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Creepypastas: Lendas da Internet 2 (Divulgação)

Vivi o começo da infância na década de 1990, tempo de acesso limitado a internet. Eu mesmo só comecei a acessar depois de 2006, antes até existia conexão em casa, mas achava muito difícil de usar, deixava aquilo para minha irmã. Chega a ser inacreditável lembrar deste passado! Eu uso da internet a manter este portal online, é de onde tiro a maior parte do material de leitura, escrita, de muitos outros recursos desta rotina, assim como qualquer leitor a visitar este site.

Todo acesso comum hoje era novidade nos anos ‘90, isso quando existia, pois esqueça vídeos ou toda a família presente nas redes sociais. Sendo novidade no passado, os primeiros programadores de internet ainda descobririam as possibilidades, muitas dessas desconhecidas aos usuários. E o desconhecido é a palavra-chave provocadora do medo, segundo H. P. Lovecraft. Nesta época ainda tinha outra particularidade, a facilidade de acesso à internet durante a madrugada, bem oportuno a proporcionar o fenômeno das Creepypastas, histórias macabras dúbias de serem reais ou ficção, com imagens perturbadoras e relatos de conspirações, assassinatos, aparição sobrenatural; um mundo virtual repleto de terror.

A editora Lendari resolveu homenagear este fenômeno lançando uma coletânea de contos nesta temática, e o sucesso da coletânea gerou a possibilidade de uma nova chamada para publicar o segundo volume. O mais incrível foi o sucesso em número de participantes e colaboradores no financiamento coletivo a ponto de garantir a publicação simultânea da terceira coletânea! Entretanto focarei em falar de Creepypastas 2, e quem acompanha este blog sabe: quando eu falo de algum livro por aqui na primeira pessoa, é por motivos especiais. Desta vez é por eu ser autor de um dos contos publicado no livro!

É a segunda oportunidade de mostrar um texto de minha autoria a partir da seleção e edição profissional. Esta postagem seguirá na mesma intenção da Revista A Taverna a qual participei, apresentando os contos presentes no livro, destacando as qualidades. Creepypastas 2 tem uma diversidade de contos, tanto em quantidade quanto em tópicos abordados dentro do contexto das lendas da internet, então preferi falar só de alguns afim de demonstrar o que o leitor pode esperar do livro no geral. Saiba mais sobre eles apresentados a seguir:

A Sombra do Disco ― Mauro Plastina

Júlia tem nove anos, órfã de pai e briga a todo momento com o irmão. Ela ganha um LP de presente da mãe, entre as músicas presentes há aquela especial, pois ouvia junto do pai antes de ele falecer, e por isso toca o disco logo quando recebe. Ela posiciona a agulha da vitrola a tocar direto na faixa preferida, assim a nostalgia começa a trazer alegria e angústia, até que o aparelho para de funcionar. Inconformada, pede ajuda à pessoa mais próxima capaz de entender como uma vitrola funciona, o irmão. Ele vai a contragosto e ensina a maneira de ela tocar o LP, e assim Júlia acaba tocando o disco ao contrário.

De narrativa focada na criança protagonista, o conto desenvolve a história a partir da ingenuidade infantil além das intrigas casuais entre irmãos, apesar de no fundo sabermos o quanto se amam. Mauro é pontual em demonstrar os sentimentos da menina em cada situação, exercendo a empatia ao mesmo tempo de coordenar a tragédia na garota, abusa da boa vontade dela ao provocar a desgraça reservada a este conto.

“É como diz o ditado: ‘se matarmos todos os assassinos, os assassinos seríamos nós.’”

ERISinninthcirclexxxiv ― João Marciano Neto

O conto começa com um aviso. Pare de ler, apague esta mensagem, de preferência descarte o computador usado no acesso deste relato. Continuando a leitura, avisa sobre manter o domínio mortis.com intacto, em seguida há a narrativa sobre a programação da inteligência artificial chamada ERIS. O protagonista é o narrador, um dos programadores e, de certo modo, “segurança” deste sistema. Enclausurado pelo causador do temor, também o motiva a fazer de tudo pela sobrevivência, a dele e da humanidade, e o conto comprova o quanto este “fazer de tudo” significa.

“ERIS nos chamava em sua dimensão eterna, querendo nossos segredos […]”

O Horror no Bairro da Pedreira ― Igor Moraes

Rafael é colecionador de artefatos dos mais diversos países e culturas, de armas a amuletos de tempos remotos, ou de épocas recentes, o importante é o valor apavorante atribuído ao material colecionado. Por isso investiu o dinheiro restante numa coleção nazista, cuja simbologia faltava em seu estoque de atrocidades. Vieram informações anexas aos itens, sobre o misticismo envolto do nazismo, sobre a mensagem de alguém envolvido ter vindo no Brasil, e sobre o projeto Werwolf, este de surpresas interessantes no conto.

A descrição de Igor mistura referências de povos tradicionais a elementos recentes, e dentre as tradições escolheu a certeira de causar desconforto quando citado: o nazismo. A História exerce o papel acadêmico de relatar as consequências internacionais deste partido eleito na Alemanha, já as tantas outras histórias ficcionais ou conspiratórias possuem impacto garantido pelo respectivo contexto. Assim a história ocorre na perspectiva de Rafael, tudo fica crível, e complementa com a história em torno da relíquia nazista prosseguindo no Brasil décadas depois.

“[…] uma figura em decomposição, extraída de de alguma história em quadrinhos de Alan Moore”

Onde está a Duda? ― Alane Brito

Bia enfim recebe de presente da mãe a famosa boneca Duda, em homenagem ao aniversário de quinze anos. A temporada da boneca já tinha passado, nem se produzia mais, então óbvio da mãe ter comprado uma usada, embora bem conservada. Já o irmão de treze anos detestou o presente, na verdade a palavra correta é temer, pois ouviu histórias desta boneca ser amaldiçoada.

