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Creepypastas: Lendas da Internet 2 (Divulgação)

Vivi o começo da infância na década de 1990, tempo de acesso limitado a internet. Eu mesmo só comecei a acessar depois de 2006, antes até existia conexão em casa, mas achava muito difícil de usar, deixava aquilo para minha irmã. Chega a ser inacreditável lembrar deste passado! Eu uso da internet a manter este portal online, é de onde tiro a maior parte do material de leitura, escrita, de muitos outros recursos desta rotina, assim como qualquer leitor a visitar este site.

Todo acesso comum hoje era novidade nos anos ‘90, isso quando existia, pois esqueça vídeos ou toda a família presente nas redes sociais. Sendo novidade no passado, os primeiros programadores de internet ainda descobririam as possibilidades, muitas dessas desconhecidas aos usuários. E o desconhecido é a palavra-chave provocadora do medo, segundo H. P. Lovecraft. Nesta época ainda tinha outra particularidade, a facilidade de acesso à internet durante a madrugada, bem oportuno a proporcionar o fenômeno das Creepypastas, histórias macabras dúbias de serem reais ou ficção, com imagens perturbadoras e relatos de conspirações, assassinatos, aparição sobrenatural; um mundo virtual repleto de terror.

A editora Lendari resolveu homenagear este fenômeno lançando uma coletânea de contos nesta temática, e o sucesso da coletânea gerou a possibilidade de uma nova chamada para publicar o segundo volume. O mais incrível foi o sucesso em número de participantes e colaboradores no financiamento coletivo a ponto de garantir a publicação simultânea da terceira coletânea! Entretanto focarei em falar de Creepypastas 2, e quem acompanha este blog sabe: quando eu falo de algum livro por aqui na primeira pessoa, é por motivos especiais. Desta vez é por eu ser autor de um dos contos publicado no livro!

É a segunda oportunidade de mostrar um texto de minha autoria a partir da seleção e edição profissional. Esta postagem seguirá na mesma intenção da Revista A Taverna a qual participei, apresentando os contos presentes no livro, destacando as qualidades. Creepypastas 2 tem uma diversidade de contos, tanto em quantidade quanto em tópicos abordados dentro do contexto das lendas da internet, então preferi falar só de alguns afim de demonstrar o que o leitor pode esperar do livro no geral. Saiba mais sobre eles apresentados a seguir:

A Sombra do Disco ― Mauro Plastina

Júlia tem nove anos, órfã de pai e briga a todo momento com o irmão. Ela ganha um LP de presente da mãe, entre as músicas presentes há aquela especial, pois ouvia junto do pai antes de ele falecer, e por isso toca o disco logo quando recebe. Ela posiciona a agulha da vitrola a tocar direto na faixa preferida, assim a nostalgia começa a trazer alegria e angústia, até que o aparelho para de funcionar. Inconformada, pede ajuda à pessoa mais próxima capaz de entender como uma vitrola funciona, o irmão. Ele vai a contragosto e ensina a maneira de ela tocar o LP, e assim Júlia acaba tocando o disco ao contrário.

De narrativa focada na criança protagonista, o conto desenvolve a história a partir da ingenuidade infantil além das intrigas casuais entre irmãos, apesar de no fundo sabermos o quanto se amam. Mauro é pontual em demonstrar os sentimentos da menina em cada situação, exercendo a empatia ao mesmo tempo de coordenar a tragédia na garota, abusa da boa vontade dela ao provocar a desgraça reservada a este conto.

“É como diz o ditado: ‘se matarmos todos os assassinos, os assassinos seríamos nós.’”

ERISinninthcirclexxxiv ― João Marciano Neto

O conto começa com um aviso. Pare de ler, apague esta mensagem, de preferência descarte o computador usado no acesso deste relato. Continuando a leitura, avisa sobre manter o domínio mortis.com intacto, em seguida há a narrativa sobre a programação da inteligência artificial chamada ERIS. O protagonista é o narrador, um dos programadores e, de certo modo, “segurança” deste sistema. Enclausurado pelo causador do temor, também o motiva a fazer de tudo pela sobrevivência, a dele e da humanidade, e o conto comprova o quanto este “fazer de tudo” significa.

“ERIS nos chamava em sua dimensão eterna, querendo nossos segredos […]”

O Horror no Bairro da Pedreira ― Igor Moraes

Rafael é colecionador de artefatos dos mais diversos países e culturas, de armas a amuletos de tempos remotos, ou de épocas recentes, o importante é o valor apavorante atribuído ao material colecionado. Por isso investiu o dinheiro restante numa coleção nazista, cuja simbologia faltava em seu estoque de atrocidades. Vieram informações anexas aos itens, sobre o misticismo envolto do nazismo, sobre a mensagem de alguém envolvido ter vindo no Brasil, e sobre o projeto Werwolf, este de surpresas interessantes no conto.

A descrição de Igor mistura referências de povos tradicionais a elementos recentes, e dentre as tradições escolheu a certeira de causar desconforto quando citado: o nazismo. A História exerce o papel acadêmico de relatar as consequências internacionais deste partido eleito na Alemanha, já as tantas outras histórias ficcionais ou conspiratórias possuem impacto garantido pelo respectivo contexto. Assim a história ocorre na perspectiva de Rafael, tudo fica crível, e complementa com a história em torno da relíquia nazista prosseguindo no Brasil décadas depois.

“[…] uma figura em decomposição, extraída de de alguma história em quadrinhos de Alan Moore”

Onde está a Duda? ― Alane Brito

Bia enfim recebe de presente da mãe a famosa boneca Duda, em homenagem ao aniversário de quinze anos. A temporada da boneca já tinha passado, nem se produzia mais, então óbvio da mãe ter comprado uma usada, embora bem conservada. Já o irmão de treze anos detestou o presente, na verdade a palavra correta é temer, pois ouviu histórias desta boneca ser amaldiçoada.

O conto usa o tropo clássico de terror, usando de artefato infantil ao aterrorizar jovens do jeito que nem mesmo adultos poderiam superar, caso esses fossem as vítimas. Sobrevivendo ou não, é um episódio a ficar marcado por toda a vida, e só poderia ser assim. Conhecendo tantas histórias macabras, ninguém imaginaria ser alvo delas. E quando acontece, bom, é preciso fazer de tudo ao sobreviver, ainda que tudo pareça loucura.

“O que eu deveria dizer sobre aquela noite era que um homem invadiu nossa casa e tentou nos matar”

Dias Sombrios, Noites Claras ― Diego de Araujo Silva

Fernando sofre de insônia e tenta seguir a rotina de trabalho enquanto tenta descobrir a causa das noites em claro. A narrativa segue em fluxo de consciência, ou seja, descreve conforme o protagonista pensa durante as cenas, de mente atordoada por permanecer desperto. O protagonista é alguém comum, vive sem ambições, manter o emprego de contábil seria o suficiente, pois o extraordinário da vida dele está em Mirela, a esposa que saiu a negócios bem na crise de insônia dele. Pois mesmo uma coletânea de Creepypastas fala sobre o amor, apesar deste tipo de conto ainda provocar o autor a revelar os espinhos desta rosa. E o que mais teria neste conto? Uma referência a Machado de Assis, claro.

“Não durmo, não concluo o dia, relógio desperta às cento e vinte e seis horas e contando.”


