Aqui vai outro XP de Escrita com puxões de orelha! Um terço das minhas leituras do ano até o momento foram de livros nacionais. Eu tenho o maior carinho por eles e torço para eu eleger algum desses como a minha melhor Experiência Literária do Ano, só que não premiarei tal obra apenas pela autoria conterrânea, o livro deve provar seu valor a alcançar o topo entre as dezenas de histórias conferidas. Por carregar essa ansiedade, por vezes me entristece conferir um livro nacional e avaliar o quanto ele poderia melhorar, o pior mesmo é eu ficar cansado de criticar os mesmos problemas em cada livro. Acontece com livros internacionais também — inclusive com best-sellers vencedores de prêmios —, porém vejo certo desleixo nas obras escritas por aqui pela recorrência da situação.

Listo neste post três dos problemas mais comuns nas minhas últimas leituras de livros nacionais. Longe de desprezar tais obras por esses erros, minha intenção aqui é incentivar os escritores a melhorar sua escrita e assim evoluir a qualidade dos nossos livros.

Advérbios terminados em “mente”

Stephen King critica os advérbios por serem redundantes na cena. O contexto de todo o parágrafo já determina a intensidade da ação citada no verbo sem precisar do advérbio. O autor caça os advérbios na revisão feito inimigos mortais da escrita literária, e isso deixa os longos livros prazerosos de ler, com frases dinâmicas graças a limpeza empenhada por King.

A regra vale na língua portuguesa também, e a nossa tem outro agravante sério: os advérbios terminados em “mente”. Exatamente, milagrosamente, paralelamente, irritantemente. É extremamente angustiante ver essas palavras no texto literário, elas quebram todo o ritmo de leitura devido a extensão da palavra, maiores do que qualquer outra disposta no mesmo parágrafo. O custo é alto e traz pouco significado, quando eu reviso meus textos e identifico essas palavras, eu consigo substituí-las por — pasmem — nada, apenas retiro a palavra e mal perco o significado da frase. Haverá casos quando fará falta ao tirá-los, então veja a possibilidade de trocar a palavra por um sinônimo mais curto, e se aquele advérbio é o termo apropriado naquela situação, então deixe-o. Faça isso e verá como terá poucos advérbios em “mente” no texto, depois leia em voz alta e perceba a mudança no ritmo da leitura. Lembre de me agradecer depois.

Verbos de Pensamento

Este problema vem da dica do escritor Chuck Palahniuk, que emplacou o segundo lugar nas minhas melhores leituras de 2018 com o livro Clube da Luta. Vários sites traduzem o conselho de Chuck na íntegra, acessível a qualquer escritor brasileiro conferir, e mesmo assim enlouqueço de ler esses verbos tantas vezes.

Verbos de pensamento resumem as ideias e sentimentos do personagem, e o problema está na palavra resumir. Ninguém abre um livro de ficção esperando a síntese de uma história, e sim acompanha cada triunfo e problema do personagem, sofre com ele e fica a mercê da catarse da vitória ou chora no fim trágico. Como o livro vai provocar essa explosão de sentimentos no leitor quando a descrição limita a dizer como o herói acha o vilão feio e gosta da garotinha indefesa, esta que se preocupa pelo bem-estar do herói enquanto ele quer apenas um mundo melhor? Não funciona!

Esses verbos são atalhos de descrições e atrasos da qualidade literária. Evitá-los o levará ao caminho da metodologia de mostrar a situação ao leitor ao invés de contá-la — o famoso show, don’t tell. Longe dessa abordagem ser obrigatória, eu elogiei A Parábola dos Talentos com a narrativa descritiva, e mesmo neste livro há poucos verbos de pensamento, sem falar na capacidade da autora em impactar o leitor por contar as piores situações vividas pelos personagens, causa desconforto quando esta é a intenção da cena. Francine Prose — autora de Para Ler Como Um Escritor — também defende a ideia de narrativa descritiva nos momentos que é melhor citar as situações pouco importantes naquela cena e focar no objetivo daquela parte do texto. Em suma, demonstre domínio e direcione sua intenção na escrita, e fará isso moderando os verbos de pensamento.

Siga o conselho de Chuck reforçado aqui. Odeie-o, odeie-me. Tire esses verbos e desenvolva os parágrafos a expressar o pensamento ao invés de condensá-lo na única palavra, depois leia, compare com a versão anterior, e entenderá o porquê de eu criticar tanto nas resenhas quando vejo abuso nos verbos de pensamento.

Impor mais peso no enredo do que nos personagens

Essa crítica é importante, pois aconteceu também na última temporada de Game of Thrones — até grandes produções cometem erros. As grandes reviravoltas no enredo têm o poder de surpreender o leitor. O problema ocorre quando vem a pergunta “o personagem faria tal coisa mesmo?” e não encontra a resposta. O enredo apelou a reviravolta sem dar a devida motivação ao personagem.

Toda história deve desenvolver os elementos essenciais da narrativa em conjunto, ficará nítido ao empenhar em um e fraquejar nos demais. Nem preciso dizer o quão horrível é o leitor descobrir a falha narrativa do autor, compromete a expectativa envolta da obra e a credibilidade de quem a construiu. Quando vi a transformação da Daenerys no término do seriado eu refleti: “isso seria legal, se tivesse me convencido”, mas os poucos episódios falharam em desenvolver essa nova característica dela.

Livros são mais flexíveis ao tamanho da história, então o escritor precisa desenvolver a motivação de cada personagem, mostrar os conflitos deles e alimentar justificativas da mudança radical. Quando acontece a reviravolta, é preciso sustentar os argumentos dela, seja pelas explicações posteriores ou remeter a eventos anteriores e demonstrar como existia o prenúncio da mudança. Deixe-me falar de Clube da Luta de novo, o livro faz a revelação que vira a história do avesso, e conforme lê os parágrafos seguintes, percebe como todos os indícios estavam lá e respondem as inquietações provocadas na revelação.


Esses são os problemas encontrados nas minhas leituras de livros nacionais. As histórias ainda tiveram a sua qualidade, pois demonstrei também quais foram os acertos delas nas respectivas resenhas. Evitei de listar quais livros eu vi os erros pois quero evitar de denegrir tais livros com o foco negativo deste post, ainda acredito no potencial dos escritores brasileiros e espero este texto ajudar alguém a melhorar a escrita.

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