Tag: urbano (Page 2 of 4)

Deus Esqueceu de Pagar a Conta de Luz

Dois minutos de desatenção e o baque seco avisa da nova arte provocada pelo meu sobrinho. O pequeno pilar de gesso divide em si em dois, mais quatro cacos e seis gramas de poeira — medidos pela ferramenta chamada achômetro. O sobrinho prende o ar na garganta só por eu dar bronca ao quebrar algo feito há anos e presenteado pela sua mamãe, também segura as lágrimas no olhar inocente de sapeca.

Fica no cantinho, acorrentado pelos elos compostos por minutos, faltam-lhe três até ficar livre das amarras. Aproveito o silêncio imposto e tiro o atraso da leitura. Ela sempre atrasa porque jamais conseguirei ler todos livros pretendidos na vida, o importante é aproveitar o que puder aproveitar. Olhos aceleram nas palavras rumo ao término do capítulo. Dois minutos e o menino volta à ativa, a elaborar traquinagens durante o mínimo de descuido.

Claro, o menino não é autômato preso a algoritmos e regras intransponíveis. Levanta do chão, olhos vidrados na janela e boca aberta.

— Tio!

Tudo bem, posso respeitar essa pequena transgressão. Ainda sou humano.

— Sim?

— Olha lá fora.

Obedeço o garoto. Céu azul há tão pouco, agora tudo tomado por nuvens escuras. Nenhuma fenda sequer por onde a luz do Sol possa vir enquanto em casa as lâmpadas continuam acesas a 110 volts.

— Deus esqueceu de pagar a luz, tio!

Desculpe, rio do garoto, faço-o tremer o lábio e o assusto com gargalhadas. Este tipo de discussão ainda chegará, sobre eu ser ateu. Respeito quem acredita n’Ele e incentivo a persistir nela, contanto respeite também a crença do outro. A criatividade do menino é que causa essas risadas.

— Puxa a toca da blusa, garoto. Vamos ver como está lá fora.

Com a toca dele na cabeça e meu livro fechado sobre o sofá — falta apenas duas páginas do capítulo —, tomo a mão do sobrinho e vamos porta afora. As paredes laterais do quintal cobrem o vento a levar sacolas e embalagens de salgadinho dos vizinhos sobre a calçada, nenhuma brisa beija o rosto do sobrinho ou o meu.

Ficamos no lado de fora. Deixo o garoto ver as novidades da vida, fora das telas de celular ou tevê. Ele aponta o dedinho ao céu, sorri contra a folha voando pela liberdade conquistada pelo vento, escapada da árvore a sete casas a esquerda, ao fim do quarteirão. Dois gatos saltam no muro de casa e correm, pegam atalhos até os lares deles, pois namoros felinos desmancham sob água. Araras dão o ar da graça, cada vez mais raras, elas pintam o céu cinza com as asas azuis, buscam abrigos e encontram o toldo do bar.

Sigo a sensatez das aves e trago o sobrinho para dentro de casa, ao fechar a porta a chuva cai. Aproveito a atenção do garoto e compartilho uma lição, trocando a palavra “natureza” por “Deus”.

— Viu como Deus esqueceu de nada? Apenas decidiu ser a hora da chuva, das criaturas estarem prontas a receber a benção dos céus e saciar a sede do mundo.

Chega outro baque, este de fios estalados no poste da rua. Apaga a luz de toda a casa, o celular do garoto estava na tomada e carregou apenas doze porcento da bateria, o meu ainda fica na metade, e o deixo desligado na estante.

— Deus não esqueceu, mas você não pagou a conta de casa. Né, tio?

Desta vez ele gargalha comigo, sem sustos. Trocamos outras risadas e inventamos brincadeiras, disputamos duelos de brinquedos e nos abraçamos antes de comer paçocas como café de tarde. A casa continua escura, já lá fora o Sol volta a atravessar nuvens brancas. Carrego o guarda-chuva numa mão e o sobrinho na outra, podemos atravessar as ruas, ensopar a sola dos nossos tênis com o chão molhado e levar meu sobrinho a novas descobertas pelo mundo afora, dos prazeres disponíveis ao ar livre tão poucos metros longe dos celulares.

Favela Gótica (Fantasia na Favela Carioca)

Podemos estar rodeados de coisas e seres invisíveis, pois recusamos a ver. Fantasiamos sobre conquistas alcançadas pela determinação, resumimos atitudes como sendo bem ou mal, preto no branco, e assim ignoramos o contexto alheio, tomamos o nosso sendo o único e o justo. O livro desta resenha fantasia de outra maneira, ela expõe a carne viva da sociedade menosprezada pela falta de oportunidade, demonstra a verdade fedida dos responsáveis por manter o mundo como é, e ousa cutucar tudo e todos à queima-roupa.

Favela Gótica* é a fantasia nacional inspirada nos fatores sociais os quais os brasileiros reconhecem à primeira vista — ou fingem desconhecer. Publicado em 2019 por Fábio Shiva pela editora Verlidelas, a história de fantasia preenche as ruas do Rio de Janeiro de monstros, com a diferença de ninguém se disfarçar nesta realidade.

*Livro recebido pelo autor para realizar a resenha

“No fim dá no mesmo; são apenas formas diferentes de exploração”

Liana vive na favela e é viciada na droga Z-SDA, também conhecida como hóstia ou apenas Z. Sustenta o vício diário comprando direto dos jacarés, os jovens vendedores desta droga. Ela obtém o dinheiro através da prostituição e da dança erótica enquanto tenta se manter de pé sob as adversidades da droga. Por vezes a dependência química é o menor dos problemas, a atmosfera envolta de Liana transpira violência, ela sofre ameaças e insultos de várias camadas da sociedade, sejam ogros, lobisomens ou endemoniados; ninguém a respeita por ela ser zumbi, a criatura dependente de Z. Algumas pessoas descobrirão a verdadeira natureza dela, esta desconhecida por ela, e assim convive enquanto sofre com as crises da dependência química.

“De todos os horrores, esse é o maior: a perda final das ilusões”

A protagonista conduz o romance no olhar representante de uma das classes mais rebaixadas, e desta forma oferece a oportunidade de mostrar a crueza nada agradável da rotina de Liana e do meio onde convive. Parágrafos são curtos e sucintos, progridem a história com descrições ácidas sobre a sociedade em geral. No lugar de pessoas, a realidade de Favela Gótica contém monstros, cada espécie com as devidas características físicas, mas as de comportamento têm destaque, pois é nada inventado da cabeça do autor, apenas observado. Os monstros refletem as piores condutas exercidas pelas pessoas representadas por eles, pessoas reais. Zumbis comedores de cérebro, o temperamento irascível dos lobisomens durante a noite e a fraqueza à prata, o contexto ao redor dos pequenos seres invisíveis; as explicações desses comportamentos são metáforas da realidade nem sempre acessível a quem recusa a ver.

