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Story (técnicas de roteiro, úteis a romances também)

Após se encantar pelo mundo criativo a ponto de desejar fazer parte dele, muitos empolgam e pulam a parte do estudo e aprofundamento no objetivo de compreender o motivo de essas histórias fascinarem o público. Avançam direto na parte prática e repetem as cenas reconhecidas apenas na superficialidade. Sem amadurecerem e treinarem através de falhas, ficam sensíveis a críticas e negam aprimorar a partir delas, apenas contribuem na crise constatada pelo autor deste livro. Story é uma das opções a estudar sobre criar ficções voltadas ao cinema e ainda úteis a romancistas. Elaborado por Robert McKee em 2006 e conferido na edição de 2018 publicada pela editora Arte & Letra sob a tradução de Chico Marés, o livro já inspirou diversos profissionais criativos.

“Pois talento sem o conhecimento da arte é como combustível sem um motor”

McKee usa as primeiras páginas do livro de desabafo sobre a qualidade das histórias em geral. Os aspirantes deixam de estudar as formas da obra cinematográfica e apelam aos recursos visuais, falham em aproveitar os recursos narrativos e de mergulhar nos aspectos da ficção. Também aponta questões pessoais e outras que é melhor conferir por si e tirar as próprias conclusões, pois isso faz parte do estudo.

Depois do desabafo, o texto mergulha na abordagem prática da experiência do diretor de cinema além de mencionar a influência literária, por isso torna relevante a romancistas também. O autor baseia toda sugestão em exemplos práticos existentes nos filmes, e por explicar o motivo de as reviravoltas de enredo e outros elementos funcionarem, ele teve de mencionar os principais spoilers das obras citadas, cuja utilidade das dicas superam qualquer infortúnio de descobrir pontos-chave de filmes ainda não vistos, na verdade podem até atiçar o interesse de assistir mesmo ciente das reviravoltas e conferir o efeito prático descrito no livro.

“Criatividade raramente é tão racional”

Caso tenha lido outros livros sobre estudo das ficções, é provável encontrar os mesmo termos usados por McKee em definições diferentes, às vezes por perspectivas distintas de cada autor entender aquele termo, ou no intuito de conduzir o leitor ao mesmo raciocínio enquanto aborda o tópico. O importante é assimilar o aprendizado além do conteúdo exposto, ou conforme o próprio livro demonstra: aprofundar nos conceitos para assim propor obras imersivas da mesma maneira a das exploradas em Story e demais livros cheios de exemplos práticos.

Apesar de ter a seção exclusiva a falar das diferenças entre histórias narradas em prosa, teatro e cinema, o autor compara as características correspondentes a todo momento, e favorece o conteúdo a aspirantes dos três tipos de produção. A utilidade exclusiva a roteiristas de cinema está restrita a comentários específicos sobre as práticas da produção de filmes ― enquadramento de câmera e o trabalho reservado a atores, por exemplo ―, de resto os demais ficcionistas podem aproveitar cada sugestão do autor. A única ressalva quanto a aspirantes em prosa está na qualidade do texto, que abusa da palavra “mas” e elenca os contrapontos de argumentos por todo o livro, tornando a leitura repetitiva neste aspecto.

Story é reconhecido entre os profissionais por ótimos motivos. De conteúdo equilibrado entre conceitos e exemplos práticos, cada sessão de leitura rende anotações úteis a refletir e aprimorar seus trabalhos ficcionais seja em qual formato ou gênero desejado.

