por pelo menos um mês antes de realizar a revisão.

Pausa, preparo, ação!

O manuscrito descansa na gaveta, já eu prossigo na labuta sobre a escrivaninha. Jamais pararei de escrever, continuarei elaborando resenhas, escreverei novos textos ao blog conforme necessidade, e tentarei elaborar contos capazes de participar em alguma seleção de antologia no próximo ano. O mais importante é continuar escrevendo, manter a atividade e evitar a hibernação, senão sofreria ao começar outro projeto de escrita ― já aconteceu comigo, quem nunca?

Também vou aproveitar este intervalo para começar as leituras de livros capazes de me ajudar a avaliar certos pontos executados no romance. Já comentei haver elementos sobrenaturais e do romance contar a história no ambiente agreste. Também disse de ter contexto histórico, sendo mais específico, referente a primeira metade do século XX. Então por ser obra de ambientação brasileira e com aspectos de fantasia, tenho em mente os seguintes livros de referência futura: A Fúria dos Reis, livros de Graciliano Ramos no geral, e Madame Bovary.

Ler e Aprender - NaNoWrimo

Ler e Aprender

É fácil reconhecer o motivo de ler Graciliano Ramos, por conta da abordagem regionalista de seus trabalhos; também o lerei por ele ser escritor alagoano, mesmo estado por onde acontece a maior parte de minha história. Já li S. Bernardo antes do NaNo e aprendi aspectos da ambientação já incluídos nesta jornada da primeira versão do manuscrito, inclusive usei termos locais aprendidos na leitura, e pretendo aprender mais elementos alagoanos direto da pessoa que viveu em período próximo ao do romance e do lugar correspondente.

E o que essa fantasia medieval e o clássico da literatura francesa poderiam ajudar na revisão do meu livro? Na verdade é por eu usar certos recursos narrativos e pretendo revisá-los a partir de obras reconhecidas por esses. A Fúria dos Reis será útil para eu ver como George R. R. Martin focou na perspectiva de cada personagem. Executei a narrativa em terceira pessoa focada apenas no personagem principal, e por George Martin alternar todo o calhamaço em diversas perspectivas, terei vários exemplos de abordagem por meio de um mesmo livro. Já li este segundo volume das Crônicas de Gelo e Fogo e até o elegi entre minhas melhores leituras de 2018, mas como retomei a leitura da saga desde o começo, aproveito e atendo duas metas na mesma leitura.
P.S: Não garanto eleger A Fúria dos Reis entre as melhores leituras de novo, pode ter outros livros espetaculares na concorrência.

Agora sobre Madame Bovary, foi por ter ousado ― confesso eu ser meio teimosos quanto a isso ― usar o discurso indireto livre enquanto escrevia. Já tentei fazer isso no meio do NaNoWriMo passado, gostei da ideia apesar de reconhecer a necessidade de aperfeiçoar. Por isso preciso recorrer a ótimos exemplos desta abordagem. E qual seria melhor senão o provável pioneiro do discurso indireto livre? Claro, posso pegar outros bons exemplos a usar deste recurso, caso conheça algum, indique nos comentários!

Revisar, revisar, revisar…

Ainda estarei lendo esses livros de referência ― e outros pela demanda por escrever resenhas para dois blogs ― quando começar a realizar a primeira revisão, quando farei leitura atenta do meu texto. Pretendo caçar os erros mais absurdos de ortografia, apesar do foco estar em avaliar o ritmo da história, segmento e prováveis furos de enredo, bem como analisar onde posso acrescentar novas cenas e onde devo tirar. Muitas ideias “extraordinárias” na hora da concepção do manuscrito podem ser desnecessárias na verdade. Mesmo adorando determinado elemento, preciso atentar à importância no todo, e descartá-lo caso falhe; em suma, devo matar meus queridinhos.

A segunda revisão é a mais trabalhosa, pelo menos o retorno vale a pena por transformar o texto de rascunho em obra literária ― ou pelo menos tentar. Tenho uma lista de palavras as quais caçarei capítulo por capítulo e diminuir a reincidência delas ao máximo possível. A intenção vai além de prevenir a repetição de palavras na versão final, pois também podem comprometer o ritmo da leitura ou entregar experiências rasas ao leitor.

Parte da lista corresponde aos verbos de pensamento, item já criticado neste blog. Pela narrativa focar na perspectiva do protagonista, é melhor deixá-lo ativo, participar da história em vez de ele ser o espectador daquele mundo. Por isso ele sempre deve agir, demonstrar sentimentos em vez de citá-los ao leitor. Aqui também entra o uso do discurso indireto livre, pois há perspectivas do protagonista interessantes de expor, e nem por isso devo ficar dizendo ao leitor que Nicolas pensou isso, imaginou aquilo; posso tornar essas passagens mais agradáveis, misturá-las ao texto em vez de alternar entre parágrafos de ação e de reflexão.

Expor ideia - NaNoWriMo

O romance não é um arquivo de slides que informam as ideias dos personagens

Ainda a evitar de tornar Nicolas o espectador da própria história, outra parte da lista refere a verbos correspondentes aos sentidos humanos. Nicolas não vai apenas olhar, ouvir, sentir e cheirar o mundo ao redor, precisa interagir com o ambiente. Caçarei essas palavras para garantir a maior interação possível e garantir um mundo vivo. Passamos da época quando os textos literários deviam desenvolver parágrafos rebuscados de descrição estática, quer dizer, o escritor contemporâneo pode fazer isso também, só lembre de considerar o risco de atrair menos leitores com esta abordagem.

Já a terceira revisão seguirá no ritmo da primeira. Depois de editar tantas vezes o livro, é melhor prevenir de possíveis desleixos de escrita que passaram despercebidos durante as alterações. Ainda pode haver pontas soltas, algumas criadas com essas edições ou ainda despercebidas desde o começo, então irei à caça delas!

Com tanta revisão assim, preciso ter cuidado. Posso comprometer a história caso eu mude muitas cenas, muitas vezes. Pode ser sinal de falha no planejamento de enredo, ou exagero de minha parte devido a insegurança em trabalhar no romance. Por isso defini essas três revisões e o respectivo objetivo delas, assim tenho ideia de onde pretendo mexer e fico ciente de quando parar. Também pretendo submeter o texto a uma análise profissional, com alguém capaz de ler meu romance sem os meus vícios e conseguir apontar onde de fato continua ruim. Ao passar desta etapa, é possível correr atrás da publicação do livro nascido no NaNoWriMo.

Epílogo

A jornada do NaNo é ínfima ao que ainda está por vir. Acredito da maioria dos autores amarem o romance escrito por eles, e esse amor deve refletir ao cuidado semelhante ao próprio filho, dá muito trabalho criá-lo, de vê-lo engatinhar até viver independente, longe do papai para as livrarias físicas ou onlines. Aproveitando minha citação a Madame Bovary, o autor Gustave Flaubert demorou seis anos até concluir este romance, cujo tempo foi previsto por ele; e essas etapas citadas podem nem durar um ano inteiro, então todo esforço ainda resulta da prática humilde comparada a um dos trabalhos canonizados pela literatura clássica. Se ainda assim acha ser demais ter tanto trabalho a frente ― ou do quanto empenhará no seu romance através de outros meios ― lembre: o mais importante já fez através do NaNoWriMo: começou a escrever sua história.

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