Todo o contexto é mostrado ao longo da jornada de Liana conforme ela presencia cada particularidade dos seres incluindo a si própria, além dos Registros Akáshicos, textos explicativos sobre as criaturas, locais e situações encontradas pela protagonista. Com aspecto de verbete de enciclopédia, os Registros Akáshicos ficam no meio do texto, interrompem a narrativa do romance e dão informações sobre o mundo criado pelo autor. Tal intervenção textual é justificada no decorrer do livro e serve ao propósito do enredo, mas demora a contextualizar essas interrupções e tendem a atrapalhar a leitura no início do romance. A ideia seria melhor aproveitada se a sincronia entre os Registros e o enredo fossem claras desde o começo.

Favela Gótica nos convida a tomar um soco no estômago enquanto prosseguimos nas páginas de textos ágeis e ácidos a descrever a transparência da corrupção no Brasil e a vida das vítimas sob as consequências desses atos e desleixos. A metáfora usada de forma inteligente neste livro denuncia e expõe os detalhes já óbvios, no entanto nem sempre vistos pela sociedade.

“Por pior que seja a notícia, se ela for repetida por tempo suficiente todo mundo acaba se acostumando”

Favela Gótica - capaAutor: Fábio Shiva
Ano de Publicação: 2019
Editora: Verlidelas
Quantidade de Páginas: 276

Meu XP com a trilogia Sprawl

Ano passado eu me dei a oportunidade de conferir a obra Neuromancer, primeiro volume da trilogia Sprawl escrito por William Gibson. O livro é referência quando trata do gênero cyberpunk, sendo um dos primeiros lançamentos deste estilo, e por este motivo tem a devida importância. No entanto nada evitou do livro dividir a opinião dos leitores, como a dificuldade em compreender os aspectos do romance por causa da escrita. Eu adquiri o exemplar digital mesmo ciente de tais críticas, afinal eu quis formar a minha opinião sobre a obra de Gibson, além de conhecer mais do universo cyberpunk através da obra pioneira neste gênero.

Neuromancer - Sprawl

E eu gostei de Neuromancer, apesar de reconhecer os problemas tão criticados. Acompanhei Case ao longo das páginas, conferi os detalhes do ambiente cyberpunk e aprovei a criatividade do autor ao propor tecnologias com funcionalidades semelhantes às existentes hoje, depois do lançamento do livro. Comecei pelo glossário do livro e conheci os termos próprios do romance em geral, e isso ajudou na compreensão até certo ponto. O problema nunca foi esses conceitos usados no livro, e sim nos desleixos da escrita do autor. Progride a história sem oferecer informações suficientes ao leitor e deixa de citar qual pessoa disse determinado diálogo ou quem realizou tal ação.

Mesmo o resultado da leitura saindo como mediano, foi suficiente para eu conferir o resto da trilogia. Demorei ao adquirir a continuação, como demoro com qualquer saga, pois evito de sobrecarregar o blog com resenhas da mesma série, mas confesso estender demais na leitura entre um volume e outro. Ao decidir comprar Count Zero, já peguei Mona Lisa Overdrive junto, assim o intervalo de leitura entre o segundo e o terceiro livro ficou menos da metade de entre o primeiro e o segundo.

Count Zero - Sprawl

Alguns leitores preferem Count Zero entre os livros da trilogia, já para mim este foi o pior. O ambiente de Sprawl deixou de ser novidade após Neuromancer, apesar de Count introduzir conceitos interessantes como as entidades de religião africana existindo dentro do ambiente da Matrix. Habituado com o universo criado por Gibson no primeiro volume, eu desejei aspectos melhores na continuação, e por isso me decepcionei. Em vez de apenas Case, aqui acompanhamos a história de três protagonistas cujos focos alternavam entre capítulos, porém a coordenação deles falhou em levá-los a algum lugar até que de repente os arcos dos três intercalam rumo a conclusão. Soma esta falha do enredo com os problemas de escrita ainda pertinentes, e o resultado é a minha insatisfação com o livro.

Mona Lisa Overdrive - Sprawl

Como já comprei o terceiro volume, dei uma chance ao Mona Lisa Overdrive, até porque faltava apenas este da trilogia. Coloquei as expectativas lá embaixo, e com isso Overdrive as superou. Ainda comecei o terceiro volume pelo glossário, relembrei dos termos já usados antes e já notei mais destaque ao ambiente japonês só pelas definições das palavras ali. Então comecei os capítulos com um, dois, três, quatro arcos diferentes! Fiquei contente por Gibson melhorar a coordenação desses arcos comparados ao volume anterior, pude reconhecer onde cada personagem foi no capítulo correspondente. As descrições estavam mais claras — finalmente! —, ainda com ressalvas quanto a qualidade, pelo menos a leitura superou a expectativa de ser tortuosa.

A maior decepção ficou por conta do final, sem entrar em detalhes nem dar spoiler: a coordenação tão bem feita com a progressão das protagonistas foi deixada de lado, deu conclusão a apenas um arco delas — este pelo menos aceitável, por contribuir na criação do universo mesmo nas páginas finais — e as demais tiveram o último capítulo genérico, apenas dispensando-as da história. Pondo os pontos positivos e negativos na balança e com a baixa expectativa somada na equação, Mona Lisa Overdrive saiu como mediano igual Neuromancer.

Após me dedicar a ler toda a trilogia do Sprawl, considerei escrever este post analisando toda a trilogia e de forma pessoal, expondo minhas expectativas e pensamentos quanto a leitura, em suma, compartilhei a experiência completa de leitura desta série. Pretendo fazer posts como esse quando completar outras sagas — lembrando que só faltam dois volumes até eu concluir A Torre Negra e um das Crônicas dos Kane, qual dessas sagas será a próxima?


Confira a trilogia

Mona Lisa Overdrive (Sprawl Vol. 3)

Alta tecnologia, baixa qualidade de vida. Voltamos ao universo cyberpunk rumo a conclusão da trilogia de forte influência nos primórdios do gênero. Histórias intercaladas envolvem delinquentes de diversos meios, bem como garotas que já vivem nas condições vigentes sem poder de escolha. A tecnologia evolui por trás do mistério envolto nos personagens principais, ocupados pelos perigos de pessoas ambiciosas no meio de tanta gente com faltas de oportunidade.

