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Edgar Allan Poe — Medo Clássico (Vol. 1)

Histórias fantásticas existem de monte, e temos o privilégio de conhecer as atuais e antigas também. De lendas sobre criaturas originárias do medo em tempos mais simples a seres inconcebíveis deste planeta no horror cósmico, temos ainda um intermediário a sustentar o suspense e terror no meio urbano, entre pessoas. Já são 210 anos desde o seu nascimento, 170 da morte; tais números falham em representar o legado, da inumerosa inspiração proporcionada pelos contos e poemas nas gerações posteriores, remetente a atual e ainda das próximas.

Refiro a ninguém menos que Edgar Allan Poe. Os quinze contos selecionados na coletânea Medo Clássico da editora DarkSide deste primeiro volume oferecem a oportunidade de conhecer o trabalho do escritor clássico da literatura gótica, ainda presenteia o poema “O Corvo” no idioma original mais as traduções de Machado de Assis e Fernando Pessoa.

Ler Poe é, antes de tudo, reconhecê-lo

O livro divide cinco categorias com três contos cada e finaliza os trabalhos do Poe com o poema “O Corvo” na versão original e duas traduções portuguesas, a primeira de Machado de Assis e a outra por Fernando Pessoa. A edição ainda traz prefácios da tradutora e um dos biógrafos — e fã — do autor, encerrando o livro com as fotos da única casa de Poe ainda de pé e uma breve biografia.

Sobre as cinco categorias:

ESPECTRO DA MORTE: os personagens vislumbram — pelos olhos e tato — as ameaças à vida. “Desceu sobre meu espírito a calma contida do desespero.
NARRADORES HOMICIDAS: são histórias cujo personagem/narrador é autor das atrocidades. “Mas amanhã estarei morto, e hoje preciso remover este fardo de minha alma.
DETETIVE DUPIN: com as três histórias do detetive mais antigo dentre os conhecidos da literatura policial. “Não é um completo idiota — disse G. — mas é um poeta, o que é quase a mesma coisa.
MULHERES ETÉREAS: as personagens principais são femininas e as histórias contadas pelo personagem/narrador que tanto as admira; a morte também é aspecto comum das três histórias. “Estes são os olhos grandes, negros e estranhos de meu perdido amor.
ÍMPETO AVENTUREIRO: os personagens encaram experiências adversas, seja a tragédia durante a viagem, o auxílio do amigo de sanidade dúbia ou a consequência do ato incentivado por alguém estranho. “Qualquer obra de ficção deve ter uma moral.

Foi autêntico em vida para ser caricatura em morte

Com exceção de O Baile da Morte Vermelha, todos os contos são narrados pelo personagem, alguns contam a história do protagonista em seu ponto de vista e outros a protagonizam. Tecendo as imagens góticas por meio das palavras, é preciso calma para vislumbrar o quadro de suspense pincelado em extensos parágrafos que pintam cada detalhe. O detalhamento é comum nos escritos desta época e podem desmotivar leitores habituados com obras recentes, porém é recompensador vencer este obstáculo e descobrir como desenvolvia a aura de suspense nas obras passadas. Também tem cenas de mutilação e evidências da agressão tão corriqueiras nas literaturas violentas de hoje. Além da definição feita pelo personagem ao testemunhar o horror, a visão limitada do narrador colabora com o mistério dos atos sem oferecer todas as respostas do resultado tenebroso — exceto nos contos de Dupin, pois toda a investigação é explicada.

O Corvo é o poema mais conhecido de Poe. Este volume antecede o poema com declarações do autor em como desenvolveu os versos. É sobre o jovem em luto pela amada Lenore, surpreendido pela visita de um corvo capaz de pronunciar apenas a palavra nevermore, expressão que responde a todas as indagações feitas pelo jovem. Os versos desenham a melancolia do amor rescindido pela morte.

Edgar Allan Poe: Medo Clássico Vol. 1 é um dos vários livros capazes de proporcionar o conhecimento do autor clássico por novos leitores. Os colecionadores já cientes dessas histórias também podem adquirir este exemplar pelos desenhos artísticos e informações biográficas de Poe.

Até mesmo no túmulo, nem tudo está perdido

Edgar Allan Poe - Medo Clássico Vol. 1 - Capa

 

 

Editora: DarkSide
Edição: 2017
Tradutora: Marcia Heloisa
Ilustração: Ramon Rodrigues
Páginas: 384

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Mago e Vidro (A Torre Negra, Vol. IV)

O grupo está formado e retoma a aventura interrompida no volume anterior, encara a disputa inusitada com risco de perder a vida, também chega a hora de O Pistoleiro contar a própria história, deixar os amigos o conhecerem melhor e tirar o peso de si. Assim determina o ka, que alinha tudo no final das oitocentas páginas sem expor a “Mão” do autor.

Mago e Vidro é o quarto volume da saga A Torre Negra, publicado em 1997. Stephen King retoma a história de Roland de Gilead no sentido de contar acontecimentos bem antes da perseguição ao Homem de Preto, sobre o passado romântico na adolescência.

