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Infortunium, de Wan Moura (Conto do Convidado)

Tenho novidade para os posts do blog nas segundas-feiras! Trarei autores convidados que vão compartilhar um de seus textos no blog neste mês de novembro. Aqui terá uma amostra de seus talentos, e após o conto tem os links das redes sociais para conhecer mais do autor e de seus trabalhos.

O primeiro convidado é o escritor Wan Moura. Possui uma mão cheia para preencher folhas em branco com elementos de horror dos mais diversos contos já escritos. Mais do que escritor, é um entusiasta do terror, adora buscar histórias macabras em livros conhecidos ou através de autores independentes. Esse amor inusitado começou desde quando era criança, quando sua vó Madalena lhe contava histórias sombrias do folclore nordestino, experiência compartilhada no livro em homenagem a ela.

Agora fique com o conto Infortunium. Boa leitura (e pesadelo)!


Infortunium, de Wan Moura - capa

“As almas mais escuras não são aquelas que escolhem existir no Inferno do Abismo, mas sim aquelas que escolhem se libertar do Abismo e circular silenciosamente entre nós.”

HALLOWEEN — O Início

A luz oscilante do abajur destaca a pilha de revistas “Mestres do Terror” em cima da escrivaninha. Pôsteres do Donkey Kong e Castlevania decoram as paredes, assim como prateleiras abarrotadas de brinquedos e alguns frascos de remédios. Tudo coberto por poeira e teias de aranha.

O quarto é um labirinto de quinquilharias. A janela permanece fechada, mas através do vidro um brilho esquálido ilumina o garoto sobre a cama. As mãos dele vibram, os dedos percorrem um objeto com agilidade. Os olhos são bolotas acinzentadas, a boca adota o formato de “O” e após um bocejo se fecha.

Inspira e expira, pinça as pálpebras.

Recomeça a missão.

Sincroniza as seis faces de seis cores diferentes com tempo recorde. As dores no pescoço incomodam, o fedor de mofo dificulta a respiração, mas nada o impede de registrar na mente a centésima vitória sobre os mecanismos do Cubo Mágico.

O menino observa o relógio e verifica que a meia noite chegou. Joga o Cubo para baixo da cama. Olha em volta. Desliga a luz do abajur e esconde o corpo sob o lençol com estampas do Pac-Man.

Encharca o pijama com suor. Os pés coçam, um formigamento alcança as costas. Gira sobre o colchão, se contorce em agonia.

Não há sono algum.

Senta na cama; a coluna encurvada, mãos no queixo. Vislumbra o isolamento.

As prateleiras, os pôsteres, os brinquedos, tudo retém a escuridão. O guarda-roupa agora se assemelha a um caixão e faz o menino imaginar Bela Lugosi surgindo com presas sedentas por sangue.

Stanley sorri. Aos onze anos sabe que não há nada na escuridão ou sob a cama esperando o momento certo para atacar. Porém, pensar nisso incomoda.

O sorriso desaparece.

O menino abraça os joelhos, fixa o olhar num dos cantos do quarto e relembra o que a mãe dizia quando a visitava no hospital: “É tudo produto da nossa imaginação.”

A recordação o conforta até algo deslizar de uma parede a outra.

O garoto treme. Escuta estalos no teto, arranhões no chão, sussurros próximos ao ouvido. Uma gargalhada.

Vultos rastejam nas paredes; entram no guarda-roupa, escorrem para debaixo da cama e escavam o colchão.

Stanley deseja gritar, no entanto a voz se esconde na garganta. Sente o azedume desgastar a língua como as limonadas que toma antes de ver Caverna do Dragão.

Os sussurros se tornam gritos agudos.

O jovem cerra os punhos e fecha os olhos.

As sombras se aproximam pelo forro de madeira, desprendem um odor de comida estragada.

Stanley joga o lençol para o lado e liga o abajur; a luz falha como a respiração de um asmático em crise.

Olhos apavorados correm pelo quarto. O pânico pulsa, rasteja pela coluna. A frieza do medo o toca na nuca com arrepios.

O menino levanta da cama. Corre e aciona o interruptor próximo da porta; a luz do quarto brilha como o Sol. Stanley caminha até o guarda-roupa. Conta até três e abre as portas.

Roupas, tênis, pôsteres da Nintendo, fotos dos pais. Tudo empoeirado no mesmo lugar de sempre.

O silêncio reina.

Stanley abandona o quarto ainda com o medo pulsando nas veias. Chega ao corredor, desce a escada até a sala de estar. O clarão azulado sinaliza que o pai ainda jaz vendo TV. Ele o vê esparramado na poltrona e o chama.

