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O Trabalho Não Precisa Ser uma Loucura

Se não acompanha por si, pelo menos conhece alguém a estampar frases motivacionais de supostos vencedores na carreira profissional por meio de esforço integral. Trabalhe enquanto eles sonham, brincam, reclamam ou algo do tipo. Na prática trabalhe também mesmo quando a família precisa de você, ignore as recomendações médicas, somam as dores musculares e de cabeça sendo parte do empenho, fracasse pela exaustão minar toda a criatividade e foco, ou porque “deixou de se esforçar o suficiente”. Buscar outro ponto de vista é diferente de fugir do trabalho ou seguir pelo caminho mais fácil e sem resultado, pelo contrário, é aliar a eficiência com o bem-estar familiar e empresarial de modo a manter a rotina produtiva.

O Trabalho Não Precisa ser uma Loucura elenca exemplos do quanto a cultura empreendedora de trabalho árduo prejudica o ambiente corporativo e quais medidas funcionam na empresa administrada pelos autores Jason Fried e David Heinemeier Hansson. Livro foi publicado em 2020 e trazido ao Brasil no mesmo ano pela editora Harper Collins sob a tradução de Daniel Austie.

“Para muitos, a loucura do trabalho acabou se tornando algo normal”

Sempre direto ao assunto tratado no capítulo correspondente, o livro proporciona leitura rápida e fácil de compreender. Segue a dinâmica de criticar a postura empreendedora contrariada pelos autores, em seguida contrastam por meio de exemplos tirados na experiência da própria empresa. Também lavam a roupa suja e cita os erros do passado, de atingir objetivos sem receber o resultado esperado, ou perceberam da necessidade ser na verdade outra, assim sobreviveram no mercado há mais de quinze anos, mesmo seguindo paradigma próprios e divergentes dos aceitáveis por outras empresas.

O conteúdo é limitado a experiências dos autores na empresa deles, salvo citações de outros profissionais de diferentes ramos com exemplos de rotina equilibrada no fim de certos capítulos e a menção de experiências pontuais de outras pessoas ― de fontes listadas na seção Bibliografia. Isso prejudica por deixar de abranger as discussões por meio de outras fontes, sejam essas favoráveis ou contrárias aos ideais dos autores, enquanto contribuiriam numa discussão justa. Na prática pode servir para reafirmar a quem já reflete da rotina de trabalho estar desgastante. Esta sugestão comprometeria a fluidez da assimilação em troca de estimular o leitor a refletir mais quanto as considerações elencadas. As dicas funcionam para os autores, e eles mesmos afirmam em determinado momento quanto a soluções de certa empresa nem sempre corresponderem a de outras, caberia o leitor a buscar a maneira por si, e nisso o livro pouco contribui.

Tratando de os autores citarem soluções e depois contradizerem de essas falharem em corresponder à realidade do leitor, há descuidos em outras menções. Não chega a contradizer, mas certas escolhas de palavras provocam desentendimentos. Um exemplo é a afirmação do quanto as metas sobrecarregam os funcionários e a direção da empresa sem necessidade, já nos capítulos posteriores continuam a falar de metas, embora com outro significado, atrapalha a compreensão por usar a mesma palavra.

“Não dá para fixar um prazo e depois adicionar mais trabalho. Isso não é justo”

O Trabalho Não Precisa Ser uma Loucura atrairá os leitores pelo título entregar a esperança de a sobrecarga na rotina profissional não corresponder ao resultado de crescimento. Os exemplos favorecem até mesmo a produtividade e a rentabilidade da empresa junto ao bem-estar dos funcionários, longe de serem desculpas ditas por preguiçosos, interessados em conseguir mais ao fazer menos. Por outro lado, as dicas são específicas das experiências dos autores, podendo ser inviáveis a demais empresas. Colaboraria mais se baseasse o conteúdo através de discussões de argumentos defendidos pela cultura do empreendedorismo através de exemplos além dos aplicados pelos autores.

“A única maneira de trabalhar mais é ter menos trabalho”

Capa de O Trabalho Não Precisa Ser uma LoucuraAutores: David Heinemeier Hansson e Jason Fried
Tradutor: Daniel Austie
Ano de Publicação: 2020
Editora: Harper Collins
Gênero: Não Ficção / desenvolvimento pessoal / empreendedorismo
Quantidade de Páginas: 240

Confira o livro

Na Perspectiva da Malvada (parte 2)

Confira agora a segunda parte que completa o conto com a perspectiva da malvada. Há justificativas para o ocorrido na primeira parte? Deixo a vocês responderem esta questão após a leitura.