“Story é sobre arquétipos, não estereótipos”

Capa de StoryAutor: Robert McKee
Tradutor: Chico Marés
Publicação original em: 2006
Edição: 2018
Editora: Arte & Letra
Gêneros: não ficção / escrita
Quantidade de Páginas: 430

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Romancista Como Vocação (Haruki Murakami)

Quando o autor idoso possui mais da metade do tempo de vida de carreira na escrita, ele deve possuir algum conhecimento literário. Sarcasmo à parte, toda a trajetória de vida vira fonte de aprendizado quando o escritor decide contar a própria vida, das maneiras e dificuldades encontradas ao insistir em contar histórias. Conhecer as variadas técnicas de escrita criativa é importante, apesar da literatura também ser produzida a partir da experiência, e vale a pena ao menos conferir o trabalho do autor disposto a compartilhá-la.

Romancista Como Vocação é a autobiografia de Haruki Murakami, o autor disposto a compartilhar o pouco que aprendeu na vida. Publicado em 2015 e trazido em 2017 no Brasil através da editora Alfaguara ― Grupo Companhia das Letras ― sob a tradução de Eunice Suenaga, a escrita fluida de Murakami persiste nas breves passagens de aprendizado.

“Mas por que um escritor tem que ser um artista? Quando isso foi decidido, e por quem? Ninguém decidiu isso”

Cada capítulo consiste em perguntas feitas a ele ao longo da vida, algumas o autor revela sentir intimidado pela incapacidade de respondê-las em poucas palavras. Por mais simples seja a pergunta, ele considera toda a experiência ao responder, precisando de palavras o suficiente a escrever este livro. Combina as respostas práticas com aspectos de sua vida, fala desde o trabalho como dono de clube de jazz à premiação a garantir o primeiro livro publicado, até a carreira internacional a partir das publicações feitas nos Estados Unidos. No meio de toda essa jornada, tem lições a novos escritores sobre as possibilidades de criar histórias e desenvolver a carreira literária.

“Essa é minha opinião, mas isso não muda muita coisa”

Toda declaração presente em Romancista Como Vocação é de cunho pessoal, e Murakami faz questão de afirmar e relembrar disso. O leitor tem a oportunidade de conhecer detalhes pessoais do autor, um resumo da trajetória após garantir várias publicações de sucessos comerciais. Garantiu poucos prêmios, e ele comenta sobre o assunto em determinado capítulo, dá opiniões sinceras sobre as premiações, tudo condizente com as declarações dos demais capítulos, ou seja, passam longe de serem desculpas por deixar de vencer os concursos ― inclusive o prêmio Nobel de Literatura.

Apesar dos fãs de Murakami ainda poderem aproveitar este livro, o conteúdo é dedicado a autores e aspirantes, afinal o foco é óbvio. Só deixa de ser tão claro a utilidade das dicas passadas pelo autor japonês. Os escritores precisam estar dispostos a acompanhar as maneiras encontradas pelo autor de seguir na carreira e avaliar quais delas seriam viáveis na própria rotina. Murakami é restrito quanto as dicas, compartilhando as bem sucedidas para ele, e é honesto ao confessar a inviabilidade de servir a quem ler, inclusive faz comparações a comportamentos dos demais autores japoneses e revela a diferença dele com a maioria. Lembrando da nacionalidade dele, Murakami fez carreira nos aspectos do mercado editorial no Japão ou até em fatores sociais — entre eles o sistema educacional da época —, inclusive lembra o leitor da situação política do país durante sua vida, do Japão em crise após a Segunda Guerra Mundial. Mesmo quando começou a publicar nos Estados Unidos teve de adaptar a forma de trabalhar por ser japonês, então cabe ao leitor fazer o mesmo, conferir as dicas e verificar a possibilidade de ajustar a própria realidade, isso caso a dica funcione.

Romancista Como Vocação é um resumo da vida do autor. O conteúdo também convida aos escritores encontrarem os meios de produzir literatura a partir da reflexão das dicas oferecidas por Murakami. São ensinamentos prático e rasos, há livros sobre escrita de melhor conteúdo, escrito por profissionais com experiência em formar escritores, entre eles o trabalho da Francine Prose, enquanto este é limitado a dicas pontuais e ainda incertos da utilidade; ao menos o autor é honesto em afirmar isso.

