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Não Pare! (debut da saga escrita por FML Pepper)

Ter a vida repleta de segredos nunca revelados é complicado. Sempre quando algo deste segredo aproxima, acontece a mudança no sentido literal, mudança de casa, cidade, país. O desconforto só aumenta, ainda mais ao sofrer traumas quase mortais a todo momento, tudo decorrente dos segredos, cujas descobertas resultam na jornada da garota a enfim conhecer quem ela é. Não Pare! é o primeiro volume da trilogia ― além do quarto livro spin-off ― escrita por FML Pepper, autora brasileira de destaque na plataforma da Amazon quando lançou este livro em 2012.

“Ninguém da minha idade está preparado para morrer”

Nina Scott mora em Amsterdã junto da mãe Stela, profissional responsável pela produção de lentes oculares avançadas, serviço que demanda trabalhar em diversos lugares do planeta conforme a necessidade, segundo a mãe. Assim a filha adolescente e a mãe mudam de lugar a todo momento, inclusive acontece de novo depois de Nina quase sofrer um acidente fatal, o próximo destino seria Nova Iorque.

Desanimada de enfrentar outra vez a rotina de escola nova e logo ir embora a outro lugar, Nina fica surpresa quando a mãe diz permanecer de vez nos Estados Unidos. A animação tem prazo curto, pois os segredos ocultos a Nina em seus quase dezessete anos de vida serão revelados, sobre entidades residentes a um plano dimensional oculto à maioria dos humanos, e sobre a ambição alheia desses seres de tomarem a vida da garota.

“Nós somos a antítese da vida, todo nós”

A Nina narra a história em primeira pessoa. Começa sobre a tentativa de seguir a vida normal apesar das dificuldades da mudança constante e os acidentes evitados por pouco. A narrativa oferece a descrição das cenas e o que a Nina pensa naquele momento, demonstra a espontaneidade da protagonista adolescente e quanto a preocupações pertinentes a moças desta idade. Já o excesso de descrições físicas nos personagens apresentados na história engessa a narrativa, prolonga as cenas ao citar detalhes pouco relevantes da história. Variados verbos de dizer acompanham os diálogos, expressando o sentimento do personagem no momento da fala, sendo nem sempre essenciais, e assim alonga o texto. Os capítulos terminam com uma frase disposta a atrair o leitor ao próximo capítulo, também conhecido por gancho, recurso interessante de usar ao narrar cenas de tirar o fôlego e em seguida promete ao leitor que terá mais no próximo capítulo, ou sob estratégias semelhantes. Já neste livro fica apenas a repetição do recurso, isso diminui o impacto por ficar óbvio, ainda mais quando a frase de engajamento vem solta, pois o capítulo poderia terminar sem ela e já seria o suficiente ao desfecho daquele trecho. Tais observações deixariam o texto polido, facilitaria a leitura sem prejudicar o enredo.

Já os apontamentos a partir deste parágrafo abordam assuntos problemáticos. Por volta da metade do livro em diante a protagonista descobre sobre o universo fantástico existente nesta história, e desta parte em diante faz perguntas a todo momento; quase toda frase de diálogo de Nina termina com ponto de interrogação, então o outro personagem despeja a informação sobre a espécie dele. E mesmo assim a protagonista não entende, força a repetição da informação sob mais perguntas.

Foi interessante conferir os desejos íntimos da protagonista no começo da história, quando o perigo ainda tomava força e deixava Nina livre para distrações; agora manter a protagonista pensando em como os seres fantásticos ao redor estariam interessados de namorá-la quando a situação envolvia riscos à vida de todos, destoa do perigo apresentado. A ingenuidade de Nina insiste neste erro também, mantendo relacionamentos já claros de serem falsos, insiste mais ainda no personagem que a maltrata, provoca a todo momento e traça planos ocultos, mesmo assim ela continua a tentar relacionamento com ele.

“No final das contas, resgatar e matar têm o mesmo significado para nós”

Por agendar a publicação desta resenha em setembro, convém chamar atenção sobre a questão do suicídio neste mês dedicado à sua prevenção. A protagonista considera morrer por vontade própria, elencando os problemas que a fazem ter este desejo. Abordar o suicídio em si nas histórias teria problema nenhum, há casos frequentes na vida real e a ficção pode narrar tais acontecimentos a personagens. Porém precisa de cuidado quanto a forma a conduzir esta situação, e citar o suicídio como alternativa frente a problemas, além de descrever o que seria a causa desta intenção, contribui apenas aos péssimos exemplos de conduzir este assunto. Suicídio é questão de saúde pública, jamais uma solução; e quando alguém pensa no ato, é por motivos multicausais, muito além de traumas recentes e pontuais, abordar assim apenas passa mensagens equivocadas.