O conto usa o tropo clássico de terror, usando de artefato infantil ao aterrorizar jovens do jeito que nem mesmo adultos poderiam superar, caso esses fossem as vítimas. Sobrevivendo ou não, é um episódio a ficar marcado por toda a vida, e só poderia ser assim. Conhecendo tantas histórias macabras, ninguém imaginaria ser alvo delas. E quando acontece, bom, é preciso fazer de tudo ao sobreviver, ainda que tudo pareça loucura.

“O que eu deveria dizer sobre aquela noite era que um homem invadiu nossa casa e tentou nos matar”

Dias Sombrios, Noites Claras ― Diego de Araujo Silva

Fernando sofre de insônia e tenta seguir a rotina de trabalho enquanto tenta descobrir a causa das noites em claro. A narrativa segue em fluxo de consciência, ou seja, descreve conforme o protagonista pensa durante as cenas, de mente atordoada por permanecer desperto. O protagonista é alguém comum, vive sem ambições, manter o emprego de contábil seria o suficiente, pois o extraordinário da vida dele está em Mirela, a esposa que saiu a negócios bem na crise de insônia dele. Pois mesmo uma coletânea de Creepypastas fala sobre o amor, apesar deste tipo de conto ainda provocar o autor a revelar os espinhos desta rosa. E o que mais teria neste conto? Uma referência a Machado de Assis, claro.

“Não durmo, não concluo o dia, relógio desperta às cento e vinte e seis horas e contando.”


Creepypastas 2 - capaOrganizadores: Glau Kemp e Mário Bentes
Editora: Lendari
Ano de Publicação: 2020
Gêneros: terror / creepypasta / horror
Quantidade de Páginas: 230

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The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Ao testemunhar um ato violento diante de nós, submetemo-nos ao medo. Sem sofrer danos físicos, as inúmeras indagações alimentam nossas dores quanto aos motivos de alguém fazer tal ato, e sem saber as circunstâncias, fica incerta a possibilidade de acontecer com nós também, e a ansiedade nos faz esperar o pior. O pior mesmo é caso descubra do meliante ter relação próxima com seu amigo de longa data, e este pelo visto deixou de ser tão próximo. The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde* fala desta violência cometida por alguém íntimo o bastante a causar temores. Escrito por Robert Louis Stevenson em 1886 e disponível pela Amazon Classics desde 2017, esta história clássica de terror inspirou muitas criações posteriores, entre elas o personagem Hulk da Marvel.

“’Eu me pus numa punição e perigo a qual nem consigo nominar’”**

O advogado Mr. Utterson caminha pelas ruas de Londres com o amigo Ensfield quando este conta o caso recente visto em pessoa. Certo homem perambulava pela cidade indiferente ao mundo, indiferente à garota no caminho, indiferente ao andar por cima dela. Os pais estavam próximos quando aconteceu e exigiu satisfação, e o homem de aparência medonha — segundo Ensfield ao ver o incidente — ofereceu compensação em cheque, cujo valor seria retirado ao amanhecer em nome de outra pessoa. Quando Utterson pergunta sobre o nome deste sujeito estranho, Ensfield responde ser Hyde. Nunca ouvido falar de alguém com este nome, Utterson lê sobre ele de novo em pouco tempo, nomeado herdeiro no testamento elaborado pelo amigo de longa data, o cientista Dr. Jekyll.

“’Se ele é o Mr. Hyde, eu serei Mr. Seek”***

A partir de então a história desenvolve o mistério envolto desta relação de Hyde com o Dr. Jekyll. Utterson procura compreender os motivos do amigo tão querido ter tamanha afeição repentina com este desconhecido e ainda por cima perigoso, conforme o capítulo posterior demonstra. De narrativa curta, desenvolve apenas esta questão, e termina quando esclarece as resposta desta, mais nada além. Certas passagens abusam de adjetivos e advérbios de modo, resumem a cena sob o preço de entregar parágrafos fracos no sentido de deixar de explorar a ambientação das cenas. Os sentimentos e comportamentos dos personagens também são esclarecidos em poucas palavras, ainda mais em diálogos por descrever o modo como alguém falava, algo possível de representar através das palavras ditas conforme o tom em vez de de apenas contar ao leitor. A descrição física de Hyde a princípio é incerta, revelando a sensação do personagem a encarar o sujeito, uma forma de incitar o temor conforme sentido pela pessoa.

Cada capítulo foi escrito sob determinado objetivo, e este transforma a forma narrativa. Uns deixam a escrita próxima da perspectiva de Utterson, outros desenrolam as pistas ao redor de Jekyll e Hyde, também há capítulo mais focado em ação ― e portanto deixa de ter os incômodos elencados no parágrafo anterior. Tais nuances evitam a monotonia da escrita enquanto corresponde ao enredo proposto. Os dois capítulos finais são epistolares, ou seja, registros feitos pelos personagens e adquiridos durante a trama, portanto transcrito na íntegra em forma de capítulo. Assim transforma a narrativa de novo, tornando-a em primeira pessoa e por adequar ao modo de comunicar do personagem remetente do registro. O final dedica a amarrar as pontas deixadas durante a história enquanto o remetente confessa a experiência relacionada a Hyde. É o capítulo mais longo e prolongado, exige mais paciência do leitor. Apesar de devagar, entrega a narrativa satisfatória por demonstrar espontaneidade do personagem ao realizar seu registro.

The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde traz o terror ocorrido a pessoas próximas do protagonista e da angústia de obter respostas. História curta e resumida em certas partes, a escrita é fiel ao objetivo e por isso recompensa o leitor a aventurar no mistério do Médico e o Monstro.