Malvada – Parte 2

Malvada - parte 2

“… entendido, senhor Guilherme. Mais alguma ordem?” 

“No momento é só. Tenha um bom dia.” 

Sem férias nos próximos 30 dias?! Eu ia tirar a minha daqui uma semana! 

Chefe maldito. Só pensa em nos humilhar. Eu preciso desses aumentos, preciso de férias, até a merreca do dissídio me ajudaria. Mas ele nega tudo. 

A porta dele abre, preciso me recompor. 

Disfarço meu sorriso, mamãe me ensinou a manter o emprego dessa forma. Abro a planilha correspondente ao relatório  e digito números aleatórios. Depois eu corrijo, ou não. O traste nem confere esses documentos. 

Ele vira seu rosto, de um lado a outro nos escriturários. Tadinhos dos meus colegas, merecem mais do que este aprendiz de Temer como nosso chefinho.

Cumprimenta o José Alcântara. Ele nunca cumprimenta nosso segurança, muito menos os caixas. Agora passeia pelo estacionamento, cada semana inventa uma mania!

Aproveito e faço uma chamada:

“Oi, Docinho. Se sente muito dodói hoje?”

“Não fale assim, Milena. Hoje não. Esta doença não é brincadeira.”

“Eu sei que não é, amor… Como foram os exames?”

“Os piores possíveis. Pegarei dinheiro emprestado do banco. Céus, precisamos assaltar o banco para fazer o tratamento!”

“É pior do que pensamos?”

Lágrimas escorrem em mim.

“Sim. Seu Docinho está nada bem. Está estragado, amor.”

“Não, não está. E nada de assaltar banco, nem fazer empréstimo. Eu… Eu darei um jeito.”

“Do que está falando, Mile-”

Interrompo a ligação.

Pego meu lencinho e enxugo o choro. Retoco as bochechas, ergo a cabeça e vou na sala de finanças, contábil, almoxarifado… tudo misturado porque este muquirana não investe no nosso conforto.

Permaneço de cabeça erguida diante dos colegas, mas me rendo. Borro meu make de vez, chorando feito chafariz. 

“Ele vai morrer! Não conseguirei pagar a cirurgia.”

Enzo aproxima de mim, me consola. Seguro firme em seus braços.

“Eu não queria. Fiz vista grossa para vocês, mas não queria participar disso.”

“Não se preocupe, Milena. Nós vamos ajudá-la. Tudo que pegarmos na próxima fica com você.”

Evandro e Elias reclamam com o nosso colega mais novo. Enzo ainda me defende. 

“Se não fosse por ela, já estaríamos todos na rua.”

Bonitinho da parte de Enzo. Aproveitei bastante dele quando descobri este esquema. Está bem, ele gostava disso, até conseguir uma namorada que agora faz o mesmo.

Os dois suspiraram. Evandro diz enfim:

“Você não é diferente dele. Mas se isso salvará seu marido, outro ser humano, todo o dinheiro de hoje ficará com você.”

Agradeço a todos, apesar de sentir nojo por ser comparada ao Guilherme só por estar em cargo superior. Eu só aproveitei do Evandro uma vez, afinal. Agora só tenho olhos para o meu Docinho, e ele está com dodói muito do mal. 

Sento de volta na minha mesa, e vejo pela janela o chefinho sair de carro. Não esperava a oportunidade surgir tão rápido. 

Enzo me acompanha até o seu Francisco.

“Ela entrou no esquema a partir hoje.” 

“É por um bom motivo.” 

“Não esquenta.” Francisco abana a mão. “Vamos passar por cima do Guilherme. Ele desconfia, mas nunca nota a diferença.” 

“Perceberia se visse meus relatórios, eu nem deveria fazer isso por ser do RH.” 

“E a Sabrina não deveria limpar o estacionamento por ser caixa, mas lá vai ela.” 

“Hora perfeita!” Enzo bate palmas e corre até Alcântara. 

O segurança vai até Sabrina e a distrai por um momento. A coitada é muito inocente. 

Enzo me acompanha até o caixa da guarita. Arranca o dinheiro de lá e passa pelas minhas mãos. Tira a gaveta do caixa e pega as notas de cinquenta, depois com uma chave abre o cofre e tira o monte Everest em dinheiro e passa tudinho a mim.

