Deixe-me desenvolver a metáfora e justificar o título. Escritores restritos ao território brasileiro estão na caverna que representa o nosso país; eles leem inúmeros livros com o intuito de aumentar o próprio repertório, esses livros são as sombras na parede da caverna, essas disponíveis através da fogueira de fogo fraco, prestes a apagar, pois a fogueira representa as editoras que trazem os livros ao público, prejudicadas com a crise do mercado editorial. Devido a esta dificuldade, os escritores falham em acompanhar as tendências mercado afora, poucas novidades literárias chegam ao Brasil, sem falar dos livros escritos décadas atrás e só agora chegam aqui, como a da Octavia Butler.

Autores conterrâneos pegam as obras disponíveis, inspiram-se nelas e sonham em criar histórias com o mesmo nível de qualidade. Digo até haver muitos capazes disso, e teremos pouca oportunidade de conhecê-los por pecarem na diversidade. Muitas fantasias nacionais sobre mundos medievais focam em aspectos dos reinos ingleses ou na cultura nórdica, consequência dos autores consumirem esses livros internacionais disponíveis aqui. Já os leitores terão de decidir entre conferir o trabalho de autor já consagrado no mundo todo ou do brasileiro a dar seus primeiros passos na produção literária que também se inspira na primeira opção.

A realidade é tenebrosa, entretanto quero sugerir a outra perspectiva, deixar de ver esta situação como dificuldade e vislumbrar as oportunidades na cara de todos. Sim! Há mais de uma alternativa, e explicarei quais são a seguir.

Saia da caverna

Uma boa opção é sair da caverna, livrar da comodidade e dependência de ler apenas histórias traduzidas ao nosso idioma e encarar os lançamentos internacionais na língua de origem. Reconheço a dificuldade ao aprender outro idioma além do português, eu mesmo só consigo ler em inglês se for texto mais técnico ou conteúdo áudio-visual — com legenda em inglês —; preciso praticar com mais livros, na verdade até já comecei com Hamlet. Superando esta condição, o acervo de histórias a explorar é bem mais do disponível no Brasil, e possibilita até de prever quais tipos de livros poderão chegar no país ou se não chegarem, fazer a história deste tipo e publicar aqui.

Outra saída me cativa mais, pois além do meu nível de poliglota ser ínfimo, também vi ótimos exemplos deste estilo. podemos desenvolver mais histórias no ambiente brasileiro ou valorizar a nossa linguagem/cultura. Assim os livros brasileiros terão algo diferente dos livros internacionais, melhor ainda, apresenta algo único aos leitores. Deuses Caídos de Gabriel Tennyson mostra as ruas do Rio de Janeiro com as criaturas nefastas do nosso folclore ou adaptadas à nossa realidade; Ian Fraser mostra a cultura indígena em Araruama e ainda proporciona uma linguagem poética mesclando palavras e significados das tribos com a narrada em português; e ainda temos criaturas sanguinárias em contextos históricos, como o Lobisomem de Clecius na Revolução Farroupilha e o Dom Pedro transformado em vampiro de Nazarethe. Todas as obras citadas estão resenhadas e reforço a qualidade, mesmo assim ainda há outros inúmeros aspectos da cultura brasileira inexplorados pelos escritores.

Nem tudo são flores

Temos alternativas interessantes e ótimas oportunidades, mas existe o contraponto que nos joga o balde de água fria. Os leitores estão na caverna junto com os escritores, e quando estes verem o que existe fora dela, com obras originais e diferentes da sombra reproduzida pela fogueira/editoras, eles ficarão incomodados. Por precisar sair da zona de conforto, acharão esses livros diferentes demais, ligarão o botão do preconceito e repetirão asneiras sobre a nossa cultura ou do escritor querer inventar demais quando na verdade só bebeu da fonte ainda indisponível no Brasil. É triste evidenciar tal realidade, e desta vez fica difícil mudar a perspectiva, sem alternativas senão confrontá-la.

O Mito da Caverna de Platão conta de os confinados terem os olhos agredidos pela luz potente do sol, esta cheia de conteúdo diferente do habitual. Apenas os confinados capazes de perseverar e acostumar com a luz solar poderão ver quão maravilhoso é vislumbrar os livros feitos pelos brasileiros sem ter o limite dos que chegam cada vez menos pelas sombras da fogueira.

Precisamos incentivar a saída dos leitores a esta caverna imposta. Já temos escritores com escrita de qualidade no mesmo nível que certos lançamentos internacionais, basta convencer mais pessoas a darem chance a eles. Sabe a fogueira de chamas fracas das editoras? Com a popularidade de autores nacionais, editores terão menos receio de publicar livros escritos por brasileiros, cujos valores em direitos autorais são bem mais em conta comparado aos conhecidos pelo mundo todo; conseguindo boas vendas desta forma, tirará as editoras da crise e até com dinheiro o suficiente para investir nos lançamentos internacionais, além de concluir as sagas pendentes e já disponíveis lá fora.

Talvez eu abuse do otimismo — alguns já me disseram isso. Mesmo se as ideias compartilhadas neste post derem certo, tomará muito tempo até engrenar e trazer melhores resultados a quem deseja viver de escrita no Brasil. As crises sempre acontecem, e nessas há uma parcela dos envolvidos capazes de tirar vantagem e transformam todo o meio. Só torço que a transformação seja para melhor.

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