Creepypastas 2 - capaOrganizadores: Glau Kemp e Mário Bentes
Editora: Lendari
Ano de Publicação: 2020
Gêneros: terror / creepypasta / horror
Quantidade de Páginas: 230

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The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Ao testemunhar um ato violento diante de nós, submetemo-nos ao medo. Sem sofrer danos físicos, as inúmeras indagações alimentam nossas dores quanto aos motivos de alguém fazer tal ato, e sem saber as circunstâncias, fica incerta a possibilidade de acontecer com nós também, e a ansiedade nos faz esperar o pior. O pior mesmo é caso descubra do meliante ter relação próxima com seu amigo de longa data, e este pelo visto deixou de ser tão próximo. The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde* fala desta violência cometida por alguém íntimo o bastante a causar temores. Escrito por Robert Louis Stevenson em 1886 e disponível pela Amazon Classics desde 2017, esta história clássica de terror inspirou muitas criações posteriores, entre elas o personagem Hulk da Marvel.

“’Eu me pus numa punição e perigo a qual nem consigo nominar’”**

O advogado Mr. Utterson caminha pelas ruas de Londres com o amigo Ensfield quando este conta o caso recente visto em pessoa. Certo homem perambulava pela cidade indiferente ao mundo, indiferente à garota no caminho, indiferente ao andar por cima dela. Os pais estavam próximos quando aconteceu e exigiu satisfação, e o homem de aparência medonha — segundo Ensfield ao ver o incidente — ofereceu compensação em cheque, cujo valor seria retirado ao amanhecer em nome de outra pessoa. Quando Utterson pergunta sobre o nome deste sujeito estranho, Ensfield responde ser Hyde. Nunca ouvido falar de alguém com este nome, Utterson lê sobre ele de novo em pouco tempo, nomeado herdeiro no testamento elaborado pelo amigo de longa data, o cientista Dr. Jekyll.

“’Se ele é o Mr. Hyde, eu serei Mr. Seek”***

A partir de então a história desenvolve o mistério envolto desta relação de Hyde com o Dr. Jekyll. Utterson procura compreender os motivos do amigo tão querido ter tamanha afeição repentina com este desconhecido e ainda por cima perigoso, conforme o capítulo posterior demonstra. De narrativa curta, desenvolve apenas esta questão, e termina quando esclarece as resposta desta, mais nada além. Certas passagens abusam de adjetivos e advérbios de modo, resumem a cena sob o preço de entregar parágrafos fracos no sentido de deixar de explorar a ambientação das cenas. Os sentimentos e comportamentos dos personagens também são esclarecidos em poucas palavras, ainda mais em diálogos por descrever o modo como alguém falava, algo possível de representar através das palavras ditas conforme o tom em vez de de apenas contar ao leitor. A descrição física de Hyde a princípio é incerta, revelando a sensação do personagem a encarar o sujeito, uma forma de incitar o temor conforme sentido pela pessoa.

Cada capítulo foi escrito sob determinado objetivo, e este transforma a forma narrativa. Uns deixam a escrita próxima da perspectiva de Utterson, outros desenrolam as pistas ao redor de Jekyll e Hyde, também há capítulo mais focado em ação ― e portanto deixa de ter os incômodos elencados no parágrafo anterior. Tais nuances evitam a monotonia da escrita enquanto corresponde ao enredo proposto. Os dois capítulos finais são epistolares, ou seja, registros feitos pelos personagens e adquiridos durante a trama, portanto transcrito na íntegra em forma de capítulo. Assim transforma a narrativa de novo, tornando-a em primeira pessoa e por adequar ao modo de comunicar do personagem remetente do registro. O final dedica a amarrar as pontas deixadas durante a história enquanto o remetente confessa a experiência relacionada a Hyde. É o capítulo mais longo e prolongado, exige mais paciência do leitor. Apesar de devagar, entrega a narrativa satisfatória por demonstrar espontaneidade do personagem ao realizar seu registro.

The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde traz o terror ocorrido a pessoas próximas do protagonista e da angústia de obter respostas. História curta e resumida em certas partes, a escrita é fiel ao objetivo e por isso recompensa o leitor a aventurar no mistério do Médico e o Monstro.

“’E o conhecimento é maior do que ele poderia conceber’”

* resenha elaborada a partir da leitura da edição em inglês
** citações traduzidas pelo resenhista
*** trocadilho com o nome de Hyde, de pronúncia semelhante ao verbo esconder (hide), e Utterson afirmaria que iria o encontrar (seek), portanto seria o Mr. Seek

Dr Jekyll and Mr Hyde - capaAutor: Robert Louis Stevenson
Publicado pela primeira vez em: 1886
Editora: Amazon Classics
Edição: 2017
Gêneros: mistério / terror / clássico
Quantidade de Páginas: 66

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O Iluminado (Terror clássico de Stephen King)

Distanciar do problema sem resolvê-lo é igual a pedir ao problema te seguir, e quando chegar, compensar toda a ausência acumulada no mesmo instante. Ainda piora por causa do refúgio distante ser, na verdade, o lar de tragédias ocultas. O lugar possui desejo consciente, obsessão em apavorar as vítimas, melhor ainda caso alguém possuir dons. O Iluminado trata das loucuras da família isolada no hotel assombrado. Escrito em 1977 por Stephen King, com edição especial feita em 2017 pela editora Suma sob tradução de Betty Ramos de Albuquerque, inclui o prólogo e epílogo recuperado depois de várias edições ausentes destas partes correspondentes.

“― Todo grande hotel tem seus escândalos. Assim como todo grande hotel tem um fantasma”

Jack Torrance enfrenta a entrevista de emprego, situação formal a qual o gerente o despreza à primeira vista, e mesmo assim será contratado devido a amizade com Al Shockley, um dos proprietários do Hotel Overlook. O gerente o despreza pelo fato ocorrido a um zelador anterior, parecido com Jack. Veio com a família a permanecer trancafiado no hotel durante o inverno, quando a nevasca bloqueia o acesso, com a obrigação de fazer as manutenções necessárias antes da nova temporada de visitas no verão do ano seguinte. O problema desse zelador estava na bebida. Abusou do álcool, enlouqueceu, matou a família, cometeu suicídio. Jack traria a esposa e o filho durante o serviço de zelador do hotel, e segundo a pesquisa do gerente, Jack tinha sido alcoólatra, apesar de permanecer sóbrio a anos.

Danny é filho de Jack. O garoto de cinco anos tem olhar aguçado, compreende as nuances das expressões escondidas nas faces dos pais, sobre o divórcio eminente desde quando Jack torceu seu braço quando tinha três anos, sob efeito da Coisa Feia. Apesar de livre da Coisa Feia, Jack perde o emprego como professor de inglês ao agredir um aluno, por isso vai trabalhar de zelador no hotel, fazendo da distância da sociedade a esperança de acalmar os nervos, além de garantir o salário a sustentar a família. Danny enxerga outras complicações entre as expressões dos pais, também lê a mente deles, sonha pesadelos capazes de acontecer, sonha de o hotel ser um lugar pavoroso, e ali ficará nos próximos meses.

“― Não houve nada. A caldeira está em ordem e ainda nem cheguei a matar minha mulher”

A introdução da história apresenta os personagens ao estilo do autor, deixando-os livres a ocupar folhas de diálogos e gestos espontâneos a mostrar ao leitor quem eles são. Entre essas apresentações, explica também as regras deste jogo que é a leitura de O Iluminado, dos pensamentos expostos dos personagens captados por Danny, pelas tragédias anteriores ameaçando se repetirem com esta família também, do histórico de papai nunca jazer preso ao passado. É tudo questão de tempo, no caso, centenas de páginas até ver quais das premonições levantadas no início serão cumpridas, e as pontas amarradas nas personalidades da família protagonista elaboram surpresas das tragédias prestes a acontecer. É a técnica de plantar detalhes da narrativa a colher em capítulos posteriores, e Stephen King entregou a colheita com ótimos frutos.