Não Pare! conduz a história da Nina de forma linear, de ritmo condizente na assimilação da protagonista às novidades de sua vida no começo da história. A metade do texto em diante compromete o livro pelas questões problemáticas expostas nesta crítica, a narrativa falha em introduzir os elementos fantásticos nas próprias cenas, em vez disso oferece capítulos cheios de diálogos explicativos, relacionamentos nada exemplares e ainda assim atrativos à protagonista.


Capa de Não Pare!Autora: FML Pepper
Editora: Valentina
Ano de Publicação Original: 2012
Série: Não Pare! #1
Gênero: fantasia urbana / YA
Quantidade de Páginas: 254

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Para Onde Vão os Suicidas? (Setembro Amarelo)

Suicídio é questão de saúde pública, apesar de sua fatalidade impactar as pessoas de maneiras individuais. Também gera comoção em pessoas inspiradas a apoiar a prevenção, pesquisar sobre o assunto tabu e escrever quanto a isso em vários formatos, seja em matérias, contos, estudos ou histórias específicas. Esta resenha tratará da história Para Onde Vão os Suicidas?, escrito por Felipe Saraiça e publicado pela PenDragon em 2017.

“É o seu corpo quem está preso. Você está livre”*

Angelina nasceu sem mãe, falecida no momento do parto. Permanece na família do pai a prosseguir na vida na companhia da nova esposa, e dela teve outra filha. Angelina encerra a própria vida, e em vez de repousar no além, encontra com a deusa Ixtab a lhe propor um desafio. Antes revela a situação de Angelina, em coma diante da família, e avisa: o corpo permanecerá assim enquanto ela aparecerá apenas a algumas pessoa para tentar impedi-las de cometerem suicídio.

“Na aglomeração de emoções, cada um vivia seus problemas”

Angelina aborda os casos em sequência, focando na pessoa vigente e só depois conhece a próxima de intenções suicidas. O narrador intervém no início de cada caso e apresenta o novo personagem, sendo onisciente, sabe de tudo sobre os envolvidos e mostra a situação dele ao leitor conforme a necessidade. A escolha da narrativa é certeira em dar oportunidade de explorar a intimidade de cada personagem o qual necessita de atenção, e então corresponder à missão de Angelina.

A boa intenção do autor é nítida em relação ao assunto principal do romance, repercutindo em todo o livro ao elaborar frases motivadoras entre os conflitos das pessoas a serem salvas pela Angelina. Porém abordar o tema do suicídio também exige responsabilidade, senão a boa intenção pode acabar causando o efeito reverso. Angelina resolve todos os casos de forma simples, indo direto ao assunto, falando do suicídio; enquanto os personagens reagiram bem ao confessar da intenção a outras pessoas, na realidade há risco de perturbar o indivíduo já conturbado pela intenção. Primeiro deveria estabelecer uma relação de confiança, conversar em busca de compreender os sentimentos do personagem, e só ao ter afinidade, poderia falar do ato pretendido, se planeja ou já possui os meios do qual deseja executar.

Falando dos meios, Angelina vê os itens escondidos pelos quais determinada pessoa pretendia usar, tendo a oportunidade de removê-los ― tirar os meios de suicídio do alcance da pessoa está entre as melhores maneiras de prevenir. Faltou cuidado ao apresentar justificativa ao desejo de cometer o suicídio, pois mesmo que a pessoa acredite ser determinado motivo, a causa tem múltiplos fatores, uns recentes, outros manifestados há mais tempo em períodos intermitentes, portanto afirmar qual problema culmina na intenção de interromper a própria vida oferece uma mensagem equivocada. O autor fez bem em evitar de dar detalhes nas formas as quais os personagens iriam executar na maior parte dos casos, pena haver exceção, esta ainda descrita de maneira violenta, de agressão direta ao corpo.

“Ser diferente pode ser perigoso”

A boa intenção do romance também precisaria de atenção à escrita, sem o devido polimento esperado a de livro publicado. Há frases em parágrafos longos a jazerem dispersas, incapazes de conectar às demais e por isso acabam prejudicando o foco na leitura. Por exemplo: o parágrafo foca na interação de dois personagens, quando uma frase interrompe esta interação e descreve o clima no cenário. Os diálogos falham na veracidade pela intenção de ressoarem mensagens morais, sempre levando ao assunto em vez de mostrar a história acontecer. Verbos de pensamento desencadeiam descrições rasas, contando os sentimentos do personagem em vez de mostrá-lo viver, interagir na cena. Existe falha na revisão inclusive no título, pois “onde” corresponde a localização de um lugar, então ao apontar o destino de alguém a ir até lá, deveria ser Para Aonde Vão os Suicidas?

Mantendo o título na forma publicada: Para Onde Vão os Suicidas? careceu da responsabilidade em tratar do assunto, o qual esbanjou de boa intenção. Todo o contexto e a exploração fantástica entorno do romance possuem excelentes elementos capazes de motivar leitores a desejarem melhorar as atitudes quanto a prevenção do suicídio. Caso tivesse o empenho de pesquisar as melhores maneiras de abordar o assunto, seria uma obra exemplar a conscientizar jovens ― possível público-alvo do livro ― a ter o cuidado de abordar diferentes casos de intenção suicida.

