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For Honor (Literalmente em Games)

Batalhas e guerras eram eventos comuns na Idade Média, proteger o lar através da morte ao oponente fazia parte da cultura, almejada por quem tivesse condições de servir sob armadura e lâmina empunhada. Acontecia a mais de um lugar, no continente europeu e nas ilhas nórdicas, a Ásia também fez história com sangue derramado. Por mais violenta seja a atualidade, chega longe da brutalidade de nossos antepassados, cujos costumes mortais são deleites a nós, representados nas mais variadas formas de entretenimento, tal como neste que traz três povos distintos ao mesmo ambiente, o de guerra constante

For Honor traz cavaleiros, samurais e vikings num mundo onde a paz soa absurda. Lançado em 2018 pela Ubisoft, o jogo é focado em jogabilidades multiplayer, mas com campanha principal onde conta a história desses conflitos, esta analisada na resenha.

“Espadas que se cruzam revela o caminho do coração”

Ninguém soube explicar o motivo das terras se transformarem e levar os guerreiros a outro local, coexistente com outros povos, vítimas da mesma situação. Disputas pelos recursos do novo mundo atiçam os guerreiros a lutar, e lutar, e lutar… Ambiente muda ao redor, e os guerreiros continuam a eterna batalha. Eles ficam esgotados e desejam a paz, mas Apollyon lembra a natureza de todos, sempre haverá guerra entre eles.

For Honor - Apollyon

A campanha é composta de três capítulos, cada um conta a história das facções: começa pelos cavaleiros, continua nos vikings e conclui na saga dos samurai. Os capítulos focam na classe guerreira mais básica da equipe, com gênero determinado pelo jogador e nome inexistente, algumas missões oferecem a oportunidade de conhecer as outras classes do reino, estas com personagens com nome, personalidade e objetivos definidos no enredo existente entre as dezoito batalhas da campanha.

“Os símbolos deles são o troféu de quem matei”

Os conflitos dos três tipos de guerreiros remetem a personagem principal, a antagonista Apollyon, líder da Legião Pedra Negra, grupo dos cavaleiros. Marcada como a responsável de a guerra persistir por todos, ela de fato provoca conflitos até entre as pessoas do mesmo reino, desenvolve seus argumentos ao longo da trama, o de expor a real natureza de todos. Dentre os personagens feitos para a campanha, Apollyon se destaca de qualquer outro por apresentar a visão condizente ao enredo presente no jogo. A vilã é realista.

As batalhas da campanha tentam traçar objetivos alinhados ao problema naquele momento do enredo enquanto coordena o jogador ao próximo ponto de destino. Nada de extraordinário nem verdadeiro. O jogador pode perder tempo explorando o cenário na maior parte do tempo sem ter consequências aos aliados, a exploração é até incentivada por ter pontos de observação em que garantem uma descrição do mundo a partir do objeto vislumbrado.

For Honor - cenário

Estratégias de guerra ficam confusas pelo comportamento dos personagens não jogáveis, sejam aliados ou inimigos. Por vezes muitos companheiros ficam parados quando prestes a morrer. Os inimigos param de perseguir o jogador em fuga mesmo quando há apenas ele no território, sequer lançam projéteis, e morrem quando o personagem volta todo recuperado. Sem falar nas várias ocasiões quando os aliados miram nos inimigos e acertam o próprio jogador.

“Mas seria uma história e tanto”

Duelos sucedem no campo de batalha, o verdadeiro foco da jogabilidade de For Honor, e este sim caprichado. Com sistema original, os guerreiros ficam de guarda em busca de brechas dos oponentes. Há peso nos movimentos, pelos aços que carregam no braço e nas armaduras, e os deixam vulneráveis a ataques na tentativa de acertar o adversário. As classes possuem formas distintas de atacar e defender, conhecer cada diferença melhora a jogar com a classe favorita, bem como ajuda a formar estratégias de como lidar contra determinado inimigo.

Os guerreiros vivem pela guerra em For Honor. A campanha principal introduz o jogo focado em multiplayer, ensinar a jogar contra bots de diferentes níveis, e apresenta o mundo criado pela Ubisoft através da visão de Apollyon.