Mago e Vidro - capa

Você não pode ir contra a sua natureza, Roland

Sem entrar em detalhes por conta de spoilers da saga, Mago e Vidro começa no exato momento em que Terras Devastadas “terminou”, só que esta primeira parte ainda deveria pertencer ao livro anterior, cujo final foi interrompido. Já as outras três partes de Mago e Vidro contam o novo episódio da saga, onde Roland conta acontecimentos imprescindíveis do passado, esses interligados com o presente na conclusão.

Roland revela a história de quando tinha catorze anos, pouco tempo depois dos flashbacks narrados no primeiro volume, quando ele vai a Mejis acompanhado dos amigos Cuthbert e Alain numa missão simples, com a intenção de ficarem longe das ameças em Gilead. Roland conhece Susan nesta nova cidade, sujeita a prestar serviços de concubina ao prefeito Hart Thorin e garantir um herdeiro a ele. O problema começa quando o jovem Pistoleiro se apaixona pela garota com sentimento correspondido. Embriagado pelo amor, perde o foco frente a segredos de Mejis que tiram a visão ingênua de povoado pacato, pois há uma conspiração feita por pessoas  a quem ele e os amigos queriam evitar.

Adoro sua sutileza quando estamos em situações difíceis

Os personagens já reconhecidos e carismáticos que acompanham Roland no presente ficam de lado e escutam a mesma história transcrita no livro. King desafia a si em desenvolver pessoas apenas citadas por Roland nos volumes anteriores, apresentar as demais envolvidas na cidade de Mejis e entregar a história pendente deste livro — as 800 páginas não são à toa. Cenas dão espaços a pontos de vistas dos personagens secundários, úteis a revelar novas situações daquele lugar. A trama envolve mais características do Mundo Médio, desde os costumes locais, discussões sobre o mundo seguir adiante, os aspectos do Povo Antigo e as conspirações de pessoas no caminho de Roland por toda a saga. Todos esses elementos tornam a leitura mais complexa comparada aos livros anteriores.

Quem conhece os trabalhos do King conhece a dedicação dele por acontecimentos de camadas distintas, as quais umas avançam o enredo principal, outras desenvolvem os personagens e demonstram a riqueza de seus detalhes, e as que mesmo sendo dispensáveis na trama central, são importantes naquele momento da trama. O autor consegue equilibrar essas nuances e deixar os acontecimentos chaves sutis, aqueles necessários para continuar a história, mas nada tão óbvio como eram em Terras Devastadas.

O fato mais horrível era que corações partidos saram

Mago e Vidro provoca o leitor a uma leitura densa só de ver o calhamaço de sua composição. As oitocentas páginas entregam uma história satisfatória, embora eu acredite de as primeiras cem ficarem melhor em Terras Devastadas mesmo. Passado e presente alinham acontecimentos essenciais na jornada à Torre Negra, tudo graças ao ka feito o vento a soprar em todas as direções.

O Talentoso Ripley (Patricia Highsmith)

As aparências enganam, formam constatações com base na ficção, esta apresentada como a realidade. Nossa sobrevivência não é feita de forma natural, e sim de adaptação ao sistema construído sobre leis e interações sociais, as regras de ambos os conceitos contém brechas, uma ou outra pessoa é capaz de quebrá-las e sobreviver deste modo. 

Viver em função das ficções criadas por si lhe dá a vantagem de ser imprevisível sem os outros notarem, e tem como consequência a formulação constante da estória reproduzida como história, adequando contra as falhas e põem em risco o jogo feito consigo e a vida. 

O Talentoso Ripley é o articulador de histórias da realidade. Publicado em 1955, conta a aventura do protagonista que se passa por alguém conhecido de Richard Greenleaf, porém faz o próprio jogo enquanto disfarça suas intenções. 

O Talentoso Ripley - capa

Patricia Highsmith é escritora renomada de suspense policial. Ganhou prêmios importantes como o Edgar Allan Poe e teve algumas obras adaptadas ao cinema, sendo O Talentoso Ripley duas vezes. 

Nada do que ele levava a sério acabava dando certo  

Tom Ripley mantinha a rotina de visitar bares noturnos de Nova York enquanto é seguido por um senhor. Temendo ser policial, evita contato direto, até ele o alcançar e se apresentar como Herbert Greenleaf, o pai do amigo dele. Ripley diz se lembrar do filho Richard Greenleaf, o Dickie, embora oculte de não serem amigos tão próximos. Então o pai pede ao Tom para tentar persuadi-lo a voltar da Itália, desabafa sobre o descaso do filho com as oportunidades da vida morando de forma reclusa. O Sr Greenleaf propõe pagar pela passagem e pelo serviço de convencer Dickie. 

Ripley aceita a proposta, contente por deixar a rotina de falsificar cobranças do imposto de renda de pessoas desconhecidas, vai até a Itália e encontra Dickie no vilarejo remoto chamado Mongibello. Aprende os costumes e idioma do lugar enquanto tenta conversar com o Richard, cada vez mais incomodado pela presença do Tom. Incapaz de convencê-lo a voltar aos Estados Unidos, Ripley recebe uma carta do pai de Dickie o dispensando dessa tarefa, mas ele insiste em viver na Itália com uma nova situação que comprometerá toda a narrativa em diante. 