“Deixe que elas vivam suas próprias ilusões”

* citações copiadas conforme apresentadas no livro

Capa de Para Onde Vão os Suicidas?Autor: Felipe Saraiça
Editora: PenDragon
Publicado em: 2017
Gêneros: fantasia / YA
Quantidade de Páginas: 192

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A Ilha do Tesouro (Clássico dos Piratas)

Certos autores vivem na eternidade de suas obras, outros vão além e são levados às histórias posteriores. Escrevem histórias de gênero reconhecido, e inovam as características de tal forma que novos trabalhos fazem questão de homenagear a inspiração a ponto de tornar algo quase verídico por ter os mesmos elementos. Canções feitas à capela, mapas com “X” demarcando o local do tesouro, papagaio no ombro e perna de pau. Tudo começou com A Ilha do Tesouro, lá no ano de 1881 lançado em periódicos por Robert Louis Stevenson, e republicado no Brasil em 2019 pela editora Antofágica sob tradução de Samir Machado de Machado e enfeitado com as ilustrações de Paula Puiupo.

“Ali estava o tipo de homem que tornava a Inglaterra o terror dos mares”

Jim Hawkins ajuda na estalagem do pai, este adoentado quando um marinheiro entrou e exigiu hospedagem até quando bem entender. Identifica a si somente por capitão, e deu tarefa extra a Jim, a de avisar caso visse o marujo com perna de pau. A saúde do pai deteriorava, o tal capitão alegou carecer de moedas a pagar pela hospedagem, mesmo assim continuou ali, a beber e cantarolar a canção do pirata. Os velhos conhecidos deste capitão o alcançam, exigem a justiça pela Marca Negra, e Jim descobre entre os trapos do capitão um mapa de ilha com “X” demarcado e breves orientações escritas, onde ele irá arriscar a encontrar o tesouro escondido na companhia do Dr. Livesey, o fidalgo Trelawney e do cozinheiro Long John Silver.

“― E lhe digo que eu vivi de rum”

Narrado por quase toda a história por Jim, o autor mostra os acontecimentos do romance a partir da perspectiva do garoto, este com escrita espontânea diante da narração feita da aventura passada. O enredo é dinâmico, todo capítulo ocorre ações ou revelações a mudar os planos feitos de início; reflete na sobrevivência dos piratas, esses na busca de obter a vantagem ignoram os escrúpulos, trapaceiam e tornam a história imprevisível. Nem parece ter sido escrito no final do século XIX devido ao dinamismo da história.

Mesmo sendo a aventura de Jim, a história é capaz de aprofundar os demais personagens, todos possuindo interesses transparentes na expedição. A caracterização vai além de protagonistas bonzinhos e vilões, os primeiros possuem defeitos e agem por si ao invés de em grupo ― e às vezes ajudam a todos por isso, apesar de trazer muitos riscos conscientes ―, e os segundos seguem princípios, transparecem a humanidade neles, recusam a serem meros adversários no enredo, possuem a própria história, e o conflito desta com a dos protagonistas é que resulta na história contada por Jim.

“― Marinheiro mimado, diabo criado”

Stevenson usou certos atalhos ao compor a estrutura dinâmica no texto, usando de adjetivos e advérbios tantas vezes a ponto de serem notados. Nada capaz de prejudicar a leitura da aventura juvenil, apenas poderia melhorar a experiência criativa já evidente na história. O autor recebeu elogios pela forma de contar na perspectiva do personagem, embora certas escolhas sejam vistas de outras formas em narrativas recentes. Stevenson usou outro personagem a narrar acontecimentos alheios a Jim quando precisavam ser contados, e o fez apenas por preencher esta lacuna, sem elaborar mais questões inerentes à perspectiva levantada por outro personagem. Em relação as outras limitações da narrativa de primeira pessoa, foram corrigidas com explicações breves da informação pendente no momento ocorrido, pois foi adquirida depois. Apesar de resolverem as questões da narrativas, são artifícios fáceis, pouco elaborados a ponto das inúmeras obras inspiradas na Ilha do Tesouro fazerem bem em formular outras soluções.

A Ilha do Tesouro sobrevive aos séculos com facilidade graças a escrita agradável a leitores atuais, com capítulos recheados de aventura e personagens marcantes pelas características a princípio, depois pela autenticidade em adequar à situação vigente do romance. Nem tudo permanece ideal aos elementos atuais da narrativa, apesar de esses relevarem a qualidade que ainda sobra da obra.