Mesclando pesadelos e alucinações com vulnerabilidade familiar e histórico sombrio, há muito a explorar na ambientação exclusiva durante maior parte da história, tornando a escrita prolixa útil ao leitor aproveitar cada detalhe do terror confinado na neve. O amor familiar estimula esperanças e concede resoluções contra o terror a princípio superior a compreensão familiar, aos poucos esclarecendo as regras de sobrevivências vitais, essas decidas apenas no desfecho. Falha em momentos de parágrafos sobrecarregados com verbos de pensamento, logo neste livro cujo pensamento é exposto sob boa justificativa, King ainda expõe a reflexão dos personagens a descrevendo, deixando de contar as ações dele por conta disso.

Muitos consideram O Iluminado o livro entre os melhores já escrito pelo Stephen King, e de fato possui qualidades a ser considerado assim. Instiga o leitor com os perigos anteriores capazes de repetir contra a família Torrance, bem como explora as diversas características dos membros dessa família, muitas cruciais nas reviravoltas a garantir desta história ir além dos elementos de assombração.

“Este lugar desumano cria monstros humanos”

O Iluminado - capaAutor: Stephen King
Tradutora: Betty Ramos de Albuquerque
Publicado pela primeira vez em: 1977
Edição: 2017
Editora: Suma
Gêneros: terror / horror
Série: O Iluminado #1
Quantidade de Páginas: 520

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Ultra Carnem (horror nacional de César Bravo)

Enfrentar o desafio incapaz de vencer atiça a vontade insana de determinadas pessoas. O livre-arbítrio permite as pessoas despejarem a racionalidade em troca de desejos carnais, banais pela imaginação limitada do sujeito. Há quem atenda esses pedidos, alguém nada ordinário propõe o pacto e reconhece a hora de cobrar o valor devido. Ele é o personagem principal de todo este terror nacional.

Ultra Carnem explora os podres mais característicos nas cidades interiores do sudeste brasileiro, seja nas aparência e nos pensamentos. Publicado em 2016 por César Bravo através da editora DarkSide, o livro é composto por quatro novelas intercaladas.

“Rituais: porque disso o mundo também era feito”

Tudo começa com Wladimir Lester, órfão de ciganos, rejeitado pela própria tribo quando a irmã bate na porta do orfanato de Três Rios e convence o padre Giordano a cuidar desta criança. Giordano compartilha o fardo com a madre Suzana, os dois já experientes em cuidar das demais crianças, ciente das traquinagens de algumas delas. Ainda assim Wladimir traz desafios a eles, a começar pelo ensinamento religioso do rapaz, divergente com o cristianismo a ponto de retrucar as lições do padre com perguntas ousadas. Por outro lado o garoto possui obsessão pela sua tinta, vermelha em tom de sangue, usada nos quadros que ele tanto gosta de pintar, dignas do talento capaz de tirar o orfanato da pobreza. Assim Giordano fez pacto com o garoto sobre os quadros e tentar melhorar o convívio dele no orfanato, sem saber do pacto feito por Lester com seres horríveis antes dele.

“Cristianismo não se ensina com carinhos”

Ao dar o desfecho da primeira novela do livro, uma nova história é contada em relação ao novo protagonista, da situação ordinária até o ápice sobrenatural quando o personagem de destaque faz a aparição e executa a conclusão desta novela. Apesar de voltado ao novo protagonista, os elementos disponíveis a partir da novela do menino Lester chegam mais cedo ou mais tarde, então acrescenta detalhes essenciais às tramas.

O trabalho gráfico na edição deixa bem claro o objetivo deste livro, e o conteúdo cumpre a promessa implícita desde a capa sombria, das ilustrações do miolo e as bordas das páginas pintadas em vermelho sangue: o horror é eficiente nesta história, sem pudor nas descrições. Depois de demonstrar as características do protagonista, a narrativa aproveita das mesmas ao elaborar os piores cenários, moldando o ambiente sobrenatural correspondente a atormentar o personagem e o leitor. Acomode o corpo na superfície mais macia, ajeite a coluna e coloque o livro sobre o apoio, sem cansar os braços, e a leitura continuará desconfortável com o horror vívido pintado nas palavras de César Bravo. Com exceção de uma cena em particular, sem contar spoilers, esta conclui no capítulo seguinte como sendo nada além de sonho ruim ― o pior tipo de clichê em histórias de horror, e por acompanhar as demais cenas extraordinárias do livro, dá um banho de água gelada no leitor.

Outro motivo a despistar leitores sensíveis é a linguagem crua presente em toda narrativa e diálogo, condizente nas devidas situações. Difícil do narrador perder a oportunidade de tornar situações ordinárias as piores possíveis por meio da descrição, o percurso do trabalho, bairro onde o protagonista mora, a família do outro; pouco importa, há misericórdia a ninguém. Da ambientação descrita desta forma, os personagens comportam de acordo, reativos à miséria convivida, não à toa eles aceitam os piores pactos possíveis. Só faltou criatividade em abordar a podridão relacionada às personagens femininas, quase todas são vítimas de estupro, e todas ― sem exceção ― sofrem assédio, seja por exaltar alguma parte do corpo dela ao sexo, ou criticar a falta de beleza dela e ridicularizá-la por isso. Lembra da linguagem vulgar? Pois bem, ela repercute nesta abordagem pornográfica nas personagens femininas.

“― Gente ruim vive e gente decente morre. Pessoas boas não tem chance nesse mundo”*

Certos detalhes ou escolhas narrativas deixam a desejar. Há muitas frases em que quantificam o tempo decorrido e a distância do espaço, e como a narrativa foca na compreensão do personagem na cena vivida e quase nenhum deles tem característica precisa com números, deixa a descrição inverossímil. Seria melhor dar a impressão do espaço conforme o personagem percorre por ela ou pela quantidade de objetos disponíveis no lugar, e quanto ao tempo, descrever gestos conforme o tempo passa entre as ações. Outro detalhe é a transição de capítulos quando ainda é a mesma cena, sequer tem passagem de tempo na transição, muda o capítulo apenas a tentar atribuir o suspense, motivar o leitor a continuar a leitura, nem todas as tentativas são eficientes, assim o recurso perde a força pela quantidade. Também deveria ter tomado cuidado numa situação na última novela também, quando a personagem agonizava de fome, e poucos capítulos adiante ela recusa tomar desjejum por de repente ficar sem fome.

Falando da última novela, esta perde o ritmo em relação as demais histórias. Com várias novidades logo na etapa final da história começada por Wladimir Lester, tudo é passado por meio de infodumping, onde os personagens conversam ao explicar os conceitos à protagonista mulher e ao leitor. Vítima de estupro também, a protagonista desta novela ao menos teve o privilégio de agir além das situações impostas as demais personagens femininas, tomando posição de destaque conforme as qualidade alheias ao sexo.

Ultra Carnem entrega uma ótima história, restrita a quem possuir estômago forte ao digerir palavras impiedosas, capazes de tornar os cenários vívidos na mente do leitor, sujeito a pressentir uma assombração puxando pelo pé a qualquer momento durante a leitura. Certas considerações pontuais poderiam ser cortadas ou aperfeiçoadas e assim prevenir alguns constrangimentos ao longo da leitura.