É como numa peça de Shakespeare ou algo assim!  

Impressionei-me com o modo de pensar de Ripley e as suas atitudes ao manter seus planos. Ele se atenta a detalhes e faz movimentos sem os demais personagens perceberem, engana até os experientes contra fraudes — ou nem tanto. O Ripley é o primeiro a supor as próprias falhas, premedita as possibilidades capazes de comprometê-lo, muitas de um pessimismo provocante; convence o leitor a virar as páginas seguintes e ver o que acontecerá quando ou se as previsões do protagonista acontecerem. O protagonista nos antecipa com a ficção dele e então o decorrer dos capítulos traz a verdadeira narrativa. 

Há falhas de tradução na edição lida por mim. Colocaram a palavra alto na tradução de high quando se referia a bebidas, ou seja, nas passagens em que os personagens estavam bêbados, a descrição confundia dizendo o quanto estavam “altos”. Também vi problemas na conjugação do verbo querer, onde colocaram no pretérito do indicativo (queria) em vez do subjuntivo (queira). Esses dois exemplos repetem em todo o livro. 

Fora os erros de texto, reafirmo a capacidade de construir esta ótima narrativa sob a perspectiva de Ripley, sempre em confronto com os acontecimentos presentes. Além de talentoso, eu citaria títulos desagradáveis ao protagonista, apesar de ainda parabenizá-lo pelas estratégias audaciosas e as precauções quanto as consequências causadas por ele mesmo. 

Um Banquete à Borrasca, de Auryo Jotha

E continuamos os posts especiais de novembro com o conto do convidado! Outro autor teve o prazer de compartilhar um de seus textos e mostrar do que é capaz, lembrando que no fim do post tem link com seu perfil e indicação de livro. Se não viu o conto de Wan Moura que abriu o mês com esta novidade, clique aqui e conheça.

Auryo Jotha é o autor do conto de hoje. Sua obra principal é Carne Morta, um livro do Wattpad que foi um dos vencedores do maior concurso da plataforma, o The Wattys 2018. O livro mantém-se atualizado com novas histórias de mitos já conhecidos com uma pegada mais sombria. É um entusiasta da mitologia existente em nosso território, seja ela brasileira ou anterior a chegada dos europeus.

Assim como o convidado antecessor, Auryo nos trouxe uma demonstração tenebrosa de suas habilidades narrativas com a história sobre o mito grego, mas ainda com elementos brasileiros. Então tire as crianças da sala durante a leitura! Ou se você for uma criança, recomendo ler O Pequeno Príncipe. Brincadeira! Pode (e deve) ler O Pequeno Príncipe na idade que quiser. Aproveite o texto de Auryo Jotha a partir de agora:

Carne Morta - Auryo Jotha


Um Banquete à Borrasca

Sim… como havia sentido falta daquilo.

De novo o toque fresco de outro corpo ao seu.

Sem cama, sem tempo. As roupas? Rasgue-as, puxe-as! Pois nem o cheiro, nem o gosto dele a sacia. Mais… Mais… Mãos. Apertos. Um passar de língua.

O frio do chão contra as costas dele. Os dedos deslizando pelo suor naquele corpo, entre os pelos, pelo umbigo. Um carinho. Machuca.

Isso…!

Sob o peso dela: lágrimas e desejo e um pouco de calor. Forçava. Arranhava. E ele mantinha o olhar parado no rosto dela.

Curve-se! Ela alcançou uma boca à espera. Saliva.

As rugas pesavam em seus olhos. O tempo secava sua garganta. Sozinha, restava-lhe sobreviver.

Da cabeça dela o cabelo ralo e branco escorria pelas eras; enquanto seu corpo foi lentamente perdendo a força, a firmeza, a opção de não tremer; mas mesmo assim permaneciam: ela e suas penas negras.

No entanto, tudo já era tão velho… A poeira se acumulava vagarosamente em cada pedra. O vento do meio dia entrava pela abertura da caverna e se deitava sem forças no escuro entre o pó, entre cacos, entre ossos, entre…

Ah…!

As mãos sobre a pele deixavam um rastro de sujeira. Seus dedos imundos abriam a boca dele e enfiavam algo lá dentro. Era inútil. Mesmo assim, ela o agarrava, o colocava dentro de si novamente, tinha que aproveitar o calor que ainda restava nele.

Feitos em asas, seus braços o cobriam. As escamas de suas pernas roçavam na pele jovem. Sua língua preta, seca, passeava por aquele corpo já morto, ainda quente.

A Harpia parou. Ergueu o rosto:

— Quantas visitas… — Saiu de cima do rapaz, com uma mão entre as pernas tentando conter o que escorria por suas plumas. — Quantas visitas me honram hoje.

Deu dois passos lentos que não perturbaram a camada de poeira. Direita, esquerda, direita: com a cabeça ela procurava. Eles estavam bem à sua frente.

Um deles engatilhou uma arma. A Harpia se virou para aquela direção, arqueando as asas e abaixando o pescoço, em seus olhos leitosos ainda havia um tom selvagem e ameaçador.