“Tínhamos dois aliados úteis: o rum e o clima”

A Ilha do Tesouro - CapaAutor: Robert Louis Stevenson
Tradutor: Samir Machado de Machado
Ilustradora: Paula Puiupo
Publicado pela primeira vez em: 1883 (edição em livro)
Edição: 2019
Editora: Antofágica
Gênero: aventura / infantojuvenil / ficção histórica
Quantidade de Páginas: 368

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A Guardiã — A Caverna de Cristal

A humanidade jamais será capaz de compreender tudo em nossa volta, e assim temos a eterna oportunidade de aprender. E se existisse algo além da nossa concepção? Um universo inteiro de onde fazemos parte, e ainda assim inalcançável. Os habitantes de lá nos protegem do perigo o qual desconhecemos, desconhecemos até os nossos salvadores! E eles estão lá, protegendo e criando novos guardiões de forma acadêmica, e de repente recebem uma humana tal como nós, exceto dela também possuir capacidades a fazer diferença nos conflitos a vir.

A Guardiã ― A Caverna de Cristal é sobre esta garota com oportunidade de proteger quem estiver próximo a ela. Escrito por Gabriel Gouvêa e publicado na Amazon em 2019, é o primeiro volume da saga A Guardiã.

“― Não importa a dimensão, eu continuo chegando atrasada nas aulas”

Ishtar seria outra garota comum. Mora em casa com a mãe, tem a obrigação de estudar ― embora perca a hora nas aulas ― e interage com os colegas de classe. Ela sofre alguns pesadelos e tem acontecimentos estranhos durante o dia. Algo surge na mão dela sem sequer lembrar de tê-lo pego, e mais tarde esbarra num senhor chamado Asim quando jamais poderia ter contato com ele, caso ela fosse alguém comum. Vultos sombrios de aparência humana e outros de animais perseguem Ishtar, querem o poder ainda desconhecido por ela, pois o senhor quem ela esbarrou é de dimensão oculta ao mundo dela, o “mundo original”, e ele a leva até a Cidade de Médita, onde pode aprender mais sobre suas capacidades e treinar para tornar uma guardiã feito ele.

“― Confie em sua intuição, é a única defesa que você terá”

O livro segue a jornada clássica do herói. Uma personagem descobre a oportunidade de poder fazer mais pelo bem das próximas, e parte a um mundo desconhecido onde precisa aprender os novos costumes daquele lugar enquanto enxerga novas possibilidades através das magias possíveis de realizar. Alheia a toda a realidade de Médita, o leitor descobre o novo mundo junto de Ishtar, desde as refeições e obrigações no treinamento dos guardiões, até as novas raças de características próprias.

De idade juvenil, o enredo comporta de modo adequado a leitores da mesma faixa etária da protagonista ― cerca de catorze anos ―, mostrando as obrigações pertinentes à idade, a formação de amizades e possibilidades de encontros, além de descobrir o caráter de pessoas difíceis de agradar. A descrição das dificuldades também respeitam a percepção da protagonista adolescente, não a antecipando de traumas viscerais ou perdas abruptas. Alguns jovens acabam vivenciando tais problemas mais cedo, por outro lado o autor tem a responsabilidade de achar o tom correspondente à forma pretendida em contar a história, e Gabriel conseguiu adequar a narrativa direcionada a quem deseja ler esta aventura de pessoas jovens num mundo original.

“Todo passado, já foi um presente que faria um novo futuro”*

Com o enredo bem estruturado, faltou aperfeiçoar a escrita, pois esta possui vários pontos a atentar. Começando pela incerteza do narrador ao descrever aspectos do cenário, usando palavras como “algo”. É preciso deixar claro o ambiente naquele momento da cena ao leitor, mesmo quando a protagonista desconhece onde interage, deve empregar palavras assertivas,  designar pelo menos a textura, temperatura ou outra característica do elemento citado, uma informação correspondente que deixe a prosa mais elaborada em vez de descrições vagas.

Também dá a impressão de narrativa insegura quando os verbos de pensamento aparecem com frequência. Seria melhor passar essa informação ao leitor a partir da maneira da protagonista se comportar frente as novidades e das situações já comuns a ela. Toda vez quando há o verbo “saber” é uma oportunidade perdida de mostrar a interação da personagem com o mundo. Descrever assim fica fácil ao leitor entender a história, além de outros recursos também usados no livro: repetir a explicação de determinado personagem sempre ao fazer a mesma ação, ter o diálogo que alguém diz a mesma coisa narrada no parágrafo anterior ou vice-versa e explica toda vez quando Ishta pensa em voz alta ao falar sozinha. São todos recursos que informam o leitor da situação vigente do personagem no romance, e todos deveriam ser descartados, no máximo usado vez ou outra. O perigo está em deixar a informação tão óbvia ao leitor a ponto de sentir subestimado pela narrativa.