“’E o conhecimento é maior do que ele poderia conceber’”

* resenha elaborada a partir da leitura da edição em inglês
** citações traduzidas pelo resenhista
*** trocadilho com o nome de Hyde, de pronúncia semelhante ao verbo esconder (hide), e Utterson afirmaria que iria o encontrar (seek), portanto seria o Mr. Seek

Dr Jekyll and Mr Hyde - capaAutor: Robert Louis Stevenson
Publicado pela primeira vez em: 1886
Editora: Amazon Classics
Edição: 2017
Gêneros: mistério / terror / clássico
Quantidade de Páginas: 66

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O Iluminado (Terror clássico de Stephen King)

Distanciar do problema sem resolvê-lo é igual a pedir ao problema te seguir, e quando chegar, compensar toda a ausência acumulada no mesmo instante. Ainda piora por causa do refúgio distante ser, na verdade, o lar de tragédias ocultas. O lugar possui desejo consciente, obsessão em apavorar as vítimas, melhor ainda caso alguém possuir dons. O Iluminado trata das loucuras da família isolada no hotel assombrado. Escrito em 1977 por Stephen King, com edição especial feita em 2017 pela editora Suma sob tradução de Betty Ramos de Albuquerque, inclui o prólogo e epílogo recuperado depois de várias edições ausentes destas partes correspondentes.

“― Todo grande hotel tem seus escândalos. Assim como todo grande hotel tem um fantasma”

Jack Torrance enfrenta a entrevista de emprego, situação formal a qual o gerente o despreza à primeira vista, e mesmo assim será contratado devido a amizade com Al Shockley, um dos proprietários do Hotel Overlook. O gerente o despreza pelo fato ocorrido a um zelador anterior, parecido com Jack. Veio com a família a permanecer trancafiado no hotel durante o inverno, quando a nevasca bloqueia o acesso, com a obrigação de fazer as manutenções necessárias antes da nova temporada de visitas no verão do ano seguinte. O problema desse zelador estava na bebida. Abusou do álcool, enlouqueceu, matou a família, cometeu suicídio. Jack traria a esposa e o filho durante o serviço de zelador do hotel, e segundo a pesquisa do gerente, Jack tinha sido alcoólatra, apesar de permanecer sóbrio a anos.

Danny é filho de Jack. O garoto de cinco anos tem olhar aguçado, compreende as nuances das expressões escondidas nas faces dos pais, sobre o divórcio eminente desde quando Jack torceu seu braço quando tinha três anos, sob efeito da Coisa Feia. Apesar de livre da Coisa Feia, Jack perde o emprego como professor de inglês ao agredir um aluno, por isso vai trabalhar de zelador no hotel, fazendo da distância da sociedade a esperança de acalmar os nervos, além de garantir o salário a sustentar a família. Danny enxerga outras complicações entre as expressões dos pais, também lê a mente deles, sonha pesadelos capazes de acontecer, sonha de o hotel ser um lugar pavoroso, e ali ficará nos próximos meses.

“― Não houve nada. A caldeira está em ordem e ainda nem cheguei a matar minha mulher”

A introdução da história apresenta os personagens ao estilo do autor, deixando-os livres a ocupar folhas de diálogos e gestos espontâneos a mostrar ao leitor quem eles são. Entre essas apresentações, explica também as regras deste jogo que é a leitura de O Iluminado, dos pensamentos expostos dos personagens captados por Danny, pelas tragédias anteriores ameaçando se repetirem com esta família também, do histórico de papai nunca jazer preso ao passado. É tudo questão de tempo, no caso, centenas de páginas até ver quais das premonições levantadas no início serão cumpridas, e as pontas amarradas nas personalidades da família protagonista elaboram surpresas das tragédias prestes a acontecer. É a técnica de plantar detalhes da narrativa a colher em capítulos posteriores, e Stephen King entregou a colheita com ótimos frutos.

Mesclando pesadelos e alucinações com vulnerabilidade familiar e histórico sombrio, há muito a explorar na ambientação exclusiva durante maior parte da história, tornando a escrita prolixa útil ao leitor aproveitar cada detalhe do terror confinado na neve. O amor familiar estimula esperanças e concede resoluções contra o terror a princípio superior a compreensão familiar, aos poucos esclarecendo as regras de sobrevivências vitais, essas decidas apenas no desfecho. Falha em momentos de parágrafos sobrecarregados com verbos de pensamento, logo neste livro cujo pensamento é exposto sob boa justificativa, King ainda expõe a reflexão dos personagens a descrevendo, deixando de contar as ações dele por conta disso.

Muitos consideram O Iluminado o livro entre os melhores já escrito pelo Stephen King, e de fato possui qualidades a ser considerado assim. Instiga o leitor com os perigos anteriores capazes de repetir contra a família Torrance, bem como explora as diversas características dos membros dessa família, muitas cruciais nas reviravoltas a garantir desta história ir além dos elementos de assombração.

“Este lugar desumano cria monstros humanos”

O Iluminado - capaAutor: Stephen King
Tradutora: Betty Ramos de Albuquerque
Publicado pela primeira vez em: 1977
Edição: 2017
Editora: Suma
Gêneros: terror / horror
Série: O Iluminado #1
Quantidade de Páginas: 520

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Ultra Carnem (horror nacional de César Bravo)

Enfrentar o desafio incapaz de vencer atiça a vontade insana de determinadas pessoas. O livre-arbítrio permite as pessoas despejarem a racionalidade em troca de desejos carnais, banais pela imaginação limitada do sujeito. Há quem atenda esses pedidos, alguém nada ordinário propõe o pacto e reconhece a hora de cobrar o valor devido. Ele é o personagem principal de todo este terror nacional.

Ultra Carnem explora os podres mais característicos nas cidades interiores do sudeste brasileiro, seja nas aparência e nos pensamentos. Publicado em 2016 por César Bravo através da editora DarkSide, o livro é composto por quatro novelas intercaladas.

“Rituais: porque disso o mundo também era feito”

Tudo começa com Wladimir Lester, órfão de ciganos, rejeitado pela própria tribo quando a irmã bate na porta do orfanato de Três Rios e convence o padre Giordano a cuidar desta criança. Giordano compartilha o fardo com a madre Suzana, os dois já experientes em cuidar das demais crianças, ciente das traquinagens de algumas delas. Ainda assim Wladimir traz desafios a eles, a começar pelo ensinamento religioso do rapaz, divergente com o cristianismo a ponto de retrucar as lições do padre com perguntas ousadas. Por outro lado o garoto possui obsessão pela sua tinta, vermelha em tom de sangue, usada nos quadros que ele tanto gosta de pintar, dignas do talento capaz de tirar o orfanato da pobreza. Assim Giordano fez pacto com o garoto sobre os quadros e tentar melhorar o convívio dele no orfanato, sem saber do pacto feito por Lester com seres horríveis antes dele.