Mona Lisa Overdrive conclui a história envolta de Sprawl. Publicado em 1988 por William Gibsom com edição de 2017 pela Alpeh e traduzido por Carlos Irineu, o terceiro livro da trilogia seleciona personagens dos volumes anteriores e entrega a última história deste universo cyberpunk.

“Como se as linhas de neon da matrix esperassem por elas atrás de suas pálpebras”

O livro alterna capítulos com quatro pontos de vista diferentes, entre eles o de Kumiko Yanaka, filha do chefe da Yakuza. A garota vai até Londres, afastada das ameaças direcionadas ao pai. Carrega consigo um dispositivo avançado capaz de formular o holograma com traços humanos e visível apenas a ela, tudo simulado a partir da inteligência artificial, além de possuir inúmeras informações armazenadas no próprio sistema.

Slick dedica os dias a construir autômatos na fábrica de Gentry, um indivíduo curioso e alucinado pelas próprias suposições. Precisa pagar pelo favor devido no passado, por isso deve acomodar duas pessoas, um homem inconsciente conectado a eletrodos, e a técnica em medicina Cherry, responsável por cuidar do rapaz inconsciente, conhecido apenas pelo apelido de Conde.

Angie Mitchel está anos mais velha de quando a conhecemos em Count Zero. É a celebridade do momento por conta das transmissões amorosas entre ela e Robin por meio dos stims. Continua a ouvir as vozes dos loas — entidades da mitologia vodu presente no ciberespaço — e sofre uma tentativa de envenenamento. Se recompõe e pretende voltar ao trabalho, inconsciente de toda conspiração tramada contra ela.

E Mona é a jovem prostituta que recebe a oportunidade de trabalhar em algo diferente, porém com detalhes nem tão diferentes assim. Tem grande admiração pela Angie e é usada pelos conspiradores desta celebridade enquanto lembra dos ensinamentos da colega de serviço mais experiente, já falecida.

“Não podia entender por que alguém assistiria a um vídeo se havia um stim por perto”

Gibson traz mais além dos elementos e personagens dos volumes anteriores nesta última história de Sprawl. O desenvolvimento narrativo progride de forma semelhante, desta vem enfim com melhoras na escrita. As ações ficam mais claras, bem como quem as fez. Cada capítulo coordena os personagens relacionados a algum ponto da trama, ao contrário da confusão narrativa de Count Zero. E as descrições completam as cenas antes de continuar a história. Por manter as expectativas baixas após as decepções dos livros anteriores, este provou melhorias e amadurecimento de Gibson na escrita.

Longe de tal amadurecimento mantê-lo livre de falhas. O ritmo dos capítulos perde força com o uso de verbos fracos, abusados na hora de passar a informação ao leitor. Descreve como o personagem pensa e vê em vez de fazê-lo interagir com o mundo rico elaborado pelo autor. Cada transição de capítulo começa descrevendo os acontecimentos do personagem sem mencionar qual é, propondo ao leitor descobrir com menções pertinentes aos capítulos anteriores respectivos a pessoa; chega a ser fácil de reconhecer, pena a proposta acrescentar nada senão um leve desafio ao leitor cujo único prêmio é saber o quanto antes de qual personagem o texto foca.

Como já dito, o enredo pelo menos coordena os personagens e entrega pequenos desfechos em cada capítulo, por vezes terminam em suspense a desvendar apenas quando o capítulo posterior retornar ao ponto de vista daquele personagem. Mesmo distantes, a situação dos personagens alinha com as demais, tornando improvável de se perder na progressão de cada um quando os pontos de principais estão interligados. Já a conclusão da história descarta todo esse empenho em prol de favorecer o final a apenas parte do elenco, o restante teve seus arcos progredidos até levar a trama principal ao fim e então receberam capítulos finais que nada acrescentam ou concluem as respectivas histórias.

Mona Lisa Overdrive até impressiona na leitura com expectativas baixas. Wiliiam Gibson sempre será lembrado por conta desta trilogia, cujo mérito está em construir o universo sci-fi original e inspirador a ponto de virar a base do gênero cyberpunk. Os pontos positivos das três obras jamais camuflarão os problemas de escrita, dificultando a leitura por desleixo do autor.

“Tinham um cheiro triste, os livros velhos”

Mona Lisa Overdrive - capaAutor: William Gibson
Tradutor: Carlos Irineu
Ano da publicação original: 1988
Edição: 2017
Editora: Aleph
Quantidade de páginas: 320
Série: Trilogia Sprawl #3