Não há resposta.

Tenta outra vez.

Nada.

O homem permanece imóvel; o braço esquerdo dependurado, as pontas dos dedos tocam o chão. O braço direito flexionado num ângulo reto, a mão repousando sobre o controle remoto.

Stanley se aproxima nas pontas dos pés, observa a cena com atenção. A cabeça do pai no encosto reclinável, as pernas estendidas para frente sobre a mesa de centro. O cigarro ainda respirando no cinzeiro e o porta-retratos com a foto da esposa arrebentado no chão ao lado de uma garrafa de uísque.

“Que ele não esteja gelado! Que ele não esteja gelado! Que ele não esteja gelado…”

Stanley estende as mãos e sente a frieza do pai queimar os dedos.

O fôlego falha, os olhos se enchem de lágrimas e o pijama fica ainda mais cheio de suor. As laterais da cabeça ganham agulhadas e na garganta ocorre um incêndio.

O garoto vê os olhos do homem brancos como neve. As pálpebras esticadas, a língua pendendo do canto da boca e sangue seco manchando das narinas ao queixo.

Antes que o grito se forme e ganhe impulso nos pulmões, Stanley nota a barriga do cadáver crescer. Observa um nó surgir sob o queixo, os olhos inflarem nas órbitas e algo escorrer dos ouvidos deixando um rastro sinuoso. Os botões da calça e camisa desprendem, a carne do rosto estica e veias saltam da testa.

Stanley chora e ao evocar mais uma vez o pai uma mão alcança seu braço. Aperta.

O garoto olha para a coisa na poltrona. Observa o morto gorgolejando sangue enquanto grunhe uma frase:

— É tudo culpa sua!

O menino se liberta. Corre. Sobe os degraus gritando sem ouvir a própria voz. Tranca a porta do quarto, voa para a cama e esconde-se sob o lençol. Ouve passos marcando os degraus da escada, rápidos como o palpitar de seu coração.

As luzes oscilam.

Stanley grita até sentir os pulmões arderem e a visão ficar turva. Começa a tossir e cospe uma porção de terra misturada com sangue. Ouve algo rastejar dentro dos ouvidos, leva as mãos às têmporas.

A sombra chega à porta desejando entrar. A madeira começa a ceder, as dobradiças rangem, rachaduras nascem na superfície de mogno e a maçaneta gira.

De súbito os empurrões cessam.

O silêncio sepulcral se abriga no ar.

Stanley salta da cama, corre para olhar pela fechadura e não percebe uma névoa vermelha se materializando sob a cama.

Ele vira para o lado e projeta as costas para a parede. Da névoa nascem garras, faíscas, um par de olhos negros e uma criatura que surge brandindo ódio. O fedor estrangulador perfura as narinas de Stanley, sua face é um misto de pavor e alegria.

O infante segura a vontade insana de correr para longe, lançar-se pela vidraça da janela.

Stanley desdobra os braços; as mãos espalmadas, os dedos em riste, os olhos marejados nublando a visão. A boca é um abismo de onde grunhidos escapam tentando formar frases compreensíveis.

A criatura vai ao encontro do garoto. As garras brilham, as presas gotejam uma saliva gosmenta, o corpo escamoso libera insetos asquerosos e os cabelos despejam um líquido viscoso.

Eles se abraçam.

Stanley sorri em meio a lágrimas.

A Coisa o aperta. Asfixia. As costelas do garoto cedem ao abraço do reencontro, o sangue escapa pelos cantos dos olhos e narinas. Os membros alcançam ângulos impossíveis, a carne fica azulada e os lábios roxos. Mais terra escapa da boca, os dentes apodrecem e caem. O rosto empalidece, as juntas ficam rígidas e o fedor de carne em decomposição sobrepuja todos os outros. Apesar de tudo o sorriso permanece.

A névoa se enovela nos tornozelos de Stanley e o arrasta para debaixo da cama. Depois para dentro do Cubo Mágico. A fera se mistura à bruma e some como a luz do abajur no momento em que os barulhos na porta recomeçam.

A chave é introduzida na fechadura; a maçaneta gira e um homem entra no quarto cambaleando, maldizendo a vida. Em uma das mãos carrega a garrafa de uísque. Inclina o vidro sobre a boca e despeja o líquido, engole o álcool em doses cavalares. Limpa os lábios com a costa da mão. Desliga o Walkman, retira os fones do ouvido.