“Cristianismo não se ensina com carinhos”

Ao dar o desfecho da primeira novela do livro, uma nova história é contada em relação ao novo protagonista, da situação ordinária até o ápice sobrenatural quando o personagem de destaque faz a aparição e executa a conclusão desta novela. Apesar de voltado ao novo protagonista, os elementos disponíveis a partir da novela do menino Lester chegam mais cedo ou mais tarde, então acrescenta detalhes essenciais às tramas.

O trabalho gráfico na edição deixa bem claro o objetivo deste livro, e o conteúdo cumpre a promessa implícita desde a capa sombria, das ilustrações do miolo e as bordas das páginas pintadas em vermelho sangue: o horror é eficiente nesta história, sem pudor nas descrições. Depois de demonstrar as características do protagonista, a narrativa aproveita das mesmas ao elaborar os piores cenários, moldando o ambiente sobrenatural correspondente a atormentar o personagem e o leitor. Acomode o corpo na superfície mais macia, ajeite a coluna e coloque o livro sobre o apoio, sem cansar os braços, e a leitura continuará desconfortável com o horror vívido pintado nas palavras de César Bravo. Com exceção de uma cena em particular, sem contar spoilers, esta conclui no capítulo seguinte como sendo nada além de sonho ruim ― o pior tipo de clichê em histórias de horror, e por acompanhar as demais cenas extraordinárias do livro, dá um banho de água gelada no leitor.

Outro motivo a despistar leitores sensíveis é a linguagem crua presente em toda narrativa e diálogo, condizente nas devidas situações. Difícil do narrador perder a oportunidade de tornar situações ordinárias as piores possíveis por meio da descrição, o percurso do trabalho, bairro onde o protagonista mora, a família do outro; pouco importa, há misericórdia a ninguém. Da ambientação descrita desta forma, os personagens comportam de acordo, reativos à miséria convivida, não à toa eles aceitam os piores pactos possíveis. Só faltou criatividade em abordar a podridão relacionada às personagens femininas, quase todas são vítimas de estupro, e todas ― sem exceção ― sofrem assédio, seja por exaltar alguma parte do corpo dela ao sexo, ou criticar a falta de beleza dela e ridicularizá-la por isso. Lembra da linguagem vulgar? Pois bem, ela repercute nesta abordagem pornográfica nas personagens femininas.

“― Gente ruim vive e gente decente morre. Pessoas boas não tem chance nesse mundo”*

Certos detalhes ou escolhas narrativas deixam a desejar. Há muitas frases em que quantificam o tempo decorrido e a distância do espaço, e como a narrativa foca na compreensão do personagem na cena vivida e quase nenhum deles tem característica precisa com números, deixa a descrição inverossímil. Seria melhor dar a impressão do espaço conforme o personagem percorre por ela ou pela quantidade de objetos disponíveis no lugar, e quanto ao tempo, descrever gestos conforme o tempo passa entre as ações. Outro detalhe é a transição de capítulos quando ainda é a mesma cena, sequer tem passagem de tempo na transição, muda o capítulo apenas a tentar atribuir o suspense, motivar o leitor a continuar a leitura, nem todas as tentativas são eficientes, assim o recurso perde a força pela quantidade. Também deveria ter tomado cuidado numa situação na última novela também, quando a personagem agonizava de fome, e poucos capítulos adiante ela recusa tomar desjejum por de repente ficar sem fome.

Falando da última novela, esta perde o ritmo em relação as demais histórias. Com várias novidades logo na etapa final da história começada por Wladimir Lester, tudo é passado por meio de infodumping, onde os personagens conversam ao explicar os conceitos à protagonista mulher e ao leitor. Vítima de estupro também, a protagonista desta novela ao menos teve o privilégio de agir além das situações impostas as demais personagens femininas, tomando posição de destaque conforme as qualidade alheias ao sexo.

Ultra Carnem entrega uma ótima história, restrita a quem possuir estômago forte ao digerir palavras impiedosas, capazes de tornar os cenários vívidos na mente do leitor, sujeito a pressentir uma assombração puxando pelo pé a qualquer momento durante a leitura. Certas considerações pontuais poderiam ser cortadas ou aperfeiçoadas e assim prevenir alguns constrangimentos ao longo da leitura.

“― Parece que Deus estava distraído quando aconteceu”

Ultra Carnem - capaAutor: César Bravo
Publicado em: 2016
Editora: DarkSide
Gênero: horror / sobrenatural / fantasia urbana
Alertas de Gatilho: suicídio / estupro (em mulheres e homens homossexuais) / violência extrema
Quantidade de Páginas: 384

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* citação transcrita conforme impresso na edição, com erro de concordância verbal

Dark Souls 3 (Análise de Enredo e Ambiente)

O ciclo cumpre seu papel, e a Chama enfraquece perante a humanidade. Seres Vazios perambulam nos castelos destruídos e estradas condenadas, guerreiros memoráveis perdem a sanidade por conta da maldição. E se desta vez houver outra alternativa? Seria possível concluir o ciclo? Todo rei que alimentou a Chama  no passado vira o Lorde das Cinzas, cinco desses Lordes reerguem na missão de conceder acesso à Primeira Chama, dando a oportunidade de encerrar o ciclo. Os mortos-vivos fracassados em peregrinações anteriores também renascem. Chamados de Inacesos, eles buscarão os Lordes das Cinzas — mesmo à força — e tentarão trazer suas ambições à realidade. Esta é a premissa de Dark Souls 3, lançado pela From Software em 2016. A aventura é recheada de desafios com resquícios de esperança e descrições sutis deste novo capítulo tenebroso.