Confira o livro

Entre Algoritmos e Princípios

Eu respiro fundo o ar ao redor, busco coragem e alívio puro, só encontro gases e desespero. Sujeira impregna debaixo das unhas e suja meu novo esmalte, demorei vinte minutos da cidade até aqui, imagina se ele morasse mais longe… Larguei as luvas antes de sair da casa, é preciso mostrar isso a ele, isso e todo o resto. Será difícil, ele sempre foi difícil, assim como eu. Tusso, coço o nariz, ajeito o cachecol sobre o pescoço e ergo a mão à porta, bato dois toques. Sem resposta, claro. Preciso erguer a outra mão, a que carrega o pote com o bolo de cenoura, mostro para a câmera da casa e um clique aciona a porta automática.
Coloco o pé direito dentro de casa, a lâmpada do cômodo não acende. Janelas bloqueiam a entrada de luz, até as artificiais. Arrasto meus passos, evito outro tropeço, outra fratura de perna. Empurro objetos com a ponta do pé, pedaços e mais pedaços de metal; chacoalho as pernas e expulso os fios e cabos, enrolam nos tornozelos feito cobras. Nada de venenos, nem moscas vivem neste lugar, a casa libera fumaças dedetizadoras ao menor sinal de vida inumana neste lugar.
— Venha até mim. Estou no cômodo três.
Esta era acasa de papai e mamãe, com cozinha, quartos, sala e banheiro; agora são cômodos um, dois, três, quatro… Controle-se, Joana. A visita de hoje é diferente, nada disso importa mais. Eu desisti, desisti de brigar, de esmurrar a ponta de faca através das palavras contra meu irmão. O bolo, começo pelo bolo e então digo a ele. Qual é o cômodo três mesmo? Ai! Seguro o braço e sinto o sangue manchar o dedo. Uma daquelas pinças dele estava jogada na mesa da sala, mesa invisível nessa escuridão. Meu pé encontra a cadeira e a puxo, sento e aguardo a dor passar.
Como isso pôde acontecer? Éramos dispostos aos abraços, todos os dias. Sorríamos na presença de coelhos, brincávamos em árvores, acariciávamos um ao outro quando alguém saía ferido do futebol. E hoje estou aqui sozinha nesta ferida causada por ele. Não, eu fui desatenta. Devo parar de fingir inocência. Tenho minhas culpas, vim aqui por elas. Deixe doer, preciso falar com ele.
E assim enxergo luz. Enxergo-o com os braços sobre o balcão, na parede dos fundos onde ficava a pia, onde era a cozinha. De costas a mim, concentra a atenção nos circuitos do corpo, ao tutorial transmitido no implante da orelha esquerda, mantém a postura com o exoesqueleto de modelo Ita7, os tendões do braço substituídos por cordas metálicas ligadas ao músculo, acionadas por dezenas dos milésimos algoritmos codificados junto ao sistema neural dele; os tendões dos tornozelos são iguais, e seus pés descalços sequer tem pele, substituída por circuitos e implantes.
Deixo o bolo na mesa ao lado. Ainda é a mesa de cozinha, a favorita da mamãe. Apaga a luz, Miguel para de operar o próprio braço. Aciona a luz das lâmpadas, até a da sala — o cômodo um. A pinça onde bati o braço brilha com a ponta em vermelho. Espero que ele limpe meu sangue antes de usá-la.
— Obrigado pelo bolo, irmã.
Permanece ali, de costas, esperando eu sair. Nunca deu certo, e desta vez é diferente. Pouco importa a falta de vontade dele, eu preciso avisá-lo. Olha para mim, Miguel! Garganta fica entalada de medo, as palavras ficam presas ali, abro a boca e fico em silêncio. Ele vira e enfim mostra o rosto, ainda livre de implantes.
— Veio discutir de novo?
— Não, irmãozinho. — As palavras saem. — Chega de discussão.
— Já tentou isso antes. “Chega de discussão”, em seguida trocamos insultos. Impossível, Joana. Ficamos muitos diferentes.
Sim, ficamos. Embora eu note pelas partes da pele substituídas por implantes; e ele me vê sempre igual, por isso sou diferente. Pernas tremem, rendo meu corpo a cadeira da cozinha. Suspiro a fumaça da rua ainda presente.
— Prometo não ser a mesma coisa.
— E o que são promessas a você, irmã? Eu tenho meus códigos, eles me ajudam na execução de minhas tarefas, no seguimento de meus princípios. Você é naturalista, submissa aos defeitos da nossa espécie, teimosa em aceitar a evolução.
— Você está errado no conceito de evolução, no significado acadêmico em relação à espécie. E os princípios são diferentes dos algoritmos, Miguel. Por Deus, quem é o teimoso aqui?
E pronto, começamos a discussão. Falhou de novo, Joana. Como sou burra. Deixei Miguel me provocar de novo. Burra, burra, burra.
— Continua sendo hipócrita, irmã. Pouco adianta ter nojo por todo este metal no meu corpo, isso é o nosso futuro, o da humanidade. Quinze dos meus protótipos já foram adiante, sete estão em produção e três já estão me dando lucro. Paguei todas as dívidas da família e fiz as reformas necessárias da casa enquanto você fica nesta facção das plantinhas e atrapalha trabalhos como o meu.
— Chega! Deixe-me falar. Por favor, Miguel.
Ele balança os ombros, cruza os braços e me permite falar…
— Eu mudei.
… e me interrompe:
— Há circuito nenhum no seu corpo, ainda acredita nas ideias dos naturalistas.
Percebe a ausência de circuitos, menos a ausência de outra coisa. Tanto implante no corpo, e só nos mantém distantes.
— Ainda acredito. Deixe-me dizer até o fim desta vez. O que eu mudei, Miguel, foi um princípio, e o deixei como principal. Você entende isso, certo? De mudar a prioridade de um princípio como a mais importante. É possível programar seus algoritmos assim também?
— É sim, irmã. Então me conte esse princípio de alta prioridade.
A garganta fica entalada de novo. Por que é tão difícil? Eu me redimi, rendi os meus pecados na igreja e desejei forças neste momento. Preciso delas agora, Deus! Tremo os lábios, boca expele apenas silêncio, meu olhar fugiu de Miguel há tempos, olho o piso cinza de poeira. Difícil falar, mais difícil ainda fazê-lo entender com as palavras. O relógio da parede ainda funciona, e pela hora… Está quase na hora!
— Venha comigo, é melhor te mostrar.
Pelo menos o convenci, ou minhas lágrimas o fizeram me seguir. Com a luz da sala acesa, tiro os pés do chão ao andar, ciente de cada dispositivo largado no chão. Miguel nunca sequer tentou organizar o quarto, só piorou com a idade. Eu também piorei nos meus defeitos. O nó na garganta afrouxa e engulo o silêncio em seco. Porta abre ao chegar perto e encontro a cidade diante de nós no lado de fora. Pouco do céu é visto, coberto pelas fileiras de arranha-céus e tráfego de aeromóveis. A enorme tela do edifício central é tão visível quanto a instalada no shopping da rua seguinte a da casa de Miguel; cada uma mostra determinado assunto, todos considerados úteis à população. Uma tela avisa da possibilidade de chuva esta noite, outra enumera o total de impostos colhidos pelo governo, vejo o mapa colorido dos distritos principais e denuncia com tom vermelho onde aconteceu algum delito ao longo do dia. Tantas informações sobre nossas cabeças, que deixamos de olhar para baixo, às ruas esburacadas e animais feridos, quando há animais; se procurar algo de tom verde só encontrará nos neons dos aeromóveis, ninguém cultiva planta neste lugar.
Meu choro molha a garganta, solta as amarras e libera a voz.
— Consegue enxergar o sol, Miguel?
— Todo este choro por isso? Ver o sol? Enxergamos o mesmo mundo de forma diferente, irmã. Pare de forçar a sua ideologia comigo, pois eu aceito todas essas luzes, as luzes do progresso.
— Desculpa. — Só tenho esta resposta. De certa forma sou culpada. Desisti a tempo, apesar de ainda ter culpa com o que vai acontecer. E acontece agora.
Todas as telas dispostas nos prédios desligam. Os prédios desativam, aeromóveis estacionam no céu e tem os aceleradores inutilizados. A casa de Miguel apaga, como a de todas as casas desta cidade, de todas as cidades do estado, talvez do mundo, algum dia. Ruídos param de atravessar meus ouvidos e escuto o bater de vento nas minhas orelhas, tão comum de onde resolvi morar, resolvi lutar, e então abandonei depois de saber que iriam fazer isso, iriam eliminar o mundo visto por Miguel.
Ele perde o apoio do corpo. O peso dos metais o fazem cair no chão, de joelhos. Ouvidos captam sons sem o filtro do aparelho, mãos ficam imóveis com tendões desativados. Deus o ajude, nem as pernas encontram meios de mexer.
— Desculpa, Miguel. Os naturalistas foram longe demais.
— Como eles puderam? — disse cada palavra aos soluços.
— O planeta está morrendo graças a toda essa tecnologia, devido ao progresso desenfreado e inconsequente. — Espero ele me interromper por dizer algo contrário ao pensamento dele, e ele fica quieto. — Sempre acolhi as ideias da preservação ambiental, do aproveitamento de recursos recicláveis, a manter nossos corpos sempre naturais; mas nunca aceitei impor tais desejos à força, mesmo com você. Jamais aceitaria te deixar assim, nem a sua cidade.
A boca de Miguel resseca, sem palavras no momento. Agora ele vê, sem a ajuda dos implantes, ele vê meus braços sem a pulseira de roseira, o laço dos naturalistas.
— Acredito em você, irmã. Eu detesto a forma com que me trata, apesar de sempre querer o meu bem. — Ele tenta levantar, incapaz de impor força no corpo entregue aos aparatos tecnológicos, inúteis agora. — Não tem volta, tem? Mesmo se reativar esses implantes os seus colegas, ex-colegas, impedirão de funcionar de novo.
Confirmo com a cabeça. Confirmo e dobro os joelhos ao meu irmão, o abraço e deságuo os restos das lágrimas sobre ele, de corpo pesado e frio.
— Vou seguir o princípio principal, Miguel, o de proteger tudo o que resta de nossa família: você, irmãozinho. Cuidarei de você. Seja quais forem as condições, garantirei a melhor vida possível a nós.
Lágrimas também escorrem de Miguel, desliza pela minha bochecha colada na dele.
— Eu consigo, Joana. — Esfrega o queixo sobre meu ombro e levanta a cabeça. — Eu consigo enxergar o sol. Obrigado.