“Eu já havia me tornado romancista; e a vida é uma só”

Romancista Como Vocação - capaAutor: Haruki Murakami
Tradutora: Eunice Suenaga
Ano da Publicação Original: 2015
Editora: Alfaguara ― Grupo Companhia das Letras
Edição: 2017
Gênero: Não ficção / autobiografia / escrita
Quantidade de Páginas: 168

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Para Ler Como Um Escritor

Esqueça a ideia de nem todo bom escritor não precisa ler livros. Desconheço casos assim, apesar de quase ter a certeza de existir esta raridade. Cansa ver membros de grupos online se agarrarem a essas exceções e torná-las regras. A dádiva da criatividade reservada a escritores inexiste, eles a obtém através das referências lidas e experiências vividas, tudo combinado com muita técnica e inúmeros erros antes do acerto. Ler também é participar do meio onde pretende trabalhar, possibilita a descoberta de autores com quem possa aprender e até ter amizade. A leitura proporciona prazer e jamais deveria ser ignorada.

Para Ler Como Um Escritor oferece dicas aos amantes da leitura a aprender e observar detalhes ocultos a quem apenas lê, e essenciais a aspirantes a escritor ou qualquer profissional literário. Publicado em 2006 por Francine Prose e lançado no Brasil em 2008 pela editora Zahar com tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, os onze capítulos demonstram como apreciar os elementos da escrita a partir de trechos transcritos no livro e comentários dos mesmos pela autora.

“Se querermos escrever, faz sentido ler — e ler como um escritor”

Francine Prose leciona o que nos Estados Unidos é chamado de Master of Fine Arts, cuja área abrange cursos artísticos e literários. O livro reflete as aulas delas em como reconhecer as qualidade da escrita a partir da leitura, e para isso seleciona inúmeros trechos de livros como exemplos do assunto principal de cada capítulo. A escolha dos livros é pessoal, por isso nem todos são tão conhecidos, apesar da maioria ser de literatura clássica e escrita há mais de um século. Além da escolha íntima dos livros, Prose reflete a experiência pessoal dela em todo o texto, o livro é baseado no aprendizado prático da leitura e lições apreendidas enquanto lecionava, tudo transparente ao leitor.

O começo apresenta a exposição desleixada da autora, dá a oportunidade de a conhecermos um pouco antes de acompanharmos suas observações competentes no restante do livro. Cada capítulo aborda certo elemento da escrita, seja a escolha de palavras, construção de frases e parágrafos; na concepção dos personagens, detalhes, narrativa, e mais alguns outros. Esses capítulos são compostos de comentários da autora e transcrição de trechos em que ela sugere a leitura atenta, e então ela explica onde ficam os detalhes do elemento correspondente ao capítulo.

“O que não está sendo dito é tão importante quanto o que está”

Todos os exemplos têm a mesma premissa: de reconhecer as qualidades do texto através da leitura atenta — chamado de close reading em inglês. Esqueça a ideia de terminar o livro o quanto antes e pegar o próximo da infinita lista de leituras de todo leitor, o importante é captar a qualidade. Prose nos ajuda a encontrá-la nos trechos selecionados por ela, e seus comentários dão dicas úteis a técnicas de escrita mesmo o foco do livro sendo a leitura. Certos capítulos são engessados, com muitos trechos a ler e muitos comentários a contemplar, exigem além da leitura atenta, também a releitura de absorver melhor os detalhes. Mesmo assim na primeira leitura já possibilita o aprendizado de muitos conselhos na escrita.

Os livros são, na maioria, de literatura estadunidense, inglesa e russa, com capítulo exclusivo das lições tiradas com leituras de Tchekov. Com todas as indicações voltadas ao exterior — incluído a lista de livros sugeridos pela Francine Prose —, esta edição tem o complemento de Italo Moriconi focado nas obras brasileiras. A literatura estrangeira tem a qualidade incontestável, mas é preciso destacar as particularidades da nossa linguagem pelos autores clássicos do Brasil, o que esse posfácio demonstrou muito bem.