“― Parece que Deus estava distraído quando aconteceu”

Ultra Carnem - capaAutor: César Bravo
Publicado em: 2016
Editora: DarkSide
Gênero: horror / sobrenatural / fantasia urbana
Alertas de Gatilho: suicídio / estupro (em mulheres e homens homossexuais) / violência extrema
Quantidade de Páginas: 384

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* citação transcrita conforme impresso na edição, com erro de concordância verbal

A Plague Tale: Innocence (horror medieval)

Há diversas ficções ambientadas em Idade Média, seja em livros, seriados ou games; isso tudo nas produções atuais. No tempo onde vivemos dentro de salas fechadas, restritos às obrigações cotidianas, indo de ponto a outro em ruas focadas a transportes velozes a ponto de mal ver o mundo ao redor; as ficções medievais mostram a aventura de tempos mais simples, da liberdade de trafegar pelos vilarejos e cidades — liberdade concedida apenas a certos personagens — e o mais importante: destaca os cavaleiros, guerreiros imbuídos de honra ou perseguidores de sonhos alcançáveis através dos punhos, da armadura resistente e espadas lendárias.

Há outras ficções capazes de lembrar os horrores nos tempos de cavaleiros, onde os poucos privilegiados de se armarem obedeciam ordens cruéis, livres a destruir casas e famílias sem sofrer alguma penalidade. E lembremos das doenças, mortais pelos conhecimentos limitados da época. A Plague Tale: Innocence retrata este lado da Idade das Trevas. Publicado em 2019 pelo estúdio Focus Home Interactive e feito pela Asobo, a garota Amicia e seu irmão mais novo devem sobreviver às atrocidades cometidas pelos destemíveis e temidos cavaleiros da Inquisição.

“Para constatar o quão inescapável a religião é na sociedade”

Amicia é a filha mais velha da família Rune. Convive a maior parte do tempo com o pai cavaleiro, enquanto a mãe alquimista vive ocupada em formular poções a tratar do irmão mais novo, Hugo, nascido com a Mácula no sangue. Amicia vai a caçada junto ao pai, armada apenas com atiradeira de pedra contra o javali à vista. O cachorro da família também ajuda na caça, fareja a caça em fuga e segue adiante, mostrando à garota onde percorrer. Amicia perde o cão de vista, tenta procurá-lo e encontra o javali morto, com a carne já estragada, e ao andar mais a frente, vê o animal de estimação sendo puxado por um ninho negro, morto enquanto caía.

Mal conseguiu notar que aquela ameaça é uma ninhada de ratos, o pai manda Amicia retornar ao lar da família e alertar sobre o perigo. Enquanto ela conversa com a mãe Beatrice, a Inquisição chega, rende o patriarca da família e o executa. Amicia então foge com o irmão caçula, o início da jornada de terror contra os cavaleiros da Inquisição e dos portadores da Peste Negra capazes de devorar pessoas em segundos ao agirem em conjunto: os ratos.

Ratos, os portadores do terror

Quando chega nesta cena, sabe que o terror não está para brincadeira

“A alquimia fascina cientistas tanto quanto inspira artistas”

O jogo trata da jovem incumbida de cuidar do irmão mais novo enquanto toda a Inquisição busca por ele. A jogabilidade furtiva mescla o enredo de sobrevivência e colabora ao criar tensão, pois ao verem Amicia, os cavaleiros avançam dispostos a cravar a espada nela sem remorso, pois eles cumprem ordens, mesmo havendo nenhuma honra em violar uma garota. O desespero molda as habilidades da protagonista, obrigada a usar os poucos recursos consigo e sobreviver, a ponto de assassinar cavaleiros.

Depois revela o estopim de toda a ação da Inquisição: a infestação de ratos em vários locais da França. Portadores da Peste Negra, a quantidade absurda desses animais conseguem roer a carne de humanos em segundos. O “escudo” contra essas criaturas está na luz, podendo manipular até aonde os ratos vão impondo a iluminação neles. Por outro lado basta um segundo com o pé na escuridão, e as pequenas feras devoram a protagonista ainda viva. Imponente contra os cavaleiros e até nesses pequenos animais, fica instaurado o clima de terror na jogatina.

Escuridão - A Plague Tale

O chão escuro é lava, representada por ratos

Tensão define cada momento do jogo, inclusive nos conflitos entre irmãos. Longe dos pais, precisam cuidar do outro apesar das desavenças, na diferença de idade e dos problemas singulares de Hugo. Novos personagens surgem na jornada com conflitos próprios, sob meios em comum para aliarem aos dois irmãos. Os aliados oferecem novas opções a prosseguir pelo cenário, seja por ações deles ou ensinarem Amicia a produzir outra ferramenta. Por outro lado a inteligência artificial deles também podem atrapalhar o jogador, ficando no caminho a ponto dos inimigos te verem por causa disso ou falhar em dar a devida cobertura a Amicia quando prometem fazê-la.

“Por força da ética, ele [o Manual do Inquisidor] favorece o bem maior acima do bem individual e advoga por sentenças cruéis para dar exemplos que aterrorizem a população”

Com o tempo o clima de terror perde a força por causa dos recursos disponíveis ao jogador. As ferramentas das mais diversas utilidades tocam o terror nos cavaleiros, podendo até abrir mão da furtividade e enfrentá-los de frente, tornando a jogabilidade até fácil. Isso vale até determinado ponto, pois a parte final reserva novas mecânicas dos inimigos capazes de restaurar a ameaça original e aumentar a dificuldade.

Tragédia - A Plague Tale

Tão jovens, e já veem o pior da humanidade

De progressão linear, as atividades secundárias consistem em encontrar itens especiais. Entre flores, presentes e artigos curiosos, todos ficam “escondidos” ao jogador achar e descobrir mais do ambiente e contexto retratado. O mais interessante é estarem dispostos em lugares correspondentes a função deles, nenhum item foi forçado a permanecer em lugares secretos só com intuito de dificultar o jogador, tornando esses detalhes mesclados a tudo representado nesta ficção.

A Plague Tale: Innocence entrega algo diferente nas histórias medievais, pois transforma os “admiráveis” cavaleiros em vilões e impõe a perspectiva sobre a dupla de crianças inocentes que precisam fazer atrocidades ao sobreviver neste clima de terror tão bem retratado — exceto em parte do enredo — e aproveitado pelos criadores.

“Matem a irmã! Peguem o garoto com vida!”

Desenvolvedora: Asobo
Distribuidora: Focus Home Interactive
Lançamento: 2019
Gêneros: stealth / terror / aventura
Idioma: legenda em português

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Meme “Comi um Miojo” em Gêneros Literários

Às vezes os memes também chegam no universo literário, igual o caso de identificar determinado tipo de pessoa conforme a resposta dela com determinada situação. O meme é sobre alguém propor a uma escritora dizer ter comido miojo, e ela respondeu com a descrição “literária”. Coloco em aspas pela qualidade literata ser duvidosa, pois escreveu adjetivos desnecessários, deixou o texto enfeitado e pedante demais. Caso more numa caverna e não tenha visto, o meme é este:

Miojo - meme

A parte boa foi incentivada na página Sebastião Salgados do Facebook, onde a seção de comentários foi recheada com a mesma resposta dada conforme o estilo de alguns autores, entre eles José Saramago, J. K. Rowling, Stephen King e Edgar Allan Poe. Fiquei inspirado com a brincadeira e me propus a fazer algo diferente: escrever a cena de comer miojo nos diferentes subgêneros da ficção fantástica! Leia a seguir:

Fantasia

Alta fantasia

Peregrinação concluída. Euruk desabou os joelhos na entrada do palácio Aucacius, enfim permitiu os pés nus a descansar, maculados da jornada ininterrupta desde a planície de B’helor, dos desertos de Romnir às montanhas gelada de Bazura antes de chegar ali, com as solas manchadas de toda sujeira impregnada pelos cinco reinos, parecendo os pés de choraschi de baixa patente. Fez de tudo ao conquistar esse momento, as crianças aucais os ajudaram nos passos finais da jornada, com a mesa já pronta do banquete comemorativo, a recompensa da peregrinação: a tigela cheia de macarrão, temperada com o melhor ingrediente de cada reino trafegado por Euruk. Pegou a colher cerimonial, sorveu o caldo, e recuperou todas as forças desperdiçadas.