Certos diálogos servem apenas de conteúdo informativo ao leitor sobre o mundo. Já foi dito: a protagonista sendo estrangeira daquele mundo ajuda a mostrar as novidades do romance ao longo da leitura, e poderia ser feito sem limitar as conversas entre perguntas e respostas, compromete a prosa a ponto de deixá-la desinteressante, ainda mais com o tanto de informação difundida, maior parte dela pouco aproveitada ― nem pela própria personagem, quando falha em uma atitude básica já explicada em aula do capítulo anterior. O livro poderia ter glossário para quem interessar mais sobre os aspectos daquele mundo, já no romance é preciso narrar o essencial, o que provoca diferença ao personagem naquele momento.

Precisa aprimorar a revisão. Há problemas de acentuação. A pontuação da vírgula até segue padronizada, porém diferente das regras gramaticais, e assim quebra o ritmo de leitura acostumada com a norma, como colocar vírgula após o nome do personagem quando jamais poderia separar o sujeito do predicado da frase. Há palavras em gerúndio quando deveria estar em particípio ― terminado em “ado” ao invés de “terminando”. Os advérbios cujas palavras terminam em “mente” são corretos, e ainda assim descartáveis em favor de melhorar o ritmo da leitura, pois ao dizer “imediatamente girou a chave”, o tempo gasto pelo leitor em ler o advérbio já o prejudica de perceber o efeito imediato descrito através do advérbio.

A Guardiã ― A Caverna de Cristal é uma leitura fácil sobre a aventura fantástica da jovem de potencial ainda a ser descoberto. Condizente com o público-alvo, a narrativa exagera no cuidado em transmitir cada aspecto do romance ao leitor, e assim prejudica o ritmo das cenas de escrita com revisões pendentes seja na correção gramatical, seja em aprimorar a fluidez na leitura.

* citação copiada conforme disposta no livro, com vírgula separando o sujeito e predicado da frase

“Nós somos os guardiões e trabalhamos para manter a paz nesse mundo”

A Guardiã — A Caverna de Crital - capaAutor: Gabriel Gouvêa
Ano de publicação: 2019
Editora: publicação independente (Amazon)
Gênero: fantasia / juvenil
Série: A Guardiã #1
Quantidade de Páginas: 333

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Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi com a Sua Mãe

Dentre as criaturas horripilantes das histórias de terror, zumbis estão entre os mais lembrados. Presentes em série, num dos mais recentes lançamentos da plataforma Playstation e do clássico da ficção científica Eu Sou a Lenda a muitos, inúmeros outros exemplos de trabalhos autorais. Este livro propõe um contexto original e bem humorado, o de permanecer vivo no meio da hordas de zumbis… Com a sua mãe.

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi Com a Sua Mãe é o título de livro mais longo trazido neste blog até o momento. Publicado em 2019 por John Miller, é a história de sobrevivência do adolescente Edmílson em meio ao apocalipse zumbi junto com a mãe Ana e o tio Déco.

“Minha mãe nunca foi boa dando notícias ruins”

Ninguém sabe como a epidemia de zumbis aconteceu, Edmílson até tenta inventar uma introdução entre os clichês das histórias vistos na tevê, e logo desiste. Com o conhecimento adquirido em horas de seriados e filmes — sem garantia das situações apresentadas na tela condizer com a realidade desta história — Ed compartilha seu aprendizado com a mãe Ana que mal consegue pronunciar a palavra zumbi e ao tio Déco, irmão mais novo de Ana.

Dona Ana mantém o pulso firme na educação de Ed, além de exagerar nas preocupações de mãe coruja; comportamento retratado com sarcasmo pelo filho. Buzinas chamam a atenção da casa de Ed, vindas do pálio vermelho rodeado pelos zumbis na rua. O garoto coloca os conhecimentos das séries em cheque na hora do resgate, desencadeia outros eventos e trazem ameaças mais complicadas do que as hordas de mortos-vivos.

“Parece um plano promissor, mas eu aprendi a não confiar em planos infalíveis”

Narrado pelo próprio Ed, capítulos pequenos contam dos perigos enfrentado pela família enquanto tenta conviver com a própria. Crises de relacionamentos revelam ótimos momentos de humor pelas provocações de Ed nas situações comuns entre mãe e filho em meio ao perigo nada ordinário. O gosto por séries e filmes pelo protagonista reflete na citação de referências aos últimos lançamentos populares e das obras mais comuns focadas nessas criaturas.

Como já disse, os capítulos são pequenos, bem como os parágrafos, e o livro… A narrativa consiste em contar os acontecimentos em sequência, e tudo acontece rápido demais. Oferece poucos detalhes da situação atual e já avança ao próximo evento, ao próximo capítulo. Alguns eventos e falas clichês também aceleram a narrativa, pois é algo comum e portanto rápido de assimilar. Isso garante uma leitura dinâmica, simples e rápida; bem como apressada. Poderia ter dado mais espaço a interação entre os personagens, explorar mais da visão de cada pessoa envolvida na trama antes de dar o desfecho. Alguns diálogos têm explicações com verbos de dizer que repetem a informação já dada na fala, era possível tirar a maioria e evitar a redundância.