Volto correndo ao escritório, o coleguinha recolhe as notas que deixo cair.

Recebo palmas ao atravessar a porta como se eu cruzasse a faixa após a corrida de São Silvestre. O dinheiro continua a escorrer de minhas mãos.

Droga! Não precisava ser assim. 

Não tem outro jeito. O nosso governo é corrupto, tudo é caro nesta porcaria de país, a saúde pública não passa de hipocrisia.

Jogo o dinheiro todo no chão.

“Isso não é certo. Eu deveria ter denunciado todos vocês desde o começo.”

Evandro dá um tapa na minha cara.

“Agora é tarde. Você está tão podre quanto todos nós. Pega esta porcaria de dinheiro e cuide do seu marido.”

Agacho e pego tudo de volta.

As mãos tremem e deixam escapar dinheiro entre os dedos. Pego de volta, ninguém me ajuda. Não faço ideia o quanto todo esse dinheiro vai dar, talvez consiga começar o tratamento de Docinho. Terei que assaltar um banco para continuar. Mas farei por ele, tudo por ele.

Meu celular toca.

“Não podia pegar o dinheiro do caixa. A Sabrina descobriu.”

“Converse com ela. Na próxima ela leva uma parte.”

“Ela é uma criança idiota. Não vai entender o que estamos fazendo. Ela vai denunciar. Devo apagar ela.”

“Quê?! Não faça nada disso! Eu vou dar um jeito.”

“Não adianta. Eu resolvo.”

“Mas-”

Desliga na minha cara. Tenho de pegar todo o dinheiro de novo.

O celular toca outra vez. É o Francisco, mas logo ele desliga.

Volto a recolher as notas no chão. As unhas batem no azulejo, estragam o esmalte tão amado pelo Docinho.

O estrondo da porta me faz gritar. Solto tudo o que estava em mãos e me viro para a entrada.

Começo a chorar, soluço enquanto Guilherme fala com a polícia.

Está tudo acabado. Estou acabada. O Docinho… Tadinho!

 

Descabelada. Unhas Quebradas. Rosto roxo. Pernas fracas. Corpo empoeirado.

Assim eu permaneço dentro da prisão. Desta forma eu lamento todos os dias não pelas minhas atitudes, mas pela minha vida. Eu choro, choro de tristeza, de raiva, de incompetência; quando antes eu só chorava por amor.

Eu não amo mais. Acabam de dar a notícia sobre o meu Docinho. Que pelo menos Deus o tenha…

Na Perspectiva do Malvado (parte 1)

O que define a maldade? Existe alguém inocente? Se depender do ponto de vista de todos, pelo menos uma pessoa o julgará como malvado, e esta mesma tem suas falhas.

O conto a seguir tratará disso. Dividido em duas partes, cada uma no ponto de vista dos respectivos “vilões” da história.


Malvado – Parte 1

Malvado

Terceiro mês consecutivo. 

Meu posto de estacionamento é o mais movimentado da cidade. Nossos clientes deixam seus veículos por horas aqui, dispensam o uso de Uber. Ainda assim não tenho tanto lucro. 

Já economizei tudo o possível. Deixei de comprar assentos confortáveis aos funcionários, a garrafa de café desgastada deixa a bebida fria em questão de minutos, mascarei a correção do dissídio. 

Por que este lugar não cresce?! 

“Milena?” 

“Pronto, senhor Guilherme?” 

“Cancele todo pedido de férias dos próximos 30 dias. Nenhum funcionário terá licença ou folga por atestado. Quem discordar, convide-o a visitar o olho da rua e nunca mais voltar a trabalhar.” 

“… entendido, senhor Guilherme. Mais alguma ordem?” 

“No momento é só. Tenha um bom dia.” 

Eu não deveria desligar o telefone com tanta força. Preciso economizar até nisso. Como se adiantasse! 

Todos ficarão presentes até eu resolver este problema. Vou verificar pessoalmente o que está acontecendo. 

Aceno um bom dia a Milena ao sair da minha sala. Sempre com sorriso meigo e toda delicada com os relatórios. Sempre com as unhas azuis, pena a aliança em seu anelar esquerdo estragar tudo. 

Cumprimento os escriturários. Não mexem com o meu dinheiro, e eles mesmos compraram ventiladores usb conectados no computador de cada. Não, não podem ser eles. 

Inclino a cabeça ao segurança, ele responde. Tenho dois caixas por período, um em cada guarita do estacionamento. A mais jovem se demonstra um tanto rebelde, o único homem no caixa é experiente, velho e inteligente demais para desviar dinheiro. Será? 