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi com a Sua Mãe

Dentre as criaturas horripilantes das histórias de terror, zumbis estão entre os mais lembrados. Presentes em série, num dos mais recentes lançamentos da plataforma Playstation e do clássico da ficção científica Eu Sou a Lenda a muitos, inúmeros outros exemplos de trabalhos autorais. Este livro propõe um contexto original e bem humorado, o de permanecer vivo no meio da hordas de zumbis… Com a sua mãe.

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi Com a Sua Mãe é o título de livro mais longo trazido neste blog até o momento. Publicado em 2019 por John Miller, é a história de sobrevivência do adolescente Edmílson em meio ao apocalipse zumbi junto com a mãe Ana e o tio Déco.

“Minha mãe nunca foi boa dando notícias ruins”

Ninguém sabe como a epidemia de zumbis aconteceu, Edmílson até tenta inventar uma introdução entre os clichês das histórias vistos na tevê, e logo desiste. Com o conhecimento adquirido em horas de seriados e filmes — sem garantia das situações apresentadas na tela condizer com a realidade desta história — Ed compartilha seu aprendizado com a mãe Ana que mal consegue pronunciar a palavra zumbi e ao tio Déco, irmão mais novo de Ana.

Dona Ana mantém o pulso firme na educação de Ed, além de exagerar nas preocupações de mãe coruja; comportamento retratado com sarcasmo pelo filho. Buzinas chamam a atenção da casa de Ed, vindas do pálio vermelho rodeado pelos zumbis na rua. O garoto coloca os conhecimentos das séries em cheque na hora do resgate, desencadeia outros eventos e trazem ameaças mais complicadas do que as hordas de mortos-vivos.

“Parece um plano promissor, mas eu aprendi a não confiar em planos infalíveis”

Narrado pelo próprio Ed, capítulos pequenos contam dos perigos enfrentado pela família enquanto tenta conviver com a própria. Crises de relacionamentos revelam ótimos momentos de humor pelas provocações de Ed nas situações comuns entre mãe e filho em meio ao perigo nada ordinário. O gosto por séries e filmes pelo protagonista reflete na citação de referências aos últimos lançamentos populares e das obras mais comuns focadas nessas criaturas.

Como já disse, os capítulos são pequenos, bem como os parágrafos, e o livro… A narrativa consiste em contar os acontecimentos em sequência, e tudo acontece rápido demais. Oferece poucos detalhes da situação atual e já avança ao próximo evento, ao próximo capítulo. Alguns eventos e falas clichês também aceleram a narrativa, pois é algo comum e portanto rápido de assimilar. Isso garante uma leitura dinâmica, simples e rápida; bem como apressada. Poderia ter dado mais espaço a interação entre os personagens, explorar mais da visão de cada pessoa envolvida na trama antes de dar o desfecho. Alguns diálogos têm explicações com verbos de dizer que repetem a informação já dada na fala, era possível tirar a maioria e evitar a redundância.

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi com a Sua Mãe traz o terror dos comedores de cérebro numa trama YA bem humorada e ágil. Muitos perigos ameaçam Ed e família, mas a pressa em mostrá-los restringe a qualidade da história apenas devido ao bom humor da relação materna, pois os momentos de tensão ocorrem e logo se resolvem, enquanto o clássico amor de mãe permanece e pelo menos é bem representado neste livro.

“Que cena linda. Pena estarmos cercados de monstros e sujos de entranhas podres”

Como Sobreviver ao Apocalipse Zumbi com a Sua Mãe - capaAutor: John Miller
Ano de Publicação: 2019
Publicação Independente
Quantidade de Páginas: 139

Confira o livro

Batman: The Telltale Series

Personagens clássicos de histórias em quadrinhos ultrapassam gerações e por vezes geram identidades entre os gostos dos jovens com a infância dos pais. Os enredos fecham arcos, porém as histórias jamais terminam, transportam os heróis ao tempo recente com recursos e realidade inseridos aos conceitos reciclados. A quantidade de conflitos nesses heróis é absurda, nem sempre correspondendo ao ápice dos personagens nos episódios clássicos. Também há receio quanto as adaptações das histórias em outras mídias, muitas entregando algo aquém do esperado. Esta resenha avalia uma dessas adaptações nos games.