Para Ler Como Um Escritor ensina muito enquanto recomenda o uso da leitura atenta. É um baú cheio de textos excelentes de vários livros com indicações de como absorver toda a qualidade desses. Desconstruiu algumas de minhas visões de determinados elementos enquanto abriu meus olhos a outros detalhes. Com certeza meu aprendizado com este livro fará com que eu avalie as próximas leituras com mais detalhes!

“Parte da obrigação do leitor é descobrir por que certos escritores permanecem”

Para Ler Como Um Escritor - capaAutora: Francine Prose
Tradutor: Maria Luiza X. de A. Borges
Autor do Posfácio: Italo Moriconi
Editora: Zahar
Ano da publicação Original: 2006
Ano da Edição: 2008
Quantidade de Páginas: 320

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Primeiro Escreva (Conceitos, técnicas e dicas de escrita)

Sempre quando falamos de conteúdo sobre técnicas e aprendizado de escrita, refletimos sobre a escassez deste conteúdo em nosso país. Existem livros internacionais muito úteis, e poucos são traduzidos no Brasil. Temos o crescimento de portais com ótimas dicas e assuntos levados com seriedade, como podcasts e canais no YouTube. Cursos de construção de enredo e escrita criativa também crescem em números, fomentando concorrência e incentivando a melhora do ensinamento. Os autores de hoje têm mais acesso ao conhecimento da escrita, isto levando em conta apenas o conteúdo em nosso idioma, pois a fonte de quem bebe do aprendizado em outros idiomas é ainda mais abundante. Acredito no futuro quando teremos tamanha fonte em nosso quintal, graças as iniciativas já citadas neste parágrafo e por quem dedica a dividir o próprio aprendizado por meio clássico: publicando um livro sobre a escrita.

É o caso de Primeiro Escreva, com dicas compartilhadas pela Mari Moura na plataforma Wattpad e disponibilizadas em eBook através da publicação na Amazon desde 2018.

Você não tem uma história até que alguma coisa dê errado para o seu personagem

As sessenta páginas dividem tópicos e sub-tópicos de elementos essenciais na ficção. Construção de enredo, como criar e desenvolver personagens, como planejar a voz narrativa e as descrições; tudo é abordado de forma sucinta, os poucos parágrafos demonstram argumentos da necessidade do escritor conhecer o assunto tratado e como aproveitá-lo na história.

Quem é Emily para o leitor senão uma série de palavras para descrevê-la?

Inegável alegar o quanto todos os tópicos abordados são úteis na construção de histórias, tanto a seleção dos assuntos como a explanação deles, cuja abordagem já incita a como colocar em prática. É possível motivar os escritores com essas dicas, fazê-los estudar mais determinado tópico após ver a abordagem sucinta neste livro. As dicas compartilhadas são comuns, boa parte vinda de outros materiais; é ótimo quando os novos trabalhos reúnem o conhecimento de outros já publicados, pois possibilita visualizar a base estudada pela autora e aprender com as conclusões desta, porém este livro não cita quais foram as referências, ajudaria muito o escritor a ter orientações de como saber mais sobre determinado assunto.

Existem muitos problemas consequentes da falta de revisão no livro. Tem a ineficiência na escrita com vários erros de digitação, ausência de acentos, palavras coladas com a pontuação e as vírgulas mal posicionadas ou ausentes. A estrutura do livro peca em espaçamentos sem padrão entre parágrafos, cita imagens inexistentes na versão analisada (ao menos até o momento da escrita desta resenha), e a sugestão de interagir com o conteúdo em determinadas partes atesta a falta de adequação do texto disposto no Wattpad para a edição da Amazon, pois apenas a primeira plataforma proporciona tal interação.