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi com a Sua Mãe traz o terror dos comedores de cérebro numa trama YA bem humorada e ágil. Muitos perigos ameaçam Ed e família, mas a pressa em mostrá-los restringe a qualidade da história apenas devido ao bom humor da relação materna, pois os momentos de tensão ocorrem e logo se resolvem, enquanto o clássico amor de mãe permanece e pelo menos é bem representado neste livro.

“Que cena linda. Pena estarmos cercados de monstros e sujos de entranhas podres”

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi com a Sua Mãe - capaAutor: John Miller
Ano de Publicação: 2019
Publicação Independente
Quantidade de Páginas: 139

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A Substância (Suspense YA de Marcelo Medeiros)

O terceiro ano do ensino médio traz muita importância na vida do adolescente. É o fim da saga com mais de dez anos de estudos, e o prenúncio da vida adulta. Preocupações sobre o futuro pesam mais pela experiência escassa, pois ainda há muito a aprender. O planejamento trará responsabilidades antes dos últimos momentos de amparo dos pais. Tem o vestibular e com ela a demanda absurda de estudos, capaz de transgredir o limite dos jovens. Agora imagina toda essa situação com o agravante do mistério em que os envolvidos ameaçam a vida de quem estiver no caminho?

A Substância* traz esse mistério na vida complicada dos alunos do ensino médio. Publicado em 2019 por Marcelo Medeiros pela Editora Tribo, este suspense jovem-adulto — YA — constrói o enredo inspirado em autores de investigação policial consagrados, como Agatha Christie.

* Livro cedido pelo autor para realizar a resenha

“Nenhum pai quer ver o filho em confusão”

Carlos Eduardo — o Cadu — começa o último ano letivo do ensino médio. A preocupação primordial do fim do ano já o acomete desde o primeiro dia: o Exame Nacional do Ensino Médio. Preocupação comum a dos amigos também, uns com planos definidos, outros nem tanto. Todos ansiosos pelas novas aulas, recebem a surpresa na aula de matemática, pois a grade indicava um professor e na hora chega outro sem dar nenhuma satisfação, o professor Fred. Pouco tempo depois o diretor interrompe a aula de Fred e apresenta o novo aluno da turma, chamado Victor. As interações entre o novo aluno e o misterioso professor provoca questões na cabeça de Cadu. Essas duas pessoas têm segredos relacionados à escola, e o jovem estudante pretende descobri-los.

“Quanto mais envolvido na história ficava, mais vontade me dava de solucionar esse mistério”

Este livro de suspense não só tem personagens adolescentes, como também é voltado a este tipo de público; com certeza muitos leitores se identificarão com a ansiedade pré-vestibular e a escolha da carreira a seguir pela vida. Planos sobre planos com nenhuma garantia de dar certo no final, faz parte da vida e é interessante retratar tal realidade na ficção. O suspense traz a estrutura clássica de investigação, com pistas e suposições dos personagens envolvidos durante a construção do mistério até chegar a conclusão com as respostas de todas as indagações; a abordagem é conhecida e atrai leitores interessados nesse gênero. É o primeiro romance do Marcelo Medeiros, e deixa nítido a maturidade de escrita ao autor iniciante por tomar decisões desconfortáveis que demonstra pouca confiança na escrita, cujos elementos apontarei com intenção de ajudar a amadurecer nos próximos trabalhos como autor.

Cadu é o protagonista/narrador — salvo alguns capítulos em terceira pessoa sobre o passado — e conta todos os detalhes da sua vida na passagem deste romance. Interrompe a trama a todo momento para contar da rotina dele, apresenta as justificativas sobre cada compromisso rejeitado, resume como foi o dia e só depois conta algo relevante ao enredo. Todos os fatos banais tiram o interesse do leitor, nós conhecemos as necessidades básicas pois nós também a fazemos, abrimos o livro na intenção de nos surpreender com a criatividade da trama, pouco importa ver o personagem desmarcar um almoço ou estudo em conjunto exceto quando interfere na trama construída. Este livro contém muitos detalhes incapazes de agregar ao enredo.

“Desisti de continuar com as perguntas bobas e fui direto ao ponto”

Cito a narrativa de pouca confiança por causa dos diálogos. Quase toda fala termina citando o autor da fala, é comum também descrevê-la com o verbo de dizer — ex: concordar, reclamar — que só repete a informação já dada pela fala do personagem. E as conversas passam longe do verossímil, apenas entregam as informações da história ao leitor, inclusive os personagens fazem as perguntas que deveriam ser feitas pelo leitor enquanto vê o desenrolar, e assim acontece rodadas de entrevistas criticadas pelo protagonista em um dos primeiros capítulos, mas que o próprio autor comete o erro na construção dos diálogos.