O sujeito joga os olhos pelo quarto e vê o relógio marcando meia noite e treze. Ao lado o calendário com imagens do Super Mario Bros. Ostenta, rabiscado sobre o dia 2 de Julho de 1989, um “X” feito com giz de cera. O homem jura ter ouvido barulhos vindos do quarto do filho, mas não há nada fora do lugar.

A bombinha para asmáticos, os frascos dos remédios que não surtiram efeito, os pôsteres dos jogos que o garoto adorava, as revistas tenebrosas que alimentavam a imaginação, a data de seis meses atrás marcada com giz no calendário e o Cubo Mágico esquecido sob a cama. Tudo intacto desde o estrangulamento de Stanley pela mãe, portadora da Síndrome de Münchausen.

O homem fecha a porta com o choro travando a respiração, injetando dor nos pensamentos. No caminho de volta desliga a lâmpada do corredor quando a luz começa a oscilar; bebe outro gole de uísque e retorna para a sala sussurrando arrependimentos.

Dentro do quarto algo arranha a porta.

As sombras parecem mais vivas agora.


Mais de Wan Moura:

Perfil do Wattpad

Perfil no site Mal do Horror

Publicação original de Infortunium

Livro Madalena

Jéssica

Adolescência é complicada. Hormônios mexem nos organismos, modificam o humor do jovem que precisa se preparar em tornar adulto e enfrentar os temíveis boletos. 

Inúmeras possibilidades acontecem nas vidas de cada um, com rumos diferentes, conscientes ou não. Arranjam emprego, estudam faculdade, namoram e separam, moram sozinhos, moram com os pais, forma uma família, ou brota a semente no ventre e muda a sua vida do avesso. 

Jéssica faz parte do último exemplo. Publicado em 2018 no Wattpad, a protagonista engravida na adolescência e agora enfrenta a situação de ser mãe solteira enquanto a família está endividada. 

Jéssica - capa

Felipe Sali é embaixador da plataforma online de livros gratuita. Possui vários títulos disponíveis no site, além de um publicado pela editora Lote 42 e outro na Amazon. 

Ele estava engasgando com a própria baba 

Acompanhamos a história de Jéssica quando seu bebê já tem quase um ano. O filho recebe o mesmo nome de Ícaro, grande amigo de Jéssica e protagonista do outro livro de Sali. 

Lucas, o pai, ignora a situação de cuidar do filho e abandona Jéssica. A vida se transforma, perde o contato dos amigos, falta tempo em tudo, todos os seus planos priorizam o bem de Ícaro.  

Ela cuida do filho sob o mesmo teto da mãe, divorciada de seu pai. Acostumada a terem tudo graças ao dinheiro, suas economias se esgotam e ficam sem empregados. Enquanto Jéssica enlouquece com a responsabilidade de cuidar do bebê Ick, sua mãe gasta os recursos da família, incapaz de controlar os gastos. 

Jéssica precisa trabalhar. Consegue uma entrevista de emprego e deve convencer alguém a contratá-la mesmo sem experiência. Na empresa de tecnologia onde ela se candidata, deve se apresentar ao presidente, cujo sujeito é da mesma idade e estudou na mesma escola da protagonista: o Bob, vítima de bullying que ela também provocou. 

A vida é uma vadia 

Narrado em primeira pessoa, a falta de maturidade de Jéssica reflete nas suas ações, descrições e pensamentos frente a sua jornada de ser adulta. 

Sem detalhar o ambiente externo a ela, Jéssica conta apenas o que a impacta de alguma forma, e muitas coisas a impactam. Pela falta de experiência adquirida somente com idade avançada, tudo soa dramático, tenebroso e permanente; situações comuns a um adolescente incapaz de distinguir quando muitos dos problemas são momentâneos, mas que Jéssica acumula na bola de neve da sua vida de mãe nada passageira. 

Há também outros problemas perigosos. O passado retorna feito cão arrependido a princípio, e evolui com dentes expostos afiados, ladra demais, sem saber quando ou se ele irá morder. 

Jéssica luta em prosseguir sua vida mesmo com o passado rosnando em sua canela. Torna-se o objetivo dela a partir de então. O cuidado com o filho serve também de pretexto de ela melhorar como pessoa, ao mesmo tempo que o cão raivoso do passado usa o futuro do bebê contra ela.

Entretanto não notei a evolução da personagem por mais que ela demonstre essa intenção. O desfecho toma um rumo diferente, com cenas finais feitas de clichês de romance. 

O novo livro de Felipe Sali tem uma protagonista dramática, jovem e divertida. Entre situações revoltantes e engraçadas, oferece várias oportunidades de interação na plataforma com suas frases simples e cativantes. 