Confira o jogo

God of War (Literalmente em Games)

Todos estão sujeitos a mudanças, e é incrível observar certos tipos de gente enquadrados neste todos. Alguém reconhecido pela raiva, capaz de destruir até o próprio criador. Todos gostaram dele desta forma, e com motivos. Na ficção rodeada de seres poderosos e nada generosos, ele não via outro caminho.

Desta vez ele enxerga novos horizontes. Em terras distantes, recomeça a vida, cria outro filho pensando no futuro enquanto repreende o passado. A brutalidade está nos braços e na voz, age contra si mesmo na tentativa de educar seu filho a ser diferente do pai. Quer o melhor à criança, e buscará aprimorar a si nesta nova jornada.

God of War é o recomeço de uma das sagas mais elogiadas da plataforma Playstation. Lançado em 2018, a Santa Monica Studios ousa inovar a narrativa do protagonista Kratos e nas mecânicas do jogo também.

As pessoas deveriam parar de rezar para monstros

Kratos abandona o passado de panteão grego e começa a viver no reino de Midgard, lugar dominado pelas criaturas e panteão nórdico. Volta a amar e vive com a esposa Faye, tem um filho com ela chamado Atreus. Era recluso como pai, sempre em conflito com o repúdio de si mesmo no passado. A mãe morre e Kratos deve cuidar do garoto durante a jornada prometida a ela.

Monstros ficam no caminho, só que jamais vistos em tamanha quantidade. O sujeito Estranho também interrompe a jornada deles por causa do garoto. Conhecerão diversas criaturas, algumas os ajudam, outras pedem favores e forçam conflito entre os interesses de Kratos com o filho. Tudo isso porque Faye pediu aos dois levarem suas cinzas ao ponto mais alto dos Nove Reinos, objetivo tão simples que é transformado numa grande aventura e desafios no convívio entre adulto e criança.

Ele parecia legal, antes de você cortar a cabeça dele

Só existe um aspecto similar aos jogos anteriores da série: brutalidade. Kratos sabe aproveitar da sua fúria ao destroçar os adversários, e o jogador deve se precaver com os modos de luta dos inimigos para tornar esta violência eficiente. Há poucos chefes na campanha principal e muitos repetidos nas aventuras secundárias, porém a pouca variedade é compensada pela qualidade e diferenças de cada adversário repetido.

O mundo novo aos jogadores e a Kratos reservam novidades aproveitadas com a tecnologia atual de desenvolvimento de games que os outros estúdios também possuem. O diferencial de God of War é saber como mostrar essas novidades. E fizeram com o recurso muito abordado nos posts deste blog: a narrativa.

Tá olhando o quê? - God of War

Tá olhando o quê?

Esqueça as arenas sucessivas de hack n’ slash e dê lugar ao ambiente vivo por onde Kratos e Atreus conversam, trocam experiências e interrompem a interação quando o inimigo atravessa seu caminho. Sem pressa de mostrar, o enredo do jogo coordena o jogador a diferentes nuances de ritmos entre caminhadas, escaladas e brigas; recompensando-o depois com a revelação, estampa a grandeza (nos diversos sentidos) dos personagens novos aos nossos olhos que brilham com a beleza visual e o impacto narrativo construído naquelas interações.

A ambientação é diversa, mas limitada. A exploração da narrativa soube explorar o espaço, por outro lado prolonga a experiência com outras medidas forçadas. Kratos encontra vários itens restritos a recursos obtidos mais tarde, obrigando o jogador a retornar aquele lugar muitas vezes só para coletá-los.

Ganância costuma causar muitas guerras

Proporciona várias oportunidades de conhecer a mitologia existente pelos mundos da Árvore Yggdrasil. O garoto é prodígio nas linguagens diversas entre os mundos nórdicos, painéis feitos pelos gigantes contam mais histórias, além das breves conversas entre os personagens enquanto tomam o longo rumo ao próximo ponto da jornada.

Aprenda com o papai - God of War

Aprenda com o papai

Também tem as missões secundárias. Elas tiram Kratos do objetivo e isso o enfurece, então entra o garoto Atreus e insiste em ajudar as outras pessoas, como a mamãe faria, e Kratos resolve olhar as boas oportunidades de aprimorar equipamentos e saquear recursos nessas missões.