Fantasia Urbana

Pôs o pé na rua dois minutos após o expediente. Quinze reclamações seguidas sobre o problema de responsividade do site atendidas, além do mais novo colega inventar outra moda em web design e ser aclamado pelo chefe ignorante. Sem falar do começo do dia, aquela mesma reunião esdrúxula com desculpas motivacionais em vez de tratar das tarefas do dia. Bem, foda-se isso tudo! Alexandre largou a Nove de Julho, o carro podia ficar mais uma hora no estacionamento particular, era semana de pagamento. Entrou no boteco Libélula, o canto favorito estava vago, e ali sentou. A tempo de tirar o boné, a atendente apareceu, flutuando na altura de seu nariz, sacudindo as asas de neon lilás. Sorriu para ela, a Anícia, sua atendente favorita. Trocaram gestos com a cabeça e confirmaram o pedido de sempre, o miojo recheado de lishnu, a melhor carne já provada desde o alinhamento dos astros ter revelado quatro das nove dimensões à humanidade.

Realismo Mágico

Parou de questionar, assim preveniu de endoidar. Foi sentar à mesa, e Andreia desapareceu da cozinha, da casa, do mundo. Deu um gole no copo d’água, e a fumaça do incêndio ocorrido na Austrália semana passada veio até ali e lhe beijou. Inspirou o ar e saboreou a frescura da frente fria naquele calor carioca a dissecar a pele de quem passasse dez minutos na rua. O chinelo desceu no piso dissolvido feito areia, escapando dos pés ainda firmes com a cadeira imóvel no chão. Deu outro gole, e todo o cômodo voltou ao normal, na temperatura de 33. Andreia sentou ao lado com dois pratos de miojo prontos, aquecidos ao ar livre em três minutos dentro do BRT 926.

Espada e Feitiçaria

Viana voltou à base e mostrou o término de outro contrato, lançou a cabeça cortada do grifo aos pés de Janos. Deixou a carranca do mago enojado sozinho, Viana já seguia na taverna Couro de Dragão, mesmo com a armadura toda respingada de sangue e saliva da fera, apenas fez questão de deixar a zweihänder aos cuidados do anão Borg no caminho, sua espada sempre devia brilhar perante as presas da próxima caçada. Jonias, sobrinho de Janos, começou a cozinhar quando Viana pôs os pés na taverna, murmurou o feitiço que fez as palmas das mãos arderem, e então as colocou na panela. Sentada ao balcão, Viana virou o copo com o destilado “faro de lobo”, e logo foi servida da tigela de miojo de Jonias. Hoje com almôndegas de gobelim, já no dia seguinte o recheio de grifo estaria garantido, por conta da casa.

Ficção Científica

Cyberpunk

Sandy chegou em casa e logo cozinhou, logo estava pronto. Prático assim, conforme as grandes corporações desenvolveram as refeições de baixo custo, desnutridas, apenas ocuparia o espaço vazio na barriga e interrompê-la de roncar enquanto trabalha na tese de mestrado sobre algoritmos improcessáveis. Ela era improcessável, ocultou os rastros virtuais dos três últimos namorados, incapazes de ter qualquer artifício jurídico contra ela, como se a jurisdição ainda fizesse alguma coisa nesses dias… Mas no momento despejou o pó fabricado pela CMenor no macarrão instantâneo e aproveitou o sabor correspondente ao seu lugar naquela sociedade.

Steampunk

As crianças batiam à porta. Estava na hora, e estava atrasado. Ben pediu à Elisa acalmar os famintos, acomodá-los no salão, logo o jantar estaria pronto. Os coitados perderam os pais nos acidentes da fábrica, se ele não os acolhesse, quem mais o faria? As mesmas pessoas interessadas em tornar a tecnologia sustentável, ou seja, apenas ele mesmo. Cozinhou o macarrão, colocou em outro caldeirão limpo e devolveu o que está cheio da água fervida ao forno. A fumaça escapava pela tubulação, seguia até o gerador de energia de toda a instituição, e assim esquentaria os alojamentos, ligaria o rádio para mais uma noite de inverno.

Space Opera

Toda a galáxia sabia, aquela refeição era a herança do astro V-23, vulgo Terra, segundo a espécie hominem. Carles virava o rosto contra esse prato sempre pedido por Rornir quando almoçavam na estação Cupira-20. Tinha culpa por ser o melhor prato dali? Rornir deixava Carles com aqueles cremes processados, recheados de minerais desgostosos, mas úteis ao manter a carne flácida desse hominem preparada na sondagem em Atlantis, novo planeta de Andrômeda descoberto. Carles fechava a cara ao comer, agora se era por vergonha ou inveja daquele prato, ou ainda por Rornir recolher todo o espaguete fino nas três unhas gigantescas e despejá-las sobre a boca localizada na altura do quadril; Rornir jamais saberia.

Distopia

Abrigou em outra casa abandonada pela guerra. Se o teto dessa despencar e tirar outra filha de sua vida, foi porque Deus quis assim. Só rezava pela misericórdia de não atingir a criança ainda dentro da barriga. Amícia transpirou lágrimas com mais chutes de Ofélia, ou Orfeus caso a criança tiver a sorte de nascer no sexo certo. Certo ao governo, claro. Carmélia e Rosana apalparam a jaqueta da mamãe, que bufou broncas, depois suspirou por elas continuarem caladas, sem alertar as câmeras ouvidoras, rezando para nenhuma farejadora passar por eles. As meninas juntaram as pedras num círculo, impossível adiar o momento, e Amícia também ansiava por encher a barriga vazia desde anteontem. Colocou o capacete oficial do guarda vencido na semana passada sobre o fogo acendido pelas crianças especialistas em friccionar gravetos, despejou água nessa panela improvisada, deu o resto de beber às filhas, e molhou os lábios com as gotas que elas deixaram passar. Tudo bem, podia matar a sede com o caldo do miojo, depois é só esperar em vão ao milagre de conhecer o amanhã.

Horror (prepare o estômago!)

Terror

Diogo sentou. Na escuridão, tateou a mesa até pegar a colher. O aroma daquilo subiu nas narinas, agradeceu por ser miojo desta vez. Começou pelo caldo, sorveu tudo na colher antes de pegar mais, antes de pegar mais ele raspou o prato de um lado a outro, em busca de ingredientes estranhos iguais o da noite anterior, as unhas de gato continuavam presas na garganta desde então. Encostou em algo no prato, mas sugou apenas mais caldo, aliviado. Confinado por esta aparição caseira, todo momento normal dentro do lar era motivo de comemoração. Comemorou cedo demais, a próxima colherada deu a certeza. A maciez ondulada em contraste com o tecido oco explodiu nervos dentro da boca ao morder. Descobriu qual era a janta. Não um simples miojo, e sim miojo de alho e olhos.

Slasher

Quando ele parou de gritar, ela decepou-lhe a cabeça. Tirou o escalpo a juntar com os outros espólios, então abriu o crânio. Tirou metade do miolo. Abriu o peito a facadas e deixou o sangue escorrer na vasilha, despejou tudo no crânio aberto. Ligou o fogão, colocou a cabeça dele. Pele derretia enquanto borbulhava o sangue, precisou quebrar o miojo em dois para caber no crânio, tudo bem, o resultado final seria o mesmo, com o miolo cozido ali de recheio, afinal o tempero que vem com a embalagem era nada saudável.