Primeiro Escreva oferece conteúdo interessante, este ainda escasso pela quantidade de livros do gênero feito por brasileiros, e parabenizo a autora pela iniciativa em contribuir com esta publicação. Entretanto me entristece notar a falta de empenho na adequação dos textos de uma plataforma a outra e a falta de revisão na escrita, ainda mais neste livro cujo exemplo deveria ser imprescindível.

Para criar um personagem é muito simples (ou não)

 

 

Autora: Mari Moura
Publicação independente na Amazon
Edição: 2018
Páginas: 60

Confira o livro

A Jornada do Escritor (Christopher Vogler)

Quem não deseja se tornar um herói? Tornar-se protagonista de uma aventura memorável, conquistar o grande prêmio na jornada cheia de desafios, aliados e problemas impossíveis. Tudo pode se perder, inclusive suas esperanças! Mas a perseverança o deixará mais forte, te ressuscitará, e a vitória será saborosa com o prêmio alcançado. 

Por outro lado, pergunto também: quem não é um herói? Cada um de nós passamos por fases, cruzamos mundos desconhecidos, conhecemos novos amigos e devemos superar dificuldades. Existem momentos de derrota, quando precisamos reerguer, abrir mão das fraquezas do passado e renascer para enfim vencer o obstáculo e conquistar o correspondente ao nosso Santo Graal. 

A Jornada do Escritor defende a existência do herói em todas as histórias, sejam elas ficções ou reais. Publicado pela primeira vez em 1992, o livro aborda a análise sobre a Jornada do Herói e discute seus conceitos entre diversos filmes de destaque. 

A Jornada do Escritor - capa

Christopher Vogler é roteirista de filmes e já atuou em grandes produções da Walt Disney, Warner Bros e Fox. 

O que acontece com herói acontece também conosco 

Os materiais principais do livro se dividem em duas partes. A primeira trata dos principais arquétipos de personagens existentes nas histórias. Já a segunda faz uma análise de cada um dos doze estágios da jornada do escritor. 

Christopher vai além de explicar o conceito de cada tipo de personagem. Ele faz comparações de vários filmes e demonstra as diversas funções desempenhadas por tal perfil, e ainda oferece dicas de como misturar arquétipos ou fazer personagens alternarem de tipos durante a jornada. 

O mesmo vale quando trata da jornada em si. Não precisa seguir cada fase da jornada à risca, e Vogler demonstra isso com os exemplos retirados em filmes. De obras com ação, humor, dramática ou romântica, destaca-se em qual cena cada uma delas tem consigo algum aspecto da jornada do herói, sendo a figura heroica o personagem principal com as suas qualidades, defeitos e necessidades a serem satisfeitas através da aventura. 

Por conter análises de cenas dos mais diversos filmes, obviamente há spoilers dessas obras, inclusive de pontos importantes e até do final. Muitos desconsiderarão este problema por ser filmes lançados muitos anos atrás e pelo conhecimento adquirido no livro ao discutir essas cenas. Então caso seja sensível às revelações do enredo, recomendo assistir os filmes a seguir antes da leitura, pois o livro conta toda a história: 

  • O Mágico de Oz; 
  • Os episódios de um a seis de Guerra nas Estrelas; 
  • Titanic; 
  • Pulp Fiction; 
  • Ou Tudo ou Nada; 
  • O Rei Leão. 

OBS: Há muitos outros filmes abordados com uma ou outra cena revelada. Cito apenas os mais expostos. 

Coletar reações, sejam positivas ou negativas, faz parte 

Fora os materiais principais, ainda há muito conteúdo referente a experiência do autor com a sua profissão. Esse conteúdo extrapola o escopo do livro e expõe os trabalhos feitos por Christopher em vez do assunto do livro em si.  