Batman: The Telltale Series mostra a história do Batman jovem, ainda conhecendo os bandidos que enfrentará por muitas e várias vezes na trajetória sem fim. Lançado em 2016, a empresa Telltale — infelizmente falida — traz uma aventura original no jogo do Homem-Morcego.

Hora de salvar a cidade

Batman impede outro assalto de uma das infinitas noites. Os bandidos invadem a prefeitura com receio de serem impedidos pelo mito urbano, o justiceiro encapuzado com roupa de morcego, e o medo deles vira realidade. Aos poucos eles caem pelos ataques furtivos, deixando apenas o corpo inconsciente e o horror de quem ainda permanece de pé. Ocupado com os vilões, Batman flagra outra ladra aproveitando da briga para roubar o mesmo artefato da prefeitura — a meliante de vestes negras e justas ao corpo, além do capuz que lembra orelhas de gato. O Morcego recupera o item roubado pela Gata, apesar de ficar surpreso com as habilidades dela.

Após o trabalho noturno, Bruce Wayne ainda precisa cumprir outra tarefa na própria mansão: a de receber os convidados de sua festa, a celebração de apoiar o novo candidato a prefeito de Gotham, Harvey Dent. Bruce acredita nas capacidades do velho amigo a vencer o prefeito corrupto nesta eleição. Todos da mansão recuam na chegada inesperada de Carmine Falcone, líder de gangue que deseja conversar a sós com o anfitrião da festa. Na conversa entre eles, Falcone revela o relacionamento criminoso entre ele o pai de Bruce. Pego de surpresa, Bruce toma esta confissão  como calúnia, esta posta em cheque no decorrer do jogo.

Silêncio, o som da emboscada

Quem já jogou qualquer game da Telltale sabe como ele funciona. Nada de o jogador controlar os personagens ao longo das cenas. A jogabilidade foca nos diálogos, com três opções de resposta mais a alternativa de falar nada diante da interação com outros personagens. Além disso, há a parte investigativa onde podemos controlar o personagem e procurar pistas no cenário; nas cenas de ação o jogador deve apertar os comandos na tela antes do inimigo acertar o golpe no Batman.

Como demonstrado na apresentação do enredo, o jogo alterna entre a luta incansável de Batman e os conflitos na vida particular de Bruce Wayne. O jogo permite, em certos momentos, a escolha de como o protagonista resolverá o próximo conflito, pois as circunstâncias podem se resolver com a figura pública de Bruce Wayne, ou a figura obscura do Batman. As escolhas fazem o jogo evoluir e no fim trazer a conclusão do jogo e a relação com os personagens secundários.

Os vilões desta cidade precisam temer algo

Tais consequências nas escolhas podem constranger o jogador sobre as opções disponíveis no jogo, mas é um receio exagerado. O enredo no jogo é estreito, com poucas consequências, limitadas a levar o jogador a determinada cena com resultados por vezes isolados a esta, com raras exceções. As opções de diálogo interferem mais no que o personagem secundário irá reagir, seja no momento ou em outra cena posterior.

Toda obra digna do Batman deve trabalhar bem nos aspectos dos vilões, tornar as ameaças reais e acertar onde o protagonista menos espera; e eles acertam em cheio. Bruce Wayne é vítima da conspiração e corrupção que o expõe contra a opinião pública de Gotham, perde recursos financeiros e assim interfere no desenvolvimento e manutenção das ferramentas de seu alter ego.

Cenas de ação se limitam ao script do jogo, oferece nenhuma liberdade ao jogador resolver os conflitos. As investigações também oferecem pouco desafio. Programam marcas pontuais no cenário, essas simplistas demais. Na conclusão da investigação, Batman pega as poucas evidências dos conflitos e traça os acontecimentos. Tais cenas perdem a veracidade por soarem ensaiadas, quando na verdade são de ações de bandidos sob imprevistos para deixar pistas tão pontuais; sem falar da famosa capacidade do Morcego, sempre com recurso ou conhecimento de algo que dá a conclusão incomum ao aspecto banal, ou extrapola as capacidades das tecnologias e traz evidências jamais vistas por olhos humanos.

Batman: The Telltale Series leva o protagonista ao limite enquanto nos propõe a escolher entre as poucas alternativas até um dos possíveis desfechos. Peca na extravagância das habilidades do Morcego mesmo quando os recursos ficam escassos, pelo menos ainda surpreende o jogador com as capacidades dos vilões em explorar as nuances do protagonista.

O Trono de Fogo (As Crônicas de Kane, Vol. 2)

A aventura pela mitologia egípcia continua. Afinal enfrentar o Deus que derrotou o próprio Osíris não é o bastante quando também existe a temível serpente faminta pelo sol e ambiciosa a instaurar o caos. Entre os humanos sempre há conspiração distorcendo fatos quanto aos verdadeiros acontecimentos da família Kane. Pelo menos os jovens irmãos souberam levar a apresentação dos fatos na íntegra a outro nível, e fizeram uma nova gravação.

O Trono de Fogo é a transcrição da segunda gravação feita pelos irmãos Kane com a nova parte da aventura. Escrito por Rick Riordan, publicado em 2011 com edição em 2012 pela editora Intrínseca com tradução de Débora Isidoro, Carter e Sadie tem muita ação a compartilhar sobre as intrigas mitológicas em âmbito internacional.

“Preciso contar esta história, ou vamos todos morrer”

A história começa três meses depois dos acontecimentos de A Pirâmide Vermelha. Os irmãos Kane têm uma missão simples, incendiar o museu de Brooklyn é mera consequência no plano deles de evitar algo muito pior. Precisam coletar três papiros que constituem o Livro de Rá, invocar o Deus homônimo — o rei entre as divindades egípcias — e assim conseguirem enfrentar a serpente Apófis, o ser com ambição de engolir o sol desde os tempos do Antigo Egito.

Muitos jovens escutaram as gravações de Carter e Sadie e atenderam a convocação, vieram de todo o mundo — inclusive Brasil — e receberam treinamentos dos Kane nesses meses antes de acontecer o incêndio no museu. Nem todos os magos concordam com a atitude dos garotos, e o russo Vladimir Menshikov pretende colocar toda a Casa da Vida — a instituição internacional dos praticantes da magia egípcia — contra os protagonistas com argumentos questionáveis a quem ouviu ou leu o relato direto da fonte. Pois bem, Apófis retornará e deve ser confrontado, seja pela invocação de Rá ou outros quais sejam os meios levantados nesta nova aventura da mitologia egípcia.