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O Conto de Manoel

Manoel resolveu existir! Saiu do meu conto de três partes e quis escrever a sua tão desejada história, e eu permiti. Confira o texto dele a seguir, espero que gostem!

Conto de Manoel

Saio da mórbida lanchonete em que trabalho há dois meses, nada como o cheiro de óleo engordurando as narinas. Não posso negar, odeio esse emprego, mas foi o que pude conseguir no momento, não há muitos trabalhos que aceitem jovens inexperientes recém-formados do ensino médio. Também não posso esconder que a timidez atrapalha um pouco o contato com os clientes, sem falar que ainda tenho certo temor da bandeja encontrar o chão e eu esbarrar na demissão.

Porta range rabugenta a minhas costas, o estabelecimento fechou faz algum tempo, mas só podíamos sair depois de lavar a louça, depois do “Tchau” do chefe. Suspiro aliviado, almejando a comodidade do lar e enfim poder descansar.

Chuva castiga o guarda-chuva a cada passo, a lama da rua sem calçamento suja meus sapatos seminovos. As luzes dos postes oscilam, ando um pouco mais depressa.

O aspecto dessa parte do bairro em que preciso atravessar já é sinistro em uma noite comum, e nessa tempestade parecia mais apavorante. Casas antigas destruídas e outras permanecem inteiras, porém abandonadas. Algumas em particular possuem o boato de serem mal-assombradas. Os contos horripilantes que meus colegas narram sobre aquela região me afligem, mas não tinha outra escolha a não ser seguir em frente e rezar para que tais coisas não passem de simples boatos.

Piso numa poça, o sapato todo entra no buraco de lama fedida.

— Mas que droga!

Vou em direção a um dos postes acesos, agacho para ver o estrago, um aspecto estranho. Passo o indicador e levo ao nariz, não parecia só lama…

Engulo em seco, olho de um lado a outro. Ninguém. Continuo o percurso pela calçada. Seguro a alça do guarda-chuva com mais empenho, o céu cairá com tanta chuva.

A luz do poste mais próximo se apaga. Escuto com pavor uma risada fina, procuro de onde vem. Nada. Continuo andando com um soluço de desespero preso na garganta. Não sou corajoso.

Outra luz se apaga, estou a ponto de correr. Avanço quase tropeçando nos próprios pés, as luzes dos postes se apagam a medida que passo por eles. A risada estridente soa ao vento de novo, chega a meus ouvidos, e a pele arrepia.

Ergo a vista para o outro lado da rua. Meu corpo gela. A única coisa que vejo é um ser escuro. Coração acelera. Estou num pesadelo? Num filme de terror?

Corri. A ventania violenta empurra o guarda-chuva, não aguento, escapa de minhas mãos, o vejo rodopiar centenas de vezes, não interrompo a corrida. Chego a esquina, as gotículas me atingem com força.

Escorrego quando o ser se materializa na minha frente. Caio sentado no barro molhado, emporcalho mãos e toda a roupa tentando me arrastar para longe, mas aquilo agarra meus ombros e me levanta.

Era tudo escuro de uma forma borrada como se eu tivesse adquirido problemas de visão de repente. Somente se pode ver dois brilhos vindo do ser maligno, pareciam brasas acesas vindo de olhos completamente brancos.

Aquele ser se aproxima, sinto meus lábios sendo sugados. Mãos agarram minha cabeça, palavras incompreensíveis são sibiladas, lacrimejo e vejo círculos no ar, vários deles. De tamanhos diferentes, no começo flutuam sozinhos, depois se juntam um dentro do outro. Subitamente não vejo mais nada. E depois o processo se repete, muitas e muitas vezes enquanto me sinto arrastado. Ainda há chuva, gotas salpicam como agulhas na pele. E não consigo mexer nenhuma parte do meu corpo. Sinto novamente algo em meus lábios e volto a ser arrastado…

Manoel

Desperto, meus sapatos continuam com a mistura de lama e sangue da poça. Chove sangue. Estou no chão coberto de poeira, sento. A visão ainda turva, mas não vejo mais círculos. Repassei atordoado os momentos anteriores. Ergui os dez dedos para contar. Oito…

O lugar em que estou não possui móveis, somente poeira, teias de arranha, uma escadaria logo à frente e uma menina abraçando os joelhos num canto.

Olha para mim e de sua garganta sai um grito que ecoa em todo o ambiente.

— Vá embora, antes que ela volte — sussurra.

— Ela quem?

— Não a deixe chegar aos 13. Se ela conseguir estará completo… você não terá um final agradável e não poderei mais ver a luz… — disse rápido demais, quase não entendi.