Eu adquiri o exemplar com a expectativa de ter quase quinhentas páginas de análise sobre a jornada do herói e materiais capazes de me aperfeiçoar na construção de enredo e escrita, mas uma parte do conteúdo foi sobre o currículo do autor. Peguei a terceira edição do livro publicada em 2007 e traduzida em 2015, e sugeriria cortar esse conteúdo destoante, pois serviria melhor como conteúdo de blog e mídias sociais, caso faça uma nova edição. 

Prefácio é outra parte problemática. Com introduções da segunda e terceira edições dispostas na íntegra, tornam-se um texto longo de apresentação antes de chegar no material do livro. Muito deste texto são justificativas da relevância da Jornada do Herói e a sua presença em várias histórias, ou seja, vende-se a proposta já comprada pelo leitor, pois já está com o livro em mãos. Desnecessário defender a sua ideia quando se pode conferir as informações no próprio livro e tirar as próprias conclusões. 

A Jornada do Escritor tem excelente conteúdo referente a proposta do livro. Escritores, contadores de história no geral e até espectadores aprendem com as análises feita através de filmes para sustentar seu argumento. Entretanto o livro peca no excesso de assuntos em que alguns fogem da proposta do livro, embora fale da experiência profissional do roteirista. 

Como Funciona a Ficção

Os aspirantes a escritores possuem dificuldade em ter uma orientação sobre a carreira no Brasil. Não existe formação nesta atividade, limitando-se a cursos de oficina literária ou com abordagens objetivas e por vezes restritas, quando comparados aos cursos de graduação. 

Fica ainda pior quando indivíduos não buscam informações sobre técnicas e teorias de escrita, sequer leem outros livros que contribuiriam o vocabulário e repertório de ideias ou que demonstra o quanto a “ideia original” do aspirante não é tão exclusiva ou quem sabe não aceita pelos leitores que pretendem alcançar. 

Felizmente os materiais didáticos e informativos sobre a escrita estão cada vez mais acessíveis em diversos formatos e plataformas. Seja podcasts, canais de YouTube ou blogs, muitos com conteúdo gratuito que podem mostrar o caminho das pedras aos aspirantes, além de dar dicas com tópicos específicos. Mas neste post eu destaco um livro de abordagem ampla sobre a escrita e a literatura. 

Como Funciona a Ficção foi publicado em 2006, cujo conteúdo é exposto em linguagem acessível àqueles que desejam conhecer os aspectos da escrita sob um olhar profissional literário. 

Como Funciona a Ficção - capa

James Wood é crítico literário com carreira ampla na área. Resenhista de jornais internacionais de destaque como The New Yorker e professor na Universidade de Harvard. 

É instrutivo ver bons escritores cometendo erros

Depois de uma breve introdução, o livro já começa a discorrer o assunto sem devaneios. A abordagem fica mais direta através das divisões ao longo do tema, a maioria de poucas linhas ou parágrafos.  

Essas divisões, por outro lado, não fragmentam o conteúdo do livro. O próprio autor deixa claro que ao abordar um tópico já atrai os demais, e de fato se analisa todo o contexto literário por mais que o capítulo seja sobre um aspecto em específico. 

As análises e informações expostas no livro são discutidas a partir de diversos trabalhos de escritores, seja do inglês Shakespeare, do russo Tolstói, do francês Flaubert e até do português Saramago. A ampla bibliografia é citada no fim do livro, e acredito que ao ler alguma das obras citadas, se fará uma análise tal como Wood fez depois de aproveitar o material de Como Funciona a Ficção. 

Não são “irrelevantes”; são significativamente insignificantes

Não irá encontrar dicas práticas sobre a metodologia da escrita, pois a discussão se foca no quê a literatura se formou conforme os trabalhos literários.  

Ninguém conseguirá se tornar escritor consultando apenas uma fonte, mas Como Funciona a Ficção é uma dessas fontes excelentes para conhecer o que o profissional se propõe a criar através da escrita dentre outros trabalhos complementares ou complementado por esta.

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