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Influenciadores X Informação

Já estamos em 2019. Eu sei, já é tarde anunciar o ano novo após quase cinquenta dias de estreia. Só o faço porque o grande problema de 2018 continua mesmo após o réveillon. Publiquei o artigo há mais de um ano falando como a ignorância dos brasileiros frente ao conhecimento pode prejudicar muitos aspectos de nosso país. Ninguém é obrigado a saber de tudo, e eu demonstrei as minhas falhas no outro texto e propus a todos nós procurar melhores informações. A copa do mundo passou, o novo presidente já assumiu os trabalhos e já retirou a bolsa de colostomia, e a ignorância permanece.

Fácil de notar a insistência deste problema quando os brasileiros engoliam rajadas de fake news durante a eleição, e ainda assim vemos algumas até hoje. Enquanto estivermos a mercê da ignorância, esta permanecerá como o Grande Problema de 2019. Eu também persistirei nesta discussão, e este post agregará argumentos para outra situação: a disputa onde a informação perde de 7 a 1 contra a influência.

Há grandes chances de nossos filhos, sobrinhos, pais e mães sofrerem influência da ideologia dos comunicadores da mídia. Não mais a tradicional, mas a descentralizada da internet. Longe de partir dos professores ou de cientistas, e sim de YouTubers.

Os criadores de conteúdo da maior plataforma de vídeos vigente são os responsáveis por tirar cidadãos de bem e crianças das questões importantes da sociedade, além de problematizar pontos inúteis de discussão onde leva a lugar nenhum, na verdade tira o foco do essencial.

Plataforma de vídeos — e influências

A Google disponibilizou o relatório pomposo, cheia de orgulho do alcance propagado pelos produtores de conteúdo no YouTube. O número de visualizações só aumenta, pessoas dedicadas a disponibilizar vídeos no site conseguem rendimentos capazes de manter a vida financeira, são a fonte favorita de mídia para saber de assuntos específicos ou conteúdos agradáveis a quem assiste. Perdem em influência apenas contra amigos e familiares, os espectadores confiam mais neles do que no jornalismo tradicional e na TV aberta. Sabe os temíveis professores e cientistas influenciadores? Eles existem, com certeza! Apenas não em proporção suficiente a ponto de nem se destacar entre os demais setores da estatística.

O relatório exalta o alcance do YouTube com objetivo de divulgar o mecanismo de patrocínio entre os produtores de vídeo e as marcas interessadas em anunciar produtos. E de fato os YouTubers são excelentes em engajar os espectadores a conferirem as novidades anunciadas nos vídeos — fator destacado no relatório — e mal precisa observar muito quanto a eficácia da influência. E o problema existe bem aqui. Os produtores são excelentes em convencer o público fiel deles a seguirem dicas, garantem a visibilidade da marca através de patrocínio, e vão além de propagar produtos e serviços de empresas.

Ideologias são conjuntos de ideias vendidas a quem acredita nelas, e os YouTubers sabem vendê-las. Além disso, estão cientes de como seu público aceita o que assiste sem checar a realidade proposta no vídeo. Eles também não sugerem aos fãs como se informarem, ou melhor, citam apenas as “fontes confiáveis” cujas pessoas compartilham do mesmo interesse defendido pelo produtor, além de demonstrar os pontos contrários de modo que eles soem fúteis a sua audiência. Pouco importa, o público já está cativo de seu conteúdo e tomará o discurso como verdadeiro, quando na verdade é apenas verossímil. Apresentar meios de obter informações além dos influenciadores é ineficaz, esmurrar a ponta da faca machucaria menos.

Existe solução?

Refutação honesta

Segundo um estudo feito através de estudantes sobre pseudociência, a melhor forma de desmistificá-la é apontando as suas características e as falhas. Sem editar fragmentos do argumento no intuito de torná-lo bobo, nem diminuir o locutor da mentira por nível social ou campo ideológico. Apenas a apresentação honesta da ideia equivocada lançada pelo influenciador, e a exposição sincera das informações necessárias para provar o erro.

O estudo trata de pseudociências, e vejo como alternativa a qualquer informação defasada por YouTubers, afinal eles mesmo já operam desta forma, exceto que eles manipulam os argumentos contrários de modo a aparecer fracos contra os deles.

Há as suas limitações. Pelo estudo analisar um caso de estudantes, o resultado vem de evidências anedóticas, mas pelo menos essas são possíveis de replicar. Como o  artigo publicado ano passado neste blog que analisa as características da astrologia e o motivo de elas serem falsas, apresenta os pontos defendidos por ela e em seguida traz argumentos contrários, ou ao menos provocam reflexões de como a astrologia depende mais da influência do que a veridicidade das informações.

A crença na astrologia ainda persiste mesmo depois de eu publicar meu artigo, nem meu post sobre fake news destruiu a propagação de notícias falsas, muito menos o texto do Grande Problema de 2018 nos salvou da ignorância. Eu sempre dedico esses textos com intuito de colaborar com a discussão demonstrando a minha interpretação das fontes consultadas (lembre de conferir as referências deste artigo também). Quero influenciar ninguém, no máximo incentivar o pensamento crítico. Sigo neste trajeto de debate, pois a trilha é longa e oferece oportunidades de aprendizado quando a percorremos.

Referências

O poder dos YouTubers

Texto do André Azevedo sobre a (má) influência dos YouTubers

Confrontar pseudociências faz sentido?

Effect of Critical Thinking Education on Epistemically Unwarranted Beliefs in College Students

Cansei de Fake News

Odeio começar este artigo respondendo a possíveis declarações de alguém que não leia ou compreenda o texto a seguir, ainda assim adianto: esta publicação não tem o objetivo de acusar determinado político. O cronograma deste blog é de conteúdo próprio toda segunda-feira e resenha toda quinta, ambos agendados às seis da manhã, mas escrito, revisado e editado dias antes da publicação. Portanto desconheço o resultado das eleições enquanto escrevo este artigo. Longe de protestar contra qualquer candidato, o texto critica apenas as fake news. 