“Tawaret corou, e foi a primeira vez que constrangi um hipopótamo”

Grandes responsabilidades caem sobre os ombros dos irmãos, mas os três meses de amadurecimento não tiraram o bom humor na hora de enfrentar as maiores ameaças. Seja na nomeação dos capítulos, apresentação de novos personagens ou a ameaça fatal diante deles, sempre aproveitam oportunidades de comentar frases hilárias. Quem preferir a representação mais fiel a intensidade das ameaças, pode se decepcionar pela quantidade recorrente com que o sarcasmo de Sadie e Carter descreve os problemas a confrontar. Mantendo a narração de dois capítulos por personagem, Riordan consegue transmitir a personalidade de cada narrador, a diferença em como eles enxergam os detalhes e quais prioridades, tudo é repassado conforme o personagem correspondente conta a história.

A ação toma mais espaço neste livro em relação ao anterior, pois já passou da introdução de toda a trama dos irmãos Kane e já apresentou a mitologia aos leitores no primeiro volume. Ainda assim as abordagens sobre a cultura e mitologia retratada fazem falta, embora elas ainda aconteçam ao longo do livro, ocorre muito menos em relação ao primeiro. Os conflitos constantes substituem a representação didática da mitologia e torna o livro menos interessante caso objetivo da leitura for conhecer mais da mitologia e cultura homenageada.

Todos os personagens humanos continuam seus arcos enquanto envolve os conflitos de novos personagens. Dos jovens aprendizes dos Kane, Walt recebe mais destaque oferecendo um dilema amoroso a Sadie enquanto enfrenta o conflito de sua linhagem. Novos — apesar de poucos — Deuses aparecem na história e têm papéis importantes na aventura; aliados ou adversários, são úteis a revelar personalidades dos protagonistas, desenvolvendo-as em meio a situação caótica que é a fase da adolescência sob o conflito a evitar a ruína de todo o mundo.

O Trono de Fogo falha em manter a qualidade de A Pirâmide Vermelha no quesito informativo e oferece mais cenas de ação e reviravolta com grandes pitadas de humor na trama encarregada de responsabilidade sobre os irmão Kane. Ainda há o último volume da saga do panteão egípcio, e torço para o autor ter equilibrado cenas empolgantes deste livro com as interessantes informações da cultura tão pouca representada — pelo menos dentre as obras publicadas no Brasil — como fez na estreia desta aventura.

“Somos os Kane. Não fugimos de escolhas difíceis”

O Trono de Fogo - capaAutor: Rick Riordan
Ano da Publicação Original: 2011
Edição: 2012
Tradução: Débora Isidoro
Editora: Intrínseca
Quantidade de Páginas: 398

Compre o livro

Fatos à Venda (Crônica sobre narrativas)

Fatos à venda! Fatos à venda! Vocês sabem do que estou falando, posso produzir qualquer visão, teço a narrativa para favorecer ideais, ligo veracidades e monto a verdade. Todos podemos ser como queremos, basta produzir fatos convincentes, por isso estou aqui! Pretende subir na carreira? Precisa cultivar ódio numa pessoa? Tornar o corpo gordo a nova tendência do verão? Virar o novo presidente da República? Vem cá, rapaz, seus olhos transmitem o desejo honesto e faminto pelos caminhos fáceis. Solta o verbo.

— O senhor garante todo tipo de conquista mesmo?

Garanto. É tudo verdade, tudo obtido através de fatos, sob narrativas assertivas que favorecerão os sonhos, seja qual for. Ninguém verá a Mão por trás da visão, apenas os méritos de sua dedicação formulada pelas minhas palavras.

— E o senhor oferta tal serviço em plena praça pública. Sem ofensas, mas parece lunático.

“Sem ofensas, mas já ofendendo…” Por isso poucos respeitam meus talentos.

— Além do preço rabiscado nesta caixa de papelão. Algo tão caro e nem monta um estabelecimento decente…

Estabelecimento decente?! Isso aqui não é servicinho de loja, não. Acha que existe CREA sobre vendas de fatos? Chegue mais perto, amigo, fique do meu lado e olhe ao redor. Lembre-se daquele vestido azul para alguns e dourado a outros, isso acontece a todo momento. Todos esses pedestres, motoristas, guardas, engravatados e garis veem cores diferentes do mesmo objeto, visões alternativas do mesmo fato. Eu conheço o motorista triste por outros não terem condições de pagar pelas aulas de direção, já o outro critica de qualquer meia-roda conseguir tirar carta hoje em dia. Garis sonham com dinheiro, uns com trabalho duro e outros com distribuição de renda justa. Aquela de salto-alto odeia a obrigação de usá-lo no emprego, e nem queira saber onde a moça de casaco colocou a boca na última noite.

— Ou disse apenas ideias sobre eles tiradas da cabeça.

Fiz isso mesmo, e funciona! Ou você irá perguntar a cada um deles se estou dizendo a verdade? Os motoristas já saíram do alcance, a vida de todos seguiram adiante, e meus fatos sobre eles continuam aí, na cachola. Você verá o próximo gari e refletirá em qual lado ele está, mais ainda, verá um gari beiçudo e o tomará como quem defende a distribuição de renda. Por quê? Porque eu te disse.

— Errado, senhor. Posso discordar de tudo dito até agora.

Tem razão, pode, discorde enquanto todo o resto acredita. A sociedade quer seguir a narrativa, seduzir-se a ter esperança ou motivos a odiar alguém.

— Suas respostas são coerentes, eu até sinto em dizer o quanto desacredito.

Isto é o importante: fazer sentido, de preferência o mais simples possível. Existem verdades compreensíveis apenas através de muito tempo e estudo, e aquelas capazes de mudar a vida hoje. Nem preciso perguntar quais verdades o povo deseja mais, a minoria do primeiro grupo pode trabalhar à vontade, eu faço acontecer a maioria do segundo.

— Está bem. O senhor me convenceu.

Maravilha! Sou mesmo bom nisso, e posso convencer qualquer pessoa de qualquer fato sobre você. Já viu qual o meu preço, se consegue pagá-lo, basta pedir. Qual cargo tanto almeja?

— Nenhum.

Então já trabalha com o que quer, é um jovem de sorte. Eu posso tornar o seu produto ou serviço como o melhor da concorrência.

— Já é. Modéstia à parte, ninguém faz sites responsivos e rápidos como eu.