Horror Cósmico

Recebeu aquele pacote negro, um cubo achatado. Ninguém na rua à meia-noite, quem tocou a campainha tinha ido embora, segundo o ledo engano dele. Ah! Se soubesse dos seres Distintos presentes naquela casa agora. A curiosidade rompeu a primeira barreira, abriu o pacote e encontrou ali o que parecia miojo na concepção limitada da espécie dele, que provocava sons na barriga ao abrir apetite. Logo seria saciado, afinal era ferver em três minutos e engolir, afinal ao engolir as larvas com aparência de macarrão, elas alimentariam das mucosas internas dele, o consumiria vivo e logo cresceria, espalharia doenças assintomáticas àquele bairro, enfim preparar o ambiente ao Rei do Cosmo Despertado.

Thriller

Matias seguiu a rotina e consultou o relatório. A perícia encontrou lascas de esmalte descascada, e como a vítima era homem cis, a agressora poderia ser mulher ou transexual. A segunda suspeita bate com o perfil levantado da vítima, tanto discurso de ódio contra LGBT nas redes sociais um dia voltaria contra ele. Pode muito bem ter voltado desse jeito: a cabeça empurrada dentro da panela escaldante, deixando a pele queimada do cadáver com peruca de miojo sobre o cabelo. Outra pista, segundo a perícia, era o tempero do miojo, cujo tempero ainda estava na fase de teste na empresa Aissin, o sabor nordestino moqueca com coentro. Deixou de ser outro serviço de rotina.


Sobreviveu às cenas de horror? O mais importante: gostou da ideia? Fique à vontade e faça a cena em outro gênero diferente. Além de divertido pratica um pouco a escrita, ou seja, só há vantagens.

Link Externo

Post responsável por incentivar a refeição de miojo por diferentes autores

Melhores XPs Literários de 2019

O momento chegou! Deixamos o ano atrás, agora um tempo apenas de lembranças e muitas leituras, as quais algumas destacam entre os melhores XPs Literários de 2019. Oitenta ― sim, oitenta ― livros finalizados recebem a oportunidade de entrar em destaque nesse ano recém acabado, na verdade parte desta quantia já foi considerada e entrou no pódio do blog Ficções Humanas, e aqui os livros competidores devem ter passado por resenha neste blog ao longo de 2019,  e isto ainda deixa a disputa acirrada, com mais de cinquenta competidores!

A lista funciona igual o ano passado, primeiro vem a lista das melhores leituras do segundo semestre de 2019 com breve comentário do motivo de ser o melhor, então ao fim da postagem tem a lista definitiva dos melhores do ano, levando em consideração os livros eleitos no primeiro semestre. Sem mais delongas, vamos aos finalistas do segundo semestre:

10 – Lovestar

LoveStar - resenha

Esta ficção científica tem argumentos tão inteligentes a ponto de virar insanos! A sanidade foge da descrição do autor ao elaborar conflitos absurdos a partir da tecnologia imaginada pelo autor. Deve aproveitar a leitura com a mente aberta, assim desfrutará dessa escrita maluca e ainda assim entendível ― quer dizer, certo ponto da história fica inviável compreender dado o nível da maluquice, mas faz parte da experiência.

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9 – A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Só mesmo um autor brasileiro muito criativo poderia escrever esta história steampunk tomando personagens de obras clássicas da ficção nacional. A escrita reflete na época onde a história acontece, desde a ortografia até o modo de falar dos personagens, e o autor ainda ousa alternar a narrativa em primeira pessoa de um a outro, moldando as frases conforme a personalidade do narrador e do meio onde é gravado esta narrativa epistolar. É uma viagem literária por meio das obras homenageadas.

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8 – A Balada de Black Tom

A Balada de Black Tom

“Se tanto critica, por que não faz melhor?”, um argumento tosco por ignorar a capacidade de crítico que desenvolve qualidades distintas as do autor cujo livro foi analisado. Pelo menos serve quando compara outro autor, e Victor Lavalle de fato entregou uma adaptação capaz de superar a inspiração original. A Balada de Black Tom reconta a história de O Horror em Red Hook, usando dos personagens originais além do protagonista elaborado pelo Lavalle ao apresentar a perspectiva da pessoa negra na história do universo de Lovecraft, tece críticas ao racismo do autor e reaproveita os elementos deste ao criar a sua versão da história.

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7 – O Gato Preto

O Gato Preto - resenha

Igual o anterior, reaproveita a história clássica de terror, desta vez a adaptando aos quadrinhos. Imagens e textos se complementam ao pintar a história do narrador condenado à morte, atormentado pelos simbolismos trazidos pelo seu animal de estimação tão amado. A história oferece informações ao leitor e deixa outras em aberto de propósito a permitir cada um tirar suas conclusões enquanto vê as ilustrações criativas, nascidas da inspiração do conto original.

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6 – Um Banquete Para Deuses Mortos

Um Banquete Para Deuses Mortos - resenha

E Gleyzer Wendrew aparece em outra lista entre os melhores do semestre com esta história sobre  o vampiro Drácula, um ser considerado deus nesta história. Uma história curta de enredo composto de forma criativa pelo autor, sem deixar de lado as qualidades descritivas quando trata de contar como o sangue flui sob o ataque das vítimas dilaceradas.

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5 – Desafiadores do Destino

Desafiadores do Destino

Outra HQ conquista esta lista, e ao lê-la é fácil perceber os motivos. Esta aventura steam fantasy é rica em mitologia ao criar a trama onde o grupo de guerreiros deve cumprir sua missão enquanto divide os quadros para apresentar o contexto deles, e ainda assim consegue entregar do melhor e na medida certa.

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4 – Sons da Fala

Sons da Fala - Resenha

Foi o conto de estreia do Projeto Cápsulas da editora Morro Branco, jamais poderia começar com escolha melhor. Responsável por trazer as histórias de Octavia E. Butler no Brasil, vemos em Sons de Fala as qualidades narrativas da autora nesta história sucinta, de descrição objetiva e ainda capaz de chocar. Ainda leu nenhuma história da Octavia? Aproveita este conto disponibilizado de graça pela Morro Branco e conheça as qualidades da autora.

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3 – Memórias Póstumas de Brás Cubas

Memórias Póstumas de Brás Cubas - resenha

Um personagem contando a própria história depois de morto, é esta a premissa do livro de Machado de Assis que soube aproveitar da situação criada e elabora a narrativa distinta por conta da perspectiva excepcional do narrador. Mesmo sendo publicada gerações atrás, ainda é capaz de divertir ao acompanhar os relatos ditos pelo protagonista no ponto de vista enviesado dele, possibilitando interpretações conforme o assimilado pelo leitor, e o próprio Brás Cubas brinca com isso em certos capítulos, supondo reações dos leitores ao longo do livro.

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2 – O Auto da Maga Josefa

O Auto da Maga Josefa - resenha

Aqui destaca duas qualidades dos autores brasileiros: a criatividade e o regionalismo nacional. A história acontece em alguns lugares do nordeste brasileiro, com situações cheias de fantasia, capaz de proporcionar ótimos momentos de humor sem deixar de denunciar as dificuldades vividas pelas pessoas locais.

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1 – S. Bernardo

S. Bernardo

Falando do nordeste, um autor alagoano conquista o primeiro lugar das melhores leituras do semestre. A história de S. Bernardo acontece no interior de Alagoas, narrada pelo próprio protagonista em busca de refletir atitudes passadas. Graciliano Ramos nos entrega o protagonista não para concordar ou inspirar, a proposta é refletir as questões envolvidas ao homem de campo, este influenciado a agir feito tal, e capaz de agir além quando tem mais oportunidades, apesar de ainda possuir pouco discernimento.