Acertei em partes nas minhas previsões para 2018 no artigo feito em janeiro. O desconhecimento da população sobre o próprio país e a baixa compreensão científica foi aproveitada na difusão de informações duvidosas, mentirosas e satisfatórias ao viés do indivíduo. O uso da Inteligência Artificial nas edições de vídeo e manipulação da voz felizmente não se concretizou, digo, houve uma suspeita da qual eu me recuso a conferir. Caso alguém se dispor a fazê-la, vejo a análise depois.

Houve uma falha grave no meu artigo. Na hora de montar o roteiro, eu deixei de abordar um assunto, evitei estender aquele texto retirando justo o tema principal desta campanha eleitoral: as fake news. 

Fake News dot com

O título é verdadeiro, eu cansei de ouvir/ler o termo em inglês. Portais de notícias e canais de comunicação de diversos gêneros atraíram o público usando esta palavra-chave, além da oposição usar como recurso para declarar quando há acusação de atitudes impróprias. Fake news receberam os quinze minutos de fama, e alguns veículos de informação estão fazendo análises profundas sobre elas, e eu gostaria de contribuir neste lado da discussão com este artigo. 

Jornalismo sem credibilidade  

O mercado tradicional de jornalismo é uma das várias vítimas da crise econômica e das transformações de interação no mundo digital. Tomam atitudes duvidosas na tentativa de se manterem no mercado, como restringir o acesso ao material online e cobrar do usuário pelas notícias, incentivar os leitores a acessarem seu conteúdo regular com títulos sensacionalistas, até fazer atualizações automáticas nos sites para aumentar o número de visualização na página e garantir mais renda vinda pelos anúncios. 

Escolhas infelizes deixam o público descontente e perdem credibilidade mesmo quando publicam informações corretas. Somado a deficiência da formação e senso crítico da população quanto a realidade e conhecimento científico, muitos são incapazes de distinguir notícia de opinião e acusam membros da mídia tradicional como se todos fossem ativistas ou que distorcem fatos. Infelizmente eles só acusam ao invés de debater e verificar se de fato há algo de errado na publicação do jornal. 

Jornalismo desaprovado - fake news

Quando cometem erros, a empresa e os profissionais de imprensa possuem responsabilidade e devem ser punidos. Entretanto a população não possui a mesma responsabilidade, e qualquer pessoa é capaz de propagar informações em larga escala graças as redes sociais. Técnicos de informática, enfermeiros e jardineiros possuem liberdade em transmitir conteúdos — nem sempre verdadeiros — sobre economia, e ainda conseguem mais credibilidade que os meios oficiais de comunicação, pois são parentes, colegas de trabalho ou amigos, pessoas próximas e portanto mais confiáveis, ao contrário dos profissionais de imprensa sem contato familiar. 

Recursos das Redes Sociais 

A difusão de informação feita por indivíduos encontrou a terra prometida nas conversas de WhatsApp, o aplicativo de conversa mais usado no Brasil. O aplicativo possui transmissão criptografada de mensagens, ninguém tem acesso fora o transmissor e o receptor. As mensagens encaminhadas não indicam sua origem, ao contrário do Facebook que indica de quem a publicação foi compartilhada, então a fonte da informação no aplicativo acaba sendo a pessoa próxima do sujeito.  

E admiro a perspicácia de aproveitar o limite da conexão de dados para deixar o WhatsApp tão eficiente em propagar fake news. Como o acesso ao aplicativo e às redes sociais mais conhecidas é irrestrito nos planos de internet móvel, poucos vão buscar informação em outra fonte e serem cobrados pela franquia. Também alegam da rotina turbulenta impossibilitar alguém a gastar tempo na verificação da notícia, porém eu não entendo como conseguem a disponibilidade de consultar o WhatsApp e encaminhar mensagens, inclusive durante o expediente! 

WhatsApp no expediente - Fake News

Parabenizo também o uso dos recursos do Facebook na divulgação de fake news. A Cambridge Analytica conseguiu direcionar conteúdo ao público correto e influenciá-lo a favorecer seus interesses.  Foi preciso coletar uma quantidade massiva de dados pessoais na rede social, e eles conseguiram de maneira inteligente e sutil. Desenvolveram quizzes inocentes com temáticas relacionadas a músicas, séries, celebridades, horóscopo e personalidade. Porém na hora de compartilhar o resultado do quiz, a aplicação solicita permissão a conceder informações privadas da conta e as de seus contatos. Graças a popularidade do quiz e a mania de muitos aceitarem sem ler os termos de uso, a empresa de publicidade conseguiu reunir o maior banco de dados sobre os usuários a partir do Facebook, e usou os próprios mecanismos de anúncio da plataforma para direcionar conteúdos com precisão. 

A informação só é válida quando concorda com ela 

As fake news podem partir da notícia verdadeira, basta apenas manipular o enquadramento do fato. Montagens atribuindo fontes a canais onde jamais publicaram o conteúdo, recortes de textos originais ou até edições de vídeos foram usados como estratégia nas campanhas. Todos esses meios são, na maior parte, fáceis de serem flagrados como tendenciosos, então por que tanta gente acredita? Porque elas querem. 

Seres humanos não são incitados por fatos, e sim por emoções. A eleição foi decidida através do repúdio e do medo, e essas montagens são feitas aproveitando dessas emoções a convencer o eleitor sobre o mal propagado do outro lado caso vença. A pessoa reconhece seus receios naquela imagem ou vídeo e age naturalmente ao encaminhar aos amigos, pois ela acredita em fazer a diferença. 