O mais incrível da interação entre pai e filho é conseguir algo jamais imaginado pelos fãs de God of War: humor. O contraste entre o menino inocente e o adulto carrancudo gera conversas hilárias, tiram Kratos do lugar comum e surpreende. A conversa entre eles ainda vai além, pois devem aprender muito sobre o outro, algo nada fácil e que gera conflitos a partir das diferenças.

Quem imagina o novo God of War como uma aposta da Santa Monica, está subestimando a produtora, pois eles souberam o que estavam fazendo. Sem tiros no escuro, colocaram Kratos em transformação nesta nova jornada com Atreus, e provaram também o quanto este garoto é útil no jogo, longe de ser apenas NPC. Aproveitaram os recursos tecnológicos avançados com técnicas narrativas, e o resultado foi espetacular.

Angus: O Primeiro Guerreiro

Vamos encarar outra história de guerreiros? Que tal mais um conflito entre os ingleses e nórdicos nos tempos de Rei Alfredo? Desta vez não será um volume da saga As Crônicas Saxônicas, de Bernard Conrwell, e sim o livro de autoria brasileira.

É mais difícil encontrar casais formados por etnias diferentes nos tempos medievais, comparando com a situação atual. No livro deste post, o filho de um nobre nórdico tem também influências da mãe cristã, e caberá a ele escolher a fé e por quem lutar nesta guerra entre cristãos e nórdicos.

Angus: O Primeiro Guerreiro, é o protagonista herdeiro de duas culturas diferentes com papel importante nos conflitos encarados pelo Rei Alfredo. Com nova edição publicada em 2017, é o primeiro volume da trilogia sobre as histórias deste Angus e da sua linhagem.

Angus: O Primeiro Guerreiro - capa

Orlando de Paes Filho é o autor desta trilogia reconhecida em vários territórios internacionais. Foca em produzir histórias ficcionais a partir de fatos históricos da idade média.

Criatura limitada e ingrata, pai da mentira!  

Angus é filho de Seawulf, O Sangue de Gelo, e cresceu junto aos escotos com a mãe Briggid, temente ao Deus cristão. Seawulf leva Angus na primeira campanha do filho, ambos servem ao grande exército nórdico liderado pelos irmãos Ivar e Halfdan, os dois filhos do lendário viking Ragnar Lodbrok.

Influenciado pela esposa, Seawulf rejeita certas posturas dos líderes nórdicos, seja nas estratégias, no tratamento perante aos adversários derrotados e por proteger homens indignos, segundo ele. Angus segue os passos do pai enquanto testemunha sua indignação do velho em relação aos filhos de Ragnar.

Os conflitos em torno de seu pai levará Angus a abandonar o exército nórdico e conhecer pessoas da ilha Bretanha, onde há crença no Deus monoteísta igual a da mãe. Aprende lições religiosas capazes de convencer o jovem guerreiro a confrontar os nórdicos. 

Dura pouco a alegria do guerreiro  

O livro de Angus aborda a ficção histórica cujos elementos fantásticos estão na crença dos personagens. Apresenta uma lenda original do autor como base da trilogia enquanto mescla conflitos e personagens reais na história medieval. Retrata a vida dos nobres católicos e aspectos da cultura nórdica, bem como a relação de cada crença com as batalhas e as formas de manejar armas.

As centenas de páginas carregam conflitos atrás de conflitos. Batalhas de exércitos, duelos e missões de reconhecimento trazem ótimas descrições das cenas de ação onde nem sempre o resultado é previsível. Porém
peca em apresentar alguns dos adversários no meio de tantas batalhas. Enquanto é possível testemunhar o rancor de Angus contra alguns nórdicos, os outros inimigos trazem pouco impacto na trama e são apenas obstáculos que o protagonista ultrapassa sem dificuldade, encanto ou importância. 