“Bom dia Francisco, Sabrina.” 

Eles cumprimentam. 

“Como está o dia?” 

“Bem, e o senhor?” Sabrina responde errado. 

“Bem movimentado. Temos muitos eventos esta semana, Guilherme. Logo, logo o estacionamento estará lotado, algo difícil por temos tantas vagas.”  

A resposta de Francisco é como eu gostaria de ouvir. 

“Ótimo! Fiquem com o bom trabalho.” 

Entro no estacionamento pela guarita da saída. Todas as vagas ocupadas, tal como Francisco diz. 

Latas e sacos jogados no meio deste espaço. Quando voltar mandarei Sabrina retirar, não compensa contratar um gari só para isso. 

Prestes a retornar pela guarita de entrada, contei quase 30 vagas livres. 

“Teremos um evento daqui meia hora, chefe. Com certeza encheremos com os convidados de última hora, como é típico de todo brasileiro”, Francisco responde antes de eu sequer questionar. 

Também é típico de brasileiro dar o jeitinho, Francisco. O senhor está muito cortês… 

“Guarda?” Sempre esqueço do nome de seu Alcântara, gravado no uniforme de segurança. 

“Sim, chefe.”

“Confio em ti para denunciar qualquer furto que acontecer no estacionamento. Desconfie de todos.” 

“Começando pelo senhor?” 

Arregalo os olhos, mas logo vejo ele rir da minha cara. Só quero ver ele reclamar depois por não receber aumento. 

Vou até a porta do escritório. Volto. Coço minha barba por fazer até chegar no meu carro. 

Confiro os retrovisores, coloco o cinto e giro a chave. 

Sabrina libera a cancela. Ela não sorri. Permiti ela fazer uma consulta ao dentista durante o expediente e ela não usa os dentes. Tão jovem e não sorri. Por que eu contratei ela mesmo? 

Torno o quarteirão e paro na padaria.

Sempre com os pães aquecidos, as paredes douradas refletem no sabor de cada guloseima. Refletem no preço também. Algo que meus funcionários não poderiam comprar, ou podem?

Peço dois mocaccinos com creme, uma torta salgada e duas carolinas. Entregam na hora. Como enquanto reflito. 

Sabrina e Alcântara não conseguem disfarçar. Não estão afim de dar duro pelo trabalho. Francisco é bonzinho demais. Gente do escritório só sabe fazer fuxico, parecem ratos. Os caixas e guarda do período da noite ainda são piores de serviço. Só Milena é confiável? 

Não adianta trocar a equipe, são todos iguais! Maldito jeito brasileiro, tem na ponta da língua as brechas da lei e tira proveito. Depois o governo reclama quando sonego imposto.

Como a última carolina e engulo de uma vez a segunda xícara de café. Queima minha língua, estava mais quente que a primeira.

Gastei quinze minutos. O bastante para notarem minha falta. Hora de surpreendê-los.

Sigo até o caixa e pego o meu cartão. Devolvo à carteira e pego o cartão da empresa. Nem este café sofisticado causaria um furo no orçamento do estacionamento.

Deixo meu carro e vou a pé. Lojas vazias ao meu lado, muitas com promoções de acabar o estoque e fechar de vez. Mas o teatro está lotado, graças as formaturas. Se dependessem apenas de apresentações artísticas, já teriam fechado, assim como o meu posto, mantido por causa da família dos estudantes formados.

Alcanço o posto. Francisco pega o celular ao me ver.

“Desliga isso agora!” chamo a atenção com o meu grito, acabo o assustando. Se este senhor tiver problema de coração, problema dele.

Alcântara surge da guarita da saída e tampa a boca com as mãos. Sabrina está rígida de frente ao caixa.

“Não tenho nada a ver com isso, senhor Guilherme.”

“Explique-se, Sabrina! Alguém tirou o dinheiro do caixa?”

Ela aponta com o indicador tremendo ao escritório.

Corro feito um touro. Esmurro a porta e meu queixo vai ao chão ao ver o dinheiro do meu estacionamento.

Meu braço treme. O celular quase escapa pelos dedos, mas consigo telefonar à polícia.

Silêncio absoluto e olhares de pavor no chão. Eles se coçam, fecham o rosto com a mão. Mas a pior dentre eles está chorando.

Eu também estou.

“Você me decepcionou, Milena.”


Continua no próximo post…

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