Os olhos verdes dela exibiam inchaço, provavelmente de tanto chorar.

— Já tentou fugir?

— Estou sentenciada… — A garota treme.

Levantou-se abruptamente, o barulho dos tênis vermelhos estrondaram cada vez menos nos degraus à medida que iam desaparecendo ao subir.

Resolvo segui-la, e logo a perco. Não tenho a visão de seus cabelos negros, não há mais o ruído de passos. Determinado a encontra-la, entro num quarto. Frascos cilíndricos com líquidos espessos e um livro estão expostos sobre a única mobília, uma mesa larga de metal.

O livro possui somente uma gravura na capa, vários círculos concêntricos da mesma forma da minha alucinação. Folheio as páginas encardidas, todas escritas a mão com variados símbolos perfeitamente desenhados. Um deles eu conhecia: o pentagrama.

— Não deveria mexer nisso! — A voz dela é pavorosa.

Fecho automaticamente o livro, olhos arregalam, o medo me soca mais uma vez.

O chiado da porta escancarada incomoda os ouvidos, faz meu corpo tremer. Abre por completo e vejo de novo aquele ser. Pescoço e pernas retorcidos, sangue nos braços. Todo o ser parecendo estar mergulhados em água, ondas negras flutuam pela pele, o cabelo longo parece estar úmido e boia, mas não parece água.

Estende sua mão, meu corpo se move contra minha vontade até a mão estendida cravar unhas pretas em meu pescoço. Puxa-me para o que parece ser seu rosto, meus lábios recebem um beijo, e depois outro e outro e mais outro.

Ela me solta e desabo, me debato, aperto a garganta que arde nos cinco cortes e o líquido vital banha as mãos, volto a respirar.

Rastejo, forço os membros magros e sigo engatinhando, alcanço a lateral do portal de madeira, pego impulso e levanto.

Cambaleio na descida das escadas e percorro o piso até encontrar a porta de entrada. A visão foi mais rápida e percebeu antes, mas o movimento é atrasado. Agarro a maçaneta, solto, já é tarde. Percevejos impregnam a mão, se alimentam da carne dos dedos, entram pelos ferimentos. Calosidades se mexem subindo pelo braço, os insetos continuam comendo por baixo da pele. Berro de dor. Lágrimas formam uma cachoeira.

Jogo o braço na parede tentando amassar os bichos, em alguns obtenho êxito, já outros alcançam o ombro.

Desisto da porta, vou vacilante pela casa estapeando os insetos dentro de mim. Encontro a cozinha, não perco tempo em observar algo, pego uma cadeira e arremesso na porta de madeira podre, abre um vão, acabo de retirar o suficiente para passar. Piso no amontoado de grama enorme. Dobro os joelhos e começo a saltitar com dificuldade.

As primeiras luzes do amanhecer me enchem de esperança dessa noite horrível terminar. Vou de pulo em pulo sem olhar para trás, os membros cansados do maltrato e esforço, a mente em choque.

Não sinto mais chão sobre os pés. Caio em um buraco. Primeiro veio o som da queda, depois a dor nas costas.

Olhos vermelhos encaram. São monstrinhos: pequenos, feios, enrugados, com orelhas pontudas, lembram a versão má dos Gremlins.

Os Gremlins sorriem e começam a me açoitar. Batem, chutam, dizem xingamentos incompreensíveis. Meu corpo empapa exteriormente do que é vindo do interior, cuspo sangue com um grande chute na barriga.

Ela aparece…

Jogado ao desprezo, vejo pela primeira vez o que calça e entendo tudo enfim. Os monstros encolhem e se afastam, mas o pior está por vir.

Inclina-se contra mim, e o molhado do beijo chega aos meus lábios, o estranho é que eu gosto. O décimo terceiro beijo é quente, doce, reconfortante. E quando acaba…

Um grito. Um suspiro. Escuridão permanente.

Treze Beijos (pt. 3)

Parte final da história de Manoel. Descubra o que acontece com este pobre garoto franzino. Ele conseguirá enfim escrever a sua história?

Treze Beijos

Humilhação.

Mãos, pés, pernas.

Quanto mais agridem, mais desesperado fica. Ele é inútil; a escola, opressora.

Falta apenas um dia. Precisa recuperar o desejo de prosseguir no seu sonho, superar àqueles dedicados desde o anúncio do concurso de escrita quando mal se tem uma ideia consistente.