“Um leito em doce putrefação para deitar”

Após a cinemática introdutória do jogo e a criação do personagem, a aventura começa onde o Inaceso começa. Aqui começa o tutorial do jogo, não apenas com orientações dos botões, e sim demonstrando o desafio da jornada. Inimigos ordinários tentam te vencer em grupo caso o jogador falhe em estratégia, um monstro perigoso no caminho alternativo mostra a falta de misericórdia aos despreparados, sem falar do chefe logo de início. Incapaz de evoluir o personagem, precisa superar Iudex Gundyr, o campeão deixado no lado de fora dos portões do Santuário do Elo de Fogo e consumido pelo abismo; só sairá do caminho depois de derrotá-lo, do contrário o Inaceso apenas voltará da morte na fogueira anterior.

Desesperança - Dark Souls 3

Jornada exaustiva

A jornada acontece no reino de Lothric, cujo príncipe homônimo recusa o chamado para a Primeira Chama igual a outros três Lordes das Cinzas. Longe dos Lordes serem o único problema de todo Inaceso, outros chefes ficarão no caminho, cada um com a pequena oportunidade de demonstrar quem ele é — ou já foi — nos itens deixados após a vitória. Ainda haverão pessoas a compartilhar interesses em comum com o Inaceso, tornando agressivos se o comportamento do jogador provar ser contrário ao posicionamento deles ou por outras razões, tudo em volta da incógnita proposta à interpretação sobre o contexto de cada personagem.

“Erga-se, por favor… Pois essa é nossa maldição”

O fogo desvanece e a adrenalina aumenta. Este último capítulo de Dark Souls traz movimentos mais fluídos, embora ainda respeite as restrições da armadura pesada e o peso de cada arma ao manuseá-la. Todo tipo de equipamento traz vantagens e desvantagens, essas dependentes também ao inimigo enfrentado. O sistema de progressão dificulta a moldagem do personagem em obter vantagem em toda a situação, então caberá o jogador a aceitar quando tiver os pontos fracos expostos e vencer o desafio na perseverança.

Brinde - Dark Souls 3

Um brinde (solitário) à vitória

Interações entre NPCs são vagas de propósito, feitas para o jogador errar, receber a punição por falhar no convívio com ele, e assim conhecê-lo melhor e acertar a interação na próxima. Certos NPCs têm ordens de interação estranhas à campanha principal, disponibilizando diálogo sobre a morte do primeiro Lorde quando na verdade o Inaceso já venceu todos, sem adequar o diálogo ao momento vigente ou penalizar o jogador pela conversa tardia.

Figuras presentes no primeiro jogo da saga marcam presença aqui também, seja por concluir a história deles ou prestar uma homenagem com o jogo atual. Pena o terceiro episódio ainda marcar os problemas de câmeras e inadequação aos comandos de rolagem. A tela embaraça em corredores estreitos ou quando o personagem encosta na parede, favorece o desespero na luta contra chefes ao estar perto demais deles, desespero causado pela injustiça e erro de desenvolvimento. É admissível o personagem demorar no rolamento ao esquivar do ataque — faz parte da proposta realista ao peso do personagem —, mas faz sentido nenhum o jogador apertar o comando tarde demais, sofrer punição com o golpe e depois ele rolar; a ação deveria ser cancelada em vez de adiada.

Dark Souls 3 realça todos os pontos positivos da saga, inclusive os que poderiam melhorar. A fluidez dos movimentos deixa o jogo acessível de um lado, bem como balanceia com os inimigos também ágeis. Há poucas alternativas de diminuir a dificuldade da jornada, e essas são a partir da experiência: aprender com os erros, respirar fundo na derrota e focar na vitória a cada derrota. Jogar Dark Souls é exercitar a perseverança, enxergar as dificuldades e nelas encontrar a solução das lutas difíceis. O fogo desvanece, e as oportunidades afloram ao superar os desafios.

Lorde das Cinzas - Dark Souls 3

“Fui um bom Lorde da Cinza?” / “Não, foi o melhor”


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Favela Gótica (Fantasia na Favela Carioca)

Podemos estar rodeados de coisas e seres invisíveis, pois recusamos a ver. Fantasiamos sobre conquistas alcançadas pela determinação, resumimos atitudes como sendo bem ou mal, preto no branco, e assim ignoramos o contexto alheio, tomamos o nosso sendo o único e o justo. O livro desta resenha fantasia de outra maneira, ela expõe a carne viva da sociedade menosprezada pela falta de oportunidade, demonstra a verdade fedida dos responsáveis por manter o mundo como é, e ousa cutucar tudo e todos à queima-roupa.

Favela Gótica* é a fantasia nacional inspirada nos fatores sociais os quais os brasileiros reconhecem à primeira vista — ou fingem desconhecer. Publicado em 2019 por Fábio Shiva pela editora Verlidelas, a história de fantasia preenche as ruas do Rio de Janeiro de monstros, com a diferença de ninguém se disfarçar nesta realidade.

*Livro recebido pelo autor para realizar a resenha

“No fim dá no mesmo; são apenas formas diferentes de exploração”

Liana vive na favela e é viciada na droga Z-SDA, também conhecida como hóstia ou apenas Z. Sustenta o vício diário comprando direto dos jacarés, os jovens vendedores desta droga. Ela obtém o dinheiro através da prostituição e da dança erótica enquanto tenta se manter de pé sob as adversidades da droga. Por vezes a dependência química é o menor dos problemas, a atmosfera envolta de Liana transpira violência, ela sofre ameaças e insultos de várias camadas da sociedade, sejam ogros, lobisomens ou endemoniados; ninguém a respeita por ela ser zumbi, a criatura dependente de Z. Algumas pessoas descobrirão a verdadeira natureza dela, esta desconhecida por ela, e assim convive enquanto sofre com as crises da dependência química.