Olha a humildade, rapaz! Vamos assegurar esta sua posição. Qual a concorrência? Eu posso destruir a reputação de quem detesta.

— Eu sou cristão, senhor! Jamais pedirei pela desgraça de meu semelhante.

Está fingindo de ingênuo ou é babaca mesmo? Veja o quanto de cristão passando a perna por aí, eles precisam tirar vantagem, só assim garante o sustento da própria família.

— Este é o problema.

Não entendi. Explica direito este problema.

— Moro sozinho, longe de irmãos e pais. E, sabe… Tem uma garota, conheci ela há pouco tempo. Tenho calafrio só de vê-la. Queria apenas trocar algumas palavras…

Olha, este pedido é bastante diferente, rapaz. E eu gostei, será desafiante. Apesar de você conseguir algo muito melhor com meus serviços, eu te vendo o fato a ela.

— Impossível conseguir algo muito melhor. Ela é o amor da minha vida!

Certo, jovem. Sou velho e tarado demais para te entender, ainda assim acredito nessas palavras românticas. Pegue este cartão com meu telefone, mande todos os detalhes sobre ela, fotos também, e fale também de você, qualidade e defeitos. Manda tudo no zap-zap mesmo, eu saindo da praça já desenvolvo minha narrativa, divulgo nos lugares certos e ela ficará doidinha por um papo com você. Ela não mergulhará a seus pés ou implorará por passar noites no motel, seu pedido é outro. Pode pagar tudo depois do serviço feito, só lembre de trazer dinheiro vivo, viu?

Rapaz, que jovem foi esse? Desperdiçar o talento como o meu em troca de namoro honesto. É cada uma! Pior, adorei esta tarefa. Dá aquela sensação de o mundo ainda ter jeito, da humildade persistir e quem sabe um dia salvar este país da corrupção. É, existe esperança amanhã, hoje eu ainda preciso forjar em como a mídia manipulou um vídeo pornográfico postado pelo presidente. Todo dia tenho de arrumar as presepadas deste asno!

Edgar Allan Poe — Medo Clássico (Vol. 1)

Histórias fantásticas existem de monte, e temos o privilégio de conhecer as atuais e antigas também. De lendas sobre criaturas originárias do medo em tempos mais simples a seres inconcebíveis deste planeta no horror cósmico, temos ainda um intermediário a sustentar o suspense e terror no meio urbano, entre pessoas. Já são 210 anos desde o seu nascimento, 170 da morte; tais números falham em representar o legado, da inumerosa inspiração proporcionada pelos contos e poemas nas gerações posteriores, remetente a atual e ainda das próximas.

Refiro a ninguém menos que Edgar Allan Poe. Os quinze contos selecionados na coletânea Medo Clássico da editora DarkSide deste primeiro volume oferecem a oportunidade de conhecer o trabalho do escritor clássico da literatura gótica, ainda presenteia o poema “O Corvo” no idioma original mais as traduções de Machado de Assis e Fernando Pessoa.

Ler Poe é, antes de tudo, reconhecê-lo

O livro divide cinco categorias com três contos cada e finaliza os trabalhos do Poe com o poema “O Corvo” na versão original e duas traduções portuguesas, a primeira de Machado de Assis e a outra por Fernando Pessoa. A edição ainda traz prefácios da tradutora e um dos biógrafos — e fã — do autor, encerrando o livro com as fotos da única casa de Poe ainda de pé e uma breve biografia.

Sobre as cinco categorias:

ESPECTRO DA MORTE: os personagens vislumbram — pelos olhos e tato — as ameaças à vida. “Desceu sobre meu espírito a calma contida do desespero.
NARRADORES HOMICIDAS: são histórias cujo personagem/narrador é autor das atrocidades. “Mas amanhã estarei morto, e hoje preciso remover este fardo de minha alma.
DETETIVE DUPIN: com as três histórias do detetive mais antigo dentre os conhecidos da literatura policial. “Não é um completo idiota — disse G. — mas é um poeta, o que é quase a mesma coisa.
MULHERES ETÉREAS: as personagens principais são femininas e as histórias contadas pelo personagem/narrador que tanto as admira; a morte também é aspecto comum das três histórias. “Estes são os olhos grandes, negros e estranhos de meu perdido amor.
ÍMPETO AVENTUREIRO: os personagens encaram experiências adversas, seja a tragédia durante a viagem, o auxílio do amigo de sanidade dúbia ou a consequência do ato incentivado por alguém estranho. “Qualquer obra de ficção deve ter uma moral.

Foi autêntico em vida para ser caricatura em morte

Com exceção de O Baile da Morte Vermelha, todos os contos são narrados pelo personagem, alguns contam a história do protagonista em seu ponto de vista e outros a protagonizam. Tecendo as imagens góticas por meio das palavras, é preciso calma para vislumbrar o quadro de suspense pincelado em extensos parágrafos que pintam cada detalhe. O detalhamento é comum nos escritos desta época e podem desmotivar leitores habituados com obras recentes, porém é recompensador vencer este obstáculo e descobrir como desenvolvia a aura de suspense nas obras passadas. Também tem cenas de mutilação e evidências da agressão tão corriqueiras nas literaturas violentas de hoje. Além da definição feita pelo personagem ao testemunhar o horror, a visão limitada do narrador colabora com o mistério dos atos sem oferecer todas as respostas do resultado tenebroso — exceto nos contos de Dupin, pois toda a investigação é explicada.

O Corvo é o poema mais conhecido de Poe. Este volume antecede o poema com declarações do autor em como desenvolveu os versos. É sobre o jovem em luto pela amada Lenore, surpreendido pela visita de um corvo capaz de pronunciar apenas a palavra nevermore, expressão que responde a todas as indagações feitas pelo jovem. Os versos desenham a melancolia do amor rescindido pela morte.

Edgar Allan Poe: Medo Clássico Vol. 1 é um dos vários livros capazes de proporcionar o conhecimento do autor clássico por novos leitores. Os colecionadores já cientes dessas histórias também podem adquirir este exemplar pelos desenhos artísticos e informações biográficas de Poe.

Até mesmo no túmulo, nem tudo está perdido

Edgar Allan Poe - Medo Clássico Vol. 1 - Capa

 

 

Editora: DarkSide
Edição: 2017
Tradutora: Marcia Heloisa
Ilustração: Ramon Rodrigues
Páginas: 384

Compre o livro

« Older posts Newer posts »

© 2020 XP Literário

Theme by Anders NorenUp ↑