Possui narrativa em primeira pessoa com momentos de info dumping. Angus descreve os vários detalhes dos exércitos aliados e o seu conhecimento dos adversários. A narrativa sobrecarrega informações em certo capítulo, até fica estranho quando Angus enfim toma alguma atitude, lembrando depois de muita descrição que ele também é personagem além de narrador. A sensação de Angus ser apenas  o contador da história diminui após a metade do livro, quando ele avança de combate a combate no ritmo apressado e destoante comparado ao começo da história.

Angus: O Primeiro Guerreiro oferece tudo ao leitor interessado numa aventura histórica e cheia de ação, mas com aquele sabor amargo de monólogos descritivos onde despeja informações, além da quebra de ritmo ao longo do livro.

Link Externo

Confira o livro

O Cavaleiro da Morte (Vol 2. de As Crônicas Saxônicas)

Existe certo fascínio nas ficções voltadas aos aspectos da idade média. Modo de vida mais simples, natureza presente, orgulho de ser leal a uma causa contrastam com os perigos de morte, saneamento básico inexistente comparada a de hoje, e as oportunidades nulas de ascender na sociedade e permanecer na posição social onde nasceu. 

Cada grupo tem a própria ambição e crença. Cavaleiros lutam em busca de mérito, principalmente pela sobrevivência e a garantia do reino onde sua família possa perseverar. Já os guerreiros dinamarqueses lutam para conquistar o lugar junto aos deuses no salão de Valhalla após a morte, enquanto em vida querem conquistar as terras saxônicas por serem mais férteis, e assim garantir a qualidade de vida ao seu povo. 

O contraste destas populações distintas é retratada em O Cavaleiro da Morte. Publicado em 2005, é a continuação do romance O Último Reino. Este segundo volume da saga Crônicas Saxônicas obriga Uhtred a se decidir em qual lado da batalha combater. 

O Cavaleiro da Morte - Capa

Bernard Cornwell é autor de dezenas de romances sobre ficção histórica, em especial os relacionados à Inglaterra, e conhecido pelos romances inspirados em fatos históricos e pelas cenas de batalhas viscerais. 

Sejam bons cristãos! Machuquem um pagão!  

Uhtred venceu o temível Ubba, porém deu pouca importância de tomar o mérito no momento certo. Já Odda, o Jovem, aproveita e se diz o responsável pela derrota do dinamarquês e consegue se promover com o rei Alfredo. Após descobrir a ascensão de Odda, Uhtred exige o reconhecimento na maneira pouco usual aos saxões e nada cristã, e recebe apenas penitência e repúdio do rei como recompensa. 

O protagonista é herdeiro de um castelo inglês (após a morte do irmão primogênito) e viveu entre os dinamarqueses da infância a juventude. Por viver entre os dois povos, ele vê a oportunidade de escolher a quem se aliar, apesar de ponderar os riscos em cada lado. Conhece Svein durante o período de indecisão, líder das tropas irlandesas e galesas que pretende derrotar o restante da Inglaterra junto com o líder dinamarquês Guthrum. Vários fatores surgem nos acontecimentos conturbados enquanto Uhtred se decide na escolha entre a impossibilidade da vitória ou da sobrevivência. 

Os dinamarqueses faziam seu trovão de batalha e nós rezávamos  

Narrado em primeira pessoa, Uhtred conta a história de quando era mais jovem sem se incomodar de ressaltar as próprias qualidades e os defeitos na época. As palavras de Bernard refletem a partir do protagonista na preocupação de deixar a história acessível aos leitores atuais, além de reforçar esta facilidade de compreensão também na tradução brasileira, com notas sobre escolha de quais termos se empregam. Há ainda explicações repetitivas dos acontecimentos anteriores da saga, pequenos lembretes entre tantas informações de personagens ao leitor, isso porque ainda se trata do segundo volume da saga de dez livros publicados. 

Esqueça o charme da idade média exaltado em outras ficções. Bernard Cornwell reflete a realidade crua e nojenta do período medieval. Revela os podres da justiça, nobreza e religião sem pudor daquela época, muitos gerando conflitos políticos, desafios a superar por Uhtred enquanto mantém a posição instável. Tudo fica ainda pior com o reino saxão quase destruído, muitos nobres ingleses se aliam aos dinamarqueses e abandonam o rei Alfredo.