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Menções Honrosas:

Ninho de Cobras: entrega narrativa singular, desafiante e moldada com a intenção da prosa do autor
Favela Gótica: mistura os monstros mitológicos com as camadas sociais brasileiras de modo claro e excepcional
Adágio: pelo ótimo uso da ficção científica ao tratar de assuntos vigentes

Uma lista diversa, com certeza! De sci-fi a terror; quadrinhos, romances, e até conto. O mais impressionante: os três primeiros colocados do semestre são livros nacionais! Sem parcialidade, Machado de Assis, Graciliano Ramos e Paola Siviero demonstraram qualidade na escrita a ponto de serem bem elogiados nas resenhas e tiverem pontuação máxima no Skoob e Amazon por mim. É um orgulho ver livros de conterrâneos conquistando as primeiras posições, sendo um deles ainda de autora contemporânea. Quem sabe em 2020 o pódio seja de autores brasileiros atuais? Será difícil, pois ainda pegarei livros de brasileiros clássicos e valiosos, bem como excelentes romancistas estrangeiros; o melhor a fazer é torcer.

Os melhores de 2019

Antes de dar a lista definitiva, lembremos dos finalistas do primeiro semestre, os quais competem com os dez destacados acima:

10 – A Arte de Escrever
9 – Medo Clássico – Edgar Allan Poe Vol. 1
8 – Mago e Vidro
7 – Ordem Vermelha – Filhos da Degradação
6 – A Pirâmide Vermelha
5 – Para Ler Como um Escritor
4 – A Revolução dos Bichos
3 – Fahreinheit 451
2 – Araruama – O Livro das Sementes
1 – Duologia Semente da Terra

Sem quadrinhos e nenhum clássico brasileiro, e os concorrentes continuam sendo de peso. A hora é agora, as melhores experiências de leitura do ano 2019 são:

Melhores XPs Literários de 2019

5 – Fahreinheit 451
4 – O Auto da Maga Josefa
3 – S. Bernardo
2 – Araruama – O Livro das Sementes
1 – Duologia Semente da Terra

E os melhores do primeiro semestre conquistaram os dois primeiros lugares de todo ano. Parabéns ao Ian Fraser por ser o autor brasileiro que mais chegou longe na classificação. E uma congratulação excepcional à editora Morro Branco por enfim trazer essa duologia da Octavia E. Butler ao Brasil, vinte anos após a publicação original nos Estados Unidos ― antes tarde do que nunca ―, e só agora tivemos a oportunidade de conhecer sua escrita, destrinchando críticas sociais, ambientais e políticas por meio desta distopia em dois volumes.

Por hoje é só. No fim deste semestre veremos quais leituras se destacarão ao longo de 2020. As expectativas são altas, pois a literatura é igual o universo, infinito em obras com qualidade excepcional.

O Gato Preto (adaptação em HQ do clássico de Poe)

Superstição inspira simbolismos, e estes inspiram interpretações a levar ações. Publicada há quase dois séculos, mesmo assim a história é atual, a violência sendo relatada na visão do agressor. Poderia ser o sobrenatural a condená-lo? Ou apenas ele o considera assim ao livrar a própria responsabilidade? Em ambas as situações temos o mesmo resultado, a catástrofe vinda de uma mão, repercutida até o ápice da culpa denunciada pelo meio interpretado correspondentemente.

O Gato Preto é um dos contos icônicos de Edgar Allan Poe, adaptado em quadrinho pela editora Martin Claret em 2017. Com tradução de Eliane Fittipaldi e Kátia Maria Orberg e ilustrado por Diogo Henrique Oliveira e Hugo Matsubayashi, a adaptação ilustra os parágrafos originais de Edgar sem deixar de enaltecer a prosa escrita no século XIX.

“Todavia, como amanhã eu morrerei, hoje gostaria de aliviar minha alma”

Narrado na perspectiva do protagonista sem nome, ele começa declarando a morte vindoura depois dos atos os quais é incapaz de explicar, contando apenas a maneira como aconteceu. Ele relembrou da infância sempre gentil aos animais e da própria inocência a ponto de acarretar em ingenuidade, sendo alvo de zombaria das crianças de mesma idade. Manteve a índole na vida adulta, cuidando dos animais junto a esposa, que arranjava novos bichos de estimação para a alegria do marido. Tinha amor por todos, apesar de enaltecer o Plutão, um gato grande e de pelagem negra; um gato o qual despertou atitudes inesperadas.

“Mas era, no mínimo, um sentimento fraco e ambíguo, e a alma permaneceu intocada”

Esta edição traz a adaptação em quadrinhos e o conto original traduzido, ambos precedidos por um artigo sobre Edgar Allan Poe e o respectivo trabalho. As ilustrações mesclam com o texto disposto nos quadros, todos sendo da narrativa do protagonista, quase sem diálogo igual o original, inclusive esses textos são recortes do conto, editados conforme a ilustração correspondente, harmonizando imagens com as palavras.

Sendo a perspectiva do protagonista, ele relata com franqueza os sentimentos contraditórios em si ao realizar os atos de terror, porém deixa margens a interpretação, dignas do narrador não confiável. A visão dele sugere vir do gato preto, animal reconhecido pelo simbolismo da bruxaria. O personagem sempre o vê, ou o gato sempre o acompanha; as coincidências mesclam ambiguidades as quais o leitor pode assumir determinada interpretação. Este recurso narrativo é eficaz no objetivo, o de provocar o leitor ao não dar a devida resposta, causá-lo desconforto e submetê-lo ao terror.

O Gato Preto recebe a homenagem correspondente às qualidades do original nesta edição da Martin Claret. De coloração eficiente em ilustrar os variados níveis de tensão na breve história, os traços no rosto do protagonista mostram a respectiva reação dele no momento conforme é relatado no texto antes da condenação à morte, e finaliza ilustrando com exatidão o que já no texto provocava surpresa e pavor.

“Mais uma vez, eu respirei como um homem livre”

O Gato Preto - capaIlustradores: Diogo Henrique Oliveira e Hugo Matsubayashi
Tradutoras: Eliane Fittipaldi e Kátia Maria Orberg
Editora: Martin Claret
Ano de Publicação: 2017
Gênero: quadrinhos/terror
Quantidade de Páginas: 73

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Um Banquete Para Deuses Mortos (Gleyzer Wendrew)

O poder traz o respeito gerado por medo. Raça submissa ao mais forte, a humanidade aceita as condições impostas ao atingir um objetivo maior, a sobrevivência, resiliente na miséria sob a constante e vã esperança. Já livre da mortalidade, os deuses ficam imunes ao medo, gananciosos quanto aos prazeres e ousados por desconhecer limites. Toda história literária impõe conflito, este capaz de transtornar a realidade dos personagens retratados e transformar a ponto provocar medo aos deuses.

Um Banquete Para Deuses Mortos explora o medo dos vampiros, autoproclamados deuses desta história, tendo Drácula como a divindade máxima e protagonista da tragédia. Publicado em 2019 por Gleyzer Wendrew através da editora Constelação, as cento e poucas páginas deste livro exploram a decadência de um dos seres místicos mais reconhecidos da ficção gótica.