Uma mulher se pôs no caminho daquele olhar, tirou a arma das mãos do companheiro, sem emitir um som ela moveu os lábios em um expressivo “idiota”. Lançou um olhar para cada um do grupo. Depois voltou-se para a criatura com um enorme sorriso, contudo ao se lembrar que a catarata filtraria seus gestos ficou séria.

— Perdão. Que espécie de visita sou eu, que puxa uma arma assim. — Abaixando-se — Veja! — Colocou a arma no chão. — Agora estou desarmada. Me desculpe mais uma vez.

Ao ouvi-la chutar a arma, a Harpia se endireitou na medida do possível já que sua coluna havia se curvado com as décadas que se agarravam às suas costas. Esperou…

— E quem é você, minha coisinha?

— Ninguém. Eu só estava per…

— NINGUÉM!? — Um passo. — Já sou cega, mas não burra. Ninguém? Como tantos outros antes de tu? — Um passo. — Como tantos outros heroicamente enviados para a Morte? — Bateu os dentes do bico com força. — São tantos os que caem. Não acredite em tudo no que dizem; não, não acredite, e não tente me enganar, Ninguém. — O ar lhe saiu como uma leve gargalhada.

— Luna! — Apressou-se. — Luna. Desculpa, não ter dito antes. Esse é meu nome. — Mentiu. E fez um sinal para que os outros três avançassem para os fundos da caverna e procurassem o que vieram buscar. Pés cautelosos, olhos na Harpia e onde pisar.

— Humm… Pois bem, Luna-Ninguém…

A criatura se virou abaixada com a uma pata erguida em busca do corpo nu atrás de si. Elegante. Fincou as garras no crânio dele, e o levantou devagar. Um sorriso contido. As pernas dele arrastaram-se na pedra, quando foi mostrado para a visita.

— Amigo seu? Ou de ninguém? Encontrei esse mais cedo andando por minha caverna.

— Não! — Não era uma resposta ao que fora perguntado. Os olhos fixos no rapaz marejaram. Recompôs-se. — Felizmente, não.

— Muito bem, Luna, e quantos vêm contigo? — Sua voz saiu rasgada, áspera.

— Sou apenas eu.

— O quão imprudentes são os Homens, não? — Soltou, e o corpo caiu sem jeito. — Mas é uma pena serem tão frágeis.

A moça fechou os olhos, respirou fundo, tentando se acalmar. Dois de seus companheiros já haviam sumido nas sombras ao fundo da caverna, o outro ficou no meio do caminho para caso algo desse errado; Luna olhou para ele, arma em punho, mira na Harpia, qualquer movimento atiraria, sabiam do risco, por isso ela não havia jogado tão longe a arma, estava ali no chão ao alcance; a criatura veria se tentasse?

— Sei que parece um absurdo, vir… — ela prendeu o fôlego quando a criatura começou a se aproximar de novo — um absurdo vir até aqui desacompanhada.

— Realmente, minha cara. — Mais três passos. — O que tens? Não tenha medo, pode se aproximar, como vês já tenho comida… para hoje.

A Harpia ficou séria de repente. Inclinou a cabeça para um lado. Suas garras arranharam a rocha. Ela ouvirá algo? Não!

— Me desculpe!, — Luna deu uns passos p’ra frente — de novo. É que estou muito cansada, não queria ser mal-educada. É que nos últimos anos viajo sozinha — os olhos da criatura voltaram a mirar sua visita — e acho que desaprendi como lid…

— Pois me conte. Você acertou meu ponto franco, sempre estou disposta para uma boa história; e se tiver sorte não só eu a conhecerei…

Nem todos juntos a matariam; só agora entendia isso. Essa era a oportunidade. Agarre-se! Tinham que conseguir o que vieram pegar. Fale!

— H…? Bem… Vi lugares e seres incontáveis. Ouvi — fez uma pausa involuntária ao perceber que havia se afastado do local onde havia jogado a …! — Ouvi os mais extraordinários mitos, lendas. Perigos vindos em todas as formas. Porém nesse tempo havia mais gente comigo, lógico, eramos…

— E o que houve?

A Harpia chegou tão perto; Luna não podia recuar.

O medo é fétido.

Olhou para trás em busca da arma. Continue!

***

Uma bagunça. O ar em podridão no fundo da caverna fazia com que os dois respirassem rápido e prendessem o fôlego; a saliva se acumulava não querendo ser engolida. O chão estava escorregadio de umidade e das sobras de antigas refeições.

“Entendo.” A voz da Harpia rastejava até eles pelas sombras.

“Principalmente porque não sabíamos o que era aquilo”. A de Luna também. Estava tudo correndo conforme as instruções recebidas.

As luzes das lanternas passavam por ossos, palha, tecidos retalhados, algo que lembrava um ninho, restos de animais, um livro, espadas, joias que mal brilhavam por baixo da sujeira. Cadê?

“Descemos o rio…” Enquanto as vozes conversassem eles estavam a salvo. “… ele ‘tava ferido, mas ainda conseguia ficar…”

Tinha que estar ali; trazido junto com alguma refeição antiga. Perdido há anos, finalmente localizado; a informação era certa, tinha que estar ali. Talvez estivesse encoberto pela sujeira.  Um deles apertou com a mão uma medalha que trazia no peito: um santo carregando uma lança e um lampião – São Longino.