Corpo queima, sangue escapa de seu corpo e lágrimas escorrem por ele não ser valente. A outra Legião atormenta com murmúrios agudos e desafinados. A sua voz não sai da boca, é engolida junto com o chute no rosto.

— Puta de Abel! Puta de Abel! Puta de Abel!

O bully ganha mais seguidores na escola. Sua conta no Instagram foi banida, e não gostava de usar a rede política chamada Facebook.

Incapaz de amenizar a dor dos murros e pontapés, a pele ganha novas tonalidades, o chão troca um pouco da sua poeira ao rosto e recebe líquidos humanos da cabeça e da cintura. Sua visão do sol oscila com o braço de quem lhe batia até ficar visível e ouvir a voz da coordenadora:

— Parem com isso!

— Ele roubou nossas blusas, tia.

— Sou tia coisa nenhuma, Abel. Se o… esse garoto roubou sua roupa, por que não nos avisou?

— Não queria tomar o seu tempo, Dona Giovana.

— Agora vai tomar mais! Saem logo daqui, depois de cuidar dos ferimentos do garoto eu resolvo o problema da roupa.

Prestes a obedecerem a senhora, gritos estridentes invadem os tímpanos. O susto invoca as mãos e tampam seus ouvidos, e quem procura de onde vem o grito pula com pernas sem força, perde a voz.

Ela está com as três blusas roubadas, uma enrolada em cada braço e outra sobre as pernas sentadas, todas manchadas de vermelho. Olhos sem pupila tremem enquanto a cabeça balança. Fios do cabelo sempre molhado saltam e rebatem contra a bochecha.

Levanta. Pernas dobradas para o centro do corpo movem a Menina do Caos na direção das crianças e Giovana. Saliva interrompe o grito, cospe antes de berrar a melodia aguda e gutural com a boca cheia de baba. Derrama as blusas enroladas com ela, os pulsos ainda sangram. Pés tropeçam e rosto entorta sobre o pescoço.

Eles fogem. Todos correm, todos clamam por piedade, todos repugnam a Menina, todos chamam Deus. Todos, exceto Manoel.

Costas formigam sobre a cintura tremida. Seus ombros não descem, braços reclamam do contato com o chão, continuam ardendo. Fica de joelhos enquanto vislumbra o terror em forma de Menina.

Esmeraldas voltam aos seus olhos. Gritos se convertem em gargalhadas. Pernas assumem a postura normal e os braços expõem os vários saquinhos plásticos com água vermelha furados.

Os soluços de choro dão lugar ao sorriso em Manoel, ela é sua nova inspiração.

Fica diante do rapaz, ajoelha na sua frente. A cabeça um pouco acima da dele. O polegar menos sujo da Menina seca as últimas lágrimas de seu rosto antes de estalar seus lábios na bochecha.

— Acompanho seus textos pela internet há muito tempo, adoro sua escrita.

Nenhuma palavra sai de Manoel, são engolidas em seco.

Recebe outro beijo. O garoto toca onde recebeu carinho e arranca mais risadas dela.

— Parou de escrever desde que aqueles rapazes passaram a te humilhar. Estou com saudade de ler contos bons, só gosto dos seus.

Segura a nuca e o puxa, traz seus lábios até ela e se beijam, o primeiro de Manoel; o décimo sexto dela.

— Permite-me ajudar com a escrita? Eu posso te inspirar. Salvar de todos os seus problemas.

Novo beijo, cada vez mais molhado.

— Escreve o seguinte: crie um conto sobre beijos! Nunca teve um nos seus textos, agora eu sei o porquê.

— Sim — respondeu.

— Isso, escreva sobre beijos — levou o rosto até a orelha dele, onde seus lábios acariciaram também —, no décimo terceiro você morre.

 

Treze Monstros (pt. 2)

Então há a continuação da história de Manoel

Muito bem, continuamos a ver o que acontecerá com este rapaz, até aonde ele vai.

Treze Monstros

Solidão.

Entre tios e primos e parentes desconhecidos.

Quanto mais falam, mais quieto fica. Ele é tímido; a família, opressora.

 

Faltam exatos cinco dias. Descartou os dez rascunhos anteriores, precisa escrever algo novo,  mas não será hoje.

Hoje é o aniversário do cunhado da Dona Furacão, e Manoel está na festa quando preferiria escrever seu conto do concurso literário. O número Treze não sai da cabeça, só que nada complementa o tema. Poderia encontrar alguma inspiração nesse caos?