Por fim falo do desenvolvimento do enredo. O primeiro problema é Cadu mergulhar na investigação só por testemunhar uma conversa estranha entre o novo aluno e o professor. O livro não dá pistas do protagonista ter essa curiosidade desde o começo nem elabora algum conflito que justifique o tamanho interesse no rapaz. Os outros personagens tentam convencê-lo a deixar o mistério de lado ou pedir ajuda policial, e Cadu apenas nega por teimosia, sem elaborar argumentos. Os obstáculos têm solução rápida, como tal personagem de repente dizer possuir a ferramenta adequada, determinados personagens simplesmente chegam no momento certo para resolver o conflito, e até mesmo habilidades hackers surgem do nada quando é preciso obter resposta; o Deus Ex-Machina está à vontade.

A Substância é um trabalho vindo de alguém inspirado por boas referências literárias, é fácil de notá-las. Falta apenas o aprimoramento da narrativa, esta obtida pela prática e estudos sobre a escrita criativa, bem como na reflexão nos problemas apontados nesta resenha, caso concorde com elas.

“Era a oportunidade perfeita de conversar com ele. O único problema foi que acabei cochilando”

A Substância - capaAutor: Marcelo Medeiros
Editora: Tribo
Ano de publicação: 2019
Quantidade de Páginas: 192

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Contato do autor:

Instagram: @marcelomedeirosm_
Telefone: (84) 9 9626-4127
E-mail: marcelo_medeiros_5@yahoo.com.br

O Trono de Fogo (As Crônicas de Kane, Vol. 2)

A aventura pela mitologia egípcia continua. Afinal enfrentar o Deus que derrotou o próprio Osíris não é o bastante quando também existe a temível serpente faminta pelo sol e ambiciosa a instaurar o caos. Entre os humanos sempre há conspiração distorcendo fatos quanto aos verdadeiros acontecimentos da família Kane. Pelo menos os jovens irmãos souberam levar a apresentação dos fatos na íntegra a outro nível, e fizeram uma nova gravação.

O Trono de Fogo é a transcrição da segunda gravação feita pelos irmãos Kane com a nova parte da aventura. Escrito por Rick Riordan, publicado em 2011 com edição em 2012 pela editora Intrínseca com tradução de Débora Isidoro, Carter e Sadie tem muita ação a compartilhar sobre as intrigas mitológicas em âmbito internacional.

“Preciso contar esta história, ou vamos todos morrer”

A história começa três meses depois dos acontecimentos de A Pirâmide Vermelha. Os irmãos Kane têm uma missão simples, incendiar o museu de Brooklyn é mera consequência no plano deles de evitar algo muito pior. Precisam coletar três papiros que constituem o Livro de Rá, invocar o Deus homônimo — o rei entre as divindades egípcias — e assim conseguirem enfrentar a serpente Apófis, o ser com ambição de engolir o sol desde os tempos do Antigo Egito.

Muitos jovens escutaram as gravações de Carter e Sadie e atenderam a convocação, vieram de todo o mundo — inclusive Brasil — e receberam treinamentos dos Kane nesses meses antes de acontecer o incêndio no museu. Nem todos os magos concordam com a atitude dos garotos, e o russo Vladimir Menshikov pretende colocar toda a Casa da Vida — a instituição internacional dos praticantes da magia egípcia — contra os protagonistas com argumentos questionáveis a quem ouviu ou leu o relato direto da fonte. Pois bem, Apófis retornará e deve ser confrontado, seja pela invocação de Rá ou outros quais sejam os meios levantados nesta nova aventura da mitologia egípcia.

“Tawaret corou, e foi a primeira vez que constrangi um hipopótamo”

Grandes responsabilidades caem sobre os ombros dos irmãos, mas os três meses de amadurecimento não tiraram o bom humor na hora de enfrentar as maiores ameaças. Seja na nomeação dos capítulos, apresentação de novos personagens ou a ameaça fatal diante deles, sempre aproveitam oportunidades de comentar frases hilárias. Quem preferir a representação mais fiel a intensidade das ameaças, pode se decepcionar pela quantidade recorrente com que o sarcasmo de Sadie e Carter descreve os problemas a confrontar. Mantendo a narração de dois capítulos por personagem, Riordan consegue transmitir a personalidade de cada narrador, a diferença em como eles enxergam os detalhes e quais prioridades, tudo é repassado conforme o personagem correspondente conta a história.

A ação toma mais espaço neste livro em relação ao anterior, pois já passou da introdução de toda a trama dos irmãos Kane e já apresentou a mitologia aos leitores no primeiro volume. Ainda assim as abordagens sobre a cultura e mitologia retratada fazem falta, embora elas ainda aconteçam ao longo do livro, ocorre muito menos em relação ao primeiro. Os conflitos constantes substituem a representação didática da mitologia e torna o livro menos interessante caso objetivo da leitura for conhecer mais da mitologia e cultura homenageada.