“De todos os horrores, esse é o maior: a perda final das ilusões”

A protagonista conduz o romance no olhar representante de uma das classes mais rebaixadas, e desta forma oferece a oportunidade de mostrar a crueza nada agradável da rotina de Liana e do meio onde convive. Parágrafos são curtos e sucintos, progridem a história com descrições ácidas sobre a sociedade em geral. No lugar de pessoas, a realidade de Favela Gótica contém monstros, cada espécie com as devidas características físicas, mas as de comportamento têm destaque, pois é nada inventado da cabeça do autor, apenas observado. Os monstros refletem as piores condutas exercidas pelas pessoas representadas por eles, pessoas reais. Zumbis comedores de cérebro, o temperamento irascível dos lobisomens durante a noite e a fraqueza à prata, o contexto ao redor dos pequenos seres invisíveis; as explicações desses comportamentos são metáforas da realidade nem sempre acessível a quem recusa a ver.

Todo o contexto é mostrado ao longo da jornada de Liana conforme ela presencia cada particularidade dos seres incluindo a si própria, além dos Registros Akáshicos, textos explicativos sobre as criaturas, locais e situações encontradas pela protagonista. Com aspecto de verbete de enciclopédia, os Registros Akáshicos ficam no meio do texto, interrompem a narrativa do romance e dão informações sobre o mundo criado pelo autor. Tal intervenção textual é justificada no decorrer do livro e serve ao propósito do enredo, mas demora a contextualizar essas interrupções e tendem a atrapalhar a leitura no início do romance. A ideia seria melhor aproveitada se a sincronia entre os Registros e o enredo fossem claras desde o começo.

Favela Gótica nos convida a tomar um soco no estômago enquanto prosseguimos nas páginas de textos ágeis e ácidos a descrever a transparência da corrupção no Brasil e a vida das vítimas sob as consequências desses atos e desleixos. A metáfora usada de forma inteligente neste livro denuncia e expõe os detalhes já óbvios, no entanto nem sempre vistos pela sociedade.

“Por pior que seja a notícia, se ela for repetida por tempo suficiente todo mundo acaba se acostumando”

Favela Gótica - capaAutor: Fábio Shiva
Ano de Publicação: 2019
Editora: Verlidelas
Quantidade de Páginas: 276

A Parábola dos Talentos (Semente da Terra, vol. 2)

A ideologia pode ser essencial na vida das pessoas. Regras sistematizadas formam objetivos de vida, definem o caráter de alguém. Nenhuma é adequada a todos, e só descobrirá ao ter a oportunidade de conhecer ideologias até encontrar a ideal — ou criar a própria. Lamentável ver certos grupos ideológicos capazes de atrapalhar as crenças alheias, diminuí-las seja menosprezando ou destruindo. Falha com os princípios originais da própria crença afim de eliminar a outra.

A Parábola dos Talentos traz o conflito ideológico na continuação da história de Lauren Oya Olamina. Escrito em 1998 por Octavia E. Butler e trazido pela editora Morro Branco em 2019 com tradução de Carolina Caires Coelho, a nova eleição dos Estados Unidos pode colocar em risco tudo o que a protagonista conseguiu criar desde A Parábola do Semeador.

“Eram disputas idiotas — desperdícios de vida e riqueza”

Anos após os acontecimentos do livro anterior, Lauren tem o próprio espaço a pregar A Semente da Terra, crença organizada por ela a partir das verdades testemunhadas. A comunidade onde vive e coordena tem poucas pessoas, todas de confiança, nem todas seguidoras da religião dela, com direito de permanecer no local ao ajudar em algum trabalho. Garantem a segurança do local através da vigia constante e dos equipamentos adquiridos com o tempo, mesmo assim seu marido Bankole tem receios quanto à segurança de Lauren, ainda mais quando ela fica grávida. A nova eleição dos Estados Unidos tem como principal candidato Jarret, que pretende implantar a América Cristã pelo país e eliminar qualquer culto diferente do cristão.

Além da história contada de forma autobiográfica por Olamina, este livro tem pequenos trechos contados por outros personagens, em especial a filha de Lauren. Todo começo de capítulo começa pela filha, ela faz comentários sobre o que lê dos diários da mãe e expõe desde o começo a sua opinião, discorda de tudo afirmado pela Semente da Terra, uma seita aproveitadora da boa vontade alheia, segundo a garota.

“Morrer vítima da violência era ainda mais fácil do que é hoje. Viver, por outro lado, era quase impossível”

Após acompanhar as crises presentes na Parábola do Semeador, o começo deste livro traz esperança de quem vive próximo de Olamina conseguir vida mais digna. Independente de acreditar na Semente da Terra, Lauren acolhe e ensina todo interessado a exercer tarefas úteis. Há planos no futuro, vida amorosa com o marido, até a esperança de ter filho! E então tudo desmorona.

A narração é toda descritiva, sem citar ações correspondentes aos sentimentos e gestos dos personagens, tudo é contado com palavras objetivas. Demonstra como o modo de escrita show, don’t tell — mostre, não conte — não é o único meio válido de contar a história. A escrita de Octavia impacta o leitor mesmo usando verbos e definições descritivas, ela sabe como construir a estima do leitor e então destruí-la com os acontecimentos do romance. Passagens longas de diário e parágrafos grandes conseguem prender na leitura da história de Olamina e sua busca em expandir a Semente da Terra de modo a criar raízes entre as estrelas.

Os personagens são inúmeros, alguns mais presentes em certos pontos, mas mesmo quando muitos estão reunidos é fácil acompanhar quem diz, nem entedia o leitor por dar espaço desnecessário de interação, todos os presentes na cena são úteis. Pessoas contestam as ideias da Semente da Terra a todo o momento com Lauren ou nos trechos narrados por outra pessoa, e nem sempre são adversárias da protagonista, na verdade o contato próximo estimula o debate das ideias criadas nesses dois romances sem riscos, apenas com oportunidades de avaliar o valor da seita formada por Lauren, que resiste ao pior enquanto mantém a crença dela em si.

A Parábola dos Talentos encerra a autobiografia de Lauren Oya Olamina com alarmes quanto a consequências na crise ambiental e econômica nacional, bem como na capacidade humana ao agir contra a ideia diferente. Traz debates capazes de lembrar ao leitor que as ideias de Olamina devem ser debatidas, longe de aceitá-las no romance apenas pelo protagonismo da idealizadora da religião, a leitura propõe a reflexão pela divergência ao concluí-la.