“…ntramos o que ‘tava causando todas aquelas mortes…” Acabou. Não havia mais para onde ir, tinham agora que revirar cada corpo, cada monte de roupas, revirar os minutos que não possuíam. “…tínhamos que queimá-la…”

E se jamais fora levado p’r’aqui? E se nunca…? Não! A informação era confiável. Não era?

“MENTIRAS!” A Harpia berrou. E o som de asas pesou o ar.

***

— Estou velha, como pode ver. Mas, séculos e mais séculos não mudam os Homens; o que verdadeiramente quer aqui?

— Eu… — hesitou.

— Sem timidez, diga-me. — O hálito forte.

— Por favor, eu… — a criatura entortou a cabeça para ouvir. — Eu sei… que parece…

— Mais mentiras? Insistirá nisto? Então, eu mesma descubro. — Encostou o bico no braço de Luna e respirou fundo. — Estranho. Não sinto o seu cheiro.  Por quê? De onde vieste?

— Br… Brasil.

— Impossível. Como conseguiste fugir de lá se as fronteiras estão fechadas para nós? Eu sei, Luna-Ninguém… Nem se espante. Posso viver isolada, mas sei de muito do que acontece em outras terras. A opressão e a caça que ocorrem lá chegaram até meus ouvidos.

— Eu… — A proximidade da Harpia a incomodava.

— Não houve fuga. É isso…? Livre acesso? Livre saída? E isso é o que me deixa mais curiosa por saber quem te enviou. E como fala tão bem o meu grego? Sua língua foi encantada com prata? Peixe Babel? Diga-me.

— Fugi pelo sul do país com a ajuda de um espírito e cavalos invisíveis.

— Pséma! Pséma. Mentira! Eu sei que o Errante se levanta… que escolas bruxas foram fechadas, oráculos perseguidos, vampiros mortos, sei que licantropos servem como cães farejadores. Mesmo que escondam… é um país em guerra. Responda-me: por que alguém que fugiu de tamanhos horrores iria querer morrer aqui?

— Vim em busca de algo para deter tudo isso.

— Se é no que acreditas.

A Harpia abriu as asas, desprendendo de seu corpo uma lufada de odor e podridão. Suas asas envolveram a moça, taparam sua visão. E com uma das patas agarrou-lhe o queixo.

— Mentiras! MENTIRAS. — Sentiu o cheiro do sangue a escorrer pelas pontas das garras em contato com a pele. E puxou. O maxilar da moça foi arrancado, e sua língua balançou em sangue. Sem gritos, sem gemidos, os olhos se apagaram de dor.

A poeira dançava ao redor. Ouviu-se um tiro. Tarde demais.

ATIRA!

Ela caíra mole no chão.

ATIRA! ATIRA!

O gatilho. As balas. A criatura se virando. Aqueles olhos brancos. Cegos.

VAI! ATIRA!

Um grito agudo, seco rasgou-se da garganta daquilo e jorrou-se por entre os dentes, por entre o bico aberto.

Não, não.

Ela não morria; POR QUÊ?!

Em segundos as garras da Harpia se encaixaram no crânio do que ficara de guarda; e a pata desceu… Ossos esmagados, algo escorrendo por entre os dedos: silêncio.

…!

Ela esperou mais algum ruído… eles sempre faziam.

— QUEM OS ENVIOU ATÉ MIM?

Com os compridos dedos entrelaçados às costas, caminhava em direção aos fundos da caverna deixando uma pegada de sangue pelo caminho, junto com raras gotas vindas das feridas deixadas pelas balas.

— MAS ME DIGA QUEM DISFARÇA O VOSSO CHEIRO? Magia… não? Tanta CAUTELA assim… Quem seria…?

Os joelhos se dobrando ao inverso dos dos Humanos a levavam mais e mais perto dos dois últimos visitantes encostados à parede.

— Ah eu sei o que quereis… O que tu procuras há muito foi levado.

Abriu as asas tentando fechar a passagem. Curvada, caçava: movia lentamente as asas para alcançar qualquer coisa viva. Um único som era o que precisava.

— Não há recompensa para esta missão. Não há caminho de volta. Não haverá banquete à tua espera. Ficarás aqui: meu caro herói anônimo… derrotado no meio da jornada. Como ninguém.

Cega: ela agarrava o ar. Mais um passo. A respiração presa deles dois iria denunciá-los quando fosse solta. Mais um passo. Os dedos da criatura quase os tocavam. Aquela língua seca, negra queria ser saciada. Mais um passo. Cada pena de seu corpo arrupiava-se com a Morte.

Os dois precisavam arriscar. Um olhar, um acenar de cabeça. Soltaram o ar quase juntos, e saíram correndo para lados opostos. Sacaram as armas; mirar e correr: atiraram ao léu.

A Harpia agarrou um jogando-o no chão. Bem seguro, deitou-se sobre ele, abriu o bico, inclinou-se; uma bala entrou-lhe pela garganta, mas a criatura continuou, fechou o bico com um único movimento entorno do rosto de sua visita, que se fora com um estalo. E a arma ainda fumegante caiu inerte no chão.