As crises políticas e de sobrevivência dão espaços aos conflitos brutais no romance, os melhores aspectos na escrita de Bernard. As descrições imergem o leitor para dentro da batalha, acompanhamos a perspectiva de Uhtred e vemos como se participássemos dela. Sem dispensar detalhes, retrata a crueza e crueldade das colisões das paredes de escudos e duelos consecutivos na batalha não só entre povos, mas entre os deuses (nórdicos e O cristão). 

Cometo a injustiça pela minha demora em ler os livros de Bernard Cornwell. Eu não gosto de ler livros do mesmo autor em sequência, nem mesmo os volumes da mesma saga, só que eu demoro demais entre um livro e outro deste autor. Surpreendo-me com a ótima qualidade da escrita sobre a história medieval e das batalhas viscerais muito bem retratadas em palavras.

Contra o Espelho

Este é o segundo texto feito para o projeto o Colecionador de Maldições. O primeiro está disponível no Wattpad, clique aqui caso não tenha lido.

Devo avisar que é um texto com linguagem vulgar e ofensiva, além de cenas explícitas e perturbadoras. Se está de acordo: boa leitura!

Águia - Contra o Espelho

Volto a esta sala escura onde a única luz surge do chão ao redor de meus pés. Enxergo a camada densa de poeira, uma praia cujos grãos de pó cinzento se prolongam ao horizonte sem mar. Paredes invisíveis impedem de sair, só fico livre se vencê-lo. 

A porção de luz também irradia sob os pés dele. Corpo alto, largo. Cabelos longos e ensebados. Unhas enegrecidas e lábios rachados. Postura curvada. Ele me olha, como todas as outras vezes. 

Quero exigir respostas. Berrar pr’aquele desgraçado explicar de uma vez. Tenho vontade de esmurrar a fuça dele, abrir buracos naquela cara até obter uma resposta. Passou o tempo quando me assustava com sons de crânio se partindo, hoje não importa mais. 

Mas não farei isso. Seu crânio é invulnerável, e assim como eu está mudo. Nós apenas gememos. 

Ele dá um passo, eu faço o mesmo. Levanta o seu queixo e observa minha face, eu faço o mesmo. Deixa seus braços soltos, eles balançam conforme anda, parece escapar de seus ombros a qualquer momento; só que não cairão, assim como os meus. 

Nossos narizes se tocam. Ele ergue sua mão esquerda e eu a toco com a minha. Nos olhamos nos olhos, mergulhamos no globo escuro com borda castanha. Nessa borda algo se mexe constantemente, no primeiro momento parecem riscos. Mergulho mais fundo, as imagens se ampliam a mim, e eu enxergo um mar de formigas naqueles olhos. As formigas mergulham no abismo do centro. Mergulham tantas que preenchem o abismo, e a pupila diminui. É tomada por aquelas antenas e patas frenéticas, elas não param de se mexer, não param de andar naquele olho, não param de consumir a pupila. 

Vejo no último instante seu olho tomado por insetos, tal como o meu. Nossas pupilas consumidas não absorvem mais luz, e não enxergo mais nada. A imagem dos insetos fica impregnada na minha mente. 

Soltamos um grito mudo. Batemos na testa e derrubamos a cabeça sobre o ombro direito do outro.  

Boca seca permanece aberta, não consigo fechá-la. A saliva escapa pelos meus lábios, escorre pelas suas costas, e nas minhas sinto um tracejado morno. O pequeno riacho vai escorrendo até o trapo de pano usado como cueca absorver a umidade. Poeiras também preenchem o trapo, faz tudo formigar por dentro. Droga, esse pó entra até no cu! 

Seus braços me envolvem, eu percorro seu corpo gordo e apoio nas suas costas. Ele começa a me arranhar. 

As unhas pretas cravam minha pele e arranca sangue. Reajo como ele e a dor nos remexe. De arranhões evolui a murros. Agrido a coluna dele. Atinge o meu cóccix, e meus olhos derrubam lágrimas. 

Empurro o corpo dele e pulo na direção oposta. Minha boca sangra feito cachoeira, o sangue não acaba. O fundo do meu trapo incha, ganha cor, aos poucos o sangue que sai de meu rabo se mistura à poeira do chão. 