Murmúrios penetram seus ouvidos. Sílabas aleatórias se sobressaem nas palavras dispersas. Eles falam, todos falam. Falam demais, o importante é falar. Expor a sua fala entre bifes temperados com farofa, expelir palavras entre cuspes e engasgadas. A Legião de corpos humanos se converge num quadro pitoresco de rostos distorcidos, unidos com o melhor da família brasileira. Só Manoel está divergente, cansado de ver gente.

— Fala alguma coisa, moleque! — Primo de segundo grau.

— Esse não, só fica nos compiuter! — Tio.

— Tem namoradinha? — Tia, irmã da Dona Furacão.

— Ele faz nada! Geração mimada e inútil! — Primo dois anos mais velho que Manoel.

— Vamos, filho! Pare de ficar quieto e faz alguma coisa. Tanta criança legal com quem brincar, não pode ficar só no canto. Fica demais naquele quarto, se não perde tempo no celular é com livro! Vem com a mãe, eu te levo até a filha da Juliana. Ela é bonita e ajuda a família em casa. Só estou te dizendo, Manoel, que… — Dona Furacão.

Juliana tem um dente a menos e bafo de sobra. Uma mão no cigarro e outra na bebida. As rugas de seu rosto completam os traços de um troll. A garotinha dela tem o rosto do pai, braços trabalhados de carregar produtos do mercado da família, rouba goles da lata quando Juliana se distrai; é uma duende.

Ao invés do gigante de gelo, Mateus é o gigante gordo. Pernas mal se sustentam depois de três garrafas, mas mantém a postura de rei do mundo, rei entalado no próprio trono. Já são três monstros na nova história de Manoel, só faltam dez.

Manoel vê ao redor e encontra mais. Pelos de lobisomens, pé torto de Curupira, boca escancarada de Oni bebendo cerveja, peles de zumbis, um Boitatá aprisionado nas calças de seu primo com as primas. Boca calada, mas a cabeça latejando de novas ideias.

As palavras da primeira frase estão nas pontas dos dedos, basta escrevê-las, basta fugir da Legião familiar e ficar escondido da Dona Furacão, basta fazer o impossível.

Um escorregão na cerveja derramada — ou outra coisa amarela — acaba com seus planos . Gargalhadas explodem seus tímpanos e lágrimas  escorrem com o catarro da vergonha. Dona Furacão o arranca do chão, estapeia, tenta tirar a sujeira da roupa, e puxa pela orelha até chegarem em casa.

Não grita pela dor. Os monstros deixam de existir na mente, dão lugar à decepção de si mesmo. Do garoto sem personalidade sem coragem e sem talento. Só podia se chamar Manoel.

Treze Dias (pt. 1)

Sobre o quê é este conto? Não vou dizer. Se haverá uma segunda parte, só o tempo pode responder. Acompanhe o texto a seguir, se for capaz…

Treze Dias

Escuridão

Amordaçado. Amarrado. Enclausurado

Quanto mais se mexe, mais preso fica

Ele é fraco; a prisão, opressora

Faltam exatos treze dias. Precisa correr, se dedicar e ter a mínima oportunidade de ser reconhecido pelo seu mérito. Infelizmente a meritocracia está além das exigências do edital, suas regras não abrangem os seres malignos dispostos a humilhá-lo todo dia, ignora a Menina do Caos sempre à espreita, ou a Dona Furacão em sua casa, ou a Legião que sussurra pelas feições discretas do quanto Manoel é um incompetente. 

Manoel, um nome de português. Manoel foi pro céu ninguém mais ouve. Manoel cara de pastel resume sua infância. Manoel bicho do hell é ridículo. Manoel puta de Abel é o episódio atual. 

Abel tem dois seguidores na escola e quatro mil no Instagram. O cheiro de seu chulé está impregnado nas narinas de Manoel após tantos chutes na cara. Nada acontece com o bully; Manoel sofre tudo. 

Recebe socos dele e de seus seguidores. As cusparadas escorrem pelas blusas amarradas até alcançar o rosto do garoto. Ele ouve o som do zíper se abrir, e em seguida um empurrão com a voz de Abel: 

— Esta blusa é nova, arrombado! 

— Arrombado é este verme, enrolado feito sushi. 

— Feito sushi. — Risadas ecoam. 

E os passos se distanciam. O garoto fica sozinho com as suas lágrimas e o ódio deste mundo. 

Queria participar do culto e invocar o deus cósmico de nome impronunciável. Poderia ser um estranho com o poder paranormal de explodir todos da escola, ou um lobisomem que se alimenta de humanos como se eles fossem gado. 

Manoel é nada disso. É somente humano de braços finos e pernas moles. Rebate todo o corpo, um peixe fora d’água. Rasteja feito minhoca, geme mais que um cão abandonado, rodeado apenas por urubus. 