O último de seus visitantes era agora passos distantes. Iria atrás dele? Ensopada, um pouco ferida, levantou. E os olhos brancos dela miraram a saída.

***

Sim! Estava a salvo. Tremia, as lágrimas lhe escapavam como o ar dos pulmões. Sobrevivera. Descera a montanha esperando ser içado aos céus a qualquer momento, depois ser arremessado lá de cima. Mas, agora… estava sob a proteção de um bosque, e mesmo que próximo da caverna não haveria mais perigo.

— Consegui! — Um sorriso ergueu essa palavra no ar por alguns instantes.

A Harpia estava morta, sim… era isso que diria para todos. Mesmo que não tenha conseguido salvar mais alguém do seu grupo, e nem recuperado o que tentaram achar, matara a Harpia, isso já era muito, já seria uma história e tanto. A criatura ia terminar de se apodrecer naquele lugar. Morta com um tiro na garganta. Ele mesmo que a enganara contando histórias, arriscara-se muito e sozinho, sozinho, mas era o único jeito de acabar com aquela aberração. Sua própria bala rompera a vida dela. Isso… Um herói!

O melhor é que não sobrara alguém para desmentir sua história. Um herói.

A glória enfim estava pronta para ser colhida.

Por entre as árvores uma sombra de asas passou sobre ele seguida por um vento forte com cheiro de chuva.

— Um gavião… — Disse para si. — É só… um gavião…


Mais de Auryo Jotha:

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Livro de contos Carne Morta

Detetives Selvagens (Roberto Bolaño)

Vivemos em momentos de polarizações. Qualquer menção contrária às crenças de algumas pessoas é repugnada sob o desejo de eliminar da história. Conceitos distorcidos se alinham as ideias radicais e simplificam a visão entre dois lados, o da pessoa e o da oposição, o inimigo a ser combatido. Por isso começo o post com este aviso: caso seja sensível a conteúdo adverso a sua rotina, recomendo evitar a leitura deste livro. 

Do mais, escritores possuem rotinas distintas de trabalho e muitos mantém a vida econômica com emprego fixo enquanto a escrita é uma atividade secundária. Há outras formas de viver aproveitadas pelos literatus, estas nem sempre de bons exemplos. 

Detetives Selvagens conta sobre os trabalhos de poetas americanos de língua espanhola, em especial Ulisses Lima e Arturo Belano. Publicado em 1998, possui três partes que narram a vida desses dois protagonistas de forma indireta. 

Detetives Selvagens - capa

Roberto Bolaño nasceu no Chile, mas viveu exilado do país natal, na maior parte da vida no México, por um tempo na Europa, e só voltou ao Chile uma vez por questões políticas, quando permaneceu pouco tempo preso com a vitória da oposição. É um dos escritores chilenos mais reconhecidos, inclusive premiado com o prêmio Rómulo Galegos com o próprio Detetives Selvagens. 

Método perfeito para que ninguém ficasse amigo de ninguém  

A primeira parte do livro consiste no diário de Juan García Madero, aspirante a poeta negligenciado sob pressão familiar. Frequenta uma oficina literária de qualidade duvidosa até conhecer Lima e Belano e o seu movimento visceral-realista, quando também se integra ao grupo. 

A segunda parte abrange o período de vinte anos — de 1976 a 1996 — em que reúne relatos narrados pelos mais diversos personagens, todos com alguma relação aos dois poetas. Por fim retoma o diário de García no momento exato de onde parou a primeira parte, na virada do ano para 1976, quando ele e os protagonistas procuram a poetisa precursora do visceral-realismo enquanto fogem de um certo perigo. 

A literatura não é inocente  

Entre citações de sexo, drogas, política e conflitos locais, o livro perdura com citações constantes de obras literárias e do trabalho feito pelos vários personagens envolvidos. De discussões sobre conceitos estruturais de poemas a análise de filme baseado no livro de Stephen King, como exemplos. Vê-se o reflexo do acervo literário do autor com essas menções entre as pessoas criadas em Detetives Selvagens. 

O domínio das situações políticas e a discussão aberta de vários assuntos polêmicos na obra é de se impressionar. Descrições explícitas conforme quem as conta podem provocar o leitor. Longe de trazer heróis nas seiscentas páginas do livro, difícil sentir simpatia por personagens problemáticos e de péssimos exemplos, porém ainda com histórias para contar. 

Detetives Selvagens aborda a intimidade dos poetas hispano-americanos a níveis muito particulares, sem pudor a ponto de trazer histórias fora do comum sobre os protagonistas. Narrativa longe de ser objetiva, convida o leito a serem os detetives a juntar as peças espalhadas nos relatos e conhecer Ulises Lima e Arturo Belano. 

A Hora do Lobisomem

Chego aqui com outra história de lobisomem. Em vez da alcateia da Serra da Cantareira  ou da Revolução Farroupilha, o livro de hoje passa em Tarker’s Mill, cidade remota dos Estados Unidos.

Sua hora chega em cada ciclo de lua cheia, uma vítima diferente por mês. A princípio imaginam ser um assassino em série, lunático e metódico. Apenas o garoto deficiente sobrevive, e ele afirma sobre os ataques serem de lobisomem.