“Um cheiro podre, nojento, quase humano”

A história parte do Drácula já abatido nos tempos atuais, sobrevivendo sob o sangue de animais. Evita contato humano, é motivo de piada a esse ser vivo antes inferior, submisso a ter a honra de conceder o próprio sangue aos deuses feito Drácula ao passado. Incapaz de reagir ou mesmo interagir com o mundo moderno, ele remói o passado, relembra o fim do seu Império de cinco mil anos sob a tragédia a qual ninguém da espécie/divindade conseguiu superar senão ele, condenado por sofrer pela eternidade.

“Mas não havia justiça no mundo dos homens”

Em seguida a história conta o passado, quando os demais personagens são apresentados. Os pontos de vistas alternam entre Enákia, o humano que virou vampiro entre os outros cem fracassados no ritual de Ascensão; a líder das Damas Negras Natara, amante da Vanda ― filha do Drácula; e de Nosferatu, o filho do deus supremo banido pelo próprio. Mesmo tendo diversas perspectivas, Drácula conquista o protagonismo não só por imposição do enredo, as qualidades do personagem repercutem em cada acontecimento: é o deus mais poderoso e também o mais velho, ele relembra cada ponto de seu passado eterno, consciente do vínculo ao acontecimento vigente, seja das leis criadas junto aos Alto Conselheiros ou qualquer outra decisão em vida.

Sem focar na ação, explora os dilemas e as preocupações dos deuses. Com Enákia o leitor pode conhecer os passos iniciais na vida de um vampiro, desde a transformação até o ápice das capacidades evoluídas no fim da transmutação. O gore escoa pelas palavras ao destacar a apreciação dos vampiros pelo sangue, e a descrição traz muitas maneiras de explorar a degustação escarlate entre as demais situações envolvidas, pelo sangue trazer tanto a vitalidade quanto a morte aos personagens. O texto dedica poucas frases à ambientação do Império de Drácula, a narrativa é concisa nesse sentido e nem deixa a desejar ao enredo; soaria negativo apenas aos leitores de fantasia com preferência aos detalhes de onde acontece a cena, já neste livro a ausência compensa ao oferecer a experiência de leitura direta, assertiva quanto ao objetivo da narração.

“Nosferatu preferiria arrancar o próprio coração a manchar sua honra com um ardil tão humano”

Vampiros são denominados deuses, seja proclamado pelos próprios ou reconhecidos pelos humanos. A história destaca as capacidades extraordinárias presentes em todo o legado vampiresco, só que este livro trata da situação oposta. Depois de tanto exaltar as capacidades, a história revela a situação de fraqueza, expõe os deuses diante da incompreensão, denuncia a vulnerabilidade, por fim amedronta os deuses.

Só há ressalva quanto a transmissão da informação ao longo do livro. Sendo de leitura curta, algumas informações foram postas com frequência sem necessidade, pois o leitor seria capaz de compreender sem o narrador relembrar. Não acontece de fato a repetição, nisso o autor teve o cuidado de evitar, na verdade a informação repercute de outras maneiras, isso seria útil ao leitor em narrativas longas ou complexas, já aqui incomoda.

Um Banquete Para Deuses Mortos é um terror inusitado. Em vez de explorar o medo dos humanos, tão recorrente nas histórias do gênero, este livro apela ao aterrorizar deuses. Comprova a superioridade das divindades, mostram a presunção delas desta invicção, e então explora a decadência sob argumentos críveis à realidade elaborada por esta história.

“Sim, deuses não bebiam água, igual aos humanos. Bebiam sangue.”

Um Banquete Para Deuses Mortos - capaAutor: Gleyzer Wendrew
Editora: Constelação
Ano de Publicação: 2019
Gênero: Fantasia Sombria / Terror
Quantidade de Páginas: 164

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O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera

A terra é árida, o céu escuro, e a lua cheira a prata. Cangaceiros e jagunços foram figuras importantes ao cenário histórico da região nordestina, tanto a ponto de inspirar novas histórias sobre eles aos escritores atuais, décadas depois de eles existirem, tempos depois da boa parte do nordeste viver livre da seca. Esta história traz de volta os tempos de poeira e sangue com a ameaça da besta onde já é humilhada pelas poucas oportunidade de prosperidade. Quando a lua se enche de prata, o lobisomem ataca.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera prepara o terreno no começo da história para os personagens presentes no título duelarem. Publicado em 2018 por Everaldo Rodrigues e eleito o melhor conto ou novela de horror do prêmio ABERST de 2018, leva os horrores cometidos por lobisomem ao interior de Pernambuco.

“O sertão sopra lendas em nossos ouvidos e poeira em nossos olhos”

É o terceiro corpo estraçalhado após a noite de lua cheia na cidade de Terezinha de Moxotó. Os sinais são claros mesmo a Zé Mindim, sertanejo de baixa estatura, inteligência humilde e manco: o lobisomem aterroriza a pequena cidade.

Jesuíno de Cândida é herdeiro do título de coronel e, portanto, governante local. Falhou em herdar o pulso firme do pai, razão de sofrer zombarias dos cidadãos pelas costas. Com a ameaça da besta-fera e a certeza de ela vir na próxima lua cheia, o povo de Terezinha exige atitude do coronel, este pretende evitar o risco de enviar os próprios jagunços ao conflito mortal, então só resta a opção que apavora a todos: recorrer aos cangaceiros próximos da cidade, o bando liderado por Jeremias Fortunato, o Capeta-Caolho.

“Tinha gado gordo, boa cana e macaxeira, mas também tinha sofrimento, suor e ódio”

Tratando do tempo quando jagunços protegiam os pertences de quem podia pagar e os cangaceiros a impor desejos na ponta da peixeira ou no disparo de bala, o autor utiliza de muitas técnicas ao ambientar esta ficção. Retrata as falas conforme o sotaque dos personagens, enfeita a narrativa com palavras próprias da cultura nordestina e desenha as cenas com as comidas e vegetação típicas do lugar. Também considerou aspectos comuns da época e lugar ao compor o enredo, tal a figura de coronel entre as principais partes envolvidas, bem como a pequena paróquia presente mesmo nas cidades remotas, pois todo humano merece a oportunidade de prestar respeito à crença correspondente.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera traz muita representação da pobreza ao longo desta novela, tornando o lobisomem um elemento secundário do sofrimento.  Por mais que seja a proposta desta história de terror mostrar a angústia dos personagens, incomoda ver apenas lamúrias durante a leitura. Mesmo sob dificuldades, a cultura nordestina é rica em canto, cultura e trabalho, qualidades possíveis de retratar pelo menos em menções secundárias à trama, mas até nessas só há reflexo da pobreza; passa a impressão de o lobisomem ser apenas outro perigo na vida local, longe da ameaça digna de protagonizar a luta desta novela.

Do lobisomem em si, há características divergentes da versão brasileira. Longe de levar esta questão como crítica negativa, pois o autor representou os aspectos mais conhecidos da besta, mesmo sendo essas mais comuns aos lobisomens internacionais. Apenas a menção do lobisomem ser o sétimo filho condiz com o folclore brasileiro, esta ainda contrariada na novela afirmando que alguém recebe a maldição ao receber o ataque do lobisomem e sobreviver. As demais são a manifestação da maldição apenas no dia da lua cheia plena, do amaldiçoado virar o monstro com aspectos de lobo, e a fraqueza já característica da besta fora do Brasil.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera retrata muitas das dores do sertão pernambucano enquanto os moradores ainda precisam proteger dos ataques sobrenaturais na noite de lua cheia. Soube representar muito bem o período histórico, apesar de deixar de lado a resiliência da cultura e canto regional.

“Até então vivia na paz que conhecia, essa paz de fome e secura”

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera - capaAutor: Everaldo Rodrigues
Editora: publicação independente
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 138

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