Meu peito está carmesim. Engasgo com o sangue que não para de sair de minha boca. A saliva se mistura e tusso. Meu estômago começa a queimar, e vomito junto com sangue. 

Demos uma nova cor ao chão. Vermelho com grãos cinzentos e gosma amarela esverdeada. Eu tinha que voltar a enxergar neste momento… Vomito mais. 

O desgraçado agarra meus cabelos e empurra minha cabeça contra o chão podre. Grito gemidos, levanto e começo a socar sua cara. O sangue de sua boca salta a cada porrada, pinta todo o meu rosto. Esmurro a boca, não quebrará os dentes, mas dói a gengiva. 

Uma grande poça surgiu com nossos líquidos acumulados. Mexo meu pé descalço tentando me equilibrar, e escorrego. O cheiro azedo arde as narinas, me afogo naquele mar escroto. 

Meu corpo adormece. 

Minha visão permanece. 

Vejo ele fincar seus dentes na minha pele e arrancá-la. Mastiga entre o sangue escorrendo de sua boca. Morde meu pescoço, braço e antebraço, inclina sua cara até mastigar a barriga. Mastiga meu intestino que não se quebra com os seus dentes. 

Volto a mexer a ponta de meus dedos, aos poucos a mão, mas meu corpo desperta, e reclama da dor dessas mordidas. Berro e assumo o controle de meu corpo, abocanho sua orelha e arranco do seu corpo. Minha orelha cai junto com a dele. Gritamos. 

Berramos um contra o outro. Ele esmurra minha cabeça, eu o seu peito. Trocamos agressões, arrancamos a superfície de nossa pele. 

Continuamos a sangrar. Sangramos mais do que mil humanos carregam consigo. 

Sangra, sangra. A gente soca, e sangra mais. Soca, fere a pele. Soca, arranca pedaço. Soca, músculo dói. Soca, berra. 

Ele tira a minha bochecha direita na porrada. Eu abro o buraco no seu coração. Nós dois temos buracos no mesmo lado da bochecha e no peito. É agora ou nunca. 

Venço outra vez esta disputa. Sou o primeiro a pegar o coração do outro. Fecho meus punhos sobre o órgão e o torço. 

Ele desmancha. O sujeito com a mesma aparência que a minha vira pó.  

Supero a maldição por esta noite. A sala escura ganha luz, luz vermelha. A claridade assume a forma de uma águia gigante. Ela consome, abraça e me leva ao mundo fora deste sonho. 

 

— Di. Di! Acorda! 

Abro meus olhos e enxergo Lara sobre mim. 

Ela desaba seu corpo sobre meu peito, encharca o rosto com suas lágrimas. 

Corpo inteiro, não sangro mais. Apenas o suor frio corre pela pele. 

— Então é você? Você era aquela criatura? 

— Sou um amaldiçoado. — Ainda chocada comigo, continuo a explicar: — Às vezes a maldição invade meu sono, tenta me consumir. 

— Amaldiçoados não salvam pessoas.

Ela sorri, e agora sim eu desperto. 

Tento retribuir o gesto, daí lembro da última imagem do sonho: a enorme águia vermelha, a Águia de Sangue. Que inferno! Ela virá hoje. 

Empurro seu braço de leve e ela sai de cima de mim. Pego a cueca e calça mais esfarrapadas e peço privacidade a Lari. 

Saio do meu quarto e vejo seus olhos castanhos curiosos. Desliza uma mão sobre a outra, as pernas cruzadas. 

— Eu preciso sair. Alguém me aguarda, mas eu voltarei, está bem? Não saia daqui. 

— Você vai ficar bem? 

— Vou. — Meu corpo tremeu. 

Ela abre a boca, eu a interrompo. 

— Eu irei sozinho, e vou voltar. 

— Vai sofrer mais? Não quero isso para você! 

— Minha vida é assim agora. Por favor, Lara. Não quero envolvê-la. 

Apoio a mão direita em seu ombro. Ela assentiu, e eu parti para enfrentar a Águia de Sangue. Eu sonhei com aquilo desta vez, algo mais irá acontecer. O que planeja desta vez, Helga?

Eu não vou me render aos deuses!

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