A Hora do Lobisomem chega mensalmente na cidade de Tarker’s Mill. Publicado em versão ilustrada pela editora Suma no ano de 2017, o livro narra as aparições da Besta ao longo de um ano.

A Hora do Lobisomem - capa

Escrito por Stephen King, famoso por escrever histórias de terror, com muitas dessas adaptadas em séries e filmes.

Rosnados soam terrivelmente como palavras humanas

Dividido em meses no lugar de capítulos, o livro foca apenas no monstro lupino e nas pessoas envolvidas com ele, sejam vítimas ou relacionadas a essas.

São textos curtos, quase como contos que compõem a história. Cada mês foca em pessoas diferentes, com acontecimentos relacionados a lua cheia, embora o autor tome liberdade de não seguir os ciclos lunares de nenhum ano específico, adaptando a aparição plena do satélite natural para corresponder ao enredo.

Quando a hora chega, trechos curtos demonstram a ação impactante do lobisomem com golpes violentos. Apenas as descrições são o suficiente, porém essas são reforçadas pelas ilustrações da versão distribuída pela Suma.

A besta está em toda parte! Em toda parte! Em toda…

Esta obra é peculiar ao Stephen King, autor conhecido pelas histórias que preenchem várias centenas de páginas. A Hora do Lobisomem se predomina como uma história minimalista. As poucas tramas secundárias mesclam a história principal e servem como elementos de suspense, esses logo revelados.

Não se passa a impressão da história acontecer ao longo de um ano. Apesar da divisão da narrativa pelos meses, cada episódio mensal conta ações críticas ocorridas em questão de horas ou até minutos, salvo poucos meses. Fica incompatível ver a história de um ano em menos de duas horas de leitura.

O livro tem pouca profundidade e serve como folga entre leituras longas ou a quem deseja algo espontâneo, mas garanto agradar os leitores de histórias sobre lobisomens sem pudor contra os humanos.

O Conto de Manoel

Manoel resolveu existir! Saiu do meu conto de três partes e quis escrever a sua tão desejada história, e eu permiti. Confira o texto dele a seguir, espero que gostem!

Conto de Manoel

Saio da mórbida lanchonete em que trabalho há dois meses, nada como o cheiro de óleo engordurando as narinas. Não posso negar, odeio esse emprego, mas foi o que pude conseguir no momento, não há muitos trabalhos que aceitem jovens inexperientes recém-formados do ensino médio. Também não posso esconder que a timidez atrapalha um pouco o contato com os clientes, sem falar que ainda tenho certo temor da bandeja encontrar o chão e eu esbarrar na demissão.

Porta range rabugenta a minhas costas, o estabelecimento fechou faz algum tempo, mas só podíamos sair depois de lavar a louça, depois do “Tchau” do chefe. Suspiro aliviado, almejando a comodidade do lar e enfim poder descansar.

Chuva castiga o guarda-chuva a cada passo, a lama da rua sem calçamento suja meus sapatos seminovos. As luzes dos postes oscilam, ando um pouco mais depressa.

O aspecto dessa parte do bairro em que preciso atravessar já é sinistro em uma noite comum, e nessa tempestade parecia mais apavorante. Casas antigas destruídas e outras permanecem inteiras, porém abandonadas. Algumas em particular possuem o boato de serem mal-assombradas. Os contos horripilantes que meus colegas narram sobre aquela região me afligem, mas não tinha outra escolha a não ser seguir em frente e rezar para que tais coisas não passem de simples boatos.

Piso numa poça, o sapato todo entra no buraco de lama fedida.

— Mas que droga!

Vou em direção a um dos postes acesos, agacho para ver o estrago, um aspecto estranho. Passo o indicador e levo ao nariz, não parecia só lama…

Engulo em seco, olho de um lado a outro. Ninguém. Continuo o percurso pela calçada. Seguro a alça do guarda-chuva com mais empenho, o céu cairá com tanta chuva.

A luz do poste mais próximo se apaga. Escuto com pavor uma risada fina, procuro de onde vem. Nada. Continuo andando com um soluço de desespero preso na garganta. Não sou corajoso.

Outra luz se apaga, estou a ponto de correr. Avanço quase tropeçando nos próprios pés, as luzes dos postes se apagam a medida que passo por eles. A risada estridente soa ao vento de novo, chega a meus ouvidos, e a pele arrepia.

Ergo a vista para o outro lado da rua. Meu corpo gela. A única coisa que vejo é um ser escuro. Coração acelera. Estou num pesadelo? Num filme de terror?

Corri. A ventania violenta empurra o guarda-chuva, não aguento, escapa de minhas mãos, o vejo rodopiar centenas de vezes, não interrompo a corrida. Chego a esquina, as gotículas me atingem com força.

Escorrego quando o ser se materializa na minha frente. Caio sentado no barro molhado, emporcalho mãos e toda a roupa tentando me arrastar para longe, mas aquilo agarra meus ombros e me levanta.

Era tudo escuro de uma forma borrada como se eu tivesse adquirido problemas de visão de repente. Somente se pode ver dois brilhos vindo do ser maligno, pareciam brasas acesas vindo de olhos completamente brancos.