“Uma das coisas mais valiosas que eles trocavam uns com os outros era conhecimento”

A Parábola dos Talentos - capaAutora: Octavia E. Butler
Ano de Publicação Original: 1998
Editora: Morro Branco
Tradutora: Carolina Caires Coelho
Quantidade de Páginas: 560
Série: Semente da Terra #2

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Ordem Vermelha: Filhos da Degradação

Vivemos tempos difíceis por conta do cenário político. Toda discussão fica complicada pela repulsa ao ponto de vista alheio, da propagação de notícias e conceitos falsos e a ausência de coordenação entre os representantes — eleitos ou não. Pelo menos ainda podemos criticar qualquer decisão mal feita, às vezes conseguimos mostrar os argumentos no meio de tanto fervor de pessoas com visões verossímeis apenas quando lhe convém. Já num governo autoritário temos direito a nada, inexiste lados senão o opressor e os oprimidos. A coordenação é eficiente, impõe submissão a todos com condições difíceis de perseverar. Tal regime totalitário incitará rebeldia nas pessoas capazes de ameaçar a opressão, mesmo que aconteça depois de mil anos.

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação mostra o domínio de Una e o desespero de alguns habitantes de Untherak ao descobrir seus segredos. Publicado em 2017 na editora Intrínseca, Felipe Castilho entrega esta fantasia nacional onde a violência é exposta e imposta aos personagens.

“Com requintes de crueldade a cada sílaba”

Untherak é o lar da civilização após os seis Deuses darem a última chance aos seres existentes. Humanos, kaorshs, anões, sinfos, gnolls e os gigantes vivem sob a consequência dos pecados dos ancestrais, todos submissos à vontade dos seis Deuses que se uniram e viraram Una, a governanta imortal da cidade. Com força militar dominante, o general Proghon coordena os soldados — chamados de Únicos — com a ajuda da tenente Sureyya. Centípede é o grupo de arautos da Deusa, com rostos de difícil assimilação. A vontade de Una também é garantida pelos Autoridades, fiscais com permissão de punir qualquer cidadão que falte com as obrigações.

Entre os cidadãos há duas classes. Os servos prestam serviços mais pesados durante seis dias da semana e moram em celas, e os semilivres possuem mais liberdade quanto a tarefas e onde podem ir, mas ainda sujeitos a qualquer demanda do governo. O servo consegue ascender à semiliberdade ao pagar um preço exorbitante ou sobreviver na batalha jamais vencida no Festival da Morte.

Aelian serve no setor de correspondências como assistente de falcoeiro. Apesar de presenciar na pele as reprimendas dos Autoridades, o humano insiste em se arriscar nas ações nada prudentes. Harun é anão e Autoridade, sonha em reconquistar as relíquias dos antepassados, valores quase perdidos no domínio de Una. Ziggy é um sinfo, criatura ainda menor que os anões, assexuado e de pouco tempo de vida; vive com os outros da mesma espécie no Segundo Bosque, nada comparado ao lar original deles, o Primeiro Bosque. Raazi e Yanisha são amantes e kaorshs, espécie com capacidade de mudar o tom da própria pele. Yanisha descobriu o segredo de Una, e quer acabar o reinado dela junto com Raazi desde então. Todos esses personagens conhecem Aparição, um guerreiro oculto com vontade de combater o governo totalitário de Una, portador de espada grande e com a cabeça coberta com o capuz da cor proibida, a vermelha.

“O tempo tem a capacidade de transformar tudo, exceto a si mesmo”

Conhecemos Untherak e seu regime totalitário através das histórias dos personagens citados, em especial Aelian e o casal de kaorshs. Eles têm os próprios objetivos, com o tempo alinhados com o da trama, o de dar um fim a Una e o sistema cruel da cidade. Aparição é o símbolo de ameaça aos Autoridades e Únicos, bem como a esperança a quem é salvo pelo ser excepcional. As demonstrações de violência são constantes, punição é eficiente apenas ao impor medo, muitas pessoas — cidadãos e Autoridades — aproveitam das brechas e vistas grossas para benefício próprio, demonstrando a Lei de Gérson através da fantasia brasileira.

Cada personagem tem as suas particularidades. Passado, problemas e ambições possibilitam empatia enquanto mostra os perrengues do capítulo vigente, demonstram-se verdadeiros a ponto do leitor importar com cada um deles, mesmo quando não de primeira, pode mudar de opinião após descobrir todo o contexto vivido. É fácil compartilhar sorrisos nos momentos pertinentes, bem como prender a respiração ao longo do enredo tenso. Mesmo assim o autor perde algumas oportunidades de aprimorar a empatia por usar verbos de pensamento em certas partes do capítulo. Tais verbos resumem a sensação do personagem sem a repassar ao leitor.

O enredo trabalha a formação e evolução dos protagonistas e impressiona nas reviravoltas. Cenas surpreendem e oferecem o suspense antes de dar a resposta, umas no momento certo, já outras sob entrevistas — diálogos feitos de perguntas e respostas — que despejam a informação no leitor. Seja na construção ou destruição de conceitos, tudo empolga a curiosidade quanto a surpresas reservadas nas próximas páginas.

Ao começar a ler as cenas de ação, espere qualquer resultado. As batalhas ameaçam retalhar seja quem for, lâminas rasgam o corpo sem pudor e terminam vidas importantes, reconstroem o enredo com as consequência levando a novas possibilidades.

“Pessoas prestes a morrer eram bem mais perigosas do que brutamontes”

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação tem ótimos pontos positivos em fantasia e comprova a capacidade de Felipe Castilho como autor brasileiro de ótima qualidade. Com ressalvas quanto a passar a informação e demonstrar sentimentos do personagem em vez de contá-los por verbos de pensamento, ainda assim é preciso congratular pela ambientação e demonstração verossímil de um governo violento que recorre a qualquer alternativa capaz de manter os moradores submissos; o vilão gera a consequência de causar empatia ao leitor nos personagens vivos através das palavras.