Todos os personagens humanos continuam seus arcos enquanto envolve os conflitos de novos personagens. Dos jovens aprendizes dos Kane, Walt recebe mais destaque oferecendo um dilema amoroso a Sadie enquanto enfrenta o conflito de sua linhagem. Novos — apesar de poucos — Deuses aparecem na história e têm papéis importantes na aventura; aliados ou adversários, são úteis a revelar personalidades dos protagonistas, desenvolvendo-as em meio a situação caótica que é a fase da adolescência sob o conflito a evitar a ruína de todo o mundo.

O Trono de Fogo falha em manter a qualidade de A Pirâmide Vermelha no quesito informativo e oferece mais cenas de ação e reviravolta com grandes pitadas de humor na trama encarregada de responsabilidade sobre os irmão Kane. Ainda há o último volume da saga do panteão egípcio, e torço para o autor ter equilibrado cenas empolgantes deste livro com as interessantes informações da cultura tão pouca representada — pelo menos dentre as obras publicadas no Brasil — como fez na estreia desta aventura.

“Somos os Kane. Não fugimos de escolhas difíceis”

O Trono de Fogo - capaAutor: Rick Riordan
Ano da Publicação Original: 2011
Edição: 2012
Tradução: Débora Isidoro
Editora: Intrínseca
Quantidade de Páginas: 398

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Treze Dias (pt. 1)

Sobre o quê é este conto? Não vou dizer. Se haverá uma segunda parte, só o tempo pode responder. Acompanhe o texto a seguir, se for capaz…

Treze Dias

Escuridão

Amordaçado. Amarrado. Enclausurado

Quanto mais se mexe, mais preso fica

Ele é fraco; a prisão, opressora

Faltam exatos treze dias. Precisa correr, se dedicar e ter a mínima oportunidade de ser reconhecido pelo seu mérito. Infelizmente a meritocracia está além das exigências do edital, suas regras não abrangem os seres malignos dispostos a humilhá-lo todo dia, ignora a Menina do Caos sempre à espreita, ou a Dona Furacão em sua casa, ou a Legião que sussurra pelas feições discretas do quanto Manoel é um incompetente. 

Manoel, um nome de português. Manoel foi pro céu ninguém mais ouve. Manoel cara de pastel resume sua infância. Manoel bicho do hell é ridículo. Manoel puta de Abel é o episódio atual. 

Abel tem dois seguidores na escola e quatro mil no Instagram. O cheiro de seu chulé está impregnado nas narinas de Manoel após tantos chutes na cara. Nada acontece com o bully; Manoel sofre tudo. 

Recebe socos dele e de seus seguidores. As cusparadas escorrem pelas blusas amarradas até alcançar o rosto do garoto. Ele ouve o som do zíper se abrir, e em seguida um empurrão com a voz de Abel: 

— Esta blusa é nova, arrombado! 

— Arrombado é este verme, enrolado feito sushi. 

— Feito sushi. — Risadas ecoam. 

E os passos se distanciam. O garoto fica sozinho com as suas lágrimas e o ódio deste mundo. 

Queria participar do culto e invocar o deus cósmico de nome impronunciável. Poderia ser um estranho com o poder paranormal de explodir todos da escola, ou um lobisomem que se alimenta de humanos como se eles fossem gado. 

Manoel é nada disso. É somente humano de braços finos e pernas moles. Rebate todo o corpo, um peixe fora d’água. Rasteja feito minhoca, geme mais que um cão abandonado, rodeado apenas por urubus. 

Os movimentos desesperados tiraram a manga da blusa amarrada sobre seus olhos, mas as órbitas trêmulas voltam a chorar. O curto traço de sua visão revelou o par de tênis All Star vermelho, movido pelas pernas morenas de bermudas jeans com rasuras de desgaste. Vê ainda suas mãos e o esmalte negro incapaz de disfarçar as unhas roídas. 

Fios de cabelo negro serpenteiam sobre os olhos dele enquanto as mãos puxam as blusas. Pior do que a humilhação de Abel é ficar à mercê da Menina do Caos. Seu toque provoca doença, os lábios rachados já beijaram a morte, olhos verdes não piscam enquanto transmite o horror. 

As roupas afrouxam e Manoel pula, os braços chacoalham até as peças de roupa saírem de seu corpo. Vê a franja sempre molhada dela, desce a visão no rosto e vê um sorriso. Engole o grito, a dor invade sua cabeça enquanto o frio escorre na pele através do suor.

Pernas desvencilham e escorregam até recuperar a força e correr. Ela o encara, de joelhos sobre as três blusas. Ele olha apenas o resquício de luz na porta da saída, chora de alegria por estar livre, estar vivo, estar apavorado o suficiente para desenvolver seu manuscrito, e assustar a todos. 

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