Aquele ser se aproxima, sinto meus lábios sendo sugados. Mãos agarram minha cabeça, palavras incompreensíveis são sibiladas, lacrimejo e vejo círculos no ar, vários deles. De tamanhos diferentes, no começo flutuam sozinhos, depois se juntam um dentro do outro. Subitamente não vejo mais nada. E depois o processo se repete, muitas e muitas vezes enquanto me sinto arrastado. Ainda há chuva, gotas salpicam como agulhas na pele. E não consigo mexer nenhuma parte do meu corpo. Sinto novamente algo em meus lábios e volto a ser arrastado…

Manoel

Desperto, meus sapatos continuam com a mistura de lama e sangue da poça. Chove sangue. Estou no chão coberto de poeira, sento. A visão ainda turva, mas não vejo mais círculos. Repassei atordoado os momentos anteriores. Ergui os dez dedos para contar. Oito…

O lugar em que estou não possui móveis, somente poeira, teias de arranha, uma escadaria logo à frente e uma menina abraçando os joelhos num canto.

Olha para mim e de sua garganta sai um grito que ecoa em todo o ambiente.

— Vá embora, antes que ela volte — sussurra.

— Ela quem?

— Não a deixe chegar aos 13. Se ela conseguir estará completo… você não terá um final agradável e não poderei mais ver a luz… — disse rápido demais, quase não entendi.

Os olhos verdes dela exibiam inchaço, provavelmente de tanto chorar.

— Já tentou fugir?

— Estou sentenciada… — A garota treme.

Levantou-se abruptamente, o barulho dos tênis vermelhos estrondaram cada vez menos nos degraus à medida que iam desaparecendo ao subir.

Resolvo segui-la, e logo a perco. Não tenho a visão de seus cabelos negros, não há mais o ruído de passos. Determinado a encontra-la, entro num quarto. Frascos cilíndricos com líquidos espessos e um livro estão expostos sobre a única mobília, uma mesa larga de metal.

O livro possui somente uma gravura na capa, vários círculos concêntricos da mesma forma da minha alucinação. Folheio as páginas encardidas, todas escritas a mão com variados símbolos perfeitamente desenhados. Um deles eu conhecia: o pentagrama.

— Não deveria mexer nisso! — A voz dela é pavorosa.

Fecho automaticamente o livro, olhos arregalam, o medo me soca mais uma vez.

O chiado da porta escancarada incomoda os ouvidos, faz meu corpo tremer. Abre por completo e vejo de novo aquele ser. Pescoço e pernas retorcidos, sangue nos braços. Todo o ser parecendo estar mergulhados em água, ondas negras flutuam pela pele, o cabelo longo parece estar úmido e boia, mas não parece água.

Estende sua mão, meu corpo se move contra minha vontade até a mão estendida cravar unhas pretas em meu pescoço. Puxa-me para o que parece ser seu rosto, meus lábios recebem um beijo, e depois outro e outro e mais outro.

Ela me solta e desabo, me debato, aperto a garganta que arde nos cinco cortes e o líquido vital banha as mãos, volto a respirar.

Rastejo, forço os membros magros e sigo engatinhando, alcanço a lateral do portal de madeira, pego impulso e levanto.

Cambaleio na descida das escadas e percorro o piso até encontrar a porta de entrada. A visão foi mais rápida e percebeu antes, mas o movimento é atrasado. Agarro a maçaneta, solto, já é tarde. Percevejos impregnam a mão, se alimentam da carne dos dedos, entram pelos ferimentos. Calosidades se mexem subindo pelo braço, os insetos continuam comendo por baixo da pele. Berro de dor. Lágrimas formam uma cachoeira.

Jogo o braço na parede tentando amassar os bichos, em alguns obtenho êxito, já outros alcançam o ombro.

Desisto da porta, vou vacilante pela casa estapeando os insetos dentro de mim. Encontro a cozinha, não perco tempo em observar algo, pego uma cadeira e arremesso na porta de madeira podre, abre um vão, acabo de retirar o suficiente para passar. Piso no amontoado de grama enorme. Dobro os joelhos e começo a saltitar com dificuldade.

As primeiras luzes do amanhecer me enchem de esperança dessa noite horrível terminar. Vou de pulo em pulo sem olhar para trás, os membros cansados do maltrato e esforço, a mente em choque.

Não sinto mais chão sobre os pés. Caio em um buraco. Primeiro veio o som da queda, depois a dor nas costas.

Olhos vermelhos encaram. São monstrinhos: pequenos, feios, enrugados, com orelhas pontudas, lembram a versão má dos Gremlins.

Os Gremlins sorriem e começam a me açoitar. Batem, chutam, dizem xingamentos incompreensíveis. Meu corpo empapa exteriormente do que é vindo do interior, cuspo sangue com um grande chute na barriga.

Ela aparece…

Jogado ao desprezo, vejo pela primeira vez o que calça e entendo tudo enfim. Os monstros encolhem e se afastam, mas o pior está por vir.

Inclina-se contra mim, e o molhado do beijo chega aos meus lábios, o estranho é que eu gosto. O décimo terceiro beijo é quente, doce, reconfortante. E quando acaba…

Um grito. Um suspiro. Escuridão permanente.

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