“Alguns infernos duram mil anos; outros, um dia. Mas nenhum é melhor que o outro”

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação - capa

 

Autor: Felipe Castilho
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 2017
Gênero: Fantasia
Quantidade de Páginas: 448

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Ficção Violenta Gera Violência?

Tragédias são inevitáveis, independentes da boa vontade em prevê-las. Fatores complexos incitam desastres ambientais, outros de questão social e individual fazem certas pessoas levantar armas e atirar. O resultado é transmitido pela internet segundos depois ou ao vivo. Terminada a tragédia, vem a discussão dos fatos. Figuras públicas ensaiam gestos eloquentes e apontam o dedo sobre as causas, essas em fatores mal compreendidos por elas.

A violência na ficção sempre foi culpada na influência de alguém a ponto de torná-lo infrator antes mesmo de verificar o quanto impacta. O tempo avança e as críticas insistem em mídias contemporâneas, foi assim com livros, quadrinhos, filmes… Hoje os jogos eletrônicos levam a culpa dos atentados recentes. Este artigo traz a discussão sobre a violência da ficção de fato influenciar no público que a consome. Sem dar o ponto final na questão como em qualquer outro artigo da categoria Aprendizado deste blog, o intuito aqui é oferecer diálogo a partir das pesquisas feitas sobre o assunto.

Literatura Violenta

Começo a abordagem pela violência na literatura. O periódico de Tânia Pellegrini traz pontos de a agressividade na literatura brasileira estar atrelada a cultura e histórico de nosso país, submisso a momentos conturbados na colonização, escravidão, lutas de independência, ditaduras e a urbanização.

Violência

Pallegrini ainda analisa e compara dois livros com violência marcante: a ficção de A Cidade de Deus e a obra Estação Carandiru de Dráuzio Varella. Chama atenção do primeiro na forma de apresentar a violência na história, todo o ambiente é marcado por agressão, representada por diversas formas a ponto de levantar uma espetacularização da violência, cujo excesso é o atrativo do público. Ao contrário do livro de Dráuzio narrado pelo próprio, uma pessoa alheia à realidade dos prisioneiros de Carandiru que mostra os acontecimentos vistos, dá voz aos personagens reais daquela situação ao invés de expô-las ao leitor através da violência.

A crítica de histórias como A Cidade de Deus é feita pela ambiguidade na interpretação de quem lê, pois pode assimilar a crueza de todos os delitos representados na ficção; ou imaginar que, naquele meio, a violência é viável à humanidade. Eu enxergo esta divergência de interpretação como oportunidade de debate entre os consumidores da história, mas como já critiquei na abertura deste artigo, pessoas de grande representatividade apelam apenas na segunda versão sem sequer conferir os fatores.

Violência Real X Fictícia

Sobre os fãs de histórias violentas, boa parte é atraída pelo ambiente fechado da ficção onde tal recurso se justifica, longe de eles acreditarem como algo viável na realidade. Foi o que a States United to Prevent Gun Violence (SUPGV) mostrou na campanha em vídeo, onde convidou fãs dos filmes de ação para assistir a estreia no cinema de algo como eles queriam: cenas cheias de ação e armas.

Cinema violento - violência

O cinema entregou o prometido, mas apenas com gravações reais de homicídios, acidentes com arma e suicídio. As câmeras escondidas filmavam a reação dos espectadores, e ninguém se empolgou com as cenas, muito pelo contrário. Saíram apavorados, chocados com as tragédias causadas pelas armas de fogo, conscientes da violência jamais ser o melhor recurso na resolução de conflitos.

Lá vem os jogos

Games são as mídias mais recentes onde conteúdos violentos se multiplicam mais rápidos do que coelhos. O blog tem resenhas de alguns desses jogos, onde analiso o enredo e mundo de determinado jogo, demonstrando a situação daquele mundo com a violência como reflexo — ou desculpa para o jogador bater em quem estiver no caminho. O quanto isso influencia as pessoas? Felizmente já existem vários estudos para esta discussão.

Gamer Zone - violência

O mais recente feito pela Oxford neste ano traz críticas a outros estudos que alegaram relação de jogos violentos com os delinquentes reais. Segundo o periódico, algumas metodologias coordenavam as pessoas analisadas a responderem de acordo com o viés do pesquisador, pois nem todos os parâmetros levantados eram imparciais. Quando os pesquisadores de Oxford fizeram o próprio levantamento, contestaram a influência dos jogos violentos a quem comete atentado.

Longe de os games serem isentos de culpa. A American Psychological Association’s (APA) fez uma análise bibliográfica com trinta e um artigos sobre jogos e violência. O resultado das análises reforça a baixa probabilidade de jogos violentos incentivarem pessoas a cometer delitos, entretanto podem influenciar no comportamento, como demonstrar sentimentos mais agressivos e/ou perder a sensibilidade ao ver algo brutal; o último ponto conflita com a campanha em vídeo do cinema citado acima, que apesar de não ser matéria acadêmica, levo a questão pela representação extrema capaz de chocar até quem possua pouca sensibilidade.

Menos julgamento, mais discussão

Atos violentos têm origens em diversos fatores, difícil de apontar causas específicas num comportamento tão complexo. Vimos como os ambientes violentos na ficção possuem a sua parcela de culpa, apenas com impactos emocionais. Apontar o dedo onde tem menos influência demonstra pouco conhecimento da causa, além da falta de interesse ou ocultação do que de fato provoca consequências maiores. Toda conclusão deveria vir após estudar o caso, sem apelo a sentimentos e comportamento honesto frente a prevenção de novas tragédias.

Referências

No fio da navalha: literatura e violência no Brasil de hoje

Gun Crazy: Moviegoers See Gun Violence Like They’ve Never Seen Before (YouTube)

Violent video game engagement is not associated with adolescents’ aggressive behaviour: evidence from a registered report

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