Os movimentos desesperados tiraram a manga da blusa amarrada sobre seus olhos, mas as órbitas trêmulas voltam a chorar. O curto traço de sua visão revelou o par de tênis All Star vermelho, movido pelas pernas morenas de bermudas jeans com rasuras de desgaste. Vê ainda suas mãos e o esmalte negro incapaz de disfarçar as unhas roídas. 

Fios de cabelo negro serpenteiam sobre os olhos dele enquanto as mãos puxam as blusas. Pior do que a humilhação de Abel é ficar à mercê da Menina do Caos. Seu toque provoca doença, os lábios rachados já beijaram a morte, olhos verdes não piscam enquanto transmite o horror. 

As roupas afrouxam e Manoel pula, os braços chacoalham até as peças de roupa saírem de seu corpo. Vê a franja sempre molhada dela, desce a visão no rosto e vê um sorriso. Engole o grito, a dor invade sua cabeça enquanto o frio escorre na pele através do suor.

Pernas desvencilham e escorregam até recuperar a força e correr. Ela o encara, de joelhos sobre as três blusas. Ele olha apenas o resquício de luz na porta da saída, chora de alegria por estar livre, estar vivo, estar apavorado o suficiente para desenvolver seu manuscrito, e assustar a todos. 

Suicídio

Muito pouco é falado do suicídio, e ainda assim podem fazer de modo que piore a situação.

A polêmica do “jogo” de rede social conhecido como baleia azul é um dos exemplos. Enquanto incitava comentários reacionários como “geração cada vez mais mimada”, “só fica vendo besteira na internet”, “falta do que fazer”, ou “vá lavar a louça que a vontade de se matar passa”; algumas notícias relacionadas foram capazes de incentivar a interação desse jogo ao invés de alertar do perigo.

Embora com boa intenção, a história de 13 Reasons Why também pode deixar um efeito negativo pela forma em que certas cenas foram mostradas/narradas.

13 Reasons Why - suicídio

O seriado abordou o ato de Hannah e explorou os pontos de vistas dos personagens afetados pelo seu falecimento, e devo dizer que o trabalho foi bem desenvolvido neste quesito.  Teve o aspecto positivo de sensibilizar os espectadores e incentivar uma atenção maior quanto a este tema.

Porém a série apresentou muitos pontos negativos também.

Os números de pesquisas em como realizar o suicídio aumentou na internet após o lançamento de 13 Reasons Why, causando uma certa preocupação na mídia.

Teve um caso semelhante no século XVIII com o livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, cujo protagonista pôs um fim em sua vida. Após o lançamento desta história houve muitos casos de pessoas que repetiram o ato de Werther, usando uma roupa parecida com a do personagem, ou até com o livro encontrado próximo a si em sua morte.

Eventos parecidos aconteceram quando celebridades decidiram fazer o mesmo, principalmente quando a mídia destacava a notícia com abordagens incorretas.

Acontecimentos como esses fizeram as pessoas se reunirem e discutir como seria a melhor maneira de relatar (ou narrar) um suicídio de modo que não cause mais incidências.

O resultado dessa discussão apontou que:

  • não pode sensacionalizar o suicídio;
  • não descreva a ação em detalhes (como aquela cena da Hannah no último episódio); e
  • não apresente a morte como uma alternativa à solução dos problemas.

Ao contrário do seriado, o suicídio normalmente não é planejado meticulosamente. É um ato realizado em última hora, feito de cabeça quente perante um ou outro problema que incomoda o sujeito. Todos nós teremos conflitos durante nossas vidas, mas eles passam com o tempo.

Caso alguém se sentir desconfortável ou sem esperança, tenha calma e busque ajuda. O CVV possui voluntários prontos para conversar com qualquer pessoa seja por telefone (141), chat, Skype, e-mail ou pessoalmente em seus 72 postos de atendimento distribuídos em 18 estados e no Distrito Federal.

Não é vergonha alguma ter de recorrer a um profissional quando não se sente bem. Faça o que é necessário para ter uma vida melhor.

O suicídio jamais será a solução de qualquer problema. Mesmo quando tal dificuldade parece difícil de resolver, sempre será passageira.

Só se vive uma vez. A falta da pessoa que faleceu é permanente para a família, amigos e demais pessoas próximas.

#NósSentimosSuaFalta

 

 

Referências:

Conto Morte em Luto

Página oficial do CVV

Se suicidó y dejó instrucciones en audios como en la serie “13 reasons why”

Vídeo do Nerdologia Sobre

 

 

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