Eleitores de 2018 - Fake News

Existe solução contra as Fake News? 

Um professor do município de Ourinhos, interior de São Paulo, criou o curso semanal para alunos do ensino médio sobre as fake news. A proposta da aula é pedir aos estudantes selecionarem notícias com características duvidosas, trazerem na sala e debater quanto a veracidade dessa. A iniciativa foi até reconhecida pelo projeto Inovadores, da Google. 

A internet é uma ferramenta universal e democrática, com espaço a todos os tipos de iniciativa, inclusive as úteis. Canais de divulgação científica trazem assuntos complexos com explicações simplificadas, mas embasadas em referências e trabalhos acadêmicos. Muitos desses divulgadores já sofreram repúdio semelhante a imprensa tradicional, questionando sua parcialidade ou competência. Eles devem ser avaliados e corrigidos como toda pessoa que expõe conteúdo ao público, e para as críticas serem honestas devem também conter embasamento e estímulo a discussão. É melhor oferecer condições a todos verem ambos os lados e ter compreensão mais ampla do assunto, do que apenas refutar uma pessoa. 

Discussões Embasadas - Fake News

Existem portais especializados em averiguar se determinada notícia é verdadeira. E-Farsas é o portal mais antigo e ainda bastante ativo, e vieram muitos outros depois deste, ainda mais agora com o exagero de ocorrências das fake news, como a iniciativa do Projeto Comprova. 

Eu poderia encerrar o artigo listando dicas de como identificar conteúdos falsos ou tendenciosos, alguns textos disponíveis na seção de referências fazem isso, inclusive. Entretanto sou pessimista o quão efetivo isto seria. A rotina continua turbulenta na maioria de nós, além de muitos serem indispostos a conferir as informações. É preciso demonstrar a importância de difundir conteúdo honesto e estimular a discussão sobre este, sem menosprezar o autor da informação. Publico este artigo depois da campanha eleitoral já ciente que convenceria a ninguém se estivesse feito antes. Tenho esperança deste texto servir de estímulo nas discussões do futuro serem honestas, com campanhas eleitorais baseadas em argumentos, que aborde as diversas pautas da sociedade com base em fatos e estatísticas no lugar de sentimentos, e maior disposição da população para estudar em vez de ver memes. Este é o Brasil que eu quero.


Referências

Eleições mexicanas são tomadas por notícias falsas no WhatsApp e ilustram o que pode ocorrer no Brasil

Como reconhecer uma notícia falsa para não compartilhar mentiras

A arte de manipular multidões

Para especialistas, difusão de fake news está ligada à crise do jornalismo

Professor usa fake news para ensinar ciência na escola

Facebook CEO Mark Zuckerberg testifies before US Congress: Highlights

Robert Mercer: the big data billionaire waging war on mainstream media

Projeto Comprova entra em operação para combater desinformação na campanha eleitoral

Saluh

O conhecimento dos ancestrais se perpetuam por inúmeras gerações desde quando o ser humano soube deixar registros. Transcreveram sua abstração do mundo, e essas se transmitiram durante séculos, alguns por milênios! 

O ensinamento é sagrado. Por outro lado, os escritos revelam apenas o desejado pelos autores. Podem criar uma história “original” sobre a verdadeira, e levar os seus ensinamentos como se fossem de alguém com maior importância, atribui existência ao inexistente, distorce as afirmações de outros, e com isso traz um conceito simplificado, mas palpável, a uma enorme parcela da população. 

Essa é a discussão levantada por Saluh enquanto traz os acontecimentos reais desde a origem da humanidade. Publicado em 2015 pela Luna Editora, é o segundo volume sobre as histórias do brasileiro Fernando Eastman, arqueólogo que descobrirá a verdadeira história das religiões de Abraão em sua viagem ao Egito. 

Saluh - capa

Cesar Luis é o editor e proprietário da Luna Editora. Formado em direito, já trabalhou como músico e tocou pela Europa, mas agora se dedica à escrita e edição de romances. 

Somente grandes seres deixam grandes histórias! 

Fernando Eastman viaja ao Egito após seu pai avisar de um presente destinado a ele: um livro antigo na livraria conhecida por muitos poucos. Tal livro traz perigo ao seu portador, por conter informações que mesmo sendo poucos capazes de assimilar, desconstrói muitos dos ensinamentos perpetuados por anos na humanidade. O item é alvo de conspiradores motivados a pegá-lo antes de Fernando, sem remorso de eliminar vidas no caminho. 

Durante os ataques dos conspiradores, Eastman encontra outra brasileira de nome Laura e depois Saluh, o autor do livro. Este homem se compromete a ajudar o protagonista e transmite o conhecimento que possui, enquanto revela aos poucos os mistérios sobre si próprio. 

Trocar seus medos por dinheiro e leitura fácil é perda de tempo 

Saluh é um personagem peculiar. Dono de muita sabedoria a partir de sua experiência extraordinária a qual ele compartilha durante a história. Os capítulos se alternam entre o presente e o passado deste sábio, demonstrando a influência que teve a certa figura histórica e religiosa. 

Suas palavras de sabedoria são transmitidas de forma mista: simples, mas ainda conforme o modo de falar dos anciões. São falas extensas e bastante abrangentes, mas ainda eloquente com o ouvinte e o próprio leitor. Saluh é uma fonte rica de frases memoráveis capazes de trazer reflexão. Já Fernando e Laura falam de forma objetiva, limitados ao próprio conhecimento, e revelam descontrole quando contrariados.  

O contraste entre os personagens é interessante, e eu preferiria ver mais disso, pois muito da história se passa sob a perspectiva de Saluh, e assim torna a leitura mais densa. 

Saluh revela muito de seu conhecimento em pouco tempo passado com os dois jovens e nas poucas centenas de páginas da história. O tempo presente do livro é usado para introduzir a trama, mostrar o lado do seguidor da conspiração, e trazer o desfecho de Saluh e sobre o conteúdo do livro destinado a Fernando. 

Usai o pouco tempo que tens… antes que o tempo use a ti 

O extraordinário é apresentado como algo crível, mas com reações exacerbadas àqueles incapazes de aceitar. As conversas com o escritor convidam a refletir o quanto a linguagem pode ser manipulável por aquele quem escreve. A mensagem é importante e reflete na vida real, pois precisamos consultar a informação com fontes diferentes se não quisermos ser enganados.

[spoiler] 

O desfecho sobre o livro destinado a Fernando me decepcionou. Foi apresentado como algo bastante perigoso a quem possuísse devido ao seu conteúdo, para no fim revelar que toda a informação já está pública na internet. Saluh alega que poucos entenderiam o conteúdo e sequer o achariam interessante, então porque comprometer uma livraria remota do Egito a proteger um livro já acessível a qualquer um? 

Talvez eu deixei escapar alguma justificativa no livro, embora essa conclusão tenha se passado muito rápido em comparação às outras informações. 

[fim do spoiler] 

Saluh é um livro de reflexão antes de mistério. A contextualização no presente oferece a base para a discussão sobre os escritos sagrados considerados por grande parte da população mundial e que sofrem adaptações conforme a cultura e religião. 

Mitologia Indígena (que não é brasileira)

Pouco se fala das mitologias existentes no nosso país. Leitores e consumidores de modo geral estão acostumados a ver histórias sobre os deuses gregos, os egípcios, e ultimamente os nórdicos por causa do Kratos. Os artistas brasileiros também aproveitam de fontes internacionais para criar o seu trabalho, mas quando desenvolve obras com mitologias existentes onde moramos, ou eles são valorizados por trazer algo incomum, ou sofrem deboche por trazer algo inferior em vez das mitologias bastante conhecidas. 

Se o preconceito não é o bastante como limite ao acesso a cultura de povos presentes antes da intervenção europeia, a própria disseminação dessa cultura pode prejudicar o entendimento da mitologia indígena. Textos sem fontes definidas ou adaptações dos jesuítas que aproximavam as crenças indígenas com a cristã. 

Há também a dificuldade natural de haver uma visão distinta em cada tribo. Certos povoados tinham deuses distintos, ou sendo os mesmo com outros nomes e características distintas. Posso citar como exemplo os deuses Guaraci e Jaci, dependendo da tribo podem ser irmãos homens, um casal de gêmeos (sendo Jaci mulher) ou até terem relação incestuosa. 

Muitas dúvidas! - mitologia indígena

O objetivo deste breve artigo é apresentar os equívocos de alguns textos e apresentar o básico da mitologia que não é brasileira, mas de um povo indígena em específico: dos guaranis. Se abordasse as diversas mitologias indígenas no mesmo artigo iria complicar ao invés de elucidar sobre essa cultura. Considere este texto um ponto de partida capaz de ajudar um pouco na compreensão e desmistificar algumas afirmações. 

Tupã Cristão 

Tem-se a impressão do Tupã ser o deus principal da mitologia brasileira, assim como é Zeus e Odin com poder sobre o trovão. Isso se dá justamente pelos jesuítas quando tentavam aproximar a religião dos indígenas da cristã monoteísta. 

Mas como é história dos deuses contada pelos guaranis? A seguir um resumo: 

Guaraci* e Jaci são filhos gêmeos de Ñandecý com Ñanderuvuçú. Este último foi o criador do universo, criou um ser que virou seu auxiliar e a própria Ñandecý, o primeiro ser feminino. 

Ñanderuvuçú e seu auxiliar alternava seus trabalhos de criação do mundo com o acasalamento de Ñandecý, quando enfim engravidou dos meninos gêmeos. A mãe não reconheceu Ñanderuvuçú como o pai de seus filhos, e por isso ele se irritou a ponto de abandonar toda a sua criação e foi ao reino das trevas onde permanece até hoje. Ñanderuvuçú  impede o avanço das trevas, mas ele pode deixar essas irem ao mundo caso tenha vontade. 

Ñandecý precisou seguir em frente. Ainda grávida dos gêmeos ela se encontrou com os jaguares que querem devorar a ela e os bebês. A mãe morreu, mas os jaguares não conseguiram fazer mal aos dois bebês. 

Deuses criados por jaguar! - mitologia indígena

Guaraci e Jaci foram criados pelos jaguares até saberem por um papagaio sobre a morte de sua mãe, e assim os gêmeos se vingaram. Somente um jaguar fêmea sobreviveu, ela estava prenha e deu continuidade aos jaguares existentes até hoje (com ameaças de serem extintas). 

Os irmãos tentaram ressuscitar a mãe várias vezes, mas a falha persistiu. O processo corria bem, e Jaci se exaltava com a possibilidade de ter sua mãe, mas essa mesma alegria o desconcentrava a ponto de falhar na ressurreição, deixando a mãe morta. 

E onde entra Tupã nessa história?

Bem depois quando Ñandecý enfim é ressuscitada pelo Ñanderuvuçú e deu a luz ao deus. A presença de Tupã na mitologia guarani justifica a manifestação dos trovões e tempestades, mas passa longe da concepção do principal deus indígena. Eu não sou capaz de afirmar se ele é superestimado em relação a todas as culturas indígenas com a pesquisa feita. Só confirmo que na guarani não é o principal, e a versão mais difundida está sob influência cristã. 

O “Satanás” indígena 

Obviamente os jesuítas precisaram conturbar o conceito de algum ser indígena e torná-lo satanás. Atribuíram a Anhangá o papel de adversário do Tupã e relacioná-lo como alguém malvado. 

Todavia Anhangá é apenas um espírito protetor da floresta responsável pelo equilíbrio da vida. Ele até mesmo ajuda os caçadores que o presenteiam com oferenda e se a caça for para a subsistência dos humanos. 

Anhangá pode assumir formas de animais, como cervo (só que branco)

Anhangá pode assumir formas de animais, como cervo (só que branco e de olhos vermelhos)

Se os caçadores matam em demasia, assassinam filhotes ou animais que amamentam suas crias, o espírito se vinga de forma bastante perversa: Anhangá manipula a mente dos caçadores, cria ilusões e os confunde a caça com os próprios colegas, acabam se matando. 

A punição é severa e causa temor aos índios, por isso Anhangá foi eleito como o satanás pelos jesuítas. Porém esse espírito representa apenas o equilíbrio na vida, e ensina a respeitar os limites da caçada. 

Ficção não é mitologia 

Outra história difundida como parte da mitologia guarani é sobre Kerana e seus sete filhos. Algumas obras criativas usam a narrativa de Kerana como referência à mitologia, só que essa também não passa de uma ficção. 

Faz parte do livro Nossos Antepassados, do escritor paraguaio Narciso Ramón Colman. Escrita em espanhol e tupi, conta uma história com referências à mitologia guarani, mas não narra a mitologia em si. 

Não é necessariamente um motivo para diminuir a obra de alguém. Tal observação serve de esclarecimento que quando se refere a Kerana e seus filhos, está relacionando com outra obra literária ao invés de um mito do povo indígena, nada mais. 

Livro ≠ Mitologia

 


Não poderia afirmar e contestar os argumentos citados nesse texto sem citar de onde eu tirei as informações. A fonte principal foi o programa de podcast do canal Papo na Encruza em que Andriolli Costa esclarece sobre os equívocos transmitidos pelas redes (algumas até famosas). Não deixe de conferir esta e outras referências abaixo e saber mais das mitologias, pois ainda é pouco perto do conteúdo riquíssimo desses povos.

*Embora tratando sobre os povos guaranis, resolvi usar os nomes dos gêmeos em tupi, por serem mais conhecidos e fáceis de pronunciar

Referências

Papo na Encruza 17 (podcast)

Texto sobre Anhangá

As Lendas da Criação e Destruição do Mundo com Fundamentos da Religião dos Apopócuva-Guarani (pág. 47 a 67)

Classificação do risco de extinção aos jaguares (em inglês)

 

Guerra Infinita (reflexão)

Escrevo este texto um dia depois da estreia do novo filme dos Vingadores. Assisti o quanto antes com medo de receber spoilers. Encarei a gigante fila para comprar o ingresso na hora porque o caixa de autoatendimento estava inacessível, a fila não andava e o caixa foi liberado. Tropecei no caminho, mas pude retirar meu ingresso sem outros problemas.

Eu adorei o filme. Não vou fazer uma resenha, pois meu nível de entendimento de cinema se resume a eu ter gostado de Esquadrão Suicida. Sem brincadeiras: eu me permito usar o cinema apenas como entretenimento, e acredito ser melhor em compartilhar opinião de livros.

Então por que estou escrevendo sobre Guerra Infinita?

Porque este nome é muito interessante, e deu a ideia de comentar sobre outras guerras sem fim: as guerras orais.

Essas discussões entre os fanáticos regressam a argumentos fúteis, mas repetidos para defender o seu lado. Os demais se cansam rápido, tentam ignorar a conversa, mas a discussão sempre vai até eles de alguma forma.

E na internet fica pior ainda, essas postagens geram engajamento, e por isso ficam mais presentes com as reações e comentários. Como por exemplo este meme feito por mim na sexta-feira, cujo objetivo é tirar sarro desses debates inúteis, mas se alcançar as pessoas certas, aconteceria igual a minha crítica.


Está tudo bem, não é? São apenas brigas inocentes entre fãs, há coisas mais importantes a se preocupar… Creio o contrário.

Estamos em 2018, ano de eleição. Muitas pautas surgem entre noticiários e programas de TV relacionados a vida de pessoas reais, e a discussão acontece da mesma maneira: um sujeito fala mais alto para demonstrar sua razão; nas redes sociais o engajamento faz o algoritmo trazer a discussão a mais usuários, e acrescentam reações e discursos infundados.

É um campo minado repleto de frases de efeitos, gurus como única fonte de informação, e abstrações que simplificam o ponto de vista, mas não abrange todo o problema.

Por um lado vejo brigas entre fãs como se fosse assuntos fundamentais em suas vidas. Por outro vejo brigas com assuntos sérios com níveis de argumentos tão medíocres como o primeiro exemplo.

Discussões precisam ser feitas

Através de conversas podemos avaliar o ponto de vista de quem discorda e avaliar qual a melhor alternativa. É triste eu não presenciar tal resultado nessas brigas orais, apenas consequências medíocres ou graves.

O pior é a alternativa que muitos como eu assumem perante os debates: o de ficar quieto. São raras as oportunidades para expor minha opinião. Eu quero ser refutado em algumas conversas porque eu não tenho conhecimento, e assim poderia aprender com alguém entendido do assunto, alguém com referências e deixe eu tirar as minhas próprias conclusões. Mas quando eu não recebo um meme ou frase de efeito como resposta ao meu argumento, já estou no lucro.

Estamos numa guerra cujos opositores usam das mesmas estratégias (com nomes diferentes) sem trazer resultado algum. Temo pela sua continuidade, e também pelos modos possíveis de se acabar. Não buscarei ajuda de um profeta ou um guru, apenas me manterei firme na minha posição: de aproveitar as oportunidades, aprender um pouco e compartilhar no blog o que eu achar válido.

Astrologia (análise crítica)

Nossas vidas são seguidas com um roteiro? Comportamos igual aos scripts que nos é imposto conforme nosso nascimento?  

Neste artigo abordarei a questão da astrologia e sua presunção quanto à personalidade e previsões de indivíduos conforme a posição dos astros no momento do nascimento de cada um. 

É resultado de uma pesquisa honesta realizada por mim. Sem intenção de converter quem acredita e torná-lo cético, mas sim incentivar ao questionamento próprio. Para criticar é preciso saber, estudar; e feito isto agora compartilho o meu aprendizado. 

Meu caso

Signo de Escorpião - astrologia

Sempre soube que pertencia ao signo de escorpião, mas nunca me importei com isso. Minha opinião sempre foi contrária a superstições ou qualquer força sobrenatural (ou astral) que influenciaria sobre a minha vida. 

Entretanto usei o serviço de um site que me apresentou com uma amostra do meu mapa e fiz uma avalição. Não vou apontar qual o site nem colocar o texto deles na íntegra aqui. A intenção não é bater de frente com este site, e sim criticar os aspectos da astrologia. 

Começando com o pé esquerdo

A primeira explicação sobre a análise feita é que “muitas pessoas têm uma ideia errada sobre si mesmas.” Sinto muito, mas isso soou mais uma desculpa para caso eu não me identifique com alguma coisa dita no mapa astral. 

Deduções genéricas 

Há muitas frases nada objetivas, seus significados dependem da interpretação da pessoa. 

Exemplo: explicou como sou perfeccionista a ponto de cumprir tarefas com atenção e senso de detalhe (?) que deixa as pessoas admiradas. Capaz de detectar o defeito oculto e a falha fundamental. 

Nenhum defeito é oculto, sempre estará lá apesar de nem sempre identificarmos. Agora os termos “sensos de detalhe” e “falha fundamental” aparecem um tanto vagos para mim, na verdade interpretei como se as duas fossem contraditórias. Como posso ser detalhista e detectar apenas as falhas relevantes? 

What? - astrologia

Destaco a descrição que tenho ótima habilidade para comunicação interpessoal. Parece que a posição dos astros em meu nascimento não previu que eu sou gago. Mas já fui diagnosticado com problemas de dicção desde bebê. Ponto para a dedução médica baseada em diagnósticos científicos! 

A amostra do mapa astral ainda usou um recurso interessante: colocou meu nome antes de fazer uma pergunta final. Aquilo chamou minha atenção, como se estivesse alguém conversando comigo. Então lembrei que foi apenas o sistema do site que colocou meu nome de cadastro no meio do texto pronto e selecionado a partir dos algoritmos.

Com esta tentativa de aproximação automatizada, o mapa faz a seguinte questão: “até que ponto você tem medo de suas próprias emoções?” Se no começo da análise disse que as pessoas têm ideias erradas sobre as mesmas, por que encerrou com uma pergunta a mim sobre as minhas emoções? 

Presunção refutada? 

A minha análise individual do mapa astral não é o suficiente para contestar as afirmações do horóscopo.

Uma visão pessoal é apenas evidência anedótica. Eu como cético questionei cada afirmação, mas quem acredita pode aceitar o que foi considerado pelo seu signo. Ou seja, a aceitação da astrologia vem do viés de confirmação em cada pessoa. 

Por isso amplio minha análise com base em estudos científicos (links disponíveis ao fim do artigo). 

A posição das constelações já não é a mesma

Observatório - astrologia

As predições de personalidade e de cada dia na astrologia se baseiam nos posicionamentos dos corpos celestes. Mas a análise é feita com o posicionamento com o posicionamento registrado há mais de dois mil anos. 

Estudo recente registrou ao longo de um ano a posição do sol quanto as constelações. Não só os períodos de cada signo estão diferentes da astrologia, como eles também identificaram mais uma constelação ao longo do ano (Serpentário). Com esta análise deveria existir 13 signos com períodos diferentes, e esses podem variar em um dia dependendo do ano. 

Astronomia VS Astrologia

Os astrólogos alegam que os corpos celestes influenciam nossas vidas. Podem alegar os motivos que descrevem como acontecem, mas faz sob metodologia que não seja falseável. 

As descrições de personalidade são difíceis de testar pelas explicações genéricas. Como expliquei no meu caso, a interpretação dependerá mais do leitor em vez do mapa astral em si. 

Existem profissionais dedicados a estudar os mínimos detalhes da astrologia. Compartilham seus estudos em livros comerciais e eventos públicos. Mas jamais participarão de eventos relacionados a astronomia ou ciência em geral. Também não poderão publicar suas pesquisas em revistas científicas, já que essas são revisadas pelos demais profissionais e costumam retificar quando falhas são descobertas mesmo após a publicação. 

Quem acredita na astrologia o faz sem critérios críticos. Não fazem questionamentos e ignoram ideias contrárias. Afirmam sem testar. 

Os entusiastas da astronomia costuma ser o contrário. Não acreditam nesta, pois o conhecimento vem através do estudo. Descobertas vêm seguidas de perguntas. Não define nada sob ausência de evidências, e o que foi definido pode ser redefinido ou descartado a partir de novos estudos. Enfim, astrologia e astronomia tem a mesma relação entre verossímil e verdade. 

Astrologia funciona para alguém?

Na pesquisa feita pela University of West of England Bristol, quarenta e seis estudantes de ensino superior foram avaliadas. Elas recebiam previsões quanto ao relacionamento amoroso correspondente ao signo, essas elaboradas pela equipe. 

O objetivo era avaliar o quanto as estudantes eram influenciadas pelas previsões. Descobriu que a maior parte consultava o horóscopo com frequência, até checava o signo de seus pretendentes. Mas isso não influenciou na decisão da maioria. 

Apenas 15% assumiram a mudança de comportamento através das previsões. O “horóscopo” desenvolvido pela equipe de pesquisa funcionou nestas estudantes. Ou seja, o estudo evidenciou a densa influência sobre as previsões somente em quem acredita. 

Personalidade pode depender da data de nascimento sim!

A personalidade e a probabilidade de se ter alguma deficiência mental sofre influência de quando uma pessoa nasceu. Só que não é por causa dos astros.

Quem nasceu em períodos de inverno tem dificuldade em regular o próprio relógio biológico. Além da incapacidade de acompanhar o ritmo do dia, pode afetar o humor da pessoa. 

Claro que não é o aspecto determinante. Este é apenas um dos diversos fatores que podem influenciar no indivíduo.  

Enquanto a pesquisa alega apenas o aumento da probabilidade nesse período de nascimento, a astrologia traça um mapa completo da pessoa e do seu dia a dia. 

 Estatística - astrologia

Muitos gostam de acompanhar os textos segundo as análises obtidas através da astrologia. O pior problema é quando alguém segue literalmente o que lhe passam pelo horóscopo. Não deixe de amadurecer sua personalidade porque um mapa disse que você é assim por ter nascido sob a posição do sol nesses astros. O esforço individual é o que definirá realmente quem é.


Referências

AstrologyWhy Your Zodiac Sign and Horoscope Are Wrong 

Winter Birth May Affect Baby’s Personality: Mouse Study

Constellations: The Zodiac Constellation Names 

AstrologyIs it scientific? 

The effect of horoscopes on women’s relationships 

O Grande Problema de 2018

Comentei no post anterior sobre a perspectiva de um ano melhor no que diz respeito ao aspecto pessoal. Um ponto de vista em que deve prevalecer com o intuito de não se desmotivar e ajudar o próximo em troca de uma simples gratidão. 

Já este artigo tem um objetivo diferente.

Noooooooo! - O Grande Problema de 2018

Chegamos na metade do primeiro mês no ano e já ouvi comentários do tipo: “Se 2017 foi ruim, se prepara pelo pior em 2018.” Infelizmente pode ser verdade.

É o ano de eleição dos nossos representantes federais e estaduais. Escândalos políticos são transmitidos por grandes veículos de imprensa, também em páginas e grupos menores nas redes sociais. A imagem geral da população é que nada se resolve neste país.

Infelizmente muito disso é um reflexo das nossas ações e omissões. Uma população desinformada não conseguirá impor demandas possíveis ou denunciar o que de fato está errado. Um povo pouco crítico não avalia o conteúdo divulgado na sua tela, compartilha inverdades, e debate com xingamentos no lugar de argumentos. 

Nunca se teve tanta informação como hoje. É realmente difícil de assimilar tanto conteúdo. Só que infelizmente muitos fazem um péssimo uso desta variedade. Selecionam os que são verossímeis, o que seu guru diz, ou o que os números apontam. 

Elenco a seguir os piores problemas que já existem e podem se agravar neste ano de copa. Não é uma imposição, pois não sou dono da verdade. Apenas aconselho a caso se identificar com um dos tópicos, reveja seus conceitos. Não mudaremos a situação do nosso país sem começar a transformação em cada um de nós. 

Expectativa X Realidade

O Brasil foi o segundo país com a maior população que possui falta de conhecimento sobre a realidade de onde mora.  

Negativo - O Grande Problema

O instituto Ipsos fez um levantamento em 2017 com 38 países. Questionou cerca de 29 mil pessoas sobre a porcentagem de ocorrências em determinado assunto em relação ao país onde vive, além de algumas questões de abrangência internacional. Foram perguntas como taxas de homicídios, nível de pessoas com diabetes, gravidez na adolescência, e atentados terroristas. 

As respostas tiveram valores superestimados. Os brasileiros imaginam a situação do país muito pior do que é na realidade. Provavelmente um resultado das muitas notícias negativas, estas que possuem bem mais impacto que as positivas.

Com a população desentendida da própria realidade, a prioridade não ficará direcionada aos problemas que de fato acontecem. Um exemplo: priorizar a educação quanto a prevenção de gravidez na adolescência — cuja taxa real é 6,7% contra a presunção de 48% — em vez da prevenção contra acidentes provocados pelos motociclistas, estes correspondentes aos 74% dos acidentes de trânsito de janeiro a novembro de 2017.

A instituição disponibilizou um quiz com algumas perguntas levantadas nas entrevistas (infelizmente as perguntas estão em inglês, mesmo no quiz do Brasil). Eu fiz o questionário tanto na realidade do nosso país como nos Estados Unidos, e preciso rever minha perspectiva: acertei três de oito no quiz do Brasil, mas cinco nos EUA.

Oito perguntas não são o suficiente para apontar todos os aspectos da sociedade em nosso país (seis se considerar que duas são de abrangência internacional). Ainda assim já aponta que eu também preciso rever meu ponto de vista e buscar mais informações do que acontece no Brasil. 

Conhecimento científico da população 

O Instituto Abramundo avaliou o nível de conhecimento científico de cidadãos moradores das regiões metropolitanas do Brasil. 

Na pesquisa foi definido quatro níveis de proficiência: 

  • Nível 1 – Letramento não-científico: assimila informações explícitas de contexto cotidiano, sem domínio de termo ou aplicação científica; 
  • Nível 2 – Letramento científico rudimentar: resolve problemas de interpretação e comparação com informações científicas básicas; 
  • Nível 3 – Letramento científico básico: capaz de resolver problemas a partir de evidências científicas apresentadas de forma técnica em diferentes contextos; e 
  • Nível 4 – Letramento científico proficiente: são capazes de argumentar sobre hipóteses, conhece unidades de medidas e tem consciência de assuntos do meio ambiente, saúde, astronomia ou genética.

Yeah, Science!

No resultado da pesquisa, 64% dos cidadãos possuem no máximo nível 2. Somente cinco de cada 100 tem um letramento científico proficiente. 

O instituto distribuiu essas variáveis em outras classificações, como renda, escolaridade, profissões, idade e outros. Senti uma dor no peito ao ver que dos profissionais de educação, apenas 10% são do nível 4; além dos profissionais de saúde com apenas 8% no maior nível, e a metade correspondente desta profissão está no letramento rudimentar. 

Como disse antes, a quantidade de informação exposta é absurda, seja elas verídicas ou verossímeis. Considerando o conhecimento científico da maioria ser de nível regular, infelizmente é de se esperar que muitos são levados a teorias conspiratórias e curas milagrosas.

Realidade Transformada pela Inteligência Artificial

O avanço nos sistemas de inteligência artificial expande cada vez mais as possibilidades de criar conteúdo. Infelizmente também pode gerar materiais perturbadores. 

Algoritmos de aprendizado de máquina e um computador moderado já é o suficiente para trocar o rosto de uma pessoa em um vídeo. Já circulam pela internet vídeos pornográficos com rostos de atrizes famosas de cinema, quando na verdade é apenas uma atriz pornô que teve sua face substituída no vídeo. 

Mulher Artificial

A inteligência artificial é alimentada com inúmeras fotos da celebridade, todas disponíveis na internet. Tais fotos são colocadas, quadro a quadro, no lugar do rosto da profissional do vídeo com uma expressão semelhante. 

Existem falhas no material, e nem precisa de um olhar tão atento. Há momentos em que o rosto não aparece ou fica desalinhado, e os lábios não estão de acordo com a fala. Porém isso pode ser entendido como um problema do arquivo de vídeo, ou simplesmente não ser levado em consideração na hora de compartilhar no “zap”.

E se combinar a troca de rosto com simulação da voz de uma pessoa, mesmo ela nunca ter dito algo do tipo? Isto já é possível com os recursos disponíveis.

Fora os vídeos eróticos com celebridades…

Não percebeu o perigo? Considere este cenário: um vídeo editado com uma pessoa qualquer, onde o rosto é substituído pelo presidente dos Estados Unidos e a fala é programada com a voz do mesmo. Ainda está tudo bem por ser um político que despreza? E se trocar pelo seu político favorito? Ou pelo seu cantor? 

É um recurso viável e pode destruir a imagem de uma pessoa defensora do ponto de vista diferente. Além do debate político aconteceria uma disputa de vídeos artificiais constrangedores. #IstoÉMuitoBlackMirror

Bots na Política

A eleição presidencial de 2014 teve o maior número de interações de usuários online neste período com relação as campanhas anteriores. É possível que a população realmente estivesse mais engajada do que nunca. Mas as redes sociais também foram transbordadas por bots.

Inúmeros perfis falsos foram criados a partir de programas, cujo algoritmo instruía interações nas redes sociais com curtidas, compartilhamentos, e até comentários.

Pessoas falsas

Empresas oferecem este tipo de “serviço”, e são fáceis de serem encontradas. Poderiam garantir 3.000 curtidas na fanpage por duzentos reais, ou 10.000 likes em único post com R$90,00.

Os dois antagonistas da eleição (Dilma e Aécio) utilizaram bots em suas campanhas, tendo o Aécio usado mais deste recurso. Os perfis de algoritmos continuaram após a eleição, e participaram das campanhas relacionadas ao processo de impeachment da presidente. 

Este cenário político de 2014 foi o início, 2018 com certeza será pior. Os perfis falsos bagunçam as estatísticas das próprias redes sociais. Geram falsos engajamentos que irão levar esses conteúdos a pessoas reais, estas que irão acreditar nas notícias falsas, vão priorizar campanhas que são fora da realidade, e não serão capazes de distinguir a veridicidade da verossimilhança. 

Quem poderá nos defender? 

Estes foram os tópicos destacados, capazes de causar o grande problema deste ano: a ignorância. Muitos aspectos contribuem para que os indivíduos permaneçam alienados enquanto são bombardeados com notícias e matérias falsas, mas que entregam o conteúdo já esperado. O conteúdo que “mostra a verdade do meu inimigo” e “enaltece o meu guru salvador.” 

É como aquela casa de espelhos do parque de diversões. Só que em vez de surgir imagens distorcidas de você mesmo, são telas com informações nada realistas que serão impostas ao seu redor. Pelo menos a solução pode ser a mesma de uma casa de espelho normal: olhe os próprios pés. 

Avalie a si mesmo. Compreenda qual o seu nível de conhecimento e procure ampliá-lo. Não compartilhe opiniões sem analisar se o autor é de fato um humano, questione a vericidade do conteúdo. Veja além dos números nas redes sociais, enxerga as pessoas que estão por trás daquelas telas.

2018 needs you!

2018 needs you!

Serei sincero o bastante e afirmarei que 2018 não terá jeito. O período de eleições será transbordado de calúnias e ataques de ódios entre opositores. Vai atingir pessoas sem relação com partidos só para alavancar a imagem do seu próprio.  

Mas se começar a mudar a perspectiva hoje, seremos uma população mais crítica amanhã. Não iremos engolir o que é propagado por máquinas só com a intenção de danificar a imagem alheia. Vamos focar no conteúdo, saber interpretá-lo e traçar uma opinião com base no conhecimento. Respeitar o próximo acima de tudo.

E isto não será fruto de uma utopia, um sonho. Será o resultado de muito trabalho e reavaliação.


Referências

Perigos da Percepção 2017

Boletim Estatístico de Janeiro a Novembro de 2017 (DPVAT)

Indicador de Letramento Científico (2014) 

AI-Assisted Fake Porn Is Here and We’re All Fucked 

Computational Propaganda in Brazil: Social